CURIOSIDADES & ANOMALIAS – 2

A grande tiragem d’O Mosquito — que nos anos 40, depois de passar a bissemanário, chegou a atingir 30.000 exemplares por número! — impunha a realização de turnos nas oficinas e a utilização de várias chapas de impressão, nas quais, por vezes, os erros (sempre inevitáveis) só eram detectados quando a máquina, a grande impressora Rolland de “offset”, já estava em pleno funcionamento, “carburando” a toda a velocidade (pois imprimia mais de 7.000 cópias por hora!). Eis a sua vetusta imagem, reproduzida do Jornal do Cuto nº 22, de 1 de Dezembro de 1971, com nota à margem de Roussado Pinto.

Máquina Rolland 262

Havia sempre, porém, a possibilidade de emendar esses erros, rasurando as próprias chapas, desde que não fosse demasiado tarde, isto é, antes da máquina acabar a sua tarefa. Alguns dos erros mais insólitos (e que ficaram para memória futura, pois parcialmente já não tinham remédio) dizem respeito à numeração e às datas de certas capas que ainda ostentam os elementos da edição anterior. Como por exemplo, a do nº 407, impressa em muitos exemplares (talvez mais de metade da tiragem) com o nº 406 e com a data respectiva, embora os temas das duas capas sejam muito diferentes.

Verificado o erro por algum impressor mais atento, ou pelo próprio Tiotónio (António Cardoso Lopes), que era quem geralmente manuseava a preparação das chapas, foi ainda possível corrigi-lo num bom número de exemplares, pois já apareceram revistas com a sequência devidamente alterada. E uma delas, reproduzida a seguir neste post, ao lado da sua congénere, faz parte afortunadamente da minha colecção.

Mosquito 406 B e 407

Claro que para os editores d’O Mosquito seria um grande prejuízo se tivessem de destruir todos os exemplares mal numerados. Por isso, acabavam sempre por distribui-los mesmo com essa anomalia, em que muitos leitores, garotos ainda da escola primária, nem sequer reparavam. Aliás, nesses tempos, quantos é que já possuíam o vício de coleccionadores?

O Mosquito era lido num ápice e passava de mão em mão, entre miúdos do mesmo bairro e colegas da mesma escola, indo parar, depois de manuseado por muitos e entusiásticos admiradores do Capitão Meia-Noite, do Cuto e do Serafim e Malacueco, às prateleiras de alguma estante ou a uma caixa guardada num sótão onde o pó e as teias de aranha não tardariam a cobri-la. E na pior das hipóteses ficaria esquecido no chão, arrastado pelo vento e pisado por quem passava. Ou seria vendido ao desbarato, como outros papéis velhos, condenado, depois de tantas aventuras e glórias, ao tristonho destino de embrulhar castanhas assadas (“quentes e boas”), quando chegasse o Inverno!…

Mosquito 406 259Mas como a tiragem era grande, quase desco- munal para um jornal infantil, foram muitos também os exemplares que se salvaram. Mesmo aqueles em que há duas capas diferentes com números e datas iguais (para estabelecer a confusão entre os coleccionadores mal informa- dos). No caso que hoje trazemos à tona a capa do 407 era, como habitualmente, de E. T. Coelho, ilustrando uma cena da novela “Sunyana, o Rebelde”, escrita por Robert Bess (aliás, Roberto Ferreira, novelista que também usava o anagrama de Rofer); mas a do 406, também de E.T. Coelho, dizia respeito ao famoso Capitão Meia-Noite, herói de uma magnífica série desenhada pelo veterano mestre inglês Walter Booth, cuja segunda parte se estreara pouco antes, no nº 403 da revista.

Durante a sua existência, O Mosquito foi vítima de outras anomalias deste género, embora não seja fácil descobrir todos os números em que aconteceram repetições semelhantes (ou se chegaram a ser emendados). Pela nossa parte, a pesquisa continua…

REPORTAGEM DA ASSEMBLEIA GERAL E DAS NOVAS EXPOSIÇÕES DO CPBD – 1

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No passado sábado, dia 16 de Abril, pelas 16h00, na sede do Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), sita na Avenida do Brasil 52A, Reboleira (Amadora), reuniu-se a sua Assembleia Geral, depois de convocatória enviada a todos os associados, a fim de tomar várias deliberações urgentes no âmbito dos processos de obtenção de apoio em curso, junto da Câmara Municipal da Amadora (ratificação das contas de 2013 e 2014, orçamento e plano de actividades de 2016).

Foram também votadas as contas de 2015 e prestada informação sobre a recente actividade do Clube, projectos futuros e outras questões de interesse geral. Todas as deliberações seriam aprovadas por unanimidade, com acta assinada pelos presentes.

Durante a sessão, foi distribuído aos sócios o nº 142 (Abril 2016) do Boletim do CPBD, dedicado à primeira de duas exposições marcantes, inauguradas na sua sede em Janeiro último: Os 80 anos d’O MosquitoTributo a Eduardo Teixeira Coelho. Do sumário deste número consta também um artigo de Carlos Bandeira Pinheiro e Jorge Magalhães, com uma completa quadriculografia (em publicações portuguesas) de E.T. Coelho, o “poeta da linha”, cujas ilustrações se destacam na capa e na contracapa do Boletim.

boletim-142 CAPA E CONTRACAPA

Divulgamos seguidamente algumas imagens desta Assembleia Geral, captadas por Dâmaso Afonso, presidente da respectiva Mesa (que só por causa disso não aparece nas fotos). Aqui ficam, mais uma vez, os agradecimentos que lhe são devidos pela valiosa colaboração que tem prestado, desde o início, aos nossos blogues.

Entre os sócios presentes, reconhecem-se, nas primeiras filas, António Martinó (outro eficiente repórter, sempre de câmara em punho), José Ruy e Geraldes Lino; e nas últimas, Pedro Bouça, António Amaral, Paulo Duarte (coordenador do Boletim do CPBD), Luís Valadas, Catherine Labey, José Vilela, Carlos Gonçalves e um sujeito de barbas grisalhas que eu vejo todos os dias no espelho…

A Mesa da Assembleia, composta por três elementos, foi ocupada (nas fotos) por Pedro Mota (presidente da Direcção) e Carlos Moreno (secretário da Assembleia Geral). Pedimos desculpa aos sócios não identificados. Fica para a próxima… 

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Quem reparar, ou fizer comentários acerca de tantas cabeças grisalhas, deve lembrar-se de que o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) festeja em 2016 quarenta anos de existência… e alguns dos sócios presentes já o acompanham desde a primeira hora! Honra lhes seja feita, pois, sobretudo aos que, como Carlos Gonçalves e Geraldes Lino, continuam abnegadamente a exercer funções directivas.

Posto isto, queremos também referir as duas exposições, recentemente montadas, que se encontram numa das salas do piso inferior da nova sede e que versam o tema Eça de Queirós e Alexandre Herculano na Banda Desenhada, numa parceria do CPBD com o GICAV (Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu). Aqui fica esta breve menção e o anúncio, dado o interesse que elas nos suscitam, de uma reportagem alusiva (neste e noutros blogues da nossa Loja de Papel), em próxima oportunidade.

Nota: Há algumas horas, recebemos também uma remessa de fotos enviadas pelo segundo “repórter de serviço” na Assembleia Geral do CPBD, o nosso bom amigo e colega da blogosfera, Professor António Martinó (autor do blogue Largo dos Correios), a quem agradecemos a generosa partilha e a colaboração sempre expedita, reservando para um próximo post a publicação das suas imagens.

EM MEMÓRIA DE VÍTOR PÉON – O MAIOR CRIADOR DE “WESTERNS” DA BD PORTUGUESA

Mosquito 396Se tivéssemos de designar uma data “oficial” para o nascimento do western na BD portuguesa, não hesitaríamos em escolher a de 10 de Abril de 1943, pois foi nesse dia (um sábado) que se estreou uma empolgante aventura de cowboys n’O Mosquito nº 396, a primeira em estilo realista de um desenhador português, que assinava apenas Péon no cabeçalho da história. Identi- dade que, pela ausência de contactos, nessa época, com os leitores, passou quase desper- cebida, embora o dinamismo dos desenhos e a emoção contida em cada cena, num suspense sempre crescente, à maneira das melhores histórias inglesas, tivesse contagiado a rapaziada que lia com verdadeira paixão O Mosquito, pequeno mas atraente jornal juvenil que se publicava duas vezes por semana.

“Falsa Acusação” era o título dessa movimentada aventura do Far West e Vítor Péon Mourão o nome do jovem artista que a desenhava, autor também do argumento, embora o texto, que aparecia em legendas didascálicas, no rodapé das vinhetas, fosse escrito por Raul Correia, um dos directores e fundadores d’O Mosquito e narrador de larga veia, afeito a todos os géneros de aventuras que faziam as delícias dos seus jovens leitores.

Falsa Acusação a 10Antes de Péon se lançar na trilha do western, com a história que assinalou também a sua estreia como autor de BD, este género, em estilo “sério”, era apanágio apenas de alguns desenha- dores estrangeiros e de um excelente artista português, também ainda muito jovem, que dava pelo nome de Eduardo Teixeira Coelho (ou E.T. Coelho), mas se limitava a ilustrar as novelas de aventuras publicadas n’O Mosquito, como foi o caso de “Leis do Oeste”, um conto de Lúcio Cardador que serviu de tema à capa do nº 396.

Genuínas histórias de cowboys aos quadradinhos não eram presença rara nas páginas das revistas portuguesas, com primazia para O Mosquito, desta- cando-se entre todas elas uma notável criação de Reg Perrott, o mais talentoso desenhador inglês dessa época, intitu- lada “A Flecha de Oiro” (no original, The Golden Arrow). Perrot foi sem dúvida o artista que mais influenciou Vítor Péon no início da sua carreira e “Falsa Acusação” é a melhor prova disso, com um estilo que procurava imitar não só o dinamismo de linhas de Perrott como o realismo cinematográfico com que ele retratava os cenários e as personagens.

A tal ponto Péon admirava o trabalho do mestre inglês que, anos mais tarde, realizou para a revista Valente, editada por Roussado Pinto, uma versão de “A Flecha de Oiro” em tudo fiel ao original, ainda que num estilo já sensível a outras influências. Infelizmente essa versão ficaria incompleta, porque o Valente não resistiu por muito tempo à concorrência.

A Flecha de Oiro - MosquitoA par do seu inato dinamismo, Péon revelou-se um exímio desenhador de cavalos e de figuras femininas, elementos fundamentais de um western, sem os quais qualquer história de cowboys parece perder todo o interesse. Ao longo da sua carreira, o futuro criador de Tomahawk Tom, o mais icónico aventureiro do Oeste que já existiu na BD portuguesa, digno rival de outros grandes cowboys do seu tempo, como Cisco Kid, Roy Rogers e Hopalong Cassidy, nunca olvidou por muito tempo o género que cultivava com tanto entusiasmo.

Tomawak Tom logotipoE foi mesmo ao western que dedicou uma última homenagem quando, atingido por grave doença e impossibilitado de continuar a desenhar histórias aos quadradinhos, mostrou ainda uma centelha do seu talento pintando telas admiráveis, de cores quentes e pince- ladas impressionistas, cujos temas eram as vastas pradarias, os destemidos cavaleiros e os fogosos mustangs que tinham inflamado a sua imaginação, ao enveredar muito jovem por uma carreira em que somou os maiores êxitos e granjeou uma vasta legião de admiradores, tanto em Portugal como noutros países.

Recordando uma data histórica da BD portuguesa — que certamente muitos fãs do western celebrarão também com agrado, pois simboliza a transição de um estilo infantil e paródico, ainda vigente nas histórias de muitos autores nacionais, em plenos anos 30, para um género inteiramente realista que recria a verdadeira essência das histórias de cowboys —, a nossa Loja de Papel criou um novo blogue, com o nome de Era uma vez o Oeste, dedicado à memória de Vítor Péon e à heróica epopeia do Oeste americano, que ele, com o seu talento artístico e o vigor do seu estilo e da sua imaginação, ajudou também a enraizar no culto de várias gerações de jovens leitores, elevando-a a um patamar raramente ultrapassado por outros artífices da Banda Desenhada de cariz popular.

Nota: podem ver os primeiros posts deste nosso “irmão” mais novo através do link https://eraumavezooeste.wordpress.com

HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 7

Avô Raul capa

VII

Assim se passaram os quase três anos seguintes, sem mais sobressaltos, até uma manhã de sábado, dia 1 de Maio de 1984. A minha mãe estava, na altura, a fazer uma tradução para um cliente francês, juntamente com a irmã “Bijéu”, na casa dos seus sogros, que, por sinal, viviam também na Rua Carlos Mardel. Quando chegámos ao portão, a minha tia, de expressão acabrunhada, caminhou na nossa direcção… e percebi que alguma coisa se passava. Disse-nos que a avó Teresa tinha morrido de manhã, na cama. Uma veia no seu cérebro rebentara. Ainda foi levada de ambulância para o hospital, já sem vida, com o meu avô ao seu lado. Tinha morrido rapidamente, sem sofrimento.  

Fomos para casa da minha tia Adelaide e lembro-me – como num sonho – de atravessar o corredor em direcção ao seu quarto e parar à porta… O meu avô estava sentado na cama, de cabeça baixa; sentiu-me entrar e olhou para mim… Nunca tinha visto tanta tristeza na expressão de alguém. Não fui capaz de lhe dizer nada e voltei para trás… De repente, “acordei”. A minha avó tinha morrido. A primeira cara que vi foi a da minha prima “Bibi”, que chorava no corredor e, apesar da sua própria tristeza, por saber o quanto eu era ligado à nossa avó, me disse “não chores”.

A avó que eu pensava viver para sempre, que me adormecia com histórias, me ia levar e buscar à escola e me concedia todos os pedidos, já não estava por ali. E se eu me sentia assim, como se sentiria o meu avô…

Nesse dia, tudo mudou. Para mim, foi o fim da primeira “parte” da minha vida. Para o meu avô, foi tão só o começo do fim. Rasgou o seu bilhete de identidade e disse que Deus o tinha traído. Não é preciso dizer mais nada.

Dois meses antes de ter morrido – como se já soubesse –, a minha avó tinha escrito uma carta de despedida, que entregou à minha tia, pedindo-lhe que o meu avô nunca a lesse. Nessa carta, pedia-lhe também que “olhasse por mim”.

Fotos 4

A vida continuou, menos bem.

A primeira vez que o meu avô foi sozinho receber a pensão ao Banco, o empregado, ao vê-lo entrar sem a minha avó e depois de saber o que tinha acontecido, disse-lhe que sempre o impressionara o amor e a amizade que transpareciam entre os dois. Estou a falar de uma pessoa que os via uma vez por mês, durante uns minutos…

Lembro-me do lugar vazio à mesa e do olhar vago do meu avô. Por vezes, durante o almoço, olhava para a cadeira desocupada e chorava.

Apesar de tudo, por saber o quanto a minha avó gostava de mim, o meu avô transferiu para si a “tarefa” de olhar por mim. Uma vez, a minha mãe foi sair e eu fiquei à espera dela em casa da minha tia; quando voltou para me vir buscar, tinha o meu avô à sua espera, muito zangado, porque já era muito tarde e eu tinha de descansar! Era meia-noite e eu tinha 16 anos, mas para ele, eram cinco da manhã e eu tinha 6 anos.

Em certos momentos, poucos, parecia-me que queria ultrapassar a avassaladora realidade, mas a tristeza era esmagadora, demasiado pesada para ele. Começou lentamente a ficar curvado e ficava longos momentos em silêncio, como se já não estivesse ali. De certa forma, já não estava. Dez meses depois, com a alma completamente sangrada, desistiu de viver. No dia 13 de Março de 1985, deitou-se na cama e ali ficou três dias sem comer e beber, aguardando o momento que sabia estar a chegar. No dia 15, deixou o mundo dos vivos e reuniu-se para sempre com a sua Maria Teresa.

Obrigado a ambos por tudo o que me deram, até sempre! Gosto de pensar, que de alguma forma, continuam a olhar por mim…

Alexandre Correia Gonçalves  

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Nota: Termina assim a publicação de uma série de artigos, recheados de curiosos factos da vida familiar de Raul Correia (o inesquecível Avozinho), em homenagem à sua memória (por tudo o que legou aos seus leitores, particularmente aos d’O Mosquito), à sua personalidade de homem de letras e de cultura e à sua obra vasta e multifacetada.

Renovamos os nossos agradecimentos ao seu neto Alexandre Correia Gonçalves por nos ter generosamente facultado este precioso testemunho biográfico, com várias fotos e documentos inéditos, cuja publicação muito honra e prestigia O Voo d’O Mosquito.

 

CANTINHO DE UM POETA – 20

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Saudando o regresso da Primavera — embora ainda incerto e hesitante como os primeiros passos de uma criança, nestes dias ventosos de Abril que alternam a chuva e o bom tempo —, eis mais um poema de Raul Correia, publicado no Jornal do Cuto nº 10, de 8/9/1971, com a harmoniosa lira que distinguia a maioria das obras do Avozinho, tão apreciadas pelos leitores d’O Mosquito.

Complemento indispensável desses versos de métrica perfeita, as ilustrações igualmente apelativas de José Baptista (Jobat) procuravam conciliar uma visão romântica e nostálgica do passado, subjacente ao título da rubrica “Cantinho de um Velho” — possivelmente concebido por Roussado Pinto, director do Jornal do Cuto —, com o naturalismo de uma escola que se projectava no futuro.

Foram essas memórias de infância que despertaram emoções recônditas no espírito dos antigos leitores do Avozinho, muitos dos quais se reviam no Jornal do Cuto, recheado de personagens com nomes como os de Cuto, Falcão Negro, Capitão Meia-Noite e Serafim e Malacueco, como se ele fosse uma nova imagem d’O Mosquito.