O REGRESSO DE TOMMY – 9

Seguro da sua impunidade, Hércules, o chefe do bando de chantagistas, continua a extorquir dinheiro a Mr. Bingham, sob a ameaça de lhe causar grandes prejuízos, pois os seus homens estão infiltrados entre os trabalhadores do circo. Mal sabe ele que Tommy e os seus amigos não dormem… e que o audacioso rapaz já tem um plano para libertar “Molho de Carne” e, ao mesmo tempo, pôr todo o bando fora de acção, com o auxílio da polícia.

Leiam o último episódio deste caso que agitou a supersticiosa gente do circo, convencida de que os acidentes provocados pelo bando, para causar alarme entre a pequena comunidade, eram efeito de bruxedo… um flagelo cujas consequências imprevisíveis podiam pôr em perigo a própria existência do circo. Até Mr. Bingham chegou a acreditar nisso! Mas Tommy não era tão ingénuo nem tão supersticioso como os seus colegas (incluindo “Molho de Carne” e Sue), e não tardou a descobrir o fio da meada.

As tiras seguintes, com data de 5 a 24 de Janeiro de 1948, foram publicadas n’O Mosquito nºs 962/965 e 967 (no nº 966, Tommy fez “gazeta”). E vem aí nova aventura…

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JOSÉ GARCÊS: AS PRIMEIRAS ETAPAS (1946/1950) – 1

O Mosquito foi, sem dúvida, um verdadeiro banco de ensaio para os principais desenhadores portugueses da década de 1940: Vítor Péon, E.T. Coelho, Jayme Cortez, José Garcês, José Ruy. Só por lá não passaram Fernando Bento, Júlio Gil e António Barata.

Nem sequer havia uniformidade de estilos na revista dirigida artisticamente por António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio). O que havia era juventude, entusiasmo, arrojo, fantasia, inovação, mesmo quando algumas influências saltavam à vista. Diz-se que E.T. Coelho, considerado o mais talentoso desse grupo de novos ilustradores, criou uma “escola”, influenciando quase todos os artistas de Banda Desenhada da sua geração. Curiosamente, é fora d’O Mosquito (com excepção de José Ruy) que vamos encontrar, mais tarde, os seus “discípulos”. Mesmo quando Péon era acusado, por alguns sectores, de copiar Coelho, já se descobria nas suas histórias aos quadradinhos o gérmen de um estilo pessoal, que acabaria por evoluir noutra direcção. Péon nunca se limitou a ser um ilustrador; Coelho, por vezes, ressentia-se disso. Os leitores chegaram, em certa altura, a preferir o primeiro ao segundo, e lá sabiam porquê.

Vem todo este arrazoado a propósito de um jovem desenhador — tinha, então, 18 anos — que se estreou n’O Mosquito nº 762, de 12 de Outubro de 1946, com uma HQ que já denotava as suas reais capacidades. Era um estilo novo, diferente de tudo o que já se tinha visto no jornal, embora quem examinasse atentamente os desenhos se aperce- besse da influência, mais subtil do que profunda, do mestre norte-americano Burne Hogarth, o mais famoso desenhador de Tarzan. Essa história intitulava-se “O Inferno Verde” e o seu autor era J. Garcês — assinatura num canto do último quadradinho, que iria tornar-se rapidamente conhecida.

O estilo era correcto e meticuloso, e assim permaneceria até hoje (exceptuando alguns trabalhos realizados em épocas mais conturbadas, quando as preocupações familiares e a falta de tempo, pois era desenhador-litógrafo do Serviço Nacional de Meteorologia, pesavam sobre o artista). À harmonia de linhas e de formas opunha-se um certo estatismo da expressão corporal, compensado pela perfeição dos enquadramentos e dos cenários, embora já se manifestasse a tendência para o plano geral. Há a registar, também, o bom emprego das sombras e do tracejado, importante meio estético que Garcês já demons- trava dominar com segurança.

Depois dessa promissora estreia, apare- ceram n’O Mosquito, durante os dois anos seguintes, mais três histórias com a sua assinatura: “O Império Enlutado” (2ª vinheta), “O Segredo das Águas do Rio” e “A Maldição Branca”. Os progressos foram árduos e lentos, mas era notória a aptidão narrativa e o à vontade com que o novel artista retratava personagens e ambientes exóticos — sem excluir o cenário, tão popular entre a juventude, do turbulento Oeste americano.

Na última etapa, o seu estilo já amadurecera o suficiente para figurar em primeiro plano num jornal que continuava a publicar duas das melhores histórias de E.T. Coelho, “O Caminho do Oriente” e “A Lei da Selva”, e onde se estreara pouco antes outra obra-prima, o Príncipe Valente, de Harold Foster (que se tornaria o seu desenhador favorito).

Os balões estavam ausentes, mas a maioria dos desenhadores portugueses dessa época ainda não se tinham afeiçoado à moderna linguagem dos comics americanos, apesar do exemplo dos artistas catalães que, a partir de meados dos anos 1940, revolucionaram O Mosquito: Jesús e Alejandro Blasco, Emilio Freixas, Puigmiquel, Carlos Roca, etc.

Cremos que a regra das legendas em didascálico, que duraram até ao último número, foi imposta por Raul Correia, director literário d’O Mosquito (embora Cardoso Lopes raspasse todos os diálogos das HQ inglesas, há balões em muitas das suas histórias), pois é um facto que Raul Correia sempre preferiu trabalhar com legendas, onde a sua veia de prosador e poeta podia espraiar-se à vontade. São dele, aliás, todos os textos das histórias publicadas n’O Mosquito, não só das que traduziu e adaptou (espanholas, francesas, inglesas e americanas), como dos originais portugueses de Coelho, Péon, Garcês, Cortez e, mais tarde, José Ruy e Monteiro Neves.

Aluno da Escola António Arroio e do Mestre Rodrigues Alves, que lhe incutiu uma sólida formação artística, Garcês revelou grande habilidade, desde o início da sua carreira, para a execução de presépios e construções de armar (esta última, uma modalidade que esteve muito em voga nas revistas infanto- -juvenis da primeira metade do século XX e que ele cultivou com grande sucesso).

Mais tarde, ao ingressar na revista feminina Modas e Bordados e nos semanários infantis Lusitas e Camarada, viria a especializar-se num tema a que poucos desenhadores podem habilitar-se sem estarem para tal devidamente preparados: a BD histórica. Escolha que, se por um lado contribuiu para a sua consagração oficial (como ele próprio admite), serviu também, durante algum tempo, para alimentar as críticas (preconceituosas e pouco fundamentadas) de muitos detractores desse género de narrativas.

Mas são as produções da sua juventude (como “Fathma”, “Rumo a Oriente”, “A Princesa e o Mágico”, “A Ave Encantada”, “As Três Princesas Cristãs”), fantásticas, alegóricas e barrocas, aliando a poesia do fundo à delicadeza da forma, que muitos dos seus leitores de antanho continuam a recordar — e talvez até a preferir.

A seguir: “O Inferno Verde”, história publicada nos nºs 762 a 769 d’O Mosquito.

A predilecção de J. Garcês,  no início da sua carreira, por temas fantásticos e ambientes feéricos está bem patente nesta história (Camarada, 1949)

CUTO, HERÓI DE UMA GERAÇÃO – 4

Depois da grande evolução patente em “O Mundo Perdido”, tanto ao nível dos desenhos como do argumento, o estilo de Jesús Blasco continuou sempre a aperfeiçoar-se, atingindo um dos seus pontos culminantes numa fantástica aventura (El Planeta Misterioso”), escrita por Huertas Ventosa, que fez também as delícias dos leitores d’O Mosquito, durante o ano de 1945, entre duas curtas aventuras de Cuto: Bandidos e Cavalos” e O Rapto de Juanita”.

Esse pleno domínio da forma, num alarde de virtuosismo gráfico que seria, desde então, a nota dominante dos trabalhos de Jesús Blasco em estilo realista, desenvolveu-se a par da sua maturidade como autor completo, dando origem a um novo e extraordinário ciclo na movimentada carreira de Cuto. Assim o demonstra a história seguinte, onde Blasco quis retratar a barbárie e a tirania em páginas de inaudita violência, numa clara alusão aos crimes do nazismo e do fascismo, desafiando abertamente a censura. Mas esta não pareceu ver, por detrás da acção empolgante e do cenário oriental, a analogia com a Espanha franquista e a mensagem sobre os malefícios da ditadura, destinada a alertar a consciência dos jovens que seguiam com emoção as peripécias de Cuto em “Tragedia en Oriente”, a mais dramática história aos quadradinhos publicada, nessa época, em Espanha e, pouco tempo depois, também n’O Mosquito.

Cuto, repórter fotográfico vivendo em São Francisco (EUA), tornou-se nessa aventura uma espécie de David que enfrentava, armado apenas com a sua coragem, um monstruoso Golias personificado pela sinistra fortaleza de Tok Saloung, onde imperava o cruel “Mago Branco”, figura maquiavélica que sonhava dominar o mundo, raptando para esse efeito os melhores aviadores e cientistas, quando a guerra ainda grassava na Europa e noutras paragens. Mas o “Mago Branco” foi vítima da sua própria ambição, abatido pelos esbirros do coronel Wei, numa luta secreta e implacável pelo poder que fez também numerosas vítimas entre os prisioneiros da fortaleza. E Cuto jurou vingar-se e acabar com o domínio do novo tirano, depois de ver os seus amigos tibetanos (habitantes da mesma região onde se situava a fortaleza) serem cobardemente atacados pelos sicários do usurpador, que não hesitava em empregar as armas mais destruidoras, construídas pelo “Mago Branco”, para alcançar os seus fins: tornar-se também dono do mundo.

Durante grande parte do ano de 1946 — no novo formato d’O Mosquito, que voltara a crescer, embora diminuindo o número de páginas —, Tragédia no Oriente” foi a aventura que mais prendeu a atenção dos leitores, impressionados pelo horror das peripécias, mas também pela coragem de Cuto, símbolo do herói comum capaz de transformar a sua fragilidade juvenil numa desmedida força que acabaria por triunfar sobre o mal e sobre os carrascos da hedionda seita de Tok Saloung.

Apresentamos seguidamente mais duas páginas do jornal O Louletano — onde se inseriu a magnífica rubrica 9ª Arte, coordenada pelo nosso saudoso amigo José Baptista (Jobat), falecido em Março de 2013 —, com a continuação do artigo de Jorge Magalhães e as primeiras páginas de outra aventura de Cuto, “O Lago da Morte”, oriunda do Almanaque Chicos (1947) e publicada anteriormente no nosso país em três revistas cujo nome ainda perdura, saídas do prelo de fecundas editoras: Mundo de Aventuras (APR, 1953), Colecção Jaguar (Portugal Press, 1972) e Almanaque O Mosquito (Futura, 1985).

TOM BROWNE E PERCY COCKING, REIS DO HUMOR NA BD BRITÂNICA DOS SÉCULOS XIX E XX – 1

Como anunciado há pouco tempo, aqui têm o artigo de Roussado Pinto dedicado a Tom Browne, artista inglês hoje quase esquecido que foi o criador da série Weary Willie and Tired Tim — celebrizada em Portugal, sobretudo entre os leitores d’O Mosquito, pelo carismático nome de Serafim e Malacueco com que a baptizou Raul Correia, tradutor e adaptador, no mais livre sentido do termo, das suas mirabolantes peripécias.

É óbvio que Roussado Pinto nutria também especial afeição por estes dois burlescos personagens, vagabundos sem eira nem beira que davam tratos à imaginação para viver à custa dos outros, pois ressuscitou-os no Jornal do Cuto, em episódios extraídos d’O Mosquito, e no Valente, uma das primeiras revistas que editou, ainda nos anos 1950, com páginas originais em que luzia o traço de Percy Cocking, um dos sucessores de Tom Browne. Cocking trabalhou na série (e na sombra) durante mais de 40 anos, dando-lhe um inconfundível cunho histriónico e elevando-a aos píncaros da fama. São da sua autoria todas as histórias apresentadas n’O Mosquito e na Colecção de Aventuras, até à década de 1950.

O artigo de Roussado Pinto, em que pela primeira vez os leitores portugueses viram em letras gordas o nome de Tom Browne (embora, por lapso, mal grafado no texto), foi publicado no Jornal do Cuto #18, de 3/11/1971, e é o primeiro que respigamos de uma rubrica recheada de interesse, onde Roussado Pinto publicou vários artigos sobre personagens e autores famosos da recém consagrada 9ª Arte, tanto portu- gueses (Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, Carlos Alberto Santos, António Cardoso Lopes, José Garcês, Stuart Carvalhais), como estrangeiros, a começar por Jesús Blasco. Foi também Roussado Pinto, com a sua insaciável curiosidade, o primeiro, como já referimos, a levantar o véu (no nosso país) sobre o criador da mais popular série humorística inglesa da primeira metade do século XX — que surgiu no Mosquito #209 (Janeiro de 1940) e noutros números, transitando depois, com retumbante êxito, para a Colecção de Aventuras, lançada nesse mesmo ano pelas Edições O Mosquito, onde permaneceu até ao final da primeira fase (de figurino idêntico ao d’O Mosquito), muitas vezes com honras de capa. Mas o seu regresso à origem não se fez esperar, pois já se tornara a predilecta da juventude portuguesa e até do seu tradutor.

Brevemente apresentaremos outro artigo sobre esta emblemática série inglesa, publicado no Mundo de Aventuras, em 1979, com a assinatura de Leonardo (Leonardo De Sá), então um jovem e promissor articulista cujos conhecimentos sobre os obscuros primórdios da narração figurativa já chamavam a atenção de muitos bedéfilos.

O REGRESSO DE TOMMY – 8

Como vimos no episódio anterior, Tommy e os seus amigos Sue e “Molho de Carne” conseguiram descobrir o antro dos bandidos que têm o circo sob ameaça, extorquindo dinheiro todas as semanas a Mr. Bingham. Mas o pequeno grupo de “detectives” — a que se juntou Bal, o equilibrista — foi avistado pela quadrilha quando batia em retirada e, na corajosa tentativa de proteger a fuga dos companheiros, “Molho de Carne” acabou por cair nas mãos de Hércules. Este tem agora mais um trunfo para continuar o seu plano de extorsão, sem receio da polícia…

Leiam mais um episódio desta célebre série ilustrada por John Lehti, cujas tiras diárias, correspondentes às datas de 19/12/1947 a 3/1/1948, foram publicadas n’O Mosquito nºs 958 a 961, de 28 de Agosto a 8 de Setembro de 1948.

Nesta fase do popular bissemanário, alternando séries inglesas, americanas e espanholas com um novo trabalho de E.T. Coelho (Lobo Cinzento), a harmonia estética era prejudicada pela caligrafia irregular das legendas inseridas nos balões, defeito que se notava sempre que Tiotónio decidia encarregar um dos seus ajudantes dessa tarefa. Só quando O Mosquito mudou de oficinas (por razões que não vêm agora ao caso), as legendas de Tommy, o Rapaz do Circo e de outras histórias deixaram de ser feitas manualmente.

SERAFIM & MALACUECO – A MAIS FAMOSA SÉRIE CÓMICA PUBLICADA N’O MOSQUITO

Texto de Luiz Beira, publicado originalmente no blogue BDBD, de onde o reproduzimos com a amável autorização deste nosso colega e amigo. 

A primeira prancha de “Weary Willie and Tired Tim”, publicada na revista “Ilustrated Chips” #298 (16.05.1896)

Esta dupla popular e irresistível viu a luz do dia a 16 de Maio de 1896, na publicação inglesa “Illustrated Chips”. Seu autor: Tom Browne (1870-1910). Na sua versão original, chamavam-se Weary Willie (o esticadinho Serafim) e Tired Tim (o gorducho Malacueco). As suas astutas e/ou aparatosas aventuras foram sempre publicadas com honra de primeira página, pormenor que aconteceu também quando publicadas em Portugal, pela primeira vez, na revista “O Mosquito” #209, de 11 de Janeiro de 1940.

No nosso país, “Serafim e Malaqueco” foram também publicados na “Colecção de Aventuras” (1940/42) [de onde respigaremos brevemente alguns episódios]; em vários números de “O Mosquito”, regressando, após longa ausência, na sua última etapa (1952/53); na revista “Valente” (meados dos anos 50); e nos anos setenta [sob a curiosa epígrafe “TV Serafim & Malacueco Show”] no “Jornal do Cuto” (que recuperou histórias anteriormente publicadas n’ “O Mosquito”).

A série, que divertia uma multidão de bedéfilos em vários países, terminou a 12 de Setembro de 1953. Tom Browne desenhou-a de 1896 a 1900, sendo prosseguida por Arthur Jenner e depois por Percy Cocking. Por volta de 1903, a série conheceu algumas adaptações ao Cinema, em curtas metragens, com realização de William Haggar, que usou dois dos seus filhos como protagonistas: James Haggar (Tired Tim) e Walter Haggar (Weary Willie).

Esta dupla é a de dois vagabundos que tudo fazem para viver bem, graças à sua esperteza… nem sempre triunfante. De certo modo, foram inspirados em Don QuixoteSancho Panza. Mesmo assim, estes dois “heróis” inspiraram muitas parcerias semelhantes, tanto na BD como no Cinema, como foi o caso de Oliver Hardy (Bucha) e Stan Laurel (Estica). Ainda hoje, com carinho e nostalgia, se relêem com muito agrado as suas tão divertidas tropelias.

“Weary Willie and Tired Tim”, in “Ilustrated Chips” #2813 (05.07.1947)

“Serafim e Malacueco”, in “O Mosquito” #1125 (Abril 1950)

“Serafim e Malacueco”, in “O Mosquito” #1149 (Junho 1950)

“Serafim e Malacueco”, in “O Mosquito” #1150 (Julho 1950)

A popularidade destes personagens no nosso país acabou por torná-los alvo de alguns pastiches por parte de consagrados autores portugueses, que, dessa forma, homenagearam as suas divertidas aventuras. Tais foram os casos de José Abrantes e Jorge Magalhães, que publicaram no “Almanaque O Mosquito”, em 1987, uma aventura em quatro pranchas (que foi, vinte anos mais tarde, reeditada no #7 dos “Cadernos Moura BD”)…
“O Regresso de Serafim e Malacueco”, por Jorge Magalhães (texto)
e José Abrantes (desenhos), in “Almanaque O Mosquito” (1987)
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… e de Eugénio Silva que realizou em 2015, para o fanzine de Geraldes Lino “Efeméride” #6 (parte 3 de 4), uma divertida prancha humorística (algo pouco usual neste autor).
(Nota: foram acrescentadas duas imagens a este post. Em breve publicaremos um artigo de Roussado Pinto dedicado, também, à impagável criação de Tom Browne)
 

OS CONCORRENTES D’O MOSQUITO: UM “MUNDO” RECHEADO DE AVENTURAS

Celebra-se hoje, 18 de Agosto, uma das datas mais importantes da BD portuguesa, o nascimento há 68 anos d’O Mundo de Aventuras — “a primeira e única revista juvenil portuguesa em moldes essencialmente americanos, com as mais modernas e trepidantes aventuras, de palpitante interesse e dinamismo, escritas e desenhadas pelos nomes mais famosos da literatura [sic] do género, no novo continente” (como se podia ler na capa do seu nº 5, datado de 15 de Setembro de 1949). Curiosamente, o termo literatura era, nessa época, aplicado também às histórias aos quadradinhos.

O Mundo de Aventuras foi (e continuará a ser) uma das mais famosas publicações da nossa imprensa juvenil, que teve de competir com dois concor- rentes de peso, o Diabrete e O Mosquito, na altura do seu lançamento, e mais tarde com o Cavaleiro Andante, acabando por dominar o mercado, nos anos 1950/60, graças à pujança editorial da empresa a que pertencia, a Agência Portuguesa de Revistas. No início da década seguinte, pouco tempo antes da Revolução de Abril, passou por novas transformações, voltando ao nº 1 para encetar uma 2ª série (erradamente designada, à partida, como 5ª série), que durou até ao estertor desse grande império editorial, em finais dos anos 1980.

Sorteou valiosos brin- des, publicou separatas com ídolos do desporto e da canção (e até Presidentes da República), e pelos seus diversos figurinos (incluindo uma edição especial com 32 números, dois almanaques e um número extra dedicado à figura épica de Camões) desfilaram, semanalmente, os mais célebres heróis de linhagem norte-americana, oriun- dos das tiras diárias publicadas nos jornais — que se moldaram ao formato revista e se enraizaram também no imaginário dos jovens lusitanos, destronando os seus mais directos concorrentes europeus (como Cuto Tintin, que eram as mais-valias d’O Mosquito e do Diabrete).

Seguidamente, para fazer face à concorrência do Cavaleiro Andante, surgiram muitas outras personagens, criadas por autores de várias procedências, italianos, franceses, ingleses, holandeses, espanhóis, mas sobretudo franco-belgas, na última série (talvez a mais ecléctica). E o próprio Cuto ressurgiu em novos episódios, a partir de 1953.

Mas o maior património do Mundo de Aventuras são alguns dos nomes mais ilustres da BD portuguesa, como José de Oliveira Cosme, Roussado Pinto, Vítor Péon, Carlos Alberto, José Antunes, José Manuel Soares, José Baptista, Vítor Mesquita, António Barata, Orlando Marques, Raul Correia, Lúcio Cardador, E. T. Coelho, José Garcês, José Ruy, Fernando Bento, Catherine Labey, Baptista Mendes, Augusto Trigo, José Pires e outros. Na 2ª série, o MA abriu também as suas páginas, com a rubrica “Novos da BD Portuguesa”, a muitos autores jovens, alguns dos quais viriam a ter notoriedade artística, como Luís Louro, Tozé Simões, Fernando Jorge Costa, José Projecto e Luís Nunes

Depois de passar a sair quinzenalmente, na última e atribulada etapa da sua existência — de que fui testemunha “privilegiada”, no pior sentido do termo, como coordenador —, o fim chegou em 15 de Janeiro de 1987, com o nº 589 (aliás, 1841, no somatório das duas séries), preenchido por uma história policial de origem inglesa, em vários episódios, ilustrada por Vítor Péon — um dos mais carismáticos colaboradores do MA na sua 1ª série, criador (juntamente com Roussado Pinto) do famoso cowboy, com um nome índio, Tomahawk Tom —, o que parece um final quase simbólico!

30 anos depois, o título e a assombrosa carreira do Mundo de Aventuras (quase quatro décadas de publicação!) merecem ainda ser recordados pela sua imensa legião de leitores e pelos bedéfilos das novas gerações.