“TERRY E OS PIRATAS” – 7º VOLUME (JULHO 2017)

Entre as muito boas edições de BD que continuam a aparecer nas bancas, este mês de Julho ficou também assinalado, na área dos fanzines (edições mais modestas e de pequena tiragem, mas igualmente dignas de louvor), pela saída de mais um número do FandClassics dedicado à série Terry e os Piratas, a famosa criação de Milton Caniff, praticamente inédita em Portugal — a não ser a sua sequela, pelo traço de George Wunder, estreada n’O Mosquito, em 1952, e publicada também posteriormente no Titã e no Mundo de Aventuras.

Como já referimos diversas vezes, o esforçado faneditor José Pires está apostado em apresentar esta série na íntegra, escalonada por 25 volumes, com mais de 70 páginas cada. Uma tarefa quase homérica, mas de que o nosso bom amigo e camarada (experimentado nestas lides) se tem saído a contento, com infalível regularidade, pois a colecção (de cadência mensal) já vai no 7º volume e o número de leitores não pára de aumentar.

Estes fanzines (de tiragem limitada) podem ser encomendados directamente a José Pires, bastando escrever para o e-mail gussy.pires@sapo.pt

Advertisements

A HISTÓRIA DE SILVES EM BD – POR JOSÉ GARCÊS

Muitas décadas depois da sua memorável estreia nas páginas d’O Mosquito (1946), José Garcês (que comemorou ontem, dia 23 de Julho, mais um aniversário natalício) continua a produzir histórias aos quadradinhos, como documentam dois trabalhos de notável erudição publicados em 2016, concretizando projectos antigos que o venerando mestre conseguiu ainda levar a cabo: uma minuciosa e apaixonante biografia de Santo António de Lisboa, publicada com a chancela da EuroPress (e que este ano, em Junho, voltou às bancas), e outra excelente monografia sobre um tema em que Garcês se tornou também um dos nossos maiores espe- cialistas: a história das cidades portuguesas. Depois de Porto, Guarda, Ourém, Oliveira do Hospital, Pinhel, Faro e Olhão, foi a vez de Silves, num álbum editado em Outubro de 2016 pela respectiva Câmara Municipal, mas cuja realização remonta a 2009/2010. O “compasso de espera” deveu-se como sempre ao excesso de burocracia, que domina ainda grandes áreas da administração pública.

Mas valeu a pena o esforço da edilidade para romper essas barreiras, pois o álbum (em edição brochada e cartonada) representa uma preciosa homenagem à antiquíssima urbe algarvia recheada de tradições, revelando inúmeros factos da sua história, com o rigor documental e artístico que é apanágio de Garcês e a harmonia e beleza gráfica que caracterizam, desde há muito, o seu estilo — bem patentes na maravilhosa recriação da célebre “Lenda das Amendoeiras em Flor”, com que encerra mais um álbum digno inegavelmente de figurar entre as suas melhores obras sobre esta temática.

CONVERSA(S) SOBRE BANDA DESENHADA (COM JORGE MAGALHÃES E CATHERINE LABEY) – 1

No passado dia 8 de Julho, como oportunamente informámos, teve lugar na Bedeteca José de Matos-Cruz (ala da Biblioteca Municipal de Cascais, em S. Domingos de Rana), a 3ª Conversa sobre BD moderada pelo próprio José de Matos-Cruz, especialista e crítico de cinema, com vasta obra publicada, historiador, coleccionador e divulgador pioneiro da Banda Desenhada em Portugal (Copra, Ploc!, Mundo de Aventuras, Boomovimento, etc).

Desta feita, os convidados foram o casal formado pelo escritor/argumentista Jorge Magalhães e pela desenhadora e artista plástica Catherine Labey, ambos profissionais de BD desde a década de 1970, nas mais diversas áreas, e que continuam a alimentar o seu gosto pela 9ª Arte, dedicando-se, na idade da reforma, à actividade de bloggers.

Perante um público assíduo — entre o qual tivemos a grata surpresa de ver, além de Mestre José Garcês e esposa, e do desenhador João Amaral e esposa, uma bela “embaixada” da família de Jorge Magalhães, com a filha Maria José Pereira (editora da Babel) e o genro, dois netos e duas bisnetas —, falaram ambos das suas carreiras (muitas vezes em comum), apoiados por uma apresentação em Powerpoint de obras que consideram as mais representativas dessa colaboração mútua ou com outros autores.

Na sua intervenção, Jorge Magalhães, autor multifacetado, dissertou também sobre o seu longo percurso nas revistas e editoras onde trabalhou, desde o Mundo de Aventuras (APR) às Selecções BD (Meribérica), passando por muitas outras, como Intrépido e TV Júnior (Campo Verde), Heróis da Marvel (Distri) e O Mosquito (Editorial Futura). Nesta editora, coordenou também a Antologia da BD Portuguesa e a Antologia da BD Clássica, duas colecções onde foram publicadas algumas obras-primas oriundas da 1ª série d’O Mosquito, como “O Caminho do Oriente”, de E.T. Coelho, e “Cuto – Tragédia no Oriente”, de Jesús Blasco.

Aqui fica, para memória fotográfica dessa sessão, uma breve reportagem que nos foi enviada por João Camacho, técnico superior da Câmara Municipal de Cascais, a quem publicamente agradecemos. Seguir-se-á, em próximos posts de O Voo d’O Mosquito, a apresentação das biografias destes autores e de uma galeria de imagens das suas obras, extraídas dos dois powerpoints, cujo arranjo gráfico esteve a cargo de Catherine Labey.

NO ANIVERSÁRIO DE ROUSSADO PINTO (14/7/1926)

Texto:  Jorge Magalhães

A capa com que abrimos este post é de um livro quase biográfico que Frank Gold, pseudónimo de Luís Campos (outro notável escritor policial português), dedicou a Roussado Pinto, metendo-se na pele de um dos seus mais célebres heterónimos, para o encarnar como “autor, personagem e mito”, e fingindo ser o herói da sua própria história.

Roussado Pinto nasceu em 14 de Julho de 1926. Se fosse ainda vivo, teria celebrado nesta data o seu 91º aniversário. Os homens passam e as obras ficam. Por isso, cabe-nos a nós, seus leitores, admiradores e amigos, evocar essa efeméride, honrando a sua memória e o seu nome, através de uma das realidades mais marcantes da sua existência: a obra incomensurável que nos legou, como escritor, jornalista e editor (dando primazia, nesta função, às revistas para os mais jovens e à banda desenhada).

Honrar o seu nome significa inevitavelmente recordar alguns dos pseudónimos que o celebrizaram, como os de Edgar Caygill e Ross Pynn. Usou-os em muitas obras, de maior ou menor importância e simbolismo na sua carreira, não porque quisesse passar, à força, por um escritor estrangeiro, mas porque sabia, com a sua profunda intuição literária, que esses nomes possuíam uma carga mítica que não se desvaneceria com o tempo, dando-lhe assim uma espécie de passaporte para a imortalidade.

Geralmente, na literatura policial (mas não só) os pseudónimos cristalizam-se como nomes reais, definitivos, fazendo esquecer os de baptismo. É assim também no cinema e noutras artes onde florescem a imaginação, o espírito, o onirismo e a fantasia. Actores e artistas perduram e mitificam-se na pele das personagens que criaram e dos nomes que adoptaram… às vezes, como no cinema, por imposição alheia.

Quanto a Roussado Pinto, sabemos que esse fenómeno de transfiguração não “matou” a identidade do criador — antes pelo contrário, tornou-a indissociável dos seus outros nomes, fundindo-os num mesmo corpus literário, que nenhum dos seus leitores desconhece. A fama e a forte personalidade do autor operaram automaticamente (e voluntariamente) essa simbiose. Mas nem todos os seus heterónimos tiveram vida longa…

Homenageamos hoje, a propósito do seu aniversário (como já fizemos noutras ocasiões), a memória deste lendário e infatigável novelista popular — autêntico trabalhador da “oficina do imaginário”, que dispersou humildemente a sua veia literária por uma enorme variedade de géneros —, dando a conhecer um artigo biográfico de Raul Ribeiro, extraído de uma publicação quase esquecida: o XYZ Magazine, edição do saudoso Sete de Espadas, outro grande nome da literatura policial, ou melhor, da “problemística policiária” portuguesa.

Apresentamos também algumas capas das inúmeras obras que Roussado Pinto escreveu com os seus dois pseudónimos mais famosos e com o seu próprio nome… por vezes, num registo neo-realista, bem diferente daquele a que nos habituou, como autor de romances e antologias policiais ou de novelas de aventuras. Sem esquecer que foi também argumentista de histórias aos quadradinhos e que criou e dirigiu alguns dos títulos mais emblemáticos da BD portuguesa, como O Pluto, Titã, Flecha, ValenteZakarellaGrilo e Jornal do Cuto.

No jornalismo, a sua coroa de glória foi, sem dúvida, o Jornal do Incrível, cujos destinos dirigiu com mão de mestre até ao dia em que o coração, mais uma vez, lhe falhou. E sem esperança de retorno… apesar de ter apenas 58 anos. Partiu o homem, mas ficou a lenda que há muito começara a tomar forma. E que ainda hoje povoa o imaginário dos que leram as obras de um tal Ross Pynn — personagem que, na realidade, nunca existiu!

JAYME CORTEZ E A EBAL

Em Novembro de 1986, o grande desenhista luso-brasileiro Jayme Cortez, nascido em Lisboa, em 1926, mas residindo, desde finais de 1947, no Brasil, foi homenageado no Festival Internacional de Lucca (Itália), onde recebeu o troféu Caran d’Ache pelos seus 50 anos de carreira nas áreas da Ilustração e da Banda Desenhada.

É óbvio que houve confusão nesta data, pois Jayme Cortez estreou-se oficialmente como desenhador aos 15 anos no Pim-Pam-Pum (suplemento do jornal O Século), começando pouco tempo depois a colaborar também n’O Mosquito (1944).

A propósito desse (suposto) aniversário e da ida de Jayme Cortez ao Festival de Lucca, a editora brasileira Ebal (onde contava também numerosos amigos) dedicou-lhe um artigo que apareceu nalgumas das suas revistas. Figura imensamente respeitada no seu meio profissional — como especialista de temas fantásticos e de terror, mestre de desenho  na Escola Panamericana de Arte, autor de filmes publicitários e de cartazes de cinema, director artístico de várias editoras (com destaque para a La Selva), e amigo de Maurício de Souza, Álvaro de Moya, Messias de Melo, Flávio Colin, Reinaldo de Oliveira e outras ilustres personalidades dos “quadrinhos” brasileiros —, Cortez já estivera várias vezes em Lucca, uma delas em 1975, para receber o prémio Yellow Kid (o mais importante do Festival) em nome de Adolfo Aizen, presidente e fundador da Ebal, a quem o foi entregar assim que regressou ao Brasil.

Por esse facto, ligando os dois eventos, o de 1975 e o de 1986, a editora brasileira prestou uma singela, mas fervorosa homenagem a Jayme Cortez, já noutra fase da sua vida e da sua carreira (e infelizmente também já perto do fim, pois faleceu, de doença repentina, em 5 de Julho de 1987), publicando o artigo que a seguir reproduzimos e cujo interesse documental e histórico é inútil sublinhar, pois bastam, como comprovativo, as fotos que o ilustram (e em que figura outro artista português radicado em terras brasileiras: Monteiro Filho).

CONVERSA(S) SOBRE BANDA DESENHADA

Sábado, 8 de Julho, às 16h00, na Bedeteca José de Matos-Cruz (Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana), mais uma sessão do ciclo Conversa(s) sobre Banda Desenhada, desta vez com Jorge Magalhães & Catherina Labey, autores que estiveram estreitamente ligados à 5ª série d’O Mosquito, da Editorial Futura (1983-1986).  

CANTINHO DE UM POETA – 36

Poeta popular, por excelência — embora vestindo n’O Mosquito as roupagens de um carismático trovador que usava o cognome de Avozinho —, Raul Correia participou (e foi premiado) em vários torneiros literários associados aos tradicionais festejos juninos em honra dos Santos Populares.

Eis um desses trabalhos poéticos, dado à estampa no Jornal do Cuto nº 53, de 5/7/1972, com a habitual ilustração de José Batista (Jobat).