HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 7

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VII

Assim se passaram os quase três anos seguintes, sem mais sobressaltos, até uma manhã de sábado, dia 1 de Maio de 1984. A minha mãe estava, na altura, a fazer uma tradução para um cliente francês, juntamente com a irmã “Bijéu”, na casa dos seus sogros, que, por sinal, viviam também na Rua Carlos Mardel. Quando chegámos ao portão, a minha tia, de expressão acabrunhada, caminhou na nossa direcção… e percebi que alguma coisa se passava. Disse-nos que a avó Teresa tinha morrido de manhã, na cama. Uma veia no seu cérebro rebentara. Ainda foi levada de ambulância para o hospital, já sem vida, com o meu avô ao seu lado. Tinha morrido rapidamente, sem sofrimento.  

Fomos para casa da minha tia Adelaide e lembro-me – como num sonho – de atravessar o corredor em direcção ao seu quarto e parar à porta… O meu avô estava sentado na cama, de cabeça baixa; sentiu-me entrar e olhou para mim… Nunca tinha visto tanta tristeza na expressão de alguém. Não fui capaz de lhe dizer nada e voltei para trás… De repente, “acordei”. A minha avó tinha morrido. A primeira cara que vi foi a da minha prima “Bibi”, que chorava no corredor e, apesar da sua própria tristeza, por saber o quanto eu era ligado à nossa avó, me disse “não chores”.

A avó que eu pensava viver para sempre, que me adormecia com histórias, me ia levar e buscar à escola e me concedia todos os pedidos, já não estava por ali. E se eu me sentia assim, como se sentiria o meu avô…

Nesse dia, tudo mudou. Para mim, foi o fim da primeira “parte” da minha vida. Para o meu avô, foi tão só o começo do fim. Rasgou o seu bilhete de identidade e disse que Deus o tinha traído. Não é preciso dizer mais nada.

Dois meses antes de ter morrido – como se já soubesse –, a minha avó tinha escrito uma carta de despedida, que entregou à minha tia, pedindo-lhe que o meu avô nunca a lesse. Nessa carta, pedia-lhe também que “olhasse por mim”.

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A vida continuou, menos bem.

A primeira vez que o meu avô foi sozinho receber a pensão ao Banco, o empregado, ao vê-lo entrar sem a minha avó e depois de saber o que tinha acontecido, disse-lhe que sempre o impressionara o amor e a amizade que transpareciam entre os dois. Estou a falar de uma pessoa que os via uma vez por mês, durante uns minutos…

Lembro-me do lugar vazio à mesa e do olhar vago do meu avô. Por vezes, durante o almoço, olhava para a cadeira desocupada e chorava.

Apesar de tudo, por saber o quanto a minha avó gostava de mim, o meu avô transferiu para si a “tarefa” de olhar por mim. Uma vez, a minha mãe foi sair e eu fiquei à espera dela em casa da minha tia; quando voltou para me vir buscar, tinha o meu avô à sua espera, muito zangado, porque já era muito tarde e eu tinha de descansar! Era meia-noite e eu tinha 16 anos, mas para ele, eram cinco da manhã e eu tinha 6 anos.

Em certos momentos, poucos, parecia-me que queria ultrapassar a avassaladora realidade, mas a tristeza era esmagadora, demasiado pesada para ele. Começou lentamente a ficar curvado e ficava longos momentos em silêncio, como se já não estivesse ali. De certa forma, já não estava. Dez meses depois, com a alma completamente sangrada, desistiu de viver. No dia 13 de Março de 1985, deitou-se na cama e ali ficou três dias sem comer e beber, aguardando o momento que sabia estar a chegar. No dia 15, deixou o mundo dos vivos e reuniu-se para sempre com a sua Maria Teresa.

Obrigado a ambos por tudo o que me deram, até sempre! Gosto de pensar, que de alguma forma, continuam a olhar por mim…

Alexandre Correia Gonçalves  

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Nota: Termina assim a publicação de uma série de artigos, recheados de curiosos factos da vida familiar de Raul Correia (o inesquecível Avozinho), em homenagem à sua memória (por tudo o que legou aos seus leitores, particularmente aos d’O Mosquito), à sua personalidade de homem de letras e de cultura e à sua obra vasta e multifacetada.

Renovamos os nossos agradecimentos ao seu neto Alexandre Correia Gonçalves por nos ter generosamente facultado este precioso testemunho biográfico, com várias fotos e documentos inéditos, cuja publicação muito honra e prestigia O Voo d’O Mosquito.

 

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HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 6

Avô Raul capa

VI

Depois de Benfica, os meus avós viveram uns anos na casa da minha tia Fernanda (a Bijéu), que na altura estava fora do país por motivos profissionais. Esta casa, na Rua Carlos Mardel, ali ao Areeiro, foi igualmente uma segunda casa para mim e foi neste período que comecei a ler muitas das suas coisas e a ganhar consciência, talvez ainda inconsciente, da importância do seu trabalho. Foi nesta casa que tive a certeza de que a minha vida futura passaria pelo desenho e pela escrita. Foi também nesta casa que, uma noite, a minha avó descobriu que eu partilhava um sinal vermelho com o meu avô, exactamente no mesmo sítio do corpo! Um sinal de sangue, como lhe chamam…

Recordo-me com nitidez da cortesia e do “cuidado” com que falava sempre aos empregados de mesa do Isaura, o restaurante na Avenida de Paris onde íamos jantar habitualmente, e da deferência carinhosa que todos lhe prestavam. Também este restaurante ainda funciona e mantém o nome.

A única memória má desta casa foi um ligeiro AVC que a minha avó sofreu e que deixou leves sequelas durante um período de tempo. Felizmente, o seu estado foi melhorando, até recuperar totalmente a lucidez e a tenacidade.

Uma característica teimosa do meu avô era a sua recusa absoluta de ir a médicos. “Se estiver a morrer prefiro não saber”, costumava dizer… É certo que não me lembro de o ver doente. Já nos “setentas”, continuava a trabalhar com o mesmo prazer e energia nos Amigos do Livro e em traduções. Ia para Miraflores todos os dias, em dois transportes diferentes e voltava da mesma forma, muitas das vezes para se sentar à frente da Olivetti e continuar o trabalho, noite dentro!

Entretanto, a minha tia voltou e os meus avós mudaram-se para Santo Amaro de Oeiras, muito perto da casa do meu tio Mário, que tinha uma vivenda com um jardim, onde me lembro de nós os três fazermos tiro ao alvo com a sua “pressão de ar”, uma “Diana 25”. Por falar em tiro ao alvo, talvez poucos saibam que o meu avô era um excelente atirador, tendo mesmo recebido uma medalha num campeonato de tiro! Fiquei com a sua medalha. Durante a permanência na “Linha”, quantas vezes “obriguei” os meus pais a levarem-me de Lisboa para Oeiras, só para dormir na casa deles! Nas férias nem se fala, até porque tinha um quarto para mim…

Nesta casa, o meu Avô apagou 75 velas e recordo-me da festa especial que lhe fizeram, com poemas e textos que os filhos lhe escreveram, leram e dedicaram!

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Como decerto já notaram, os meus avós mudavam frequentemente de casa! Antes de Benfica, viveram na Av. Manuel Damaia, na Rua do Zaire, no Bairro das Colónias, em Oeiras, na Av. Almirante Reis, na Amadora… Mas essas casas não conheci… Este facto deveu-se a uma mania da minha querida avó, que não conseguia estar muito tempo no mesmo sítio! Ao meu avô, que acedia a todos os seus desejos — menos o de ir ao médico — não lhe restava alternativa a não ser arrumar a trouxa e mudar-se para novo poiso! Com os filhos sempre por perto…

Já ambos na segunda metade dos setentas, os meus avós foram viver para casa da minha tia Adelaide, para poderem gozar os últimos anos de vida com companhia sempre por perto. Como alguns saberão, assim foi… Seria a sua última morada.

Lembro-me de irem entrevistar o meu avô sobre O Mosquito a esta casa, que fica por detrás da Av. de Roma, na Rua Conde Sabugosa, e onde vive ainda a minha tia com a bonita idade de 83 anos, mas aparentando menos vinte! A fotografia do meu avô que aparece na entrevista do nº 1 da última série d’O Mosquito foi tirada na sala de jantar desta casa.

Continuei a vê-los quase todos os dias, porque almoçava sempre lá vindo do Liceu e voltava ao fim do dia para ir ter com os meus primos e amigos do bairro. Aliás, e como seria de esperar, a casa dos meus tios tornou-se no ponto de encontro diário de toda a família. Para terem uma ideia da animação que ali reinava, deixo-vos uns números daquela altura: oito filhos com os respectivos maridos e mulheres, em visitas regulares e por vezes diárias, mais vinte e três netos e dois bisnetos a “circular” por ali!

HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 5

Avô Raul capa

V

Lembro-me das férias de verão passadas com a família quase toda, em casas alugadas e suficientemente grandes para acomodar os meus avós, os meus pais, alguns dos meus tios e os meus primos! A terra preferida era a Parede, por vezes Santo Amaro de Oeiras ou São Pedro do Estoril. Uma dessas casas, em Sintra, mais concretamente em Galamares, tinha uma piscina onde eu e os meus primos passávamos a vida e uma das memórias que guardo é a do “Avô Raul”, de fato de banho, a entrar na água e, para nosso grande contentamento, tentar dar umas braçadas sem chocar com nenhum de nós! Claro está, rapidamente desistiu e voltou resignado para a companhia dos adultos…

Dessa casa, guardo outra recordação – a do meu tio Raul, que era o mais velho dos “rapazes”, nos fazer uma visita inesquecível aos comandos da sua nova máquina… Lembro-me, como se fosse hoje, de estar de pé na berma da piscina e ver um Porsche descer a rampa e imobilizar-se em frente à garagem… Alguém disse: “É o tio Raul!”… Num segundo, a piscina ficou vazia!

Outro episódio engraçado: o meu tio Mário, seu filho e colega nos Amigos do Livro e nas traduções, contou-me que, a dada altura, estavam os dois a traduzir um livro cientifico sobre os malefícios do tabaco e, durante a tradução, faziam uns intervalos para comparar notas e comentar textos e imagens mais explicitas sobre os vários tipos de cancros e de doentes, enquanto fumavam alegremente mais um cigarro e despejavam os cinzeiros!…

A minha tia Adelaide, a mais velha dos oito filhos e uma espécie de segunda mãe e segunda avó para mim, lembra-se do pai lhe telefonar no dia seguinte ao seu casamento, só para lhe perguntar se estava feliz! A minha tia escreveu-lhe uma carta a dizer que ele era “o melhor pai do mundo” e o meu avô respondeu-lhe que se sentia muito contente por ser o melhor pai do mundo! Esta correspondência tem a particularidade de ter sido escrita na língua de Shakespeare! Não perguntei o motivo para tal, mas deduzo que a minha tia, que estava na altura a tirar o curso de Correspondente de Línguas, quisesse praticar o Inglês!

No dia 20 de Maio de 1970, escreveu um poema em francês, dedicado à sua filha Maria Fernanda, a “Bijéu”, e ao “Zé”, o seu – acabado de ser – marido!

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Outra imagem que a sua filha Adelaide guarda vividamente na memória é a de um certo primeiro dia de férias na Parede, em que, acabados de chegar a casa e enquanto a minha avó e a empregada arrumavam as malas, o Avô Raul pegou na filha e foram para a praia num belo fim de tarde tomar banho só os dois. Quando chegaram a casa, o jantar já estava a arrefecer…

A minha mãe lembra-se de ir ter com o pai ao Avenida Palace para irem os dois ás compras, isto porque o meu avô, para alem de partilhar com a filha uma certa vaidade na apresentação pessoal, deixava-a escolher o que ela queria, ao contrário da minha avó, que a queria vestir como uma boneca de outros tempos! Tal como comigo, o meu avô sabia exactamente o que a minha mãe gostava e, por isso, quando lhe ofereciam roupa, a minha mãe rezava para que fosse o meu avô a escolher!

Muitas vezes, o meu avô escrevia cartas e dedicava poemas a amigos nos seus aniversários. Respondia sempre às cartas de admiradores ou a qualquer pedido que lhe fosse feito.

Não sei se muitos saberão, mas o meu avô deixou vasta escrita não publicada por sua vontade expressa. Desde ensaios sobre a realidade politica e social da sua e de outras épocas a textos literários, cartas e poemas mais pessoais. “Enquanto for vivo, não quero que isto seja conhecido, quando eu morrer façam o que quiserem…”, disse ao meu tio Mário, ao entregar-lhe uma pasta cheia de folhas. E assim se mantém até hoje.

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HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 4

Avô Raul capa

IV

O meu avô era um homem recatado e era conhecida a sua aversão a festas e eventos sociais. Também não gostava de dançar. E não falo em sentido figurado! De Fred Astaire o avô Raul não tinha nada! Já lhe bastavam as recepções aos ilustres hóspedes e convidados nacionais e internacionais que enchiam o hotel em inúmeras ocasiões e que — por inerência das suas funções — o obrigavam a discursos solenes e a horas de conversação mais ou menos interessante… Entre dignitários do governo alemão e italiano e respectivos congéneres ingleses e americanos, só posso imaginar o que se passaria nas salas, salões, quartos, corredores e caves do Avenida Palace, durante os anos da Segunda Guerra Mundial, quando Lisboa era a capital da espionagem e este hotel o poiso predilecto dos militares aliados em trânsito e dos homens de gabardina preta e cicatriz na cara! Um toque real de muitas das aventuras que publicava n’O Mosquito

O meu avô fugia das luzes da ribalta como o diabo foge da cruz e só havia uma coisa que ele colocava acima do seu trabalho — a sua família. Como conseguiu ser director do hotel mais movimentado de Lisboa, ser director do jornal infanto-juvenil mais visto, lido e vendido do país, ser escritor, poeta, tradutor, autor de peças teatrais, criar e educar oito filhos, tudo ao mesmo tempo, durante pelo menos vinte anos seguidos, e depois continuar a trabalhar até aos oitenta anos com o mesmo vigor e ainda ter tido paciência para me aturar, fica muito para lá da minha compreensão!

Foi este o homem que, com 32 anos de idade, se tornou o Avozinho, que norteou a sua vida em prol da felicidade e da educação de largos milhares de crianças, o poeta de alma triste e coração feliz, que intitulava os seus versos de “maus versos” e que dizia ter “falhado a sua missão”! Nunca saberei quanta verdadeira ou falsa modéstia encerrava esta opinião sobre si próprio, mas uma coisa, com certeza sei — se ele falhou a sua missão, o que é que andamos quase todos aqui a fazer!… Não conseguiria, no entanto, tudo isto sem uma pessoa, a sua Maria Teresa.

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Como referi no início, estas palavras pretendem ser um tributo ao meu avô, mas é impossível falar dele numa perspectiva mais pessoal, sem falar da sua companheira de uma vida inteira. Estas palavras são portanto, e também, um tributo à minha avozinha. À alma sonhadora e utópica do marido, a avó Teresa preencheu a outra metade com inesgotável pragmatismo, tenacidade e capacidade de gestão afectiva e doméstica.

Conheceram-se ainda crianças, começaram a namorar com 17 e 15 anos, ele e ela respectivamente, e tanto quanto sei, até à morte da minha avó, não passaram um dia separados! Em sessenta e muitos anos, foi raro o dia em que o meu avô chegou a casa sem uma prenda para a sua Maria! Já nos últimos anos das suas vidas, escreveu-lhe um pequeno verso, num pequeno pedaço de papel. Dizia assim:

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Colocou-o num pequeno envelope e por fora escreveu: “Para a minha Maria, do teu Raul” [imagem anexa]. A minha tia Adelaide contou-me que uma noite, nos anos quarenta, o meu avô teve de ir a um velório e chegou a casa por volta da meia-noite para “dar de caras” com a minha avó a chorar à porta, muito triste e preocupada a pensar que ele se tinha perdido ou tinha tido um acidente!

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Quando o meu avô era pequeno, tinha um gato que descia as escadas do prédio e o vinha esperar à porta da rua. Sabia quando ele estava a chegar… Como quase todos os poetas, tinha uma predilecção especial por gatos; lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que o meu tio Raul apareceu na casa de Benfica com a Rucas, uma gatinha siamesa com dois meses, que ofereceu de surpresa aos pais e que eu imediatamente considerei minha! Se bem me lembro, as únicas vezes que vi o meu avô ficar um “bocadinho” irritado com a minha avó, foi sempre em consequência de uma ou outra “enxutadela” dada pela minha avó por causa de uma mija na banheira ou de uma incursão num cortinado!

HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 3

Avô Raul capa

III

Um grande amigo do meu avô era o George Black, um aviador civil inglês, ou melhor dizendo, um “glorioso maluco das máquinas voadoras”! Sempre impecavelmente vestido, dono de um sentido de humor tipicamente britânico e amante de carros desportivos, incarnava na perfeição a imagem do “British Gentleman” aventureiro. Era visita regular em casa do meu avô e foi padrinho do meu tio Jorge, razão pela qual o dito meu tio se chama Jorge! A minha mãe lembra-se do “Mister” Black lhe levar invariavelmente aqueles “lápis de chocolate” Regina, cada um de sua cor e que, se não me engano, ainda são feitos hoje…

Este senhor tinha uma imaginação fértil e contava histórias algo exageradas; o meu avô ouvia e no fim dizia-lhe: “Isso é tudo mentira!” O amigo respondia-lhe: “Até pode ser mentira, mas tem muita piada!”

O George Black passava grandes temporadas no Avenida Palace, durante os anos da guerra, e vou contar-vos dois episódios que ilustram bem a sua personalidade — estas duas histórias são bem verdadeiras, testemunhadas pelo meu avô. Certo dia, apareceu no hotel um espião alemão, muito alto, louro e de olhos azuis, que ao ser recebido no gabinete do meu avô, lhe disse que era espanhol… (era comum os espiões alemães terem passaportes espanhóis). O George Black, que estava no gabinete, olhou para o alemão e disse-lhe calmamente: “Com esse ar andaluz, nem precisava de dizer que era espanhol!”

A outra “cena” aconteceu semanas mais tarde, quando um Judeu que tinha conseguido obter uma “Navy Cert.” (Navy Certification, uma licença/autorização que permitia a um navio sair do porto), foi ao hotel dizer ao meu avô que precisava urgentemente de um navio para ir para a América… O George Black respondeu-lhe: “Epá, que azar! Vendemos o último navio mesmo há bocado!”

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Tal como era um exímio contador de anedotas, o sentido de humor do meu avô não ficava atrás. Um dia, a D. Júlia, que era a empregada da altura, entrou inadvertidamente no quarto dos meus avós e “apanhou” o meu avô de camisola interior. Recuou, embaraçada, dizendo: “Peço muita desculpa, Sr. Raul, não sabia que estava aí! Eu não vi nada! Eu não vi nada!”. Ao que o meu avô calmamente respondeu, deixando a pobre senhora ainda mais embaraçada: — Parece impossível D. Júlia, então não viu nada?! Noutra altura, a mesma D. Júlia, ao telefonar lá para casa, apresentou-se no auscultador dizendo: “Fala a Dona Júlia…” O meu avó, que atendeu a chamada, respondeu-lhe no mesmo tom: “Daqui fala o Dom Raul!”                

Lembro-me de o ver a escrever nos fins-de-semana de Inverno, sentado em frente à máquina, de roupão, com o sempre presente cigarro a queimar no cinzeiro, e da minha avó o ir chamar para o almoço ou para o jantar… OLYMPUS DIGITAL CAMERADe vez em quando, íamos jantar ao Córsega, um restaurante que ficava na praceta ao lado. Ainda existe e mantém o mesmo nome.

Lembro-me dos almoços, das lancharadas e dos jantares de domingo na casa de Benfica, com os filhos, genros, noras e netos… era uma festa!

No que respeita a comida, o meu avô comia como um adolescente, ou seja, muito! Era um grande apreciador de “entradas” e aperitivos antes do jantar. Em vez de pão com queijo, era mais queijo com pão, ou manteiga… a seguir e sempre, a sopa, depois o prato e a sobremesa. Tinha a particularidade de dobrar o ovo estrelado em quatro e comê-lo de uma só vez! Terminava religiosamente a refeição com um conhaque em balão aquecido.

Durante os anos em que foi director do Avenida Palace, tomava invariavelmente o pequeno- -almoço na sala de jantar, de pé, já vestido e pronto a sair — café com leite e pão com manteiga. De 1940 a 1960, foram muitos pequenos-almoços de pé!

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Outro hábito que o meu avô tinha antes de sair de casa, era ver-se no grande espelho do guarda-fatos, de frente, de lado e de costas, para se certificar de que tudo estava bem… A minha avó, diligentemente, escovava-lhe o chapéu “bogartiano”, um beijo e até logo! Mas, antes disso, demorava sempre meia-hora na casa de banho, sendo que os filhos tinham de ir primeiro ou então de esperar que ele saísse, o que significava chegarem atrasados à escola — o que por vezes acontecia —, porque, normalmente, era o meu avô que os levava antes de ir trabalhar. A minha mãe lembra-se de caminharem pela rua e quando tinham de atravessar a estrada, paravam todos ao seu lado e só o faziam à sua ordem de “Atravessar!” Quando vinha um carro, dizia “Ops!” Ao chegar a casa, todos o esperavam à porta para lhe darem um beijo! Outros tempos… Chegava para jantar, no autocarro que parava às 21.03 na paragem da Praça de Londres.

O meu avô nunca quis conduzir nem ter carro. Preferia andar a pé, de autocarro ou de táxi. Raramente saíam de casa depois do jantar, excepção feita aos domingos, em que iam sempre ao cinema, umas vezes os dois, outras com os filhos.

Enquanto viveram na Rua do Zaire, o Sr. Carlos Machado, que era o barbeiro do meu avô, ia todos os domingos lá a casa para lhe cortar o cabelo e fazer a barba.

O Sr. Carlos tinha mulher e três filhas de quem os meus avós gostavam muito e ajudavam ainda mais. Como prova da sua gratidão, a família Machado fez-se fotografar em formato de postal e ofereceram, com grande emoção, a fotografia aos meus avós. No verso escreveram: “Aos nossos queridos protectores, como prova de eterno reconhecimento”. Escreveram os seus nomes e, por baixo, a data: Lisboa, 16 de Maio de 1944.

HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 2

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II

Curiosamente e de certa forma paradoxalmente, o meu avô, apesar da sua gigantesca sensibilidade e mente artística, era um homem rígido e algo conservador no aspecto familiar. Quem o conheceu ficava impressionado com a sua candura, educação, verticalidade, inteligência, cultura e modéstia, mas para os filhos, e apesar do enorme carinho que lhes dava, a rédea era curta em termos disciplinares! Esta característica aparentemente contraditória do meu avô, revelou-se uma mais-valia fundamental na estrutura mental dos seus filhos. Porquê? Porque o talento e a sensibilidade podem ser herdados pelos genes, mas os “pés bem assentes na terra” não. Por falar em rédea curta, dou-vos o exemplo do meu indomável tio Armando, que dos oito filhos era o único que gostava mais de festa do que de estudo e, por isso, foi “enviado” para África com 18 anos, para trabalhar com o irmão do meu avô que lá vivia.

Vale a pena contar: o meu avô, esgotada a paciência e o stock de “galhetas” (o termo que usava para designar uma palmada) no traseiro do meu tio, chegou à conclusão de que o seu filho corria sérios riscos de se tornar um caso perdido… A minha avó, já em desespero de causa, perguntou-lhe se ele queria ir para África trabalhar com o tio, que, por sinal, também se chamava Armando e que, no seu tempo, tinha rumado a África por motivos semelhantes!… A minha mãe, que tinha 13 anos na altura, recorda-se nitidamente de ouvir a minha avó perguntar ao irmão: “Tens a certeza que queres ir?”, e do meu tio responder categoricamente: “Tenho a certeza!” Até à sua morte, o meu tio Armando viveu metade do ano em África e a outra metade em Portugal, pois o seu trabalho era sazonal e os rendimentos permitiam umas férias de seis meses! Lembro-me da alegria dos meus avós e a dele, cada vez que chegava a “casa”.

Por ser neto, fui muito mais poupado no aspecto disciplinar. E toda a gente sabe que os pais educam e os avós estragam! No entanto, havia uma situação em que não me livrava de um ou dois berros seus e da ameaça de uma “galheta”! Quando chateava a minha avó… coisa que, aliás, acontecia frequentemente! A minha sorte era que muitas dessas vezes o meu avô não estava em casa… Para terem uma ideia de como isso o enfurecia, dou-vos um exemplo: o meu avô trabalhava no escritório com a porta habitualmente fechada e eu estava com a minha avó na sala, que ficava na outra ponta da casa. Numa situação normal, a minha avó ou eu podíamos chamá-lo quase a gritar que ele não ouvia, mas se a minha avó pronunciasse um “Não!” ou um “Está quieto!”, em voz normal, três segundos depois já ouvia as suas passadas na minha direcção…

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Recordo-me, como se fosse ontem, das suas chegadas a casa no fim do dia, vindo dos Amigos do Livro, especialmente no Inverno, quando era já de noite. Da sua figura distinta, com o eterno bigode fino à Clark Gable, agasalhado no seu sobretudo ou gabardina, com o cachecol cinzento, bordeaux ou “escocês”, à volta do pescoço, o chapéu-de-chuva numa mão e a pasta na outra.

Fiquei com o seu sobretudo cinzento, que usei muitas vezes e com o cachecol da mesma cor que ainda hoje uso e que está como novo. Muitas vezes, ao chegar a casa, trazia o embrulho que eu esperava sempre ansiosamente e que me fazia correr para a porta mal ouvia o elevador parar no 5º andar… Podia ser um carrinho da Matchbox, da Majorette, da Burago, da Polistil, da Corgi ou da Sólido, sabendo ele que as duas últimas marcas eram as minhas preferidas! Aliás, ele sabia que qualquer máquina que tivesse rodas, lagartas, hélices, asas e motor era bem-vinda…

Dou-vos um exemplo da sua atenção para comigo e que traduz bem a sua atenção para tudo: o nosso prédio ficava “colado” a uma antiga fábrica de metalurgia que já não existe hoje e eu passava horas na varanda da frente e na varanda de trás, a seguir a velha empilhadora “Cat” amarela que levantava incansavelmente vigas de aço e outras coisas do género e as levava de uma ponta à outra da fábrica… Um fim de dia, ao rasgar mais um embrulho na mesa de jantar, vi uma maravilhosa empilhadora cor de laranja, toda em metal e totalmente funcional!

O meu avô recebia a National Geographic e a Reader’s Digest pelo correio, sendo que eu era normalmente a primeira pessoa a ver os “bonecos”, para mais logo o “chatear” sobre tudo o que não sabia.

Há muitas outras imagens de infância que me vêm à memória, como a tentativa do meu avô usar barba, tentativa essa que durou talvez três semanas de comichão e que terminou na casa de banho, de Gillette em punho, entre pragas e alguns cortes pelo meio! Lembro-me nitidamente de o ver em camisola interior, em frente ao espelho a limpar a espuma de barbear e o sangue com uma toalha branca… Lembro-me de, um dia, ir com ele aos Amigos do Livro e do Carlos Alberto Santos me fazer um desenho da cabeça de um soldado com capacete em meia dúzia de traços e de eu pensar que os amigos do meu avô também sabiam desenhar muito bem!

Lembro-me da sua expressão favorita para definir uma pessoa com quem não “simpatizava”: “Um pedaço de trampa!” Maravilhosa definição… “Este tipo não passa de um idiota” ou “Este tipo é uma anedota”, eram outras favoritas. O meu avô tratava habitualmente as senhoras por “Minha querida senhora” e, apesar da seriedade com que empregava o termo, não se escapava a um ou outro olhar ciumento da minha avó!

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HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 1

Introdução

No mês de Agosto, em que prazenteiramente celebrámos o 1º aniversário d’O Voo d’O Mosquito, foram apresentadas algumas novidades e anunciada aquela que é, sem dúvida, a melhor de todas, dedicada também a Raul Correia. Quisemos guardá-la para o nosso centésimo post, outro marco especial na existência ainda breve deste blogue.

img002Trata-se de uma magnífica e sentida homenagem ao talentoso escritor e poeta cujo nome ficou indisso- luvelmente ligado ao mais carismático título da BD portuguesa, que fundou e dirigiu, na parte literária, até ao derradeiro número (1412) da sua 1ª série, publicada entre 14 de Janeiro de 1936 e 24 de Fevereiro de 1953.

Muito se sabe já sobre a carreira de Raul Correia, na área do jornalismo e da literatura juvenil, onde exerceu intensa actividade mesmo depois do fim d’O Mosquito, a par de outros ofícios mais ou menos correlativos, como o de tradutor; mas pouco, muito pouco mesmo, se conhece das suas facetas mais privadas, como homem de sociedade e de família, marido e pai extremoso de oito filhos, quatro rapazes e quatro raparigas, a cuja educação e bem-estar dedicou sempre o melhor de si próprio.

Graças a Alexandre Correia Gonçalves, neto do saudoso poeta “de alma triste e coração feliz” que escrevia, com o pseudónimo de Avozinho, para um vasto e devotado público de outros netos (adoptivos) — muitos dos quais ainda hoje o recordam —, iremos ficar a conhecer melhor a personalidade de Raul Correia, nos seus aspectos mais íntimos e genuínos.

av+¦058Alexandre Correia herdou, aliás, a veia literária do seu avô, como prova este elo- quente testemunho, dedi- cando-se também, com talento, a actividades artís- ticas como o desenho.

Vivendo na infância a dois passos dos avós, com quem partilhava muitas horas do dia, teve o privilégio de acompanhar na intimidade o trabalho daquele que ainda hoje tanto admira e de assistir a muitas peripécias familiares que se gravaram indelevelmente na memória do seu passado afectivo.

É com legítimo orgulho, e com profundo reconhecimento a Alexandre Correia Gonçalves, que O Voo d’O Mosquito começa hoje a divulgar o precioso tributo de um neto ao seu avô, recheado de imagens e documentos pessoais (revelados pela primeira vez), de factos curiosos, de pequenas anedotas, de momentos de humor e de ternura — e também de episódios dramáticos, já no crepúsculo de uma vida passada quase sempre ao serviço da cultura e de uma nobre causa, dirigida aos jovens e à sua formação pedagógica, cultural e intelectual por meios salutares e inteiramente recreativos.

Avô Raul capa

I

“Avô, desenha-me um “Teco-teco”!

Não sei quantas vezes lhe fiz este pedido. Mais de cem, seguramente. E mais de cem vezes o meu avô me desenhou um “Teco-teco”…

Sentava-me a seu lado durante três ou quatro minutos, enquanto as duas asas e a fuselagem tomavam forma. Por último, desenhava o hélice a girar tão depressa que não se viam as pás… Uáu! Eu ficava de olhos colados à folha de papel, a pensar como era possível desenhar daquela maneira. Feito assim, a 3/4, parecia mesmo que estava a voar dentro do papel! O “Teco-teco” era um biplano da 1ª Guerra Mundial. Já tinha mais um!

“Vá, vai brincar, o avô tem de trabalhar”. Virava-se para a sua Olivetti, a máquina de escrever eléctrica que eu lhe pedia sempre para ligar e desligar. Os seus dedos recomeçavam a matraquear as teclas e na folha de papel nasciam filas e filas de letras que não me diziam nada. Eu tinha 4 ou 5 anos e não sabia qual era o trabalho do meu avô. Três ou quatro anos depois, fiquei a saber que todas aquelas letras eram o seu trabalho, aquilo que ele sabia fazer mesmo bem. Que desilusão! Aquilo era mais bem feito do que o “Teco- -teco”? Não podia ser!

Foram precisos mais três ou quatro anos para eu compreender que afinal era verdade, que o avô Raul escrevia ainda melhor do que desenhava “Teco-tecos”. Muito melhor.

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Quando o meu avô morreu, eu tinha 17 anos. Na Igreja de S. João de Deus, onde o seu corpo esteve em câmara ardente, sentei-me numa cadeira, arranquei uma folha de um pequeno bloco e desenhei o seu perfil visível, o que a berma do seu caixão deixava ver. No canto inferior da folha escrevi a data, mas, nesse dia e nessa data, não tinha ainda a noção exacta de quanto dele havia em mim. Tal como não tinha a noção exacta da importância e do impacto que o seu trabalho tivera para tanta gente. Hoje, com 46 anos, tenho a certeza absoluta de que muito do que sou e muito do que faço a ele o devo. E muito lhe devo.

Durante os dezassete anos da minha vida em que ele esteve presente, poucos foram os dias em que não o via. Durante os primeiros anos da minha infância passados em Benfica, na Praceta República Peruana, os meus pais viveram no mesmo prédio onde viviam os meus avós. Nós no 2º andar e eles no 5º. Durante esses anos, poucos foram os dias em que não dormi no 5º. Dá para ter uma ideia do quanto eu era “chegado” aos mais velhotes dos velhotes! Por isso, ao falar do meu avô, falo sempre da minha avó, até porque não poderia ser de outra forma. Os dois eram um só. De outras formas, o que hoje sou, também a ela o devo. Quantas noites adormeci com as suas histórias de encantar, que eu interrompia sempre para mudar o final…

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Estas palavras sobre o meu avô, há muito devidas e em jeito de pequeno tributo, servem um duplo propósito: deixar escritas para a posteridade as palavras da minha admiração por ele e simultaneamente dar a conhecer algumas facetas mais pessoais da pessoa que muitos conhecem apenas por “Avozinho” e que eu tive a sorte e o privilégio de conhecer por meu “Avozinho”.

A minha mãe e sua filha, ao falar sobre o pai no Festival de BD da Amadora, definiu o seu trabalho desta maravilhosa forma: “O meu pai viajou pelo mundo sentado à frente de uma máquina de escrever”. Não conheço melhor definição.

Decerto, muitos de vós não sabiam que ele também desenhava, e bem!

Para terem uma ideia do seu alcance intelectual, basta dizer-vos que, depois do jantar, o meu avô gostava de juntar os oito filhos na sala e recitar-lhes partes inteiras dos grandes clássicos da literatura e da poesia mundial em português, inglês e francês, sem ler!

Poucos filhos se podem gabar de ter um pai que lhes declama o Hamlet ou o Cyrano de Bergerac de “cabeça”, ao serão! Certas noites mais “leves”, eram preenchidas por histórias diversas e anedotas, que o meu avô tinha especial jeito para contar.  

Dos autores portugueses, o meu avô tinha especial admiração por Eça de Queiroz, mas nunca leu nem deu a ler Os Maias aos filhos, simplesmente por causa das cenas de incesto entre os dois irmãos! A minha mãe contou-me que o leu às escondidas!  

Nesse tempo, a sua máquina de escrever era uma Hermes Baby e quando o meu avô não estava no escritório d’O Mosquito ou no escritório do Hotel Avenida Palace, os seus filhos, tal como eu, foram crescendo ao som das teclas e das folhas de papel.

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