REFLEXÕES SOBRE CRIAÇÕES

Ao arrumar os papéis de Jorge Magalhães, encontrei num pedaço de guardanapo de papel estas reflexões que julgo ser da sua lavra, a menos que ele a tenha encontrado em textos de Raul Correia… porque acho que o humor dos dois era parecido!

Não resisto a compartilhar com os leitores deste blogue este pequeno trecho humorístico.

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FICHEIRO DA BD PORTUGUESA: JOSÉ GARCÊS

A rubrica em epígrafe surgiu no Mundo de Aventuras nº 481, em 1982, e foi sugerida por mim, que era o coordenador da revista, a António J. Ferreira, um dos mais insignes estudiosos e investigadores da BD portuguesa, particularmente da que antecedeu o nascimento d’O Mosquito, nas décadas de 1920 e 1930.

A. J. Ferreira foi leitor do ABCzinho, d’O Senhor Doutor, do Tic-Tac, d’O Papagaio e obviamente d’O Mosquito, e conhece a fundo todas essas revistas, dando especial relevo aos artistas portugueses que nelas colaboraram. E muitos foram!

Aceite o convite, A. J. Ferreira lançou-se imediatamente ao trabalho… que deu valiosos frutos, aparecendo no Mundo de Aventuras até ao seu último número (1987). São algumas dessas Fichas, com mini-biografias de autores portugueses, que nos propomos, agora, dar a conhecer (ou a reler) aos internautas que nos visitam.

Começamos por José Garcês, cuja carreira se iniciou, em 1946, nas páginas d’O Mosquito — então a atravessar uma das suas melhores fases, com histórias de Jesús Blasco, Eduardo Teixeira Coelho, Jayme Cortez e de outros grandes desenhadores, tanto europeus como americanos. E esta escolha tem uma razão especial, porque José Garcês celebrou ontem, dia 23 de Julho, o seu 90º aniversário, efeméride que merece ser devidamente assinalada… como já o fizeram os blogues O Gato Alfarrabista e O Gato Alfarrabista Júnior, da nossa Loja de Papel.

José Garcês colaborou n’O Mosquito até 1948, tendo realizado quatro aventuras em que são patentes, desde a primeira página, a evolução do seu estilo e a sua preferência (nessa época) por temas exóticos e enredos dramáticos… além do acerto com que desenhava sugestivas figuras femininas, cunho que manteve para sempre.

O Voo d’O Mosquito endereça também a José Garcês as melhores felicitações pelo seu aniversário e por uma memorável carreira, com mais de 70 anos, ao serviço da ilustração, da pintura, da banda desenhada e do seu ensino… em suma, da cultura, das artes portuguesas e das gerações mais jovens, que, ao longo deste incansável percurso, durante várias décadas, muito lhe ficaram a dever.

Parabéns, Mestre José Garcês, e que conte ainda muitos anos de vida!

(Nota: as fichas que aqui apresentamos foram publicadas no Mundo de Aventuras nºs 487 e 585, de 10/2/1983 e 1/11/1986, respectivamente. As duas últimas dizem respeito às primeiras histórias de José Garcês estreadas n’O Mosquito).

EXPOSIÇÃO NA BIBLIOTECA NACIONAL: 100 ANOS DE FASCÍCULOS DE AVENTURAS EM PORTUGAL

NOS TEMPOS HERÓICOS DA “LITERATURA DE CORDEL”

Uma grande exposição na Biblioteca Nacional, a não perder, organizada em parceria com o Clube Português de Banda Desenhada, sobre o universo dos fascículos de aventuras que fizeram as delícias de várias gerações, na primeira metade do século XX, com fabulosos heróis que se gravaram na memória dos mais jovens e capas cheias de colorido e emoção, pelo traço dinâmico de Alfredo Morais (1872-1971), um dos mais populares artistas da sua época.

Esses fascículos de aventuras influenciaram também um escol de novelistas portugueses, que surgiram n’O Mosquito, n’O Senhor Doutor, no Tic-Tac, n’O Faísca, n’O Pluto e no Mundo de Aventuras, como Reinaldo Ferreira (o célebre Repórter X), António Feio, Raul Correia, Orlando Marques, José Padinha, Lúcio Cardador, Roberto Ferreira e Roussado Pinto.

Os leitores dessa época não dispensavam as aventuras de Texas Jack, do Capitão Morgan, de Raffles, de Nick Carter… E houve até um colaborador d’O Mosquito, Orlando Marques, que na sua juventude usou o cognome de Texas Jack, tal era o entusiasmo que este herói das pradarias lhe despertava e aos seus colegas do Liceu do Funchal.

DUAS NOVAS EXPOSIÇÕES NO CPBD

Estas duas exposições, oriundas do Salão Moura BD, serão inauguradas no próximo sábado, dia 2 de Junho, a partir das 15h30. Se a primeira tem como tema central uma das maiores figuras dos primórdios da nossa História, ou seja, Viriato, o heróico pastor dos Montes Hermínios, a segunda, referente aos “Viajantes de Papel na Lusofonia Gráfica”, aborda a obra de grandes autores que, por razões diversas, tiveram de emigrar, procurando trabalho noutros países, como Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, Jayme Cortez e Carlos Roque… alguns deles nascidos nas ilhas adjacentes ou nas antigas colónias ultramarinas portuguesas.

Saliente-se que O Mosquito ficou também ligado, simbolicamente, a essa emigração, pois foi das suas fileiras que saíram alguns dos grandes nomes da BD portuguesa que optaram pela diáspora, em busca de novos rumos para as suas carreiras.

EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA DE JAYME CORTEZ NO FESTIVAL INTERNACIONAL DE BD DE BEJA (25 DE MAIO A 10 DE JUNHO 2018)

O Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja abre ao público no próximo sábado, 26 de Maio, com vários núcleos espalhados, de novo, pelo centro histórico daquela bela cidade alentejana.

Conferências, conversas com autores, lançamentos de livros e fanzines, sessões de autógrafos, apresentação de projectos, workshops, mercado do livro, concertos desenhados e 20 exposições farão parte do apetecível menú de um evento que se consolida em cada edição.

Estarão representados autores de Angola, Brasil, Espanha (País Basco), França, Itália, Suécia e, evidente- mente, Portugal. Destaque para uma exposição retrospectiva de Jayme Cortez (1926-1987), desenhador português que marcou uma geração de autores, nomeadamente no Brasil, país para onde emigrou ainda muito jovem, depois de ter sido, durante alguns anos, colaborador d’O Mosquito, onde deixou obras de vulto como “Os Seis Terríveis”, “Os Dois Amigos na Cidade dos Monstros Marinhos” e “Os Espíritos Assassinos”.

José Ruy, Cristina Matos, Marco Gervasio, Rossano Rossi e Manuele Fior (italianos), Max Andersson (sueco) e Pierre-Henry Gomont (francês) serão alguns dos autores presentes no festival. A inauguração ocorre na sexta-feira, dia 25, na Casa da Cultura, cerca das 21:00 horas. O Festival encerra a 10 de Junho.

STRONGHEART, O CÃO PRODÍGIO

Este artigo do nosso prezado colaborador Carlos Gonçalves é oriundo, tal como os que temos publicado noutros blogues, do fanzine brasileiro Q.I. (Quadrinhos Independentes), editado e coordenado por Edgard Guimarães, conceituado especialista, editor e divulgador das histórias aos quadradinhos (ou quadrinhos) no seu país. A ambos, os nossos melhores agradecimentos.

Strongheart, o cão prodígio do cinema, foi uma das grandes séries publicadas n’O Mosquito, onde alcançou sucesso ainda mais duradouro do que n’O Senhor Doutor, embora alguns episódios fossem repetidos. Mas a mudança de nomes baralhou um pouco os leitores, que nunca tiveram a certeza de que o popular herói canino fosse o mesmo em todas as aventuras que apareceram n’O Mosquito

À grande artista Hilda Boswell cabe o privilégio de ter sido a única mulher a dedicar-se às histórias aos quadradinhos de aventuras, nessa época pioneira da BD inglesa. Nenhum leitor deve ter suspeitado que aquele robusto, dinâmico e vigoroso traço que tanto apreciavam era obra de mãos femininas, dado o anonimato que envolvia os colaboradores da Amalgamated Press e de outras editoras do Reino Unido.

Hilda Boswell ombreou talentosamente com os melhores desenhadores do seu tempo, nas revistas juvenis inglesas, além de ter ilustrado vários livros da famosa escritora Enid Blyton. O seu nome não merece cair no esquecimento, assim como o de G.W. Backhouse e de outros artistas ingleses das primeiras décadas do século XX, cujos trabalhos anónimos foram prolíficamente publicados, com grande êxito, n’O Mosquito e noutras revistas portuguesas da mesma época.

E.T. Coelho dedicou três capas ao episódio intitulado “Ao Serviço da Lei”, que se estreou n’O Mosquito nº 353, pouco tempo depois deste magnífico artista se tornar seu colaborador. A capa do nº 360 foi, aliás, a primeira com o traço de E.T. Coelho a aparecer na revista, inaugurando uma das melhores fases do atraente semanário juvenil, prestes a transformar-se em bissemanário e a encetar mais altos voos.

Na citada aventura, Strongheart (Coração Forte) chamava-se Storm (Tempestade), nome decerto inventado pelo tradutor/adaptador das legendas, ou seja, Raul Correia. Aqui ficam as três capas de E. T. Coelho, referentes aos nºs 360, 367 e 394 (1942-1943).   

DIA 21 DE ABRIL, EM MOURA: HOMENAGEM PÓSTUMA A ARTUR CORREIA

No passado domingo, 15 de Abril, a Câmara Municipal de Moura inaugurou uma exposição de trabalhos de Artur Correia, nome incontornável da Banda Desenhada e do Cinema de Animação, recentemente falecido. Integrada em mais uma edição da Feira do Livro de Moura, a exposição conta com trabalhos originais nunca antes publicados nem expostos ao público.

Por gentileza dos familiares de Artur Correia, dois desses trabalhos (as adaptações dos poemas populares “Donzela que Vai à Guerra” e “A Nau Catrineta”) serão publicados em estreia absoluta em mais um número da colecção Cadernos Moura BD. A mostra, como dissemos, foi inaugurada no passado dia 15, no Parque de Feiras e Exposições de Moura (Pavilhão 2), e encerra a 26 de Abril. Fica, no entanto, aqui uma chamada de atenção (também em jeito de convite) aos interessados, para a data da sessão de homenagem: 21 de Abril, sábado, às 16:30.

Nesse dia se evocará o Homem, o Autor e a Obra, com a presença dos familiares mais próximos e de muitos amigos e colegas de ofício que, desde logo, confirmaram a sua ida até Moura, cidade que Artur Correia tantas vezes visitou, por ocasião do Salão de Banda Desenhada (onde foi “Convidado de Honra” na edição de 1994).

Nota: noticiário extraído do blogue BDBD (http://bloguedebd.blogspot.pt), a cargo dos nossos amigos Luiz Beira e Carlos Rico. Em devido tempo, este blogue publicará a reportagem que se impõe sobre a meritória iniciativa da Câmara Municipal de Moura. Até lá, porque não uma visita à Feira do Livro e à grande exposição de Artur Correia, particularmente no próximo dia 21 de Abril?

“O Voo d’O Mosquito” associa-se também a esta homenagem, recordando que Artur Correia — cuja vasta obra cobriu quase 70 anos — foi colaborador da última série da mais emblemática revista da BD portuguesa, ressuscitada em 1983/86 pela Editorial Futura.