CONVERSA(S) SOBRE BANDA DESENHADA (COM JORGE MAGALHÃES E CATHERINE LABEY) – 1

No passado dia 8 de Julho, como oportunamente informámos, teve lugar na Bedeteca José de Matos-Cruz (ala da Biblioteca Municipal de Cascais, em S. Domingos de Rana), a 3ª Conversa sobre BD moderada pelo próprio José de Matos-Cruz, especialista e crítico de cinema, com vasta obra publicada, historiador, coleccionador e divulgador pioneiro da Banda Desenhada em Portugal (Copra, Ploc!, Mundo de Aventuras, Boomovimento, etc).

Desta feita, os convidados foram o casal formado pelo escritor/argumentista Jorge Magalhães e pela desenhadora e artista plástica Catherine Labey, ambos profissionais de BD desde a década de 1970, nas mais diversas áreas, e que continuam a alimentar o seu gosto pela 9ª Arte, dedicando-se, na idade da reforma, à actividade de bloggers.

Perante um público assíduo — entre o qual tivemos a grata surpresa de ver, além de Mestre José Garcês e esposa, e do desenhador João Amaral e esposa, uma bela “embaixada” da família de Jorge Magalhães, com a filha Maria José Pereira (editora da Babel) e o genro, dois netos e duas bisnetas —, falaram ambos das suas carreiras (muitas vezes em comum), apoiados por uma apresentação em Powerpoint de obras que consideram as mais representativas dessa colaboração mútua ou com outros autores.

Na sua intervenção, Jorge Magalhães, autor multifacetado, dissertou também sobre o seu longo percurso nas revistas e editoras onde trabalhou, desde o Mundo de Aventuras (APR) às Selecções BD (Meribérica), passando por muitas outras, como Intrépido e TV Júnior (Campo Verde), Heróis da Marvel (Distri) e O Mosquito (Editorial Futura). Nesta editora, coordenou também a Antologia da BD Portuguesa e a Antologia da BD Clássica, duas colecções onde foram publicadas algumas obras-primas oriundas da 1ª série d’O Mosquito, como “O Caminho do Oriente”, de E.T. Coelho, e “Cuto – Tragédia no Oriente”, de Jesús Blasco.

Aqui fica, para memória fotográfica dessa sessão, uma breve reportagem que nos foi enviada por João Camacho, técnico superior da Câmara Municipal de Cascais, a quem publicamente agradecemos. Seguir-se-á, em próximos posts de O Voo d’O Mosquito, a apresentação das biografias destes autores e de uma galeria de imagens das suas obras, extraídas dos dois powerpoints, cujo arranjo gráfico esteve a cargo de Catherine Labey.

NO ANIVERSÁRIO DE ROUSSADO PINTO (14/7/1926)

Texto:  Jorge Magalhães

A capa com que abrimos este post é de um livro quase biográfico que Frank Gold, pseudónimo de Luís Campos (outro notável escritor policial português), dedicou a Roussado Pinto, metendo-se na pele de um dos seus mais célebres heterónimos, para o encarnar como “autor, personagem e mito”, e fingindo ser o herói da sua própria história.

Roussado Pinto nasceu em 14 de Julho de 1926. Se fosse ainda vivo, teria celebrado nesta data o seu 91º aniversário. Os homens passam e as obras ficam. Por isso, cabe-nos a nós, seus leitores, admiradores e amigos, evocar essa efeméride, honrando a sua memória e o seu nome, através de uma das realidades mais marcantes da sua existência: a obra incomensurável que nos legou, como escritor, jornalista e editor (dando primazia, nesta função, às revistas para os mais jovens e à banda desenhada).

Honrar o seu nome significa inevitavelmente recordar alguns dos pseudónimos que o celebrizaram, como os de Edgar Caygill e Ross Pynn. Usou-os em muitas obras, de maior ou menor importância e simbolismo na sua carreira, não porque quisesse passar, à força, por um escritor estrangeiro, mas porque sabia, com a sua profunda intuição literária, que esses nomes possuíam uma carga mítica que não se desvaneceria com o tempo, dando-lhe assim uma espécie de passaporte para a imortalidade.

Geralmente, na literatura policial (mas não só) os pseudónimos cristalizam-se como nomes reais, definitivos, fazendo esquecer os de baptismo. É assim também no cinema e noutras artes onde florescem a imaginação, o espírito, o onirismo e a fantasia. Actores e artistas perduram e mitificam-se na pele das personagens que criaram e dos nomes que adoptaram… às vezes, como no cinema, por imposição alheia.

Quanto a Roussado Pinto, sabemos que esse fenómeno de transfiguração não “matou” a identidade do criador — antes pelo contrário, tornou-a indissociável dos seus outros nomes, fundindo-os num mesmo corpus literário, que nenhum dos seus leitores desconhece. A fama e a forte personalidade do autor operaram automaticamente (e voluntariamente) essa simbiose. Mas nem todos os seus heterónimos tiveram vida longa…

Homenageamos hoje, a propósito do seu aniversário (como já fizemos noutras ocasiões), a memória deste lendário e infatigável novelista popular — autêntico trabalhador da “oficina do imaginário”, que dispersou humildemente a sua veia literária por uma enorme variedade de géneros —, dando a conhecer um artigo biográfico de Raul Ribeiro, extraído de uma publicação quase esquecida: o XYZ Magazine, edição do saudoso Sete de Espadas, outro grande nome da literatura policial, ou melhor, da “problemística policiária” portuguesa.

Apresentamos também algumas capas das inúmeras obras que Roussado Pinto escreveu com os seus dois pseudónimos mais famosos e com o seu próprio nome… por vezes, num registo neo-realista, bem diferente daquele a que nos habituou, como autor de romances e antologias policiais ou de novelas de aventuras. Sem esquecer que foi também argumentista de histórias aos quadradinhos e que criou e dirigiu alguns dos títulos mais emblemáticos da BD portuguesa, como O Pluto, Titã, Flecha, ValenteZakarellaGrilo e Jornal do Cuto.

No jornalismo, a sua coroa de glória foi, sem dúvida, o Jornal do Incrível, cujos destinos dirigiu com mão de mestre até ao dia em que o coração, mais uma vez, lhe falhou. E sem esperança de retorno… apesar de ter apenas 58 anos. Partiu o homem, mas ficou a lenda que há muito começara a tomar forma. E que ainda hoje povoa o imaginário dos que leram as obras de um tal Ross Pynn — personagem que, na realidade, nunca existiu!

JAYME CORTEZ E A EBAL

Em Novembro de 1986, o grande desenhista luso-brasileiro Jayme Cortez, nascido em Lisboa, em 1926, mas residindo, desde finais de 1947, no Brasil, foi homenageado no Festival Internacional de Lucca (Itália), onde recebeu o troféu Caran d’Ache pelos seus 50 anos de carreira nas áreas da Ilustração e da Banda Desenhada.

É óbvio que houve confusão nesta data, pois Jayme Cortez estreou-se oficialmente como desenhador aos 15 anos no Pim-Pam-Pum (suplemento do jornal O Século), começando pouco tempo depois a colaborar também n’O Mosquito (1944).

A propósito desse (suposto) aniversário e da ida de Jayme Cortez ao Festival de Lucca, a editora brasileira Ebal (onde contava também numerosos amigos) dedicou-lhe um artigo que apareceu nalgumas das suas revistas. Figura imensamente respeitada no seu meio profissional — como especialista de temas fantásticos e de terror, mestre de desenho  na Escola Panamericana de Arte, autor de filmes publicitários e de cartazes de cinema, director artístico de várias editoras (com destaque para a La Selva), e amigo de Maurício de Souza, Álvaro de Moya, Messias de Melo, Flávio Colin, Reinaldo de Oliveira e outras ilustres personalidades dos “quadrinhos” brasileiros —, Cortez já estivera várias vezes em Lucca, uma delas em 1975, para receber o prémio Yellow Kid (o mais importante do Festival) em nome de Adolfo Aizen, presidente e fundador da Ebal, a quem o foi entregar assim que regressou ao Brasil.

Por esse facto, ligando os dois eventos, o de 1975 e o de 1986, a editora brasileira prestou uma singela, mas fervorosa homenagem a Jayme Cortez, já noutra fase da sua vida e da sua carreira (e infelizmente também já perto do fim, pois faleceu, de doença repentina, em 5 de Julho de 1987), publicando o artigo que a seguir reproduzimos e cujo interesse documental e histórico é inútil sublinhar, pois bastam, como comprovativo, as fotos que o ilustram (e em que figura outro artista português radicado em terras brasileiras: Monteiro Filho).

CONVERSA(S) SOBRE BANDA DESENHADA

Sábado, 8 de Julho, às 16h00, na Bedeteca José de Matos-Cruz (Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana), mais uma sessão do ciclo Conversa(s) sobre Banda Desenhada, desta vez com Jorge Magalhães & Catherina Labey, autores que estiveram estreitamente ligados à 5ª série d’O Mosquito, da Editorial Futura (1983-1986).  

EXPOSIÇÃO “QUADRADINHOS PORTUGUESES” NA CIDADELA DE CASCAIS

Esta exposição, comissariada por José de Matos-Cruz — e patrocinada pela Câmara Municipal de Cascais e pela Fundação D. Luís I, no âmbito da programação do Bairro dos Museus —, será inaugurada no próximo sábado, dia 24 de Junho, às 19h00, na Cidadela de Cascais, ficando aberta ao público até 3 de Setembro do corrente ano.

Como consta do cartaz acima reproduzido, nela figuram também trabalhos de dois mestres da BD portuguesa, José Garcês e José Ruy, cuja notável carreira está intrinsecamente ligada, nos anos 1940/50, ao nome d’O Mosquito. Outros dois autores consagrados, Victor Mesquita e Renato Abreu, participaram na 5ª série d’O Mosquito, lançada em 1984 pela Editorial Futura.

OS MOSQUITOS, O PAPA E A HIGIENE

Ouvimos, ainda não há muito tempo, o Papa Francisco, de visita a alguns países africanos, declarar que tinha mais receio das picadas dos mosquitos que dos ataques terroristas, numa altura em que todas as atenções estavam concentradas na ameaça que representam os grupos de fanáticos islâmicos, cujos atentados têm provocado inúmeras vítimas em vários pontos do mundo.

Ora as afirmações do Sumo Pontífice deixaram-nos um pouco tristes, porque somos defensores dos mosquitos, mesmo daqueles que têm pior fama e que todos consideram, vulgo vulgaris, como maléficos e indesejáveis. Coitados, eles não têm culpa de ser assim, ao contrário dos terroristas que matam indiscriminadamente em nome do seu fanatismo religioso. É verdade que os mosquitos também gostam de sangue e que é através do sangue que transmitem muitas doenças aos seres humanos. Há cerca de dois anos até apareceu uma nova e mortífera praga causada por mosquitos de uma espécie baptizada com um nome esquisito (que toda a gente pronunciava com temor): Zika!

Mas, tal como nós, eles são seres vivos que fazem parte da maravilhosa rede da Natureza e que, se fossem totalmente exterminados, fariam decerto falta ao equilíbrio dessa imensa e intrincada rede, em que todos têm uma função específica a desempenhar em prol da sobrevivência comum. Isto pode parecer um paradoxo, no que toca aos mosquitos e a outras espécies nocivas para a humanidade, mas estamos certos de que a Natureza sabe o que faz!…

É claro que nem todos os mosquitos têm uma fama tão detestável, pela simples razão de que há um Mosquito nascido em 1936, numa humilde tipografia, que foi durante algumas décadas o encanto e o companheiro inseparável da juventude portuguesa. E vocês sabem bem que o seu simpático nome logrou até vencer a barreira do tempo e do esquecimento e chegar aos nossos dias revestido da mesma relicária fama de outras eras!

Mas vem este intróito a propósito de um curioso opúsculo que encontrei, em tempos, numa banca de livros usados, e que tem uma idade ainda mais venerável que a do nosso bem-amado O Mosquito, pois foi impresso em 1927 e editado pela Cruz Vermelha Portuguesa, a partir de uma idêntica versão americana. Recheado de belas ilustrações — embora num estilo também antiquado — e de eficientes conselhos de saúde, destinava-se às crianças, alertando os responsá- veis pelo seu bem-estar para um certo número de práticas e de cuidados hygiénicos que era preciso seguir naquele tempo (e, em muitos casos, ainda hoje) para prevenir os malefícios e as doenças mais comuns.

Como já tem 90 anos, é natural que a sua ortografia nos pareça, nos tempos de hoje, um pouco estranha e até quase incompreensível. Damos como exemplo o seu próprio título: Princípios de Hygiene. Mas vale a pena folheá-lo atentamente, apreciando os seus conselhos e as suas inúmeras ilustrações. Nalgumas páginas surgem advertências contra as moscas e os mosquitos malfazejos propagadores de doenças que podem causar a morte a outros seres vivos, sobretudo  aos humanos, como a malária e o paludismo. Por isso, não admira que eles figurem numa lista negra, como os mais perigosos terroristas que enxameiam o mundo moderno.

Já aqui dissemos o que pensamos dessa gente. Quanto aos mosquitos que gostam de sugar o nosso sangue, esses devemos também evitá-los, mas olhando-os de outro modo, talvez com mais tolerância, porque, no fundo, têm tanta consciência do mal que nos fazem como da sua própria razão de existir.

E aqui ficam, para vosso conhecimento, algumas ilustrações do antiquíssimo fascículo com que a benemérita Cruz Vermelha presenteou os cidadãos americanos, franceses e portugueses (e certamente de outros países), numa época em que o Papa Bergoglio (ou Francisco, como todos o tratam) ainda não era nascido.

Por curiosidade, fiquem a saber que ele veio ao mundo no mesmo ano que o nosso O Mosquito… o que é, sem dúvida, uma boa coincidência!

 

SANTO ANTÓNIO NA BANDA DESENHADA

Tendo como base a apresentação das pranchas originais, da autoria de José Garcês, do álbum publicado em 2016, pela Europress, sobre a vida de Santo António, o Museu de Lisboa – Santo António desafiou a Bedeteca de Lisboa a identificar a presença deste célebre Santo português (de seu nome Fernando de Bulhões) na Banda Desenhada.

O resultado dessa investigação traduz-se nesta exposição, onde a figura de Santo António tanto surge num contexto histórico e biográfico — em que José Garcês (autor que se estreou n’O Mosquito) é um dos expoentes máximos, entre os da sua geração —, ou associada às tradicionais festas populares ou ainda em tom jocoso relacionado com a sátira e a crítica social, trespassando as várias gerações de ilustradores portugueses, que (quase) obrigatoriamente o tinham de representar. Serão exibidos exemplares de José Garcês, mas também de Raphael Bordalo Pinheiro, Carlos Botelho, Filipe Abranches, João Paulo Cotrim e Pedro Burgos, Marcos Farrajota, Nuno Saraiva, Vítor Silva, entre outros.

Alguns destes autores e ilustradores estarão presentes na inauguração. A entrada é livre e sujeita à lotação do espaço. Morada: Largo de Santo António da Sé, 22, Lisboa.