“A ILHA DO CORVO QUE VENCEU OS PIRATAS” (POR JOSÉ RUY)

Uma nova criação em Banda Desenhada de José Ruy, em homenagem ao estóico povo corvino que, no século XVII, venceu um ataque de piratas à sua ilha.

O depoimento e as fotos que se seguem, sobre este álbum em que participaram activamente alguns ilhéus, como modelos das principais personagens, e o seu lançamento, no passado dia 15 de Julho, com a presença do autor e do editor, de numerosos populares, de altas individualidades da ilha e de outros organismos, foram-nos gentilmente enviados pelo próprio José Ruy, cuja valiosa colaboração continua assim a enriquecer os nossos blogues. Muito obrigado, Mestre!

«Tudo começou em 2016, quando o coordenador do Ecomuseu do Corvo me convidou para realizar em Quadradinhos o episódio heróico de como, em 1632, os corvinos repeliram uma frota de piratas berberes, apenas com pedras do vulcão.

José Ruy (à esquerda, na foto) com Eduardo Guimarães, coordenador do Ecomuseu do Corvo, tendo por fundo a escarpa onde os corvinos fizeram frente aos piratas.

A construção desta história em Quadradinhos foi muito trabalhosa, e primeiro comecei por desenhar a própria população, que figurou como personagens do século XVII.

A 15 de Julho de 2018, foi lançado na Ilha do Corvo o livro. Esta edição tem, pela primeira vez no Arquipélago, uma distribuição pelas nove ilhas, através da Direcção Regional da Cultura. A Âncora Editora garante a colocação nos postos de venda do continente.

Num ponto estratégico, junto ao local onde os corvinos repeliram os piratas, a Câmara Municipal da ilha mandou fazer um painel de azulejos com a imagem da capa do livro, representando esse acto heróico.

Após o descerramento, o Padre João Carlos benzeu o painel e a assistência. Por cima de onde foi colocado o painel, em duas eiras comunitárias, realizou-se o lançamento do livro. Presentes na mesa, o editor, o presidente da Câmara e o representante da Direcção Regional da Cultura. Projectei um PowerPoint com o resumo de como foi concebida a história.

Depois da apresentação, foi realizada uma encenação de partes fulcrais do livro, em que os corvinos que me serviram de modelo e que se encontravam misturados com a assistência, representaram o seu papel na história em Quadradinhos. Foi uma surpresa para todos os presentes, em que, para além da população, se encontravam vários turistas. Esses, com certeza, aproveitaram a edição inglesa, de que reproduzimos também a capa.

Uma nota curiosa foi a ideia, que partiu do Ecomuseu do Corvo, em fazer um rótulo para as garrafas de água que serviam a mesa da apresentação e todas as pessoas presentes. Para verem melhor, mostro-o planificado».

(Fotos gentilmente cedidas por Rui Moreira e Ecomuseu do Corvo. Uma completa reportagem, também com texto de José Ruy, sobre a elaboração deste álbum, dividida em várias partes e abundantemente ilustrada, pode ser vista no blogue BDBD, dos nossos colegas e amigos Carlos Rico e Luiz Beira. Um trabalho a não perder, digno do talento e da versatilidade que são apanágio de Mestre José Ruy, o mais antigo colaborador do saudoso “O Mosquito” ainda em actividade).

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MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 4

A minha adaptação ao novo processo de Rotogravura no Diário de Notícias, foi rápida. Fiquei com a categoria de oficial montador e retocador de Offset e Rotogravura.

Aproveitava todos os intervalos, entre o terminar de um trabalho e o início do seguinte, para desenhar colegas e máquinas.

Este, que vemos a trabalhar, era o impressor tipográfico da nossa secção, a tirar provas do texto em chumbo num prelo, sobre papel celofane, que eram depois montadas nas paginações das revistas destinadas a serem impressas na Rotogravura. Chamava-se Cara de Anjo, nome que eu, ao princípio, julgava ser alcunha; só quando tive de me dirigir a ele, e para não o tratar como toda a gente pela alcunha, o que me pareceu desagradável, lhe perguntei o nome verdadeiro, me respondeu que era mesmo esse. Nunca tinha antes ouvido tal nome próprio. O Rodrigo entrou no Diário de Notícias como meu aprendiz, pois a intenção da gerência era formar pessoal para essa especialidade gráfica.

Acabámos por nos tornar bons companheiros de trabalho.

Naturalmente que o utilizei como personagem das Histórias em Quadrinhos.

Os croquis eram feitos com muita rapidez, para apanhar a frescura da posição e o movimento. Desse modo, não prejudicava o trabalho que tínhamos em curso.

Nessa altura, em 1954, iniciei a minha colaboração com histórias em quadrinhos num Número Especial d’O Cavaleiro Andante, com a vida de «Gutenberg». O Rodrigo personalizou essa personagem, quando jovem.

O plano era impresso nos cadernos a duas cores numa face, e a uma cor no verso. Esta página mostra a impressão só a verde, em que o traço ficou como se fosse a negro e as meias-tintas aparentam como se fossem de uma segunda impressão.

O Rodrigo, quando viu a última vinheta [página seguinte], com o cavaleiro do século XV, sugeriu-me que fizesse uma história com as aventuras de um «cavaleiro andante».

Realmente fazia todo o sentido, seria um herói a corresponder ao título da revista. Mas pensei que isso seria tarefa para o Fernando Bento. No entanto, na redacção nunca deram seguimento a essa ideia, e o Bento limitou-se a fazer só algumas capas com a figura alusiva ao título, para comemorar alguma data festiva.

No próximo artigo: «Os colegas que queriam ser desenhados» e «O começo da colaboração na revista semanal».

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 3

Depois da interrupção forçada da publicação desta história [«O Reino Proibido»] em O Mosquito, como contei nos artigos anteriores, entreguei em mão ao Raul Correia as duas últimas pranchas, que ele fez publicar a partir da semana seguinte. Mas algo se modificara no jornal.

Raul Correia tinha decidido alterar mais uma vez o formato, desdobrando a folha de máquina e, desta maneira, ficando com metade das páginas, pois o formato de cada uma, agora, ocupava duas das anteriores.

Como eu sempre fiz os originais ao dobro, ou seja, quatro vezes o tamanho da publicação, para o novo formato ainda reduziu um pouco.

As duas últimas páginas de «O Reino Proibido», publicadas n’O Mosquito nºs 1385 e 1386

Como este final da narrativa saiu nas páginas do interior do jornal, não levaram cor. O rapaz que me servia de modelo para essa história era um conhecido do Coelho, que pertencia a uma corporação de bombeiros. À noite, ia ao nosso ateliê, na Calçada do Sacramento, para posar.

Mostro, a seguir, alguns estudos para as figuras da última página.

Capa d’O Mosquito, no novo formato 30x22cm, onde terminou «O Reino Proibido» (nº 1386)

O Eduardo Teixeira Coelho voltara a colaborar nas páginas do jornal, com uma das suas melhores fases, ilustrando os contos de Eça de Queirós. Dois números a seguir a este, no 1388, iniciou ele o «São Cristóvão», que ficaria incompleto pela interrupção da publicação, ao fim de dezassete anos de vida, não conseguindo resistir à poderosa concorrência do Cavaleiro Andante e do Mundo de Aventuras. Faltou-lhe o «dedo mágico» do Tiotónio para reverter a situação, mas este encontrava-se no Brasil, em outras actividades.

A minha, além da paixão pela ilustração, era a arte gráfica, e foi por essa via que fui convidado a ingressar na equipa da «rotogravura» (gravura em cobre) do conceituado Diário de Notícias.

Estava em projecto um semanário de actualidades, que se chamaria Esfera, dirigido pelo Leitão de Barros. O Coelho seria o colaborador artístico principal e eu teria a função de paginar, desenhar cabeçalhos e algumas ilustrações; e como faltavam técnicos disponíveis para o processo de «rotogravura», acharam que a minha experiência no «offset» daria para me adaptar na montagem e retoque dos positivos fotográficos.

Assim foi e contrataram-me logo nessa altura, para quando a revista saísse estar logo operacional. Afinal, a revista não chegou a publicar-se, pois era necessária uma rotativa de «rotogravura» só para essa publicação e a administração da empresa tentava resolver a questão só com uma máquina de impressão «Mailander», à folha, onde imprimiam parte do Cavaleiro Andante, e que pela sua lentidão não garantia a cadência necessária. Foi o próprio Leitão de Barros quem os alertou e rescindiu o contrato.

E eu fiquei durante seis anos, acabando por me especializar no processo. Mas continuava a fazer histórias em quadrinhos.

No próximo artigo: «A minha primeira história no Cavaleiro Andante»

PÁGINAS DE ANTOLOGIA: “LEVEM-ME NESSE SONHO” (TEXTO E DESENHOS DE JOSÉ RUY)

Nas páginas verdadeiramente antológicas que hoje vos apresentamos — extraídas de um dos melhores álbuns de Mestre José Ruy, “Levem-me Nesse Sonho” (“História da Cidade da Amadora em Banda Desenhada”, 1992, Edições ASA) —, são evocadas algumas das maiores figuras da BD portuguesa, como Zé Pacóvio e Grilinho, criadas por António Cardoso Lopes Júnior, o Tiotónio de mítica memória, colaborador de revistas como o ABCzinho, o Senhor Doutor, o Tic-Tac e O Mosquito, tendo nesta última (que fundou em 1936, juntamente com Raul Correia) assumido também o cargo de director artístico.

A par d’O Mosquito e do Tiotónio, desfilam neste álbum outras famosas revistas de BD e outros autores ligados ao património histórico da BD portuguesa, como Rafael Bordalo Pinheiro, E.T. Coelho e Mariana Cardoso Lopes, a carismática Tia Nita, directora d’A Formiga, suplemento feminino d’O Mosquito, que fez as delícias das raparigas e dos rapazes dessa época.

Por outras palavras, neste álbum, além da história da cidade da Amadora (antiga Porcalhota), perpassam também alguns dos vultos heróicos de uma época pioneira que deu às histórias aos quadradinhos os seus primeiros títulos de nobreza. Um álbum que nasceu dos sonhos de Mestre José Ruy — que também é um dos grandes pioneiros da BD portuguesa —, os sonhos com que ele homenageou, de forma inspirada, a cidade onde nasceu, reside e trabalha, e a Arte a que dedicou grande parte da sua vida, os sonhos que ainda hoje continuam a alimentar a sua fecunda carreira artística, o seu espírito criativo, a sua inesgotável imaginação.

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 2

No artigo anterior publicado neste blogue descrevi como voltei a ser colaborador d’O Mosquito, em 1952, desta vez com uma história em quadrinhos. Nesta altura da vida d’O Mosquito, a impressão era executada na gráfica Irmãos Bertrand e não na oficina histórica, e as cores já não eram feitas por mim em litografia.

Nesse ano de 1952, trabalhava já em publicidade no atelier do Manuel Rodrigues, com Sebastião Rodrigues, grandes criadores gráficos. Fazíamos de tudo, desde embalagens, logótipos, montras e organização de exposições para organismos e empresas que queriam mostrar o desenvolvimento da sua produção.

Atelier de Sebastião Rodrigues

Eis um exemplo do nosso trabalho nesse atelier. Em cima, à esquerda, uma exposição sobre obras públicas; não nos cingíamos a apresentar na parede os mapas e gráficos, construíam-se uns móveis próprios para receber a exposição, sempre diferentes. Utilizávamos os serviços de uma serração que ficava perto do atelier, na Rua de São Pedro de Alcântara.

Na foto ao centro, poso ao lado de Sebastião Rodrigues, segurando um globo em acrílico que íamos decorar para figurar numa montra. À direita, cartazes já executados para algumas companhias de aviação.

Eu era um dos quatro elementos residentes, mas em alturas de grandes montagens, como na Feira Popular ou na Feira das Indústrias, em Lisboa, juntávamos mais colegas ao grupo.

Nesta foto, a partir da esquerda e a seguir a mim, o Leonildo Dias e o Abreu Lima, antigos colegas da Escola António Arroio, o Sebastião Rodrigues, o Costa Pinheiro, que partiria para a Alemanha, a fazer carreira; em 1º plano, um primo do Sebastião, cujo nome não recordo, e o Vasco Lapa, que engendrava sempre maneira de abrilhantar as montras, com uma qualquer corda de grafonola para mover elementos expostos, luzes intermitentes, reóstatos e outras coisas…

O Manuel Rodrigues, o chefe do atelier, foi o fotógrafo, por isso não apareceu na imagem. Era, de uma maneira geral, com estes colegas que fazíamos os grandes eventos.

Também aí eu ia desenhando os colegas. Na imagem ao lado: um apontamento do Vasco Lapa a pintar sobre um painel; e em baixo: o Leonildo Dias num momento de repouso. Qualquer papel servia para base, até folhas de um catálogo da Casa Ferreira, das tintas. Eram instantâneos rápidos sem perder muito tempo.                                                                                 Nos serões livres continuava a desenhar «O Reino Proibido», no atelier que mantinha com o Eduardo Teixeira Coelho, numa cadência de duas páginas semanais, e mais as capas que o Raul Correia me pedia.

De repente, surgiu-nos a encomenda de uma grande exposição em Coimbra, na Universidade, e tive de partir com a equipa para a Cidade Universitária. Lá não tinha condições para fazer as pranchas para O Mosquito. Como mantinha um avanço de algumas semanas, calculei que isso me daria tempo até acabarmos a exposição e regressarmos a Lisboa, sem falhar a publicação.

A história ia já em 26 páginas e o seu desfecho aproximava-se do fim, mas a situação em que deixara as personagens era dramática. Depois dos «heróis» da aventura terem fugido da tribo que os detinha prisioneiros, conseguiram alcançar um rio. Aí apoderaram-se das pirogas de uns pescadores indígenas e navegaram em direcção à foz, para chegarem à costa oceânica e conseguirem que algum navio os levasse para a Europa.

Página publicada n’O Mosquito nº 1359, de 2/7/1952

Mas, em dada altura, um grupo de hipopótamos implicou com as embarcações, pondo em risco a sua navegação. Remando vigorosamente, estavam a afastar-se dos paquidermes, quando os crocodilos que se encontravam na margem resolveram complicar mais a vida dos nossos heróis, isto na prancha 26.

Em Coimbra, depois de tudo montado e feita a inauguração, pensávamos regressar ao atelier, quando nos convidaram para outro trabalho numa das salas da Universidade e tivemos, nós os residentes do atelier, de ficar em Coimbra mais uma semana.

Entretanto, esgotou-se o avanço que eu tinha na história d’O Mosquito e não podia salvar as personagens do perigo em que as deixara, devido ao inesperado aumento de trabalho. Na altura, não havia a facilidade de comunicações que existe hoje e limitei-me a escrever um postal ao Raul Correia, a preveni-lo. Ele ficou desolado e escreveu no jornal que «devido a doença do nosso colaborador …», como justificação da ausência das páginas.

Página publicada n’O Mosquito nº 1360, de 5/7/1952

Terminada a tarefa das exposições, regressámos finalmente a Lisboa, mas havia trabalhos atrasados no atelier que obrigaram a mais uns serões urgentes.

Entretanto, o Raul Correia havia-me respondido por carta ao meu postal, e como não tinha outro endereço, enquanto eu estava em Coimbra, enviou-a para casa dos meus pais, onde eu vivia. Havia já umas semanas que O Mosquito não publicava a história, mas como a publicação era bissemanal as falhas foram a dobrar.

A carta do Raul Correia era amarga, embora muito delicada, apelando para o meu sentido de responsabilidade em cumprir os prazos, e depois terminava assim: «seu ex-conde» e assinava. Isto foi o que percebi pela caligrafia manuscrita. Julguei que fazia humor com a situação, que era dolorosa para mim, pois estava muito incomodado por falhar.

Respondi, também por carta, para a nova redacção d’O Mosquito, na Editorial Organizações, explicando que o motivo da falha não era por negligência, mas por um caso de força maior, devido ao meu trabalho base. E, no final, jocosamente acrescentei «ex-plebeu», como réplica ao facto de ele se intitular ex-conde.

Página publicada n’O Mosquito nº 1350, de 31/5/1952, com a respectiva capa

Apressei-me a fazer duas pranchas para finalizar a história (27ª e 28ª) e passei pelo Hotel Avenida Palace, onde o Raul Correia era gerente, para as entregar em mão, por ser mais rápido. Recebeu-me com o seu ar respeitoso e amável, e de repente soltou uma gargalhada espontânea. Fiquei perplexo, pois estava à espera de um ralhete dos grandes.

Explicou-me, de seguida, a sua atitude. O que ele havia escrito no final da carta, era «ex-corde», o que significa, em latim, «do coração». Eu entendi o «r» por um «n», devido à sua caligrafia, e como não estudara latim desconhecia a frase. Acabámos a rir os dois, pela minha ingenuidade e desconhecimento das línguas mortas.                                                                          (continua)

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 1

Iniciamos hoje, com o maior prazer, a publicação de uma série de artigos assinados por um dos nomes mais prestigiosos da BD portuguesa, cuja longa carreira recheada de êxitos já abarca mais de sete décadas.

José Ruy é, de facto, um caso espantoso de longevidade e amor à arte da ilustração, com obra dispersa por inúmeros jornais, livros, revistas e álbuns. Ainda hoje a sua actividade se espraia por vários domínios, incluindo o de autor memorialista, em homenagem, sobretudo, à época de ouro da BD portuguesa, durante a qual aprofundou os seus conhecimentos e o seu virtuosismo artístico, cimentando as relações profissionais e os laços de amizade com outros nomes ilustres da 9ª Arte portuguesa, como E. T. Coelho, António Cardoso Lopes Jr., Raul Correia, Roussado Pinto, Adolfo Simões Müller e muitos outros.

Um dos seus maiores títulos de glória é, sem dúvida, o de ser presentemente o único autor de BD (ou histórias em quadrinhos) dessa época que se mantém ainda em actividade, com uma produção vasta e assinalável, mesmo nos últimos anos.

A José Ruy, que muito nos honra com esta valiosa colaboração, os melhores agradecimentos d’O Voo do Mosquito, um blogue dedicado à emblemática revista onde colaboraram alguns dos maiores mestres da BD portuguesa e onde José Ruy foi também presença marcante, como minuciosamente nos elucida, com a sua prodigiosa memória, nestes primeiros artigos, enriquecidos também com algumas imagens inéditas.

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (1)

Por José Ruy

No início da década de 1950, partilhava um atelier com o Eduardo Teixeira Coelho, na Calçada do Sacramento, ao Carmo, em Lisboa. Por essa altura, colaborámos na exposição de Histórias em Quadrinhos, no Palácio da Independência, a primeira feita em Portugal, e eu esboçara uma prancha, como exemplo do desenrolar do processo de trabalho, para estar exposta [que mostramos a seguir].

Repare-se que as primeiras vinhetas estão ainda em esboço, enquanto a última tem já o acabamento a tinta-da-china. A razão disso é para evitar arrastar o lápis, com a mão, sobre as vinhetas inferiores, enquanto trabalho as de cima. Costumo começar o desenho por baixo, da direita para a esquerda, e quando este está coberto a Nankim (tinta da china), sigo para os outros, da última vinheta para a primeira.

Em cada vinheta, esboço ligeiramente a lápis as figuras nas posições que pretendo, e depois utilizo o modelo vivo. Na vinheta 5, só uma das personagens já está desenhada em definitivo. Esta história ficara sem seguimento, pois tratava-se apenas de um exemplo para a exposição.

Mas o tema era o da minha preferência, os animais, e o melhor ambiente para os localizar tinha naturalmente de ser o continente africano. Comecei a desenvolvê-la, com a intenção de a publicar n’«O Mosquito».

Dei-lhe o título de «O Reino Proibido», e a trama do argumento andava à volta de uma tribo da região de África que se opunha à passagem de um caçador pelo seu território, criando uma série de problemas.

Surgira entretanto, havia pouco tempo, a revista «Cavaleiro Andante» e o Coelho, que tinha entre mãos uns trabalhos de publicidade e fizera uma interrupção na colaboração n’«O Mosquito», aconselhou-me a tentar antes publicar a história nessa nova revista, pois como pertencia ao «Diário de Notícias» pagavam melhor a colaboração. Além disso, no «Cavaleiro Andante» fora publicado um pedido da Direcção para que jovens autores levassem histórias desenhadas, de modo a poderem ser publicadas.

Hesitei, mas ele encorajou-me em face do nível já alcançado. Enrolei três pranchas e levei-as à redacção do «Cavaleiro Andante», que era no próprio edifício do «Diário de Notícias», e deixei-as à secretária do Adolfo Simões Müller, o director, para apreciação.

Passadas duas semanas, como não recebesse resposta, resolvi lá voltar, pois pensei que podiam ter perdido o meu contacto. Reparei que o rolo estava no mesmo sítio em que o deixara. Achei estranho que em duas semanas não tivessem a curiosidade de ver o que eu levara. Delicadamente, disse que pretendia acrescentar algo nos originais e se podia levá-los, o que me pareceu ser um «alívio» para a secretária. Trouxe comigo a história, sem vontade de lá voltar.

Também o E.T. Coelho achou estranho esse desinteresse e o destino da história foi mesmo «O Mosquito» [a partir do nº 1335, de 9 de Abril de 1952].

Página de «O Reino Proibido» publicada n’«O Mosquito» nº 1336, de 12/4/1952.

O Raul Correia [director d’«O Mosquito»] ficou satisfeito e, além dessa narrativa ilustrada, fiquei também a fazer capas sobre outras histórias que o jornal publicava, de origem estrangeira. O Coelho nessa altura, como referi, estava ocupado a fazer publicidade, capas de livros e desenhos para o jornal «O Século». Deixara um vazio no velho «O Mosquito» [depois da publicação de «Os Doze de Inglaterra]. O meu papel foi, modestamente, preencher essa lacuna com as minhas parcas possibilidades.

Algumas capas de José Ruy, com destaque para a história «O Reino Proibido». O cabeçalho d’«O Mosquito» também foi desenhado por ele.

JOSÉ RUY E CAROLINA BEATRIZ ÂNGELO

Texto de José de Matos-Cruz

carolina-beatriz-angeloA vertente histórica, com características pedagógicas de reflexão ou testemunho, continua a revelar-se, em banda desenhada, uma das alternativas mais aliciantes e populares, conjugando a expectativa de editores e criadores, ao interesse das instituições e dos leitores de todas as idades.

Tendo-se especializado, pelos últimos anos, na revisão de ocorrências do passado, recente ou remoto, através do perfil dos seus eventuais protagonistas, ou das ocorrências mais relevantes, José Ruy concretiza outras propostas de revitalização, em incidências exemplares e implicações primordiais: eis o álbum Carolina Beatriz Ângelo (1878-1911) — um lançamento com chancela Âncora, sobre a Pioneira Na Cirurgia e No Voto, sendo consultor científico João Esteves.

Para esta «figura de vulto da Medicina Portuguesa», também «a primeira mulher portuguesa a votar nas eleições para a Assembleia Constituinte» de 1911 — palavras de Jaime Teixeira Mendes, Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos —, maçónica e republicana, José Ruy convoca um instantâneo fotográfico por Joshua Benoliel da Illustração Portugueza, ou a evocação emocionada da escritora e amiga Ana de Castro Osório.

joseruycarolinabangelo

Testemunhando, solidário, os desafios singulares e os ideais colectivos, como artista talentoso, versátil, em afecto também pelo homem afável, generoso, José Ruy é — sobretudo — um autor português que, através das histórias em quadradinhos, delineou o carácter com que nos posicionamos, na realidade. Inspirando o melhor da fantasia e dos anseios, em que perspectivamos uma sociedade mais justa.

Nota: Texto de José Matos-Cruz previamente publicado no seu blogue Imaginário-Kafre, de onde o reproduzimos, com a devida vénia — http://imaginario-kafre.blogspot.pt/2017/02/imaginario-extra-jose-ruy-e-carolina.html

Importa salientar (como já fizemos várias vezes), que Mestre José Ruy foi colaborador, durante largos anos, da 1ª série d’O Mosquito e editor/director da 2ª série (1960-61), em parceria com Ezequiel Carradinha. Essa série durou apenas 30 números, mas continua a ser muito apreciada por ter contribuído para manter vivo o “espírito” d’O Mosquito, com as suas criações e os seus heróis mais emblemáticos, transmitindo essa inestimável herança artística às gerações futuras.

Roussado Pinto, que também colaborou nesta 2ª série, seria um dos continuadores do sonho de José Ruy, ao lançar dez anos depois o Jornal do Cuto, cujas páginas estavam recheadas de memórias d’O Mosquito — como o nosso blogue tem frequentemente referido.