CANTINHO DE UM POETA – 33

Eis mais um sugestivo poema de Raul Correia (o “misterioso” e carismático Avozinho, cuja maneira de escrever e de versejar tão indeléveis recordações deixou aos leitores d’O Mosquito), ilustrado como habitualmente por José Batista (Jobat) e publicado no Jornal do Cuto nº 14, com data de 6/10/1971.

CANTINHO DE UM POETA – 32

O lirismo do Avozinho — que atinge uma expressão de pungente mágoa em muitos dos seus poemas repassados de saudade, em que assume ipsis verbis o fado de um homem mais velho, cujos passos já se aproximam do fim do caminho —, recheia também o estro do seu “duplo” Raul Correia, que só no Jornal do Cuto se libertou, como poeta, do véu do anonimato. Verdade se diga que n’O Mosquito a aura (quase mítica) do Avozinho e da sua musa empalideceu o brilho do novelista que escrevia e traduzia histórias de acção, mau grado a popularidade destas na revista.

“O Poço Velho” — poema extraído do Jornal do Cuto nº 8, de 25/8/1971, com a habitual ilustração de Jobat — é um típico exemplo dessa faceta do Avozinho, que despertava no espírito dos seus jovens admiradores um caudal de emoções que eles próprios não entendiam muito bem, mas que os aproximava ainda mais, numa íntima e ardente comunhão, da figura tutelar desse bondoso “velhinho”. Cujo mistério explica a longevidade do lírico versejador que renasceu das cinzas no Jornal do Cuto, fundindo-se pela primeira vez com a personalidade literária de Raul Correia.

CANTINHO DE UM POETA – 31

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Nesta quadra, vem a propósito recordar uma exortação ao Ano Novo que se mantém actual, do princípio ao fim, mostrando a veia humorística de Raul Correia — ou, por afinidade, do Avozinho (e os exemplos abundam, ao folhearmos O Mosquito) —, publicada no Jornal do Cuto nº 126, de 31 de Dezembro de 1975, com uma curiosa ilustração de Carlos Alberto Santos.

CANTINHO DE UM POETA – 30

Mais um poema em prosa com o cunho inconfundível de Raul Correia (o saudoso Avozinho d’O Mosquito), que o Jornal do Cuto reeditou no seu último número natalício (#172, de 1/12/1977), ilustrado a preceito por Carlos Alberto Santos, principal colaborador artístico de outro grande pioneiro da BD portuguesa, Roussado Pinto, naquele que foi um dos seus últimos e mais ambiciosos projectos editoriais — onde a lira poética do Avozinho e o estro literário de Raul Correia renasceram das cinzas do passado.

CANTINHO DE UM POETA – 29

Eis outro poema em prosa de Raul Correia, com o tom lírico e piedoso que tanto encantava e comovia os fiéis leitores do Avozinho — uma legião disciplinada e atenta que nas páginas d’O Mosquito descobria o valor das palavras e refinava sentimentos e emoções —, dado à estampa no Jornal do Cuto nº 15, de 13/10/1971, com a habitual ilustração de José Batista (Jobat), outro grande amigo e admirador de Raul Correia (e do seu mítico “duplo”, o Avozinho).

CANTINHO DE UM POETA – 28

CARLOS ALBERTO E RAUL CORREIA

Hoje, em vez da habitual ilustração de Jobat, o poema de Raul Correia (o célebre Avozinho d’O Mosquito) é ilustrado por Carlos Alberto, outro excelente colaborador do Jornal do Cuto, que em 1972 trocou a Agência Portuguesa de Revistas, onde trabalhava há mais de 20 anos, pela Portugal Press, do seu amigo de longa data Roussado Pinto, encetando uma nova fase da sua carreira, em que utilizou com frequência o pseudónimo de M. Gustavo, inspirado pelo nome do seu compositor musical favorito: Gustav Mahler.

Carlos Alberto Santos, assinatura que também se encontra em muitos dos seus trabalhos, deixou o mundo dos vivos no passado dia 1 de Novembro, com grande mágoa de todos os admiradores da sua vasta e magnífica obra como pintor e ilustrador.

Entre os artistas gráficos da sua época  (a segunda “idade de ouro” da BD portuguesa), foi sem dúvida um dos mais talentosos, mas a sua personalidade modesta e reservada impediu-o sempre de ascender ao estatuto de “celebridade”, com que a fama e o reconhecimento público consagraram outros autores da mesma craveira.

Na última fase do Jornal do Cuto (1976-78), Carlos Alberto substituiu José Batista (Jobat) — que regressara à sua terra natal, Loulé, para se dedicar a outras actividades —, como ilustrador dos poemas em prosa e em verso de Raul Correia, com quem, aliás, colaborou assiduamente na editora Amigos do Livro, de onde saíram dois dos seus melhores trabalhos, Histórias do Avozinho e Vida de Jesus, ambos com texto do escritor e poeta que tanto admirava — ao ponto de ilustrar também um dos seus livros de versos: O Comboio de Corda (cuja capa, muito curiosa, exemplo da versatilidade do notável artista, a seguir reproduzimos).

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Nota: o poema “O Brinquedo Estragado” foi reproduzido do Jornal do Cuto nº 166, de 1/6/1977. A revista, que voltara à periodicidade mensal, suspendeu a sua publicação em Fevereiro do ano seguinte, no nº 174. Roussado Pinto, que editou também, com êxito, o Jornal do Incrível, faleceu em Março de 1985.

CANTINHO DE UM POETA – 27

Eis mais um belo poema de Raul Correia, de métrica perfeita e ritmo melódico — já com acordes outonais —, que extraímos do Jornal do Cuto nº 36, de 8/3/1972.

A ilustração de José Batista (Jobat), outonal também, reforça a ideia de que uma profunda afinidade se estabeleceu, desde o início, entre o poeta, criador de harmonias e de sonhos, e o artista gráfico, criador de linhas e de formas.