NO ANIVERSÁRIO DE ROUSSADO PINTO (14/7/1926)

Texto:  Jorge Magalhães

A capa com que abrimos este post é de um livro quase biográfico que Frank Gold, pseudónimo de Luís Campos (outro notável escritor policial português), dedicou a Roussado Pinto, metendo-se na pele de um dos seus mais célebres heterónimos, para o encarnar como “autor, personagem e mito”, e fingindo ser o herói da sua própria história.

Roussado Pinto nasceu em 14 de Julho de 1926. Se fosse ainda vivo, teria celebrado nesta data o seu 91º aniversário. Os homens passam e as obras ficam. Por isso, cabe-nos a nós, seus leitores, admiradores e amigos, evocar essa efeméride, honrando a sua memória e o seu nome, através de uma das realidades mais marcantes da sua existência: a obra incomensurável que nos legou, como escritor, jornalista e editor (dando primazia, nesta função, às revistas para os mais jovens e à banda desenhada).

Honrar o seu nome significa inevitavelmente recordar alguns dos pseudónimos que o celebrizaram, como os de Edgar Caygill e Ross Pynn. Usou-os em muitas obras, de maior ou menor importância e simbolismo na sua carreira, não porque quisesse passar, à força, por um escritor estrangeiro, mas porque sabia, com a sua profunda intuição literária, que esses nomes possuíam uma carga mítica que não se desvaneceria com o tempo, dando-lhe assim uma espécie de passaporte para a imortalidade.

Geralmente, na literatura policial (mas não só) os pseudónimos cristalizam-se como nomes reais, definitivos, fazendo esquecer os de baptismo. É assim também no cinema e noutras artes onde florescem a imaginação, o espírito, o onirismo e a fantasia. Actores e artistas perduram e mitificam-se na pele das personagens que criaram e dos nomes que adoptaram… às vezes, como no cinema, por imposição alheia.

Quanto a Roussado Pinto, sabemos que esse fenómeno de transfiguração não “matou” a identidade do criador — antes pelo contrário, tornou-a indissociável dos seus outros nomes, fundindo-os num mesmo corpus literário, que nenhum dos seus leitores desconhece. A fama e a forte personalidade do autor operaram automaticamente (e voluntariamente) essa simbiose. Mas nem todos os seus heterónimos tiveram vida longa…

Homenageamos hoje, a propósito do seu aniversário (como já fizemos noutras ocasiões), a memória deste lendário e infatigável novelista popular — autêntico trabalhador da “oficina do imaginário”, que dispersou humildemente a sua veia literária por uma enorme variedade de géneros —, dando a conhecer um artigo biográfico de Raul Ribeiro, extraído de uma publicação quase esquecida: o XYZ Magazine, edição do saudoso Sete de Espadas, outro grande nome da literatura policial, ou melhor, da “problemística policiária” portuguesa.

Apresentamos também algumas capas das inúmeras obras que Roussado Pinto escreveu com os seus dois pseudónimos mais famosos e com o seu próprio nome… por vezes, num registo neo-realista, bem diferente daquele a que nos habituou, como autor de romances e antologias policiais ou de novelas de aventuras. Sem esquecer que foi também argumentista de histórias aos quadradinhos e que criou e dirigiu alguns dos títulos mais emblemáticos da BD portuguesa, como O Pluto, Titã, Flecha, ValenteZakarellaGrilo e Jornal do Cuto.

No jornalismo, a sua coroa de glória foi, sem dúvida, o Jornal do Incrível, cujos destinos dirigiu com mão de mestre até ao dia em que o coração, mais uma vez, lhe falhou. E sem esperança de retorno… apesar de ter apenas 58 anos. Partiu o homem, mas ficou a lenda que há muito começara a tomar forma. E que ainda hoje povoa o imaginário dos que leram as obras de um tal Ross Pynn — personagem que, na realidade, nunca existiu!

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CANTINHO DE UM POETA – 35

Para variar do tom lírico, mostrando desta feita o jeito humorístico de Raul Correia (vulgo Avozinho), eis mais uma composição poética com fundo moralista, onde os seus atentos e fiéis leitores d’O Mosquito — e mais tarde do Jornal do Cuto (estes já mais crescidotes) — podiam colher sábios e proveitosos ensinamentos.

A ilustração tem o cunho habitual e a assinatura de José Batista (Jobat), e a rubrica — de presença obrigatória no Jornal do Cuto, reflectindo a enorme admiração que Roussado Pinto sentia pelo seu velho mestre e amigo, desde os tempos em que tinham trabalhado juntos n’O Mosquito — apareceu no nº 29, de 19/1/1972.

O BOLETIM DO CPBD CONTINUA EM PUBLICAÇÃO

O Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) acaba de editar o nº 143 do seu Boletim, com data de Fevereiro de 2017, um dos fanzines mais antigos em publicação, não só em Portugal como em toda a Europa, e que pela sua qualidade e longevidade merece ombrear com os melhores (como, aliás, tem sido realçado por vários especialistas).

Neste número, dedicado ao Titã — uma revista de BD dos anos 1950, editada pela Fomento de Publicações em moldes inovadores, mas que não teve o sucesso esperado, devido à forte concorrência do Cavaleiro Andante e do Mundo de Aventuras —, destaca-se um excelente artigo sobre este tema, da autoria de Ricardo Leite Pinto, sobrinho do saudoso Roussado Pinto, incontornável pioneiro da “época de ouro” da BD portuguesa, que no Titã exerceu as funções de novelista/argumentista, redactor principal e, a breve trecho, director, depois de ter saído do Mundo de Aventuras e da Agência Portuguesa de Revistas.

No Titã colaboraram também alguns desenhadores portugueses, já nessa época com largo e invejável currículo, como Vítor Péon, José Garcês e José Ruy, devendo-se a Péon e ao seu traço dinâmico a capa do 1º número e a história “Circos em Luta”, cujo herói, criado por Edgar (Roussado Pinto) Caygill, se chamava nem mais nem menos… Titã!

Completa este número um artigo de Carlos Gonçalves sobre a magnífica arte de E.T. Coelho, com uma galeria de trabalhos deste grande desenhador para O Mosquito, que estiveram patentes, até há pouco tempo, numa exposição realizada pelo CPBD na sua nova sede.

As imagens reproduzidas neste post foram extraídas, com a devida vénia, do blogue Sítio dos Fanzines de Banda Desenhada, orientado por Geraldes Lino, cuja consulta recomendamos a todos os interessados por este aliciante tema que o mestre Lino conhece e aborda como poucos. Ou melhor dizendo, como ninguém!…

NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA – 10

Nesta rubrica, publicada entre os nºs 110 e 125 do Jornal do Cuto, Roussado Pinto desfiou muitas memórias d’O Mosquito e do tempo em que trabalhou na sua redacção, em contacto com Cardoso Lopes, E. T. Coelho, José Ruy, José Garcês, Stuart Carvalhais e outros grandes nomes da BD e das artes gráficas portuguesas.

No artigo que a seguir apresentamos, reproduzido do Jornal do Cuto nº 118, de 5/11/1975, Roussado Pinto evoca a figura de outro destacado colaborador d’O Mosquito, o novelista José Padinha, que por excessiva modéstia, ou por qualquer outro motivo, sempre assinou os seus trabalhos (mais de 30 novelas) com exóticos pseudónimos: Juan L. Guanche, Peter Tenerife, Gusmão Pó, J. Montesdeoca.

Aliás, o seu verdadeiro nome só se tornou conhecido muito tempo depois, graças à divulgação que dele fez Roussado Pinto no Jornal do Cuto e noutras publicações da sua editora, a Portugal Press, como a Colecção Juvenil Galo de Oiro, onde foram reeditadas, em 1973, duas novelas de Padinha: “A Nau Perdida” e “Maluna, a Espada Trágica”.

Como novelista, de estilo singular, “ao correr da pena” — que abordava, num ritmo febril, toda a espécie de temas aventurosos, criando, com exuberante fantasia, enredos mirabolantes e pitorescas personagens às quais deu também nomes bizarros —, José Padinha colaborou apenas n’O Mosquito, e por um breve período, entre 1943 e 1946. Depois disso, reapareceu subitamente na revista Flama, em 1950, assinando com um dos seus últimos pseudónimos, J. Montesdeoca, uma série de artigos (bem documentados) sobre alguns dos mais notáveis desenhadores portugueses dessa época: Eduardo Teixeira Coelho, Fernando Bento, Vítor Péon, José Garcês, José Ruy e Vítor Silva.

SECÇÃO DOS SÁBIOS – 1

No seu nº 5, de 4/8/1971, o Jornal do Cuto começou a apresentar uma curiosa rubrica intitulada Secção dos Sábios — que era, como muitas das histórias que ilustravam as suas páginas, oriunda também d’O Mosquito, o mítico jornal infanto-juvenil a que Roussado Pinto, director/editor do Jornal do Cuto, ficara também ligado por laços profissionais (pois trabalhou na sua redacção em 1947/48), e de profunda amizade e camaradagem com os seus dois directores e fundadores: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) e Raul Correia.

seccao-dos-sabios-mosquito-361-491O que distinguia a Secção dos Sábios de outras rubricas de curiosidades eram os magníficos desenhos de E.T. Coelho, um jovem artista fora de série que começara a colaborar n’O Mosquito (e na Colecção de Aventuras) em meados de 1942, não tardando a renovar por completo o aspecto gráfico do jornal com as suas exuberantes ilustrações para cabeçalhos, capas, contos e vinhetas decorativas de toda a espécie.

Graças ao contributo deste valioso elemento, cujo estilo dinâmico e harmonioso nunca parou de evoluir, atingindo em pouco tempo um grau de inaudita perfeição, O Mosquito transfor- mou-se na revista infanto-juvenil mais lida do seu tempo, sobretudo ao passar a publicar-se duas vezes por semana (desde o nº 361).

A par das capas e dos contos recheados de ilustrações de grande beleza e efeito estético, E.T. Coelho ocupou-se também, com evidente prazer, de pequenas rubricas de curiosidades, ora intituladas Coisas do Arco da Velha e Coisas e Loisas ou Curiosidades de Todos os Tempos e Curiosidades de Todo o Mundo, que mais tarde substituiu pela Secção dos Sábios, abordando com a mesma perícia e erudição os mais variados e bizarros assuntos. Aqui têm um dos primeiros exemplos desse artístico e primoroso labor, extraído do nº 362 (12 de Dezembro de 1942).

Os textos, com um “sabor” também especial, que valorizavam ainda mais a rubrica, eram de Raul Correia, talentoso escritor e poeta que tinha o raro condão, como E.T. Coelho, de transformar em preciosidades todas as suas criações, inclusive os poemas e os textos que assinava com o pseudónimo de Avozinho.

Por obra destes dois pilares d’O Mosquito, a Secção dos Sábios tornou-se uma das mais memoráveis rubricas da “série de ouro”, que assinalou entre 1943 e 1946 a fulgurante evolução da trajectória artística de E.T. Coelho e de outros autores de primeiro plano como Jesús Blasco, Jayme Cortez, Vítor Péon e Emilio Freixas.

Extraídas dos nºs 437 e 438 d’O Mosquito (Setembro de 1943), eis duas magníficas páginas que o Jornal do Cuto publicou nos seus nºs 21 e 26, de 24/11 e 29/12/1971, com a Secção dos Sábios que tanto divertira (e instruíra), três décadas antes, os leitores d’O Mosquito.

CANTINHO DE UM POETA – 30

Mais um poema em prosa com o cunho inconfundível de Raul Correia (o saudoso Avozinho d’O Mosquito), que o Jornal do Cuto reeditou no seu último número natalício (#172, de 1/12/1977), ilustrado a preceito por Carlos Alberto Santos, principal colaborador artístico de outro grande pioneiro da BD portuguesa, Roussado Pinto, naquele que foi um dos seus últimos e mais ambiciosos projectos editoriais — onde a lira poética do Avozinho e o estro literário de Raul Correia renasceram das cinzas do passado.

O REGRESSO DE TOMMY – 1

Tommy of the Big Top 12,jpgComo já aqui referimos, “Tommy, o Rapaz do Circo” (Tommy of the Big Top) foi uma série em tiras diárias criada por John Lehti e distribuída pelo King Features Syndicate, cuja publicação nos jornais americanos teve início em 28 de Outubro de 1946. A sua estreia em Portugal ocorreu menos de ano e meio depois, no nº 898 (31 de Janeiro de 1948) d’O Mosquito, onde alcançou assinalável êxito, fazendo companhia a outras célebres séries americanas e europeias, com destaque para o Príncipe Valente, de Harold Foster, até ao nº 1156 (22 de Julho de 1950). Já nessa altura O Mosquito se debatia com a forte concorrência do Mundo de Aventuras — lançado no ano anterior, com grande pompa, pela Agência Portuguesa de Revistas, uma empresa cujos êxitos lhe dariam um lugar de destaque no mercado —, e os direitos exclusivos das séries americanas começavam a tornar-se incomportáveis para o orçamento de Raul Correia, que depois da cisão com Cardoso Lopes ficara com o pesado encargo de continuar a publicar O Mosquito.

tommy-ma-68221Foi então a vez do Mundo de Aventuras — por iniciativa de Roussado Pinto, seu novo chefe de redacção, que já trabalhara n’O Mosquito — juntar “Tommy, o Rapaz do Circo” à extensa galeria de heróis americanos que povoavam as suas páginas. E, por coincidência, Tommy estreou-se no nº 62, da 1ª série (19 de Outubro de 1950), ao lado de dois personagens que viriam também a conquistar os favores do público: Mandrake e Tomahawk Tom, este último uma criação portuguesa, pela prolífica dupla Edgar Caygill (Roussado Pinto) e Vítor Péon.

Pouco tempo depois, em 11 de Novembro desse mesmo ano, saiu a última tira de Tommy of the Big Top (inédita no MA). Cansado da árdua rotina da tira diária (ou talvez insatisfeito com os proventos que recebia por essa tarefa), John Lehti resolveu acabar com as peripécias circenses dos seus juvenis heróis, para se dedicar a outros projectos, entre eles uma página semanal baseada em temas bíblicos, com o título Tales of the Great Book, que viria a obter êxito mais retumbante.   

E foi esse o imerecido destino de “Tommy, o Rapaz do Circo”, uma história diferente, cheia de ternura, emoção e peripécias divertidas, que, apesar da sua curta carreira, conquistou o coração dos leitores, jovens e adultos, nos anos 1940 e 1950, mostrando por dentro o maravilhoso mundo do circo, onde a aventura, a acção, o drama e o perigo também estavam presentes, de forma amena e realista.

TOMMY - 155 A 159 copyNos episódios que já anteriormente publicámos, Tommy fazia a sua iniciação na vida do circo como um simples ajudante de Harrison (mais conhecido pela alcunha de “Molho de Carne”), personagem a um tempo simpática e caricata, que tinha o hábito de pregar partidas aos seus colegas, por vezes com maus resultados … mas que Mr. Bingham, o patrão do circo, mantinha no seu posto de trabalho, perdoando-lhe todas as leviandades. Além disso, quando tocava a armar zaragata, sobretudo com elementos de circos rivais que não primavam pelos bons modos nem pela honestidade, Harrison “Molho de Carne” era sempre o primeiro a dar o exemplo, livrando-se tão expeditamente dos seus adversários que até Tommy o seguia sem receio, procurando imitar as suas proezas. Foi assim que os dois, com a ajuda de uma bailarina de outra companhia, conseguiram libertar a sua amiga Sue, raptada pelo famigerado bando de Carney Calson, um meliante sem escrúpulos que se dedicava ao roubo e à chantagem sob a falsa aparência de empresário de circo.     

Tommy of the Big Top 11,jpgPosto isto, as aventuras de Tommy continuam na grande pista coberta (the big top), onde renascem todas as noites o esplendor, o riso, a emoção, o brilho e a magia do “maior espectáculo do mundo”. Recordamos que, no último episódio, Tommy fez a sua estreia na pista do circo, participando no desfile dos artistas, montado num pacífico camelo, mas com tanto azar que escorregou do dorso do animal e quase ia estragando o seu “número”. Valeu-lhe a oportuna intervenção de Holloway, o palhaço de serviço, e da sua mula amestrada, que transformaram o acidente numa cena de hilariante comicidade. Agora, Tommy, convidado por mr. Bingham (que gostou tanto do improvisado “número” como o público), tem uma nova carreira à sua frente…

Leiam seguidamente mais um episódio desta magnífica série, correspondente às tiras diárias com data de 23 de Maio a 9 de Junho de 1947, publicadas n’O Mosquito nºs 933/935 (2 a 9 de Junho de 1948). Uma  nota de rodapé para lamentarmos que a má impressão de alguns números e o mau papel que O Mosquito tinha nessa época não nos permita obter melhores resultados na digitalização deste material.