QUATRO HOMENAGENS A RAUL CORREIA – 1

Quando fui coordenador da 2ª série do Mundo de Aventuras, entre 1974 e 1987 (do nº 33 até ao nº 589 e último), consegui realizar alguns sonhos de juventude, entre eles o de travar conhecimento e amizade com muitos dos autores da BD portuguesa que mais admirava — como Vítor Péon, Orlando Marques, Roussado Pinto, José Garcês, Artur Correia, Artur Varatojo, António Barata, Fernando Bento, Adolfo Simões Müller —, cujas histórias, em prosa e em desenhos, tinha lido com entusiasmo nas páginas das minhas revistas preferidas: O Mosquito, Diabrete, Mundo de Aventuras, Cavaleiro Andante, Titã, Jornal do Cuto e outras.

O único que conheci nos meus tempos de juventude — além de Baptista Mendes, meu colega de turma no Liceu Gil Vicente, e de Carlos Roque, meu vizinho de bairro — foi José Ruy, que aceitou publicar na sua edição d’O Mosquito (2ª série) um conto de aventuras onde “luziam” as minhas modestas primícias literárias. E não só o publicou como o ilustrou…. em conjunto com outro desenhador que eu também muito apreciava, mas que só vim a conhecer mais de uma década depois: José Garcês.

Todos estes talentosos e ilustres autores me deram a honra de colaborar na 2ª série do Mundo de Aventuras, alguns com trabalhos inéditos, desde capas, contos, artigos e ilustrações até histórias aos quadradinhos.

Entre os homens de letras, cuja colaboração nessa série foi também das mais valiosas — a começar por Roussado Pinto, na altura ainda em plenas funções como director do Jornal do Cuto e de outras revistas da sua editora Portugal Press —, é forçoso destacar o nome e os méritos de Raul Correia, um dos carismáticos fundadores e directores d’O Mosquito, que ficou conhecido, para a posteridade, como o “Avozinho” de saudosa memória que escrevia líricos poemas lidos fervorosamente pela juventude — e mais tarde colaborador também do Jornal do Cuto.

Depois de Orlando Marques e Lúcio Cardador, foi ele o terceiro novelista d’O Mosquito a aparecer nas páginas do Mundo de Aventuras, onde decidi fazer-lhe uma pequena homenagem, com a colaboração de dois dos seus maiores admiradores (e ex-discípulos), Roussado Pinto e Orlando Marques, e também de dois distintos articulistas que, tal como eu, acalentavam ainda no espírito a inefável emoção com que tinham lido, noutros tempos, os seus contos, poemas e novelas de aventuras.

Aproveitando a reedição de alguns desses contos no Mundo de Aventuras, com magníficas ilustrações de Augusto Trigo, pedi aos meus quatro colaboradores — Roussado Pinto, Orlando Marques, A. J. Ferreira e A. Dias de Deus — que expressassem o seu parecer crítico sobre as obras e o estilo literário de Raul Correia, cuja fundamental importância como director literário e editor d’O Mosquito era por todos unanimemente reconhecida.

Resgatado das páginas do Mundo de Aventuras nº 429 (31/12/1981), eis o primeiro desses artigos, pela pena de Roussado Pinto, bem como um conto policial de Raul Correia, “Jim Daddy”, publicado no mesmo número (e já apresentado nesta rubrica, mas na sua versão original, com ilustrações de Vítor Péon).

Escuso de realçar, à distância de 36 anos, o valor histórico que ainda hoje possui esse depoimento de Roussado Pinto, em que transparece emotivamente uma análise mais sentimental do que crítica, ditada pela amizade e admiração sem limites que nutria por Raul Correia, desde o tempo em que o conhecera na redacção d’O Mosquito — onde também trabalhou, durante alguns meses, depois da sua efémera experiência como editor d’O Pluto.

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TOM BROWNE E PERCY COCKING, REIS DO HUMOR NA BD BRITÂNICA DOS SÉCULOS XIX E XX – 1

Como anunciado há pouco tempo, aqui têm o artigo de Roussado Pinto dedicado a Tom Browne, artista inglês hoje quase esquecido que foi o criador da série Weary Willie and Tired Tim — celebrizada em Portugal, sobretudo entre os leitores d’O Mosquito, pelo carismático nome de Serafim e Malacueco com que a baptizou Raul Correia, tradutor e adaptador, no mais livre sentido do termo, das suas mirabolantes peripécias.

É óbvio que Roussado Pinto nutria também especial afeição por estes dois burlescos personagens, vagabundos sem eira nem beira que davam tratos à imaginação para viver à custa dos outros, pois ressuscitou-os no Jornal do Cuto, em episódios extraídos d’O Mosquito, e no Valente, uma das primeiras revistas que editou, ainda nos anos 1950, com páginas originais em que luzia o traço de Percy Cocking, um dos sucessores de Tom Browne. Cocking trabalhou na série (e na sombra) durante mais de 40 anos, dando-lhe um inconfundível cunho histriónico e elevando-a aos píncaros da fama. São da sua autoria todas as histórias apresentadas n’O Mosquito e na Colecção de Aventuras, até à década de 1950.

O artigo de Roussado Pinto, em que pela primeira vez os leitores portugueses viram em letras gordas o nome de Tom Browne (embora, por lapso, mal grafado no texto), foi publicado no Jornal do Cuto #18, de 3/11/1971, e é o primeiro que respigamos de uma rubrica recheada de interesse, onde Roussado Pinto publicou vários artigos sobre personagens e autores famosos da recém consagrada 9ª Arte, tanto portu- gueses (Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, Carlos Alberto Santos, António Cardoso Lopes, José Garcês, Stuart Carvalhais), como estrangeiros, a começar por Jesús Blasco. Foi também Roussado Pinto, com a sua insaciável curiosidade, o primeiro, como já referimos, a levantar o véu (no nosso país) sobre o criador da mais popular série humorística inglesa da primeira metade do século XX — que surgiu no Mosquito #209 (Janeiro de 1940) e noutros números, transitando depois, com retumbante êxito, para a Colecção de Aventuras, lançada nesse mesmo ano pelas Edições O Mosquito, onde permaneceu até ao final da primeira fase (de figurino idêntico ao d’O Mosquito), muitas vezes com honras de capa. Mas o seu regresso à origem não se fez esperar, pois já se tornara a predilecta da juventude portuguesa e até do seu tradutor.

Brevemente apresentaremos outro artigo sobre esta emblemática série inglesa, publicado no Mundo de Aventuras, em 1979, com a assinatura de Leonardo (Leonardo De Sá), então um jovem e promissor articulista cujos conhecimentos sobre os obscuros primórdios da narração figurativa já chamavam a atenção de muitos bedéfilos.

NO ANIVERSÁRIO DE ROUSSADO PINTO (14/7/1926)

Texto:  Jorge Magalhães

A capa com que abrimos este post é de um livro quase biográfico que Frank Gold, pseudónimo de Luís Campos (outro notável escritor policial português), dedicou a Roussado Pinto, metendo-se na pele de um dos seus mais célebres heterónimos, para o encarnar como “autor, personagem e mito”, e fingindo ser o herói da sua própria história.

Roussado Pinto nasceu em 14 de Julho de 1926. Se fosse ainda vivo, teria celebrado nesta data o seu 91º aniversário. Os homens passam e as obras ficam. Por isso, cabe-nos a nós, seus leitores, admiradores e amigos, evocar essa efeméride, honrando a sua memória e o seu nome, através de uma das realidades mais marcantes da sua existência: a obra incomensurável que nos legou, como escritor, jornalista e editor (dando primazia, nesta função, às revistas para os mais jovens e à banda desenhada).

Honrar o seu nome significa inevitavelmente recordar alguns dos pseudónimos que o celebrizaram, como os de Edgar Caygill e Ross Pynn. Usou-os em muitas obras, de maior ou menor importância e simbolismo na sua carreira, não porque quisesse passar, à força, por um escritor estrangeiro, mas porque sabia, com a sua profunda intuição literária, que esses nomes possuíam uma carga mítica que não se desvaneceria com o tempo, dando-lhe assim uma espécie de passaporte para a imortalidade.

Geralmente, na literatura policial (mas não só) os pseudónimos cristalizam-se como nomes reais, definitivos, fazendo esquecer os de baptismo. É assim também no cinema e noutras artes onde florescem a imaginação, o espírito, o onirismo e a fantasia. Actores e artistas perduram e mitificam-se na pele das personagens que criaram e dos nomes que adoptaram… às vezes, como no cinema, por imposição alheia.

Quanto a Roussado Pinto, sabemos que esse fenómeno de transfiguração não “matou” a identidade do criador — antes pelo contrário, tornou-a indissociável dos seus outros nomes, fundindo-os num mesmo corpus literário, que nenhum dos seus leitores desconhece. A fama e a forte personalidade do autor operaram automaticamente (e voluntariamente) essa simbiose. Mas nem todos os seus heterónimos tiveram vida longa…

Homenageamos hoje, a propósito do seu aniversário (como já fizemos noutras ocasiões), a memória deste lendário e infatigável novelista popular — autêntico trabalhador da “oficina do imaginário”, que dispersou humildemente a sua veia literária por uma enorme variedade de géneros —, dando a conhecer um artigo biográfico de Raul Ribeiro, extraído de uma publicação quase esquecida: o XYZ Magazine, edição do saudoso Sete de Espadas, outro grande nome da literatura policial, ou melhor, da “problemística policiária” portuguesa.

Apresentamos também algumas capas das inúmeras obras que Roussado Pinto escreveu com os seus dois pseudónimos mais famosos e com o seu próprio nome… por vezes, num registo neo-realista, bem diferente daquele a que nos habituou, como autor de romances e antologias policiais ou de novelas de aventuras. Sem esquecer que foi também argumentista de histórias aos quadradinhos e que criou e dirigiu alguns dos títulos mais emblemáticos da BD portuguesa, como O Pluto, Titã, Flecha, ValenteZakarellaGrilo e Jornal do Cuto.

No jornalismo, a sua coroa de glória foi, sem dúvida, o Jornal do Incrível, cujos destinos dirigiu com mão de mestre até ao dia em que o coração, mais uma vez, lhe falhou. E sem esperança de retorno… apesar de ter apenas 58 anos. Partiu o homem, mas ficou a lenda que há muito começara a tomar forma. E que ainda hoje povoa o imaginário dos que leram as obras de um tal Ross Pynn — personagem que, na realidade, nunca existiu!

CANTINHO DE UM POETA – 35

Para variar do tom lírico, mostrando desta feita o jeito humorístico de Raul Correia (vulgo Avozinho), eis mais uma composição poética com fundo moralista, onde os seus atentos e fiéis leitores d’O Mosquito — e mais tarde do Jornal do Cuto (estes já mais crescidotes) — podiam colher sábios e proveitosos ensinamentos.

A ilustração tem o cunho habitual e a assinatura de José Batista (Jobat), e a rubrica — de presença obrigatória no Jornal do Cuto, reflectindo a enorme admiração que Roussado Pinto sentia pelo seu velho mestre e amigo, desde os tempos em que tinham trabalhado juntos n’O Mosquito — apareceu no nº 29, de 19/1/1972.

O BOLETIM DO CPBD CONTINUA EM PUBLICAÇÃO

O Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) acaba de editar o nº 143 do seu Boletim, com data de Fevereiro de 2017, um dos fanzines mais antigos em publicação, não só em Portugal como em toda a Europa, e que pela sua qualidade e longevidade merece ombrear com os melhores (como, aliás, tem sido realçado por vários especialistas).

Neste número, dedicado ao Titã — uma revista de BD dos anos 1950, editada pela Fomento de Publicações em moldes inovadores, mas que não teve o sucesso esperado, devido à forte concorrência do Cavaleiro Andante e do Mundo de Aventuras —, destaca-se um excelente artigo sobre este tema, da autoria de Ricardo Leite Pinto, sobrinho do saudoso Roussado Pinto, incontornável pioneiro da “época de ouro” da BD portuguesa, que no Titã exerceu as funções de novelista/argumentista, redactor principal e, a breve trecho, director, depois de ter saído do Mundo de Aventuras e da Agência Portuguesa de Revistas.

No Titã colaboraram também alguns desenhadores portugueses, já nessa época com largo e invejável currículo, como Vítor Péon, José Garcês e José Ruy, devendo-se a Péon e ao seu traço dinâmico a capa do 1º número e a história “Circos em Luta”, cujo herói, criado por Edgar (Roussado Pinto) Caygill, se chamava nem mais nem menos… Titã!

Completa este número um artigo de Carlos Gonçalves sobre a magnífica arte de E.T. Coelho, com uma galeria de trabalhos deste grande desenhador para O Mosquito, que estiveram patentes, até há pouco tempo, numa exposição realizada pelo CPBD na sua nova sede.

As imagens reproduzidas neste post foram extraídas, com a devida vénia, do blogue Sítio dos Fanzines de Banda Desenhada, orientado por Geraldes Lino, cuja consulta recomendamos a todos os interessados por este aliciante tema que o mestre Lino conhece e aborda como poucos. Ou melhor dizendo, como ninguém!…

NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA – 10

Nesta rubrica, publicada entre os nºs 110 e 125 do Jornal do Cuto, Roussado Pinto desfiou muitas memórias d’O Mosquito e do tempo em que trabalhou na sua redacção, em contacto com Cardoso Lopes, E. T. Coelho, José Ruy, José Garcês, Stuart Carvalhais e outros grandes nomes da BD e das artes gráficas portuguesas.

No artigo que a seguir apresentamos, reproduzido do Jornal do Cuto nº 118, de 5/11/1975, Roussado Pinto evoca a figura de outro destacado colaborador d’O Mosquito, o novelista José Padinha, que por excessiva modéstia, ou por qualquer outro motivo, sempre assinou os seus trabalhos (mais de 30 novelas) com exóticos pseudónimos: Juan L. Guanche, Peter Tenerife, Gusmão Pó, J. Montesdeoca.

Aliás, o seu verdadeiro nome só se tornou conhecido muito tempo depois, graças à divulgação que dele fez Roussado Pinto no Jornal do Cuto e noutras publicações da sua editora, a Portugal Press, como a Colecção Juvenil Galo de Oiro, onde foram reeditadas, em 1973, duas novelas de Padinha: “A Nau Perdida” e “Maluna, a Espada Trágica”.

Como novelista, de estilo singular, “ao correr da pena” — que abordava, num ritmo febril, toda a espécie de temas aventurosos, criando, com exuberante fantasia, enredos mirabolantes e pitorescas personagens às quais deu também nomes bizarros —, José Padinha colaborou apenas n’O Mosquito, e por um breve período, entre 1943 e 1946. Depois disso, reapareceu subitamente na revista Flama, em 1950, assinando com um dos seus últimos pseudónimos, J. Montesdeoca, uma série de artigos (bem documentados) sobre alguns dos mais notáveis desenhadores portugueses dessa época: Eduardo Teixeira Coelho, Fernando Bento, Vítor Péon, José Garcês, José Ruy e Vítor Silva.

SECÇÃO DOS SÁBIOS – 1

No seu nº 5, de 4/8/1971, o Jornal do Cuto começou a apresentar uma curiosa rubrica intitulada Secção dos Sábios — que era, como muitas das histórias que ilustravam as suas páginas, oriunda também d’O Mosquito, o mítico jornal infanto-juvenil a que Roussado Pinto, director/editor do Jornal do Cuto, ficara também ligado por laços profissionais (pois trabalhou na sua redacção em 1947/48), e de profunda amizade e camaradagem com os seus dois directores e fundadores: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) e Raul Correia.

seccao-dos-sabios-mosquito-361-491O que distinguia a Secção dos Sábios de outras rubricas de curiosidades eram os magníficos desenhos de E.T. Coelho, um jovem artista fora de série que começara a colaborar n’O Mosquito (e na Colecção de Aventuras) em meados de 1942, não tardando a renovar por completo o aspecto gráfico do jornal com as suas exuberantes ilustrações para cabeçalhos, capas, contos e vinhetas decorativas de toda a espécie.

Graças ao contributo deste valioso elemento, cujo estilo dinâmico e harmonioso nunca parou de evoluir, atingindo em pouco tempo um grau de inaudita perfeição, O Mosquito transfor- mou-se na revista infanto-juvenil mais lida do seu tempo, sobretudo ao passar a publicar-se duas vezes por semana (desde o nº 361).

A par das capas e dos contos recheados de ilustrações de grande beleza e efeito estético, E.T. Coelho ocupou-se também, com evidente prazer, de pequenas rubricas de curiosidades, ora intituladas Coisas do Arco da Velha e Coisas e Loisas ou Curiosidades de Todos os Tempos e Curiosidades de Todo o Mundo, que mais tarde substituiu pela Secção dos Sábios, abordando com a mesma perícia e erudição os mais variados e bizarros assuntos. Aqui têm um dos primeiros exemplos desse artístico e primoroso labor, extraído do nº 362 (12 de Dezembro de 1942).

Os textos, com um “sabor” também especial, que valorizavam ainda mais a rubrica, eram de Raul Correia, talentoso escritor e poeta que tinha o raro condão, como E.T. Coelho, de transformar em preciosidades todas as suas criações, inclusive os poemas e os textos que assinava com o pseudónimo de Avozinho.

Por obra destes dois pilares d’O Mosquito, a Secção dos Sábios tornou-se uma das mais memoráveis rubricas da “série de ouro”, que assinalou entre 1943 e 1946 a fulgurante evolução da trajectória artística de E.T. Coelho e de outros autores de primeiro plano como Jesús Blasco, Jayme Cortez, Vítor Péon e Emilio Freixas.

Extraídas dos nºs 437 e 438 d’O Mosquito (Setembro de 1943), eis duas magníficas páginas que o Jornal do Cuto publicou nos seus nºs 21 e 26, de 24/11 e 29/12/1971, com a Secção dos Sábios que tanto divertira (e instruíra), três décadas antes, os leitores d’O Mosquito.