NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA – 1

Roussado Pinto 1Sob esta epígrafe, surgiu no Jornal do Cuto, a partir do nº 110, de 10/9/1975 — primeiro de uma nova fase, depois de um longo interregno, em que a revista voltou à periodicidade semanal, com renovado aspecto gráfico —, uma rubrica assinada por Roussado Pinto, nome mítico da BD portuguesa, que, num assomo de nostalgia ditado pela sua longa experiência e pelo seu seguro instinto jornalístico, resolveu abrir os seus “dossiers”, desfiando muitas recordações da vida profissional que o ligara, durante várias décadas, a alguns dos títulos mais emblemáticos da nossa imprensa juvenil, desde O Pluto, O Papagaio, O Mosquito e o Mundo de Aventuras ao Titã, ao Flecha, ao Valente, a maioria dos quais dirigiu e editou por sua conta e risco, com notável persistência, mas sempre com avultados prejuízos económicos.

Jornal Cuto 12   033Nessa apreciada secção memorialista da sua última e épica aventura editorial — quando lançou o Jornal do Cuto e muitas outras publicações, depois de ter criado uma nova editora, a Portugal Press —, Roussado Pinto não fez segredo do seu passado, evocando pitorescamente, com grande minúcia e perfeita lembrança dos factos, as peripécias que vivera nas redacções desses jornais, os colaboradores com quem partilhara os seus sonhos, os seus êxitos e os seus desaires… as figuras que conhecera e de quem se tornara próximo, num meio recheado de talentosos artistas, como Jesús, Alejandro e Adriano Blasco, Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, José Ruy, Stuart Carvalhais, António Barata os mestres que lhe tinham dado a mão, no início da sua carreira, como A. Cardoso Lopes e Raul Correia, e a quem ficara ligado por profunda e duradoura amizade.

Mosquito 363    034Quis o acaso que, ao folhear alguns números do Jornal do Cuto onde se insere esta rubrica — com um cabeçalho desenhado pelo saudoso José Baptista (Jobat) —, nos saltasse à vista um texto dedicado aos colaboradores literários d’O Mosquito, precisamente um dos temas que encetámos muito recentemente neste blogue. Com o seu estilo vivaz e colorido, apoiado numa memória prodigiosa, Roussado Pinto traça, no seu artigo, um breve perfil do grupo heteróclito de jovens novelistas que animou a redacção d’O Mosquito, nos anos 40, sob a tutela quase “paternalista” de um mentor literário cuja modéstia como poeta se encobria com o pseudónimo de “Avozinho”.

Graças a Raul Correia, o mestre que os apadrinhou e aconselhou desde o primeiro instante, abrindo-lhes sem reservas as páginas da revista, estimulando-os e inspirando-os com a sua Mosquito 400   035excepcional veia narrativa, floresceu n’O Mosquito uma nova geração de novelistas que iria deixar uma marca indelével na imprensa juvenil portuguesa dessa época, não só porque tinham talento, mas também porque muitas das suas obras foram ilustradas por um artista de excepcional craveira chamado E.T. Coelho.

A nota de Roussado Pinto que seguidamente transcrevemos (reproduzindo-a directamente do Jornal do Cuto nº 125, de 24/12/1975), tem, pois, um interesse muito especial para os nossos leitores, como fidedigno e oportuno aditamento ao tema que continuaremos brevemente a abordar neste blogue.

Notas 30 anos de BD 1  037

As referências a O Mosquito preenchem muitas destas notas que Roussado Pinto retirou dos seus apontamentos, recheadas de episódios curiosos de que ele próprio foi testemunha nos bastidores da redacção, onde trabalhou como assistente de Cardoso Lopes, depois do sonho d’O Pluto, empresa a que meteu ombros durante os meses de Novembro de 1945 a Maio de 1946, ter sido bruscamente interrompido.

Por esse motivo, tencionamos continuar a apresentá-las no Voo d’O Mosquito, como preito de homenagem à memória e à obra pioneira de Roussado Pinto, assim como à revista que com tanto zelo e entusiasmo editou nos últimos anos da sua vida… e que foi também, em muitos aspectos, um prolongamento d’O Mosquito.

 

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CANTINHO DE UM POETA – 7

Cantinho de um poeta 7   029

Poema de celebração da Primavera publicado no Jornal do Cuto nº 40, de 5 de Abril de 1972, com ilustração de Jobat (José Baptista). Seguidamente, podem ler a 5ª e última parte do artigo de Raul Correia “De Como Nasceu e Viveu O Mosquito”, reproduzida do Jornal do Cuto nº 24, de 15 de Dezembro de 1971.

Nona arte 9

Nota: no capítulo anterior, Raul Correia cometeu outros erros de memória (que ele próprio humildemente admitia), como o de atribuir ao desenhador espanhol C. Arnal a autoria do álbum “Ponto Negro, Cavaleiro Andante”, editado pel’O Mosquito no Natal de 1937. A verdadeira autoria dessa obra pertence a outro artista espanhol, Arturo Moreno, que, aliás, também esteve presente em muitas páginas da revista, cabendo-lhe a honrosa distinção de ter criado uma das séries mais aplaudidas nos seus primeiros números: as mirabolantes aventuras do grumete Mick, do velho Mock e do cão Muck.

Também por lapso de memória, Raul Correia não aludiu a outro magnífico álbum publicado pelas Edições O Mosquito, que Arnal se encarregou igualmente de ilustrar: “Viagem Extraordinária do Cão Top”, que chegou às bancas em finais de 1939 e foi coroado de estrondoso êxito como os anteriores.

Também se enganou, mais uma vez, ao considerar que a Colecção de Aventuras, nascida em 1940 e que durou 130 números, teve uma vida mais curta do que o Mosquito Magazine, revista de formato mais pequeno e com um sumário tipo almanaque, que “tinha de tudo um pouco”, mas não passou da meia centena de números.

Nenhum dos lapsos de Raul Correia, que o tempo decorrido justifica plenamente, invalida o mérito e o inegável interesse deste artigo, onde muitos factos pitorescos relacionados com a vida d’O Mosquito e com a carreira do seu director literário — que ficaria para sempre ligado ao nome de um mítico Avozinho — chegaram pela primeira vez ao conhecimento do público.

E tal como ele escreveu no final do artigo, ao evocar a figura de Charlot num dos seus mais belos filmes, “O Circo”, a memória d’O Mosquito não acabou… «como não acabam, nunca mais, os vagabundos, as ilusões e os sonhos»!

TOMMY, O RAPAZ DO CIRCO -10

Embora John Lehti nunca tivesse criado uma página dominical para a sua primeira série publicada nos jornais diários, Tommy of the Big Top foi reeditada a cores em vários comic books (um deles de origem australiana), e até n’O Mosquito, como temos vindo a apresentar, onde ocupou com frequência a primeira e a última páginas.

No caso de John Lehti, o seu estilo de linhas regulares, nítido e sóbrio, com planos bem definidos e poucos sombreados, não foi prejudicado pelo uso da cor — mesmo monocromática, como nas tiras seguintes, reproduzidas d’O Mosquito nº 917, de 7/4/1948.

Neste episódio, correspondente às tiras publicadas originalmente entre 6 e 14 de Fevereiro de 1947, Tommy e Harrison “Molho de Carne” terminam a sua missão junto do circo rival… mas as coisas não correram de forma pacífica e as represálias, por causa de miss Larue, uma jovem dançarina, não tardarão a surgir…

Tommy 88 a 97

 

NOVELISTAS D’O MOSQUITO – 1

EM JEITO DE INTRODUÇÃO

ABczinho 165      006Corriam os anos 20 e 30 do século passado quando as novelas de aventuras de estilo moderno se estrearam no ABC-zinho e n’O Senhor Doutor; mas foi no Tic-Tac e depois n’O Mosquito, com o seu excelente lote de colaboradores, que este género evoluiu para uma escola mais dinâmica e realista, atingindo a plenitude entre 1936 e 1946 — aquela que podemos intitular «a década gloriosa da novela de aventuras em Portugal».

Até então, os textos, embora tivessem predominância sobre as imagens nas publicações infanto-juvenis, não eram genuínos (à parte os de teor humorístico), isto é, limitavam-se, salvo raras excepções, a copiar servil- mente os modelos vindos de fora, sobretudo de França e Inglaterra, países em cuja produção os directores de algumas dessas revistas, como Cottinelli Telmo, Carlos Ribeiro, Luís Ferreira (Tio Luís), José de Oliveira Cosme e Carlos Cascais, colhiam boa parte das histórias que publicavam nas suas páginas. Tic Tac 163      007Na sua maioria, tratava-se de traduções (ou adaptações) de novelas de autores anónimos. As obras originais de índole aventurosa eram raras, destacando-se, entre os seus autores, os nomes de Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X, António Feio e Henrique Samorano, um jovem talentoso que a morte arrebatou prematuramente.

Até meados dos anos 30, o género nunca teve grandes cultores entre as figuras mais distintas da nossa imprensa infantil, algumas delas oriundas do nobre campo das Belas Letras, que à elegância e ao primor da escrita aliavam um cunho didáctico e moralista, bem distante do conceito moderno de aventuras à maneira inglesa e americana.

Coube a um pequeno mas dinâmico “insecto”, concebido em moldes artísticos e comerciais inovadores, modificar de uma assentada esses parâmetros, não só devido à variedade nunca antes vista de histórias aos quadradinhos sugestivamente ilustradas (sobretudo inglesas e espanholas), como ao estilo vigoroso e emocionante das novelas de aventuras, escritas exclusivamente por autores nacionais. Numa primeira época, entre 1936 e 1939, os que mais se distinguiram foram Fidalgo dos Santos, Pedro de Sagunto, Roberto Ferreira (com o acrónimo de Rofer), e sobretudo Raul Correia.

Mosquito 11Lembro-me de que, no alvor da minha mocidade, quando lia avidamente O Mosquito — revista pela qual sentia um carinho especial, apesar de não ter sido a primeira que me veio parar às mãos —, as histórias de texto tinham o condão de me despertar tanto entusiasmo como as histórias ilustradas. Aliás, quer neste jornal quer nos seus concorrentes mais directos (O Senhor Doutor, O Papagaio e o Diabrete), a prosa preenchia ainda boa parte do sumário, atestando o que hoje se perdeu entre a maioria dos jovens: o gosto pela leitura.

Mas n’O Mosquito e no seu companheiro de jornada (durante dois anos) Colecção de Aventuras, até as legendas das histórias aos quadradinhos — que eram como que um prolongamento das histórias de texto, pois primavam pela ausência de filacteras (isto é, de balões) — se liam com interesse, graças ao cunho inconfundível da prosa de Raul Correia, a quem cabia a tarefa de as traduzir e adaptar. O director literário d’O Mosquito e autor também dos poemas do Avozinho, escrevia com rara elegância, ora num tom ameno e risonho, ora vibrante e emotivo, equilibrando as duas facetas com notável mestria.

colecção Aventuras 114Alguns desses predicados influenciaram naturalmente os seus colaboradores mais jovens, como Orlando Marques e Lúcio Cardador (que se juntaram à equipa em 1940), embora estes, apesar do seu inegável talento, nunca tenham atingido a craveira do mestre.

Todos os temas clássicos da novela de aventuras, desde as histórias policiais e de cowboys às de fundo histórico ou exótico, figuram na vasta obra de Raul Correia, como se a sua pena prolífica quisesse transmitir ao papel o colorido caleidoscópio de imagens captadas pelos seus olhos e pela sua mente, no convívio assíduo com os livros e com o cinema. Sem um novelista da sua envergadura, é possível que dois amigos inseparáveis, que viviam, então, na Amadora — e já tinham trabalhado juntos no Tic-Tac —, nunca tivessem acalentado o sonho de criar um jornal como O Mosquito; e, nesse caso, todos os novelistas formados na sua escola poderiam, também, nunca ter tido a oportunidade de sair do anonimato.

 A seguir: Raul Correia – A importância de um estilo

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (1) por O. Henry

O. Henry (foto)Apresentamos hoje nesta rubrica a 1ª parte de um conto do famoso jornalista e escritor norte-americano O. Henry (1862-1910), que se notabilizou num género que os anglo-saxónicos designam por short stories, isto é, contos e novelas curtos. Muito popular nos meios literários, graças sobretudo à colaboração em revistas como The Rolling Stone (que ele próprio dirigiu e editou, com grandes prejuizos), The Cosmopolitan e New York World Sunday Magazine (onde escreveu febrilmente um conto por semana, durante dois anos e meio), O. Henry — aliás, William Sidney Porter, seu nome de baptismo —, teve uma vida movimentada, fértil em peripécias aventurosas e em empregos de toda a ordem, casou-se duas vezes e foi parar à prisão, acusado de desfalque, quando era caixa de um banco em Austin (Texas).

Cabbages and kingsDiz-se que o hábito de escrever sempre com um pseudónimo (que acabaria por se tornar célebre) foi uma forma de esconder do público e dos editores os seus problemas com a justiça. Durante o período de maior actividade literária, produziu centenas de contos, reunidos posteriormente em volumes como Cabbages and Kings (1904), Heart of the West (1907), The Voice of the City (1908), Roads of Destiny (1909), The Four Million (1909), The Trimmed Lamp (1910), Strictly Business (1910), Six and Sevens (1911) e meia dúzia de outros.

O estilo dúctil, apoiado numa eficaz síntese narrativa, a esfuziante imaginação, o dom de observador dos ambientes citadinos — em particular, da metrópole que mais amou, Nova Iorque, tema central da antologia Four Milions — e, sobretudo, os desconcertantes e irónicos finais com que surpreendia os leitores, granjearam-lhe enorme renome em todo o país… mas pouca segurança económica. Morreu pobre, em Junho de 1910, vítima do álcool com que procurava combater as suas depressões, agravadas pela morte da primeira mulher e pelo divórcio da segunda.O. Henry Full House

Algumas das suas histórias mais famosas foram adaptadas ao cinema, no filme em episódios O. Henry’s Full House (1952), um dos quais interpretado por Charles Laughton e Marilyn Monroe. A Banda Dese- nhada também não as desprezou, destacando-se, entre todas as versões que conhecemos, o magnífico trabalho do artista Gary Gianni, dado à estampa num volume da colecção Classics Illustrated (1990), editado pela Berkley/First Publishing e em português pela Abril Jovem. O conto “O destino de Jimmy Valentine” (título original: Classic Ilustrated - O Henry 475A Retrieved Reforma- tion) foi publicado n’O Mosquito nºs 1036 a 1039 (1949), com tradução de Raul Correia e um cabeçalho desenhado por E. T. Coelho, e significou para muitos jovens o primeiro contacto com a obra do escritor americano (embora só mais tarde o soubessem, pois, por lamentável lacuna, o seu nome não figurava no cabeçalho).

Mais uma vez, a singularidade e objectividade do seu estilo — como se as palavras que punha no papel se transformassem em lentes de uma Kodak, captando as personagens e o cenário num quadro realista, autêntico retrato de uma época desaparecida —, e o desfecho inesperado de uma intriga que se lê com crescente interesse, justificam o título de grande narrador e mestre do conto que ainda hoje consagra mundialmente o nome de O. Henry.

E aqui têm a 1ª parte do conto anunciado, um dos mais célebres da sua vasta obra.
O Henry - O destino de J Valentine 003

Um guarda entrou na oficina de sapataria da penitenciária, onde Jimmy Valentine estava ocupado atentamente em colocar as últimas «capas» de sola nuns tacões. Durante uns segundos, o guarda ficou a olhar o trabalho do preso. Depois, num tom de voz alegre disse:

— Jimmy! O Director chama-te!

Escoltou Jimmy até ao gabinete do Director e entrou também, ficando ao lado dele. Com um sorriso, o Director entregou a Jimmy a nota da comutação de pena, que o Governador tinha assinado naquela mesma manhã. Jimmy pegou no papel com um ar aborrecido e fatigado. Estava preso havia quase dez meses, e a condenação era por quatro anos. Mas ele nunca esperara que a sua demora na penitenciária fosse além de dois ou três meses. Quando um homem com amigos, tal como Jimmy Valentine, entra numa prisão, quase não vale a pena cortar-lhe o cabelo.

— E agora, Valentine — disse o Director —, você passa a ser um homem livre, a partir de amanhã pela manhã! Emende-se e faça-se um homem honesto! Você, no fundo, não é má pessoa… Abandone esses maus costumes de arrombar cofres e viva direito, como uma pessoa decente!

— Eu?… — perguntou Valentine, com um ar de profunda admiração. — Eu nunca arrombei um cofre em toda a minha vida!

— Está claro que não!… — exclamou o Director, com uma gargalhada. — Pois claro que não!… Como foi isso de você ser apanhado naquele caso de Springfield? Talvez você não quisesse provar o seu «alibi»… para não comprometer alguma duquesa! Seria? Ou foi tudo uma injustiça, por causa de um júri incompetente que embirrou consigo? Com vocês, as vítimas «inocentes», acontece sempre uma destas duas coisas!…

— Eu?… — voltou a perguntar Valentine, com uma virtuosa indignação. — Eu? Eu nunca estive em Springfield, em toda a minha vida!

O Director sorriu: — Cronin, leve-o de volta! Dê-lhe um fato e o resto da roupa para sair! Traga-o aqui amanhã, às sete horas! E você, Valentine, siga o meu conselho!…

Às sete horas e um quarto, na manhã seguinte, Jimmy estava outra vez no gabinete do Director. Trazia um daqueles fatos-feitos, que tão mal assentam num cabide como numa pessoa, e calçava um par dos pavorosos sapatos que ajudara a fabricar durante meses, e que o Estado fornece aos seus «hóspedes» forçados, quando se desinteressa deles.

Um funcionário da prisão entregou-lhe um bilhete de caminho de ferro e uma nota de cinco dólares, com a qual o Estado contava que ele se pusesse a caminho da honestidade e da fortuna. Valentine, o presidiário n.° 9.762, ficou arquivado com a menção: «Perdoado pelo Governador»… E Mr. James Valentine saiu para a liberdade.

Completamente desinteressado do canto dos passarinhos, da verdura das árvores e do perfume das flores, Jimmy dirigiu-se em linha recta para um restaurante. As primeiras alegrias da liberdade tomaram para ele o aspecto de um frango assado e de uma garrafa de vinho branco, seguidos por um charuto. Dali, Jimmy encaminhou-se para a estação de caminho-de-ferro, deu uma moeda de dez cêntimos a um cego que estava à porta e instalou-se no comboio. Três horas mais tarde descia noutra estação, que pertencia a uma pequena cidade perto da fronteira do Esta­do. Fez rumo ao café de um tal Mike Dolan, entrou e apertou a mão do citado Mike, que estava só por detrás do balcão do «bar».

— Desculpa que não tivéssemos conseguido a coisa mais cedo! — disse Mike. — Mas os homens de Springfield protestaram e foi pre­ciso dar um jeito! O Governador estava indeciso… Tudo fixe?

— Fixe!… — respondeu Jimmy. — Tens a minha chave?

Recebeu a chave e, transposta uma porta nas traseiras do café, subiu uma escada e entrou no seu quarto. Tudo estava exacta­mente como quando ele tinha dali saído. No chão ainda se via um botão da camisa do detective Ben Price, botão esse que o aban­donara quando ele e uma porção de colegas tinham dominado Jimmy para prendê-lo.

Afastando o divã-cama, Jimmy fez deslizar um painel disfarçado na parede e, da cavida­de deixada a descoberto, tirou uma pequena mala coberta de pó. Abriu-a e olhou, com um sentimento de orgulho profissional, para a mais perfeita e sólida colecção de ferramentas «especiais» que havia em todo o Leste. Era uma dúzia de instrumentos feitos de um aço de têmpera especialíssimo, todos os clássicos utensílios de um arrombador de cofres, e ainda uns quantos que eram da invenção de Jimmy… e dos quais ele se sentia profissionalmente vaidoso. A colecção tinha-lhe custado mais de novecentos dólares em… num sítio onde se fabricavam daquelas coisas.

Meia hora mais tarde, Jimmy descia a escada e atravessava o café. Envergava agora um fato e uns sapatos do melhor gosto e trazia na mão a maleta, perfeitamente limpa de pó.

— Algum «trabalho» em perspectiva?… — perguntou Mike, risonhamente.

— Como?… — volveu Jimmy, num ar de fundo espanto. — Não compreendo! Eu sou o agente de vendas da fábrica de bola­chas e biscoitos «Segurança e Confiança», com sede em Nova Iorque!

A declaração, feita com o ar mais sério e natural deste mundo, fez rir tanto o alegre Mike, que ele ofereceu a Jimmy, por conta da casa, um copo de leite gelado. Jimmy nun­ca aceitava bebidas alcoólicas…

                                                                                                                             (Continua)

Nota: A título de curiosidade, publicamos também as duas primeiras páginas da adaptação realizada por Gary Gianni, correspondentes ao texto incluído nesta 1ª parte — procedimento que repetiremos nos próximos capítulos. Os nossos leitores poderão, assim, comparar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares) do mesmo tema.  

O Henry - a regeneraçao 1 e 2

O MOSQUITO E A PUBLICIDADE

Mosquito (anúncio)

Ora aqui têm, como se pode apreciar na gravura supra, um pitoresco e sedutor exemplo do apelo universal do nome Mosquito, que é idêntico ao nosso nos idiomas mais falados pelos portugueses, o inglês e o castelhano, mas tem traduções distintas noutras línguas: moustique em francês, mosquit em catalão, moscerino em italiano, mug em holandês, mücke em alemão, gelse em austríaco, mygga em sueco, myg em dinamarquês e mygg em norueguês, hyttynen em finlandês, komarac em sérvio/croata, κουνούπι em grego, komar em eslovaco, komap em russo, tantar em romeno, moskit em polaco, moszkitó em húngaro, mishkonjë em albanês, ka em japonês, wénzi em chinês, sivrisinek em turco, yetush em hebraico, nyamuk em malaio, lamok em filipino, mui em vietnamês, yung em tailandês, mbu em suaíli… Uf! É melhor ficarmos por aqui!

Com grafia igual à nossa, encontrámos outros curiosos exemplos nas mais diversas áreas. Até uma conhecida editora francesa de Banda Desenhada, especializada em obras de autores italianos, ostenta o nome bem português de Mosquito.

Recentemente descobrimos este anúncio de uma marca italiana de bizarros utensílios (afinal, são motores de bicicleta), que preferiu o nosso léxico mosquito ao moscerino de agradável pronúncia, que parece evocar aromáticas bebidas, como o cappuccino de mundial fama. Agradável é também a estética do anúncio, muito anos 50.

Querem outras provas de que o nome d’O Mosquito até para os estrangeiros tem mais encanto? Pois, pouco a pouco, aqui irão aparecendo…

TOMMY, O RAPAZ DO CIRCO – 9

Tommy of the Big Top pág. 9,jpg

Continuamos a apresentar esta maravilhosa série americana, injustamente esquecida, que O Mosquito e o Mundo de Aventuras foram as únicas revistas juvenis a divulgar em Portugal, entre 31 de Janeiro de 1948 (Mosquito nº 898) e 20 de Março de 1952 (MA nº 136).

As onze tiras que hoje vos oferecemos surgiram n’O Mosquito bissemanal nºs 915, de 31/3/1948, e 916, de 3/4/1948, a par de algumas famosas histórias inglesas, como “Pelo Mundo Fora” e “As Aventuras de João Sem Rumo”, além de “O Caminho do Oriente” e outra magnífica criação de E.T. Coelho, por muitos considerada a sua obra-prima no género animalista: “A Lei da Selva”.

No presente episódio, correspondente às tiras publicadas entre 24 de Janeiro e 5 de Fevereiro de 1947, Tommy e “Molho de Carne”, que já se tornaram bons amigos, tentam chegar a acordo com uma troupe rival, cuja má fama se espalhou pela região, pondo também o circo de Mr. Bingham sob a mira das autoridades.

Mas as coisas vão aquecer!… Leiam mais um episódio das emocionantes aventuras de Tommy of the Big Top, a série mais apreciada de John Lehti.

Tommy 77 a 87