NOVO COLÓQUIO NA BNP SOBRE A HISTÓRIA DO CROMO COLECCIONÁVEL EM PORTUGAL

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Nesta quinta-feira, dia 2 de Março, às 17h30, o Clube Português de Banda Desenhada, representado por Carlos Gonçalves e João Manuel Mimoso, realiza nova palestra no âmbito da exposição que se encontra patente na Biblioteca Nacional até ao dia 29 de Abril de 2017 — para recordar uma grande editora (não só na publicação de Revistas de Banda Desenhada como de Cadernetas de Cromos) e prestar também merecida homenagem a Carlos Alberto Santos, um notável desenhador, pintor, ilustrador e criador de magníficas colecções de cromos, que nos deixou recentemente.

Carlos Alberto, cujos trabalhos de ilustração estão dispersos por inúmeras revistas, sobretudo de Banda Desenhada, foi também colaborador d’O Mosquito (5ª série), editado em 1984/86 pela Futura.

Seguidamente podem ler, na Folha de Sala da BNP, um excelente artigo de João Manuel Mimoso sobre o tema desta exposição.

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EXPOSIÇÃO “100 ANOS DO CROMO EM PORTUGAL”

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Colóquio inaugural da exposição “100 Anos do Cromo em Portugal”, no dia 1 de Fevereiro de 2017, às 17h45. Apresentação de Carlos Gonçalves, do Clube Português de Banda Desenhada, e intervenção de João Manuel Mimoso, historiando a origem e a evolução das colecções de cromos dos rebuçados e caramelos em Portugal e de alguns dos seus fabricantes, desde a década de 1920 até à de 1960.

Um colóquio posterior, a realizar em 2 de Março, abordará os “cromos-surpresa” lançados pela Agência Portuguesa de Revistas, em 1952, e prestará homenagem ao grande artista e ilustrador, recentemente falecido, Carlos Alberto Santos.

A exposição será inaugurada às 19h00, após o encerramento do colóquio, ficando patente ao público até ao próximo dia 29 de Abril.

Nota: Carlos Alberto Santos, pintor e ilustrador de raro talento e autor de algumas das mais belas coleções de cromos que já se fizeram em Portugal, colaborou em inúmeras publicações de BD, incluindo O Mosquito” (5ª série), da Editorial Futura, motivo por que o nosso blogue se associa à justíssima homenagem que em Março lhe irá ser prestada pelo Clube Português de Banda Desenhada, no âmbito desta exposição.

REPORTAGEM DA ASSEMBLEIA GERAL E DAS NOVAS EXPOSIÇÕES DO CPBD – 1

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No passado sábado, dia 16 de Abril, pelas 16h00, na sede do Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), sita na Avenida do Brasil 52A, Reboleira (Amadora), reuniu-se a sua Assembleia Geral, depois de convocatória enviada a todos os associados, a fim de tomar várias deliberações urgentes no âmbito dos processos de obtenção de apoio em curso, junto da Câmara Municipal da Amadora (ratificação das contas de 2013 e 2014, orçamento e plano de actividades de 2016).

Foram também votadas as contas de 2015 e prestada informação sobre a recente actividade do Clube, projectos futuros e outras questões de interesse geral. Todas as deliberações seriam aprovadas por unanimidade, com acta assinada pelos presentes.

Durante a sessão, foi distribuído aos sócios o nº 142 (Abril 2016) do Boletim do CPBD, dedicado à primeira de duas exposições marcantes, inauguradas na sua sede em Janeiro último: Os 80 anos d’O MosquitoTributo a Eduardo Teixeira Coelho. Do sumário deste número consta também um artigo de Carlos Bandeira Pinheiro e Jorge Magalhães, com uma completa quadriculografia (em publicações portuguesas) de E.T. Coelho, o “poeta da linha”, cujas ilustrações se destacam na capa e na contracapa do Boletim.

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Divulgamos seguidamente algumas imagens desta Assembleia Geral, captadas por Dâmaso Afonso, presidente da respectiva Mesa (que só por causa disso não aparece nas fotos). Aqui ficam, mais uma vez, os agradecimentos que lhe são devidos pela valiosa colaboração que tem prestado, desde o início, aos nossos blogues.

Entre os sócios presentes, reconhecem-se, nas primeiras filas, António Martinó (outro eficiente repórter, sempre de câmara em punho), José Ruy e Geraldes Lino; e nas últimas, Pedro Bouça, António Amaral, Paulo Duarte (coordenador do Boletim do CPBD), Luís Valadas, Catherine Labey, José Vilela, Carlos Gonçalves e um sujeito de barbas grisalhas que eu vejo todos os dias no espelho…

A Mesa da Assembleia, composta por três elementos, foi ocupada (nas fotos) por Pedro Mota (presidente da Direcção) e Carlos Moreno (secretário da Assembleia Geral). Pedimos desculpa aos sócios não identificados. Fica para a próxima… 

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Quem reparar, ou fizer comentários acerca de tantas cabeças grisalhas, deve lembrar-se de que o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) festeja em 2016 quarenta anos de existência… e alguns dos sócios presentes já o acompanham desde a primeira hora! Honra lhes seja feita, pois, sobretudo aos que, como Carlos Gonçalves e Geraldes Lino, continuam abnegadamente a exercer funções directivas.

Posto isto, queremos também referir as duas exposições, recentemente montadas, que se encontram numa das salas do piso inferior da nova sede e que versam o tema Eça de Queirós e Alexandre Herculano na Banda Desenhada, numa parceria do CPBD com o GICAV (Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu). Aqui fica esta breve menção e o anúncio, dado o interesse que elas nos suscitam, de uma reportagem alusiva (neste e noutros blogues da nossa Loja de Papel), em próxima oportunidade.

Nota: Há algumas horas, recebemos também uma remessa de fotos enviadas pelo segundo “repórter de serviço” na Assembleia Geral do CPBD, o nosso bom amigo e colega da blogosfera, Professor António Martinó (autor do blogue Largo dos Correios), a quem agradecemos a generosa partilha e a colaboração sempre expedita, reservando para um próximo post a publicação das suas imagens.

JOSÉ GARCÊS – UM DESENHADOR COMPLETO

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Como foi largamente noticiado, inclusive neste blogue e n’O Gato Alfarrabista, José Garcês, um dos maiores mestres das artes figurativas portuguesas, foi alvo de uma oportuna homenagem na Biblioteca Nacional pelos seus 70 anos de carreira, iniciada em 1946 nas páginas d’O Mosquito. Homenagem que ainda decorre, depois de um colóquio realizado pelo Clube Português de Banda Desenhada em 30 de Março p.p., com uma exposição que está patente naquela instituição cultural até ao próximo dia 16 de Abril.

Organizada pelo CPBD e pela Biblioteca Nacional, essa exposição reúne várias amostras da fértil actividade artística de José Garcês, mostrando exemplares de revistas que fizeram história como O Mosquito, Camarada, LusitasFagulha, Joaninha Cavaleiro Andante, mas também álbuns de BD, originais, livros ilustrados, separatas e preciosas peças arquitectónicas como o Mosteiro da Batalha, habilmente reconstituído, até aos mínimos detalhes, por José Garcês, numa das numerosas construções de armar com que encantou, divertiu e instruiu os seus jovens admiradores (e não só).

Como é de uso nos eventos da Biblioteca Nacional, foi editada uma “folha de sala” com um artigo alusivo à extensa obra do homenageado, escrito por Carlos Gonçalves, um dos comissários da exposição. Por obséquio do Clube Português de Banda Desenhada, reproduzimos seguidamente o texto integral desse artigo (e respectivas ilustrações), que na folha da BN ficou muito resumido.

A Carlos Gonçalves e ao CPBD os nossos agradecimentos.

JOSÉ GARCÊS, UM DESENHADOR COMPLETO 

De todos os desenhadores portugueses, José Garcês é talvez um dos pouco que poderemos considerar como completo na sua arte. Isto porque na sua incontornável obra, além de se encontrar todos os ingredientes que qualquer História aos Quadradinhos deverá ter, emoção, aventura, suspense e um bom argumento, tem igualmente erotismo. Esta é talvez a componente mais importante ou, pelo menos, uma das mais importantes nos trabalhos deste desenhador. Várias são as suas obras e em quase todas elas a mulher acaba por desempenhar um papel de relevo no desenrolar da história. Cada uma das suas personagens femininas são dinâmicas, inteligentes e participam activamente na acção. Não esperam que o “herói” as salve, quando se encontram em perigo. Elas destacam-se e actuam, com risco da própria vida, contra qualquer vicissitude. Evidentemente que para atingir um palmarés invejável de produção e, inclusive, conseguir alcançar um patamar de qualidade na sua obra, tal só seria possível com o trabalho de muitas horas.

O EROTISMO NAS SUAS OBRAS

O Melro + O inferno verde

José dos Santos Garcês nasceu a 23 de Julho de 1928. O seu itinerário como desenhador começa quando ainda era muito novo, ao criar o fanzine O Melro, datado de finais de 1944. Seria uma publicação de exemplar único, destinado a ser alugado entre os colegas. Publicaria, assim, 21 números da 1ª série e mais três da segunda, até finais de 1945. Esta última teria já direito a mais exemplares por número, que passariam a ser vendidos. Os seus primeiros passos nas artes gráficas dão-se ao trabalhar para a revista O Pluto, editada por Roussado Pinto, onde se ocuparia de retoques e adaptações de algumas histórias estrangeiras, que de outro modo não seriam impressas nas páginas dessa publicação. Quase em finais de 1946, precisamente a partir do nº 762 (12/10/46), já o encontramos a colaborar na revista O Mosquito, com a sua história “O Inferno Verde”, onde se nota a sua apetência pelos animais, demonstrando já habilidade criativa no planeamento das pranchas e o conhecimento da anatomia humana.

A partir daqui, a sua carreira é veloz em acontecimentos e nos trabalhos que lhe são pedidos. Aparece na revista Camarada com uma história de capa e espada. Segue-se “Rumo ao Oriente”, onde pela primeira vez a mulher passa a dominar a acção. Aqui “José Raio”, o nosso “herói” aventureiro, irá encontrar nas suas aventuras uma mulher misteriosa, talvez demasiado bela, mas de cara coberta com um véu, que não deixava distinguir as suas feições. Mas o nosso desenhador rapidamente nos oferece uma mulher em toda a sua pujança chamada “Myrian”, de belos e longos cabelos negros, de olhos aveludados e nariz fino, uma boca pequena e suave, de figura esbelta e elegante. Ela irá desempenhar um papel importante na acção, acabando por ser raptada pelo vilão como convém, mas também chegará a alterar os planos do bandido, através da sua iniciativa.

Em “A Princesa e o Mágico”, também publicada na revista Camarada, Garcês oferece-nos outra figura feminina apaixonante com “Yalla”, uma princesa etérea, cujos pés parecem nem pisar o chão… Será mais uma figura feminina a fixar. Depois de alguns trabalhos que executou para a Joaninha, suplemento da revista feminina Modas e Bordados, aparece-nos uma nova personagem de nome “Hermengarda”, silhueta frágil, de longos cabelos louros e feições de grande beleza, em “Eurico, O Presbítero” de Alexandre Herculano. Desta vez, a história seria publicada nas páginas da própria revista (nºs 2274 a 2315, de 7/9/55 a 20/6/56), sendo mais tarde recolhida e lançada em álbum pela Editorial Futura. Em “As Três Princesas Cristãs”, publicada também no suplemento Joaninha, todas elas retratadas de uma forma audaz e ainda que as mesmas não se apresentassem em trajes menores ou mais ousados, eram cativantes e sensuais.

As Princesas Cristãs + Eurico, o presbítero

Poucos foram os desenhadores portugueses que destacaram e engrandeceram a mulher de tal forma nos seus trabalhos, pois não era só a sua beleza que contava. A sua participação no enredo e muitas vezes a sua personalidade, era demonstrada nos seus actos no decorrer da história. Antes de focarmos aqui os trabalhos que José Garcês executaria ao longo da sua carreira, lembramos ainda neste campo a personagem “Fathma”, que foi apresentada na revista Lusitas. É a pujança total, o ponto alto da carreira deste desenhador e onde a sua arte está mais patente aos olhos dos leitores.

UMA CARREIRA DE SUCESSO NAS REVISTAS

Enumerar neste pequeno espaço tudo o que José Garcês criou, seria quase completamente impossível, pelo que, de uma forma sucinta, vamos dar a conhecer os trabalhos de José Garcês, todos eles de uma maneira geral bastante importantes para a História da Banda Desenhada portuguesa. E lembramos que muitos dos seus trabalhos são precisamente sobre a História do nosso país e das suas figuras mais importantes, além de outras individualidades estrangeiras, navegadores, adaptações de romances célebres e até uma História de Portugal em Banda Desenhada. Depois das suas histórias publicadas em O Mosquito – 1ª série, publica uma aventura em O Papagaio, seguindo-se mais três no Camarada, de 1948/1950. A revista Lusitas será a oportunidade a escolher e para onde irá dar aso à sua imaginação com uma série de obras, entre 1950 e 1956.

Entre estas produções, irá dedicar também algum do seu talento à revista Cavaleiro Andante. São já obras de grande fôlego e de grande aceitação por parte dos leitores desta publicação. O tema histórico não será esquecido e a sua produção conta-se pela criação de mais de uma dezena de histórias, destacando-se entre estas “Viriato” e “O Falcão”. Esta última seria mais tarde recuperada pelos Cadernos de Banda Desenhada e nela se destaca mais uma figura feminina, na personagem de “Dona Leonor de Monforte”. Titã e Joaninha são dois espaços a aproveitar para neles surgirem mais trabalhos do nosso desenhador, mas infelizmente, no primeiro caso, serão unicamente duas histórias, já que a revista entretanto acaba. Estamos em 1955/56. Nos quatro anos seguintes, as suas obras serão publicadas nas revistas Cavaleiro AndanteCamarada, nos anos de 1957/60. Enquanto na primeira os temas escolhidos serão as aventuras, na segunda a sua imaginação e produção estão mais ligadas a vários trabalhos dedicados a figuras históricas, como se impunha, já que a publicação era uma edição da Mocidade Portuguesa.

viriato + falcão 1 e 2

Mas será nesta altura e a partir de 1958, que a produção de José Garcês consegue manter um ritmo extraordinário, ao publicar na revista Fagulha e até 1973, cerca de 30 obras. Mas, em paralelo, a produção não pára e o Zorro recebe dois trabalhos seus em 1964. Em 1968, trabalha para o Pisca-Pisca e nos anos seguintes tem ligações a algumas revistas com reedições, como é o caso do Mundo de Aventuras, embora para esta ainda crie “Os Cavaleiros de Almourol”, em 1981, e para o Tintin “A Dama Pé de Cabra”, de Alexandre Herculano, e “O Santuário de Dudwa”, no mesmo ano. Em 1971, era o responsável pela parte gráfica da revista Jacto. Também tinha prestado pequenos trabalhos de ilustração no Zorro e no Foguetão, em 1964. Girassol, com “Vagô, o Tigre”, e o Fungágá da Bicharada, com algumas histórias infantis, quase finalizam a sua ligação às revistas de Banda Desenhada, mas na verdade também já não havia quase edições do género, com histórias de continuação. Em 1985, temos O Mosquito – 5ª série, onde José Garcês também colaborou.

AS SUAS PRODUÇÕES EM ÁLBUNS

Mas se as revistas de banda desenhada já tinham sido quase extintas, era a altura de se debruçar sobre outro modo de dar a conhecer, também, o entusiasmo e a vontade de criar novos trabalhos do género, para outras gerações. Começam, então, a surgir os álbuns, uma nova iniciativa de algumas editoras que, desta forma, colmatavam uma falha e procuravam igualmente novas formas de incentivar outros leitores a debruçarem-se sobre as Histórias aos Quadradinhos, mas desta vez com enredos completos, sem ter que esperar de semana para semana pelo desfecho da história. Tal prática já se tinha iniciado em finais dos anos 60 com a editora Ibis, mas só a Meribérica se atreverá numa aposta grande nesse campo, chegando a publicar algum material de origem portuguesa, mas muito pouco. A Editorial Futura apostaria mais forte, com a sua colecção Antologia da Banda Desenhada Portuguesa, onde será publicada a obra “Eurico, O Presbítero”, de José Garcês.

Será mais tarde a Asa a pronunciar-se também, com maior acuidade, nesse campo, levando para o mercado a “História de Portugal em BD”, da autoria de José Garcês, com quatro magníficos álbuns, entre 1987/88. Depois de uma grande produção no campo das ilustrações para a colecção História Júnior, começa de novo a produção deste artista, com a criação de uma série de obras que passamos a destacar: “Bartolomeu Dias” (1988), “O Tambor” (1990), “Cristóvão Colombo” (1992/1993), “D. João V” (1994), “História do Jardim Zoológico” (1997), “História da Guarda” (1999), “O Lobo de Lorena” (2000),  “História do Porto” (2001), “História de Oliveira do Hospital” (2001), “História de Ourém” (2002), “História de Portugal” (2003) (reedição e impressão num só volume), “História de Pinhel” (2004), “História de Faro” (2005), “História de Olhão” (2005),  “O Lince Ibérico” (2011),”História de Silves” (2016) e, ainda sem editor, “História de Santo António de Lisboa”. Todas estas obras não seriam possíveis sem a ajuda preciosa dos argumentos de Carmo Reis, Mascarenhas Barreto, Jorge Magalhães, Luís Miguel Duarte e Bruno Pinto.

Cristvão Colombo+ Eurico+ História de Faro

AS SUAS CRIAÇÕES NO CAMPO DAS CONSTRUÇÕES DE ARMAR

Antes de falarmos nas contribuições de José Garcês para outras actividades diferentes da Banda Desenhada, vamos abordar algumas das suas obras nas construções de armar, tarefa de que se ocuparia igualmente com grande sucesso, pois não só se dedicou a essa actividade para as revistas de Banda Desenhada, como criaria separadamente algumas construções destinadas ao grande público e vendidas separadamente numa edição da Asa, como foi o caso do “Mosteiro da Batalha”, “Torre de Belém” e “Mosteiro dos Jerónimos”, em grande formato, além de uma série de “Casas Portuguesas”. Criou igualmente a “Sé da Guarda” e a “Lancha Poveira do Alto”, como construções mais recentes.

Produções deste género já tinham sido por ele elaboradas para o jornal O Século, nos anos 60, ao apresentar a “Ponte Sobre o Tejo”. Seguem-se dois modelos de aviões “Boeing” e o hidroavião “Lusitânia” de Gago Coutinho, para a TAP, e ainda “Um Acampamento Índio” para revista O Pardal. Mas a sua maior produção vamos encontrá-la na revista Camarada – 2ª série, a partir de 1959 e até 1964, com uma panóplia de iniciativas a salientar: “Padrão dos Descobrimentos”, “A Conquista de Lisboa”, “Um Torneio Medieval”, “A Primeira Missa no Brasil” e “D. Filipa de Vilhena Armando Cavaleiros Seus Filhos”. Ainda para o Camarada criou igualmente quatro folhas preenchidas com uma série de animais de todos os tipos. Desenhou 96 cromos históricos, que seriam oferecidos aos leitores da revista em folhas, e ocupou-se de um presépio, baseado nas figuras do Presépio de Barros Laborão e outros.

Conhecedor e especializado em uniformes portugueses, criou também para esta revista 16 folhas que seriam vendidas igualmente em cartolina, como aliás aconteceria com o Presépio. Estas folhas de “Uniformes Portugueses” seriam oferecidas, de novo, nas páginas do suplemento de domingo do jornal Correio da Manhã, anos mais tarde. São também da sua autoria os três primeiros números da “Enciclopédia em Cromos”, editados pela Scire, em Dezembro 1975/Outubro 1976. Poucos serão os desenhadores, independentemente da sua nacionalidade, que se tenham ocupado de um campo artístico tão vasto como José Garcês. As marcas da sua vasta obra encontram-se em todo o lado, pois não acaba aqui a sua versatilidade e o seu empenhamento na criação, ilustração e publicação de tudo o que possa fazer parte do seu mundo da arte.

SÉ DE GUARDA+ boletim+ ilustração

ACTIVIDADES PARALELAS DE JOSÉ GARCÊS

Depois que se inicia na Banda Desenhada e apesar de ter trabalhado durante 36 anos no Serviço Nacional de Meteorologia, José Garcês nunca mais parou com outras iniciativas, nomeadamente ilustrações para livros escolares e infantis. Uma das suas facetas bastante importantes serão as suas criações para o jornal O Século nos concursos “Lendas de Portugal”, “Heróis de Portugal”, “Mulheres de Portugal”, “Concurso dos Namorados” e “Grandes de Portugal”. Não escaparam à sua veia criativa revistas de turismo, alguns jornais regionais, o Jornal do Exército e o da Força Aérea. De 1959 a 1965, irá ocupar-se da criação de postais, abordando o tema de animais em vias de extinção.

Conhecedor profundo dos uniformes militares portugueses, viria a ser solicitado para criar uma monografia sobre o assunto para o Ministério da Defesa Nacional, em 1960. Para os CTT criou postais sobre o mesmo tema, seguindo-se uma colecção de fósforos. Para o Mosteiro da Batalha esteve ligado às exposições “O Alabastro Medieval Inglês em Portugal” (1981), “Música do Século XV”, um ano depois, e “Ao Tempo de D. João I”, em 1983. Depois é um nunca mais acabar de criações. É autor de uma colecção de cromos sobre o tema “História de Portugal”. Desenhou e pintou os painéis para a “XVII Exposição do Conselho da Europa”, na Torre de Belém, em 1983, criou um álbum de desenhos sobre a “História de Portugal”, destinado ao ensino de jovens portugueses emigrados, e participou no álbum bilingue “Oito Séculos de História de Portugal”, em 1984.

A parte didáctica e o ensinamento da Banda Desenhada também não foram esquecidos, através das suas deslocações a várias escolas para colóquios e cursos sobre o tema. Nos anos 80, foi presidente do Clube Português de Banda Desenhada, lugar que ocuparia por mais de uma década. Um dos números do “Boletim” do CPBD teve a honra de apresentar uma capa de José Garcês, onde se destaca a sua veia erótica, ou o mesmo não fosse sobre o tema “A Mulher na Banda Desenhada”.

Esteve também presente em vários Festivais Internacionais de BD, em Lucca e nalgumas cidades do nosso país onde os mesmos se têm realizado. Foi homenageado pela editora Asa no “VI Festival de BD – Lisboa 87”, realizado no Fórum Picoas, onde recebeu o prémio “O Mosquito – Uma Vida Dedicada à BD”, do CPBD; em 1988, o Centro Nacional de Cultura deu-lhe o 1º Prémio pelo álbum “Bartolomeu Dias” e, em 1991, recebeu a ”Medalha Municipal de Mérito e Dedicação”, oferecida pela Câmara Municipal da Amadora.

Provavelmente já ninguém se lembrará que o primeiro emprego de José Garcês foi num atelier duma fábrica de bonecos de madeira (os famosos bonecos de Piló), ao lado de Meco (pai do artista Zé Manel). Nessa altura, e só com 19 anos de idade,  já chefiava a secção de pintura da fábrica, onde trabalhavam mais de 20 moças e mulheres, que se ocupavam da pintura dos bonecos, de acordo com as cores que o nosso artista na altura escolhia.

 O CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA

JOSÉ GARCÊS – 70 ANOS DE CARREIRA ARTíSTICA

Segundo informação de Carlos Gonçalves, membro da direcção do Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), a partir de 15 de Março, e na continuidade da comemoração dos 80 anos da revista O Mosquito, a exposição que se encontra na Biblioteca Nacional (Campo Grande) irá também homenagear o mestre José Garcês, pelos seus 70 anos de carreira na 9ª Arte, iniciada em 1946 nas páginas de O Mosquito. Uma mostra das suas obras, que encantaram, divertiram e instruíram várias gerações de leitores, tanto pela beleza estética como pelo valor pedagógico de muitas delas, estará patente ao público até 16 de Abril, naquela prestigiosa instituição cultural.

Por deferência do CPBD, apresentamos seguidamente algumas fotos dessa exposição, tiradas por João Manuel Mimoso. Entre os itens mostrados ao público destaca-se a imponente construção do Mosteiro da Batalha, montada propositadamente pelo seu autor, José Garcês, para figurar nesta merecida homenagem.

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AS EXPOSIÇÕES DO CPBD (2) – “OS 80 ANOS D’O MOSQUITO”

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A segunda exposição patente, até ao próximo dia 12 de Março, no Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) — cuja nova sede, convém recordar, fica na Reboleira (Amadora), onde dantes existia o CNBDI —, engloba vários painéis dispostos ao longo das paredes de uma das suas maiores salas, contígua a outro espaço, no rés-do-chão, onde figura a expo- sição permanente dedicada ao historial do CPBD (já com quatro décadas de vida).

Nesses painéis, de apresentação idêntica aos da exposição “Tributo a Eduardo Teixeira Coelho”, já aqui referida, podem observar-se várias histórias publicadas pel’O Mosquito, ao longo dos seus 17 anos de existência (na 1ª série, que durou de Janeiro de 1936 a Fevereiro de 1953), expostas directamente nas páginas impressas, pois nem mesmo os originais de E.T. Coelho e de outros autores portugueses existem já, na maioria dos casos.

Nas legendas desses painéis, houve o cuidado (que elogiamos) de referir também o nome dos respectivos desenhadores, mesmo os das histórias estrangeiras (sobretudo inglesas), que naquela época ninguém conhecia.

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Como fizemos com o artigo alusivo à exposição de homenagem a E.T. Coelho, divulgamos seguidamente outro texto do Clube Português de Banda Desenhada, patente na mostra dedicada aos 80 anos de nascimento d’O Mosquito. Agradecemos ao CPBD (e particu- larmente a Carlos Gonçalves) a partilha destes trabalhos, que seria pena ficarem limitados a duas exposições que em breve serão encerradas para darem lugar a outros eventos, como oportunamente anunciaremos.

Lembramos, mais uma vez, a todos os interessados que até 12 de Março p.f. poderão ainda visitar estas mostras, na sede do CPBD, aberta todos os sábados, das 14h00 às 18h00 (com direito, portanto, a visitas guiadas).

Nota: o registo fotográfico da exposição “Os 80 Anos d’O Mosquito” é de Dâmaso Afonso, a quem endereçamos novamente os nossos agradecimentos.

OS 80 ANOS DA REVISTA “O MOSQUITO”

Nós, que estamos ligados à Banda Desenhada há décadas, custa-nos admitir que são já passados 80 anos sobre o primeiro dia em que a revista “ O Mosquito” seria publicada. Estávamos a 14 de Janeiro de 1936. Hoje torna-se fácil considerar que, na verdade, era uma publicação que faria História, não só como publicação infantil, mas também como um veículo privilegiado na divulgação de cultura. Tal deve-se à simbiose perfeita encontrada entre dois homens, um desenhador cheio de talento e de ideias, António Cardoso Lopes (Tiotónio), e outro repleto de amor pelo próximo, poeta, escritor e um grande homem da prosa, Raul Correia. Considerando as décadas que já passaram e o sucesso que esta revista teria ao longo dos anos em que seria publicada, teremos que admitir que estava encontrada a fórmula secreta para tal realidade. Quanto a nós e na época em que a revista é publicada, os contos tinham maior divulgação e eram tão ou mais bem aceites que a Banda Desenhada, embora esta não deixasse os seus créditos esquecidos, pois para ela também existia um público fiel. No entanto, o conto estava mais enraizado nos leitores, até por ensinamentos nas escolas, e já assim tinha sido nas revistas “ABC-zinho” e “O Senhor Doutor”, onde se revelaram grandes novelistas portugueses. No campo dos contos encontrava-se a mão de Raul Correia, que, logo a partir do número 1 da revista, inicia a publicação de um conto em episódios da sua autoria.

Evidentemente que a banda desenhada publicada possuía o seu interesse e encantava também os leitores, já que a publicação das aventuras de “Rob”, de Walter Booth e as de “Mick. Mock e Muck”, de Arturo Moreno, acabariam por alcançar uma certa aceitação ao longo dos meses. Esta última série acabaria mesmo por ser republicada em quatro pequenos volumes, mais tarde. Outras histórias seguir-se-iam, todas elas com um grafismo cuidado e onde se destacava um humor salutar, a maior parte delas de origem inglesa. Também no campo da aventura não faltavam novas séries igualmente de origem inglesa, tais como “A Flecha de Ouro”, de Reg Perrott, dois anos depois, e “O Gavião dos Mares”, de Walter Booth. É extraordinário como uma revista com 8 páginas apenas, embora num formato A4, conseguisse tal êxito… Raul Correia manteria a autoria dos textos, não só dos contos como das legendas didascálicas, como era usual na época, muitas delas criadas ao sabor da pena e poucas traduzidas dos seus textos originais ingleses. Uma nova equipa de contistas tinha-se associado à publicação com a contratação de Lúcio Cardador e Orlando Marques. O formato da publicação mantém-se no A4, até que a falta de papel no tempo da guerra obriga a uma redução de pelo menos uma folha (2 páginas) e o seu formato passa a ser o A5, com 12 páginas, a partir do seu número 318.

UM NOVO DESENHADOR SURPREENDE OS LEITORES

No entanto, estava a dar-se um facto muito importante, pois este é o período áureo desta publicação, com o aparecimento de um desenhador português, chamado Eduardo Teixeira Coelho (mais conhecido por E.T. Coelho ou ETC), que alcançaria uma carreira internacional, mais tarde, e que a partir de finais de 1942 passa a desenhar as capas da revista. E facto curioso é que as capas desenhadas por este grande artista eram essencialmente dedicadas aos contos. “O Mosquito” passará então a ser apresentado duas vezes por semana, com uma tiragem de 25.000 exemplares por número, um acontecimento deveras importante e que até aí nenhuma publicação do género alguma vez alcançara. Esta situação seria mantida por três anos, com as aventuras de “Cuto”, de Jesús Blasco, e outras histórias dos seus irmãos Adriano e Alejandro Blasco, além de dois novos desenhadores portugueses, que se tornariam igualmente famosos, Vítor Péon e Jayme Cortez, que passam a distribuir o seu talento pelos vários números da revista, até partirem para o estrangeiro, o primeiro para Inglaterra e o segundo para o Brasil, onde se tornará num caso único de popularidade junto de todos os desenhadores daquele país, tendo sido considerado um verdadeiro “Mestre”, como era muitas vezes designado pelas suas qualidades artísticas, existindo hoje um prémio naquele país com o seu nome.

“Os Guerreiros do Lago Verde” marca a estreia de Eduardo Teixeira Coelho na elaboração e execução de uma história aos quadradinhos, facto até aí inédito e onde pela primeira vez este desenhador oferece-nos extraordinárias pranchas em que retrata vários animais de uma forma arrojada, não descurando a sua aptidão para tal facto o ter passado várias horas no Jardim Zoológico a esboçar cada um dos animais que irão aparecer mais tarde, nas suas histórias (o tigre, os macacos, o rinoceronte e a sua luta contra o leão). ”O Capitão Meia-Noite” é outra das personagens de sucesso, da autoria de Walter Booth. Ainda nesta fase as histórias de “Cuto”, de Jesús Blasco, dão um salto qualitativo, que irá surpreender os leitores, tal é o realismo que este artista imprime às suas pranchas.

TRibuto ETC 1

OS ESCRITORES DA REVISTA

“O Mosquito” não circulava com sucesso pelos vários escaparates onde era colocado semanalmente à venda, só pela publicação das suas histórias aos quadradinhos. O seu peso literário também contava e muito na época. Era também devido ao esforço e dedicação de alguns novelistas da altura, que ofereceram os seus préstimos e os seus talentos, que esta publicação era bem aceite pela maior parte dos seus leitores. Independentemente de Raul Correia, que tinha a seu cargo alguns contos no início, a sua rubrica de “O Avozinho” e também a troca de correspondência com os leitores (respondendo na revista, mas também particularmente pelo correio), estava por detrás dos textos das novelas publicadas nas páginas da revista a mão de José Padinha (Peter Tenerife e outros pseudónimos), que nos deixou alguns contos cheios de ação, aventura e galhardia, seguidos igualmente de outros contos da autoria de Orlando Marques, qualquer um deles os mais prolíferos e destacados autores de novelas da revista. Não esquecer também os trabalhos de Fidalgo dos Santos, Roberto Ferreira (Rofer), Lúcio Cardador e António Feio. Todos eles contribuíram para que “O Mosquito” se destacasse neste campo.

MAIS UM NOVO FORMATO

A partir do seu número 681 passa para o formato anterior, o A4 de novo e com 8 páginas, embora este número se apresentasse com um suplemento de mais 16 páginas com uma história de Emilio Freixas, intitulada “Uma Estranha Aventura”. A partir deste número, o trabalho de ETC é ainda mais importante do que até aqui, pois além de executar muitas capas, desenha também mais uma história aos quadradinhos intitulada “Os Náufragos do Barco Sem Nome”, onde este artista, já na plenitude das suas qualidades artísticas, nos deslumbra com pranchas de excelente valor artístico. “A Epopeia do Forte Arizona”, de Cozzi, surge nesta fase, bem como outras histórias da sua autoria. Temos igualmente “O Caminho do Oriente”, de ETC, que se irá transformar num caso raro de popularidade e de longevidade. José Garcês inicia-se nesta fase também, com 18 anos de idade. A sua história “Intitula-se “O Inferno Verde”. Ainda que jovem, este desenhador acabará por se firmar com o seu talento e criará mais três histórias ao longo dos números da revista.

Será também nas páginas desta publicação que as aventuras do “Príncipe Valente”, de Hal Foster, aparecerão pela primeira vez em Portugal. “Tommy, o Rapaz do Circo” merece uma referência especial pela qualidade do seu traço, da autoria de John Lehti. Os enredos também não falhavam quanto à sua potencialidade literária. O desenhador de craveira que era Eduardo Teixeira Coelho, continua a oferecer-nos elevados resultados na contínua procura e concretização das suas potencialidades de desenhador e oferece-nos novas aventuras: “Sigurd, o Herói”, “A Lei da Selva”, um dos seus melhores trabalhos, “A Morte do Lidador”, “O Defunto”, “Lobo Cinzento”… Aparecem mais alguns artistas portugueses a colaborar na revista, infelizmente menos conhecidos, como são o caso de Monteiro Neves e, mais tarde, Ilberino dos Santos. Ruy Manso e Servais Tiago também já tinham colaborado na revista.

 AS HISTÓRIAS DE HUMOR

Não queremos deixar de fazer um pequeno parêntesis para lembrar as histórias de humor de uma única página que “O Mosquito” publicou ao longo da sua existência, da autoria de grandes desenhadores, a começar pelo próprio António Cardoso Lopes (Tiotónio) e acabando em Cabrero Arnal, passando por Arturo Moreno e os irmãos Adriano e Jesús Blasco. Todos eles desenhadores de sucesso, souberam imprimir aos seus trabalhos de uma página um verdadeiro manancial de alegria e divertimento para todos os leitores daquela publicação. Evidentemente que a revista dava lugar também ao humor em algumas histórias de continuidade, embora não descurasse as de aventuras, qualquer que fosse o seu género.

A partir do seu número 1201, a revista reduz de novo o seu formato para metade, apresentando mais um excelente trabalho de ETC, “Os Doze de Inglaterra”, agora recuperado e editado em álbum. Nesta fase há uma procura de novas personagens para serem publicadas, de modo a despertar e a renovar um maior interesse pela revista. Surgem assim “Lesley Shane”, de Oliver Passingham, “Jed Cooper”, de Dick Fletcher, “Rex Morgan”, de Bradley e Edington, “Garth”, de Steve Dowling, e “Terry e os Piratas”, de George Wunder. As histórias de origem inglesa com novas personagens iniciam-se neste período, talvez já com um pouco de menor qualidade. É nesta fase, e no início de 1952, que surgirá um novo desenhador português a colaborar na revista. Trata-se de José Ruy, autor de capas e também de uma nova história de Banda Desenhada, intitulada “O Reino Proibido”. Será este artista que irá lançar mais tarde uma segunda edição desta revista, da qual serão publicados 30 números, na expetativa de conquistar novos leitores. Infelizmente tal não se veio a verificar.

Um novo grafismo e um novo formato A4, virá ajudar a revista a apresentar-se com maior aspeto e melhor apresentação. Ainda que esbracejando nesta fase da sua agonia, pouco ou quase nada era possível fazer para salvar a publicação. O fim aproximava-se. As novas personagens irão manter-se e Eduardo Teixeira Coelho continuará a surpreender-nos com as suas histórias, desta vez com adaptações das obras de Eça de Queirós, “A Aia”, “O Tesouro” e “S. Cristóvão”, mas com arranjos de Raul Correia. Via-se que estes dois artistas tentavam impulsionar a revista com todas as suas potencialidades criativas. Todavia a publicação tinha chegado ao fim… mas as histórias não, pois ficariam incompletas. No entanto, e ainda que o seu papel estivesse terminado, não deixaria de ser uma caso único na História da Banda Desenhada Portuguesa, ao tornar-se um marco nesse campo e rivalizando com muitas outras publicações do género, não só pelo seu grande valor artístico como pelo didático.

O GRAFISMO DO “INSECTO” MOSQUITO

Um dos factos curiosos desta revista é a sua evolução e a sua continuidade, na procura da perfeição e no desejo de cativar os leitores durante os anos da sua publicação. Será assim com um pequeno grafismo, mas que será aquele que irá dar nome à revista e sustentá-la de uma forma digna e artística.

Tributo ETC 2

Estamos a falar da figura do mosquito, que se inicia também no nº.1 da revista, encontrando-se no canto inferior esquerdo. É da autoria de António Cardoso Lopes. No nº. 2 vamos encontrá-lo de maneira diferente, desta vez no canto superior esquerdo, depois irá alterando o local de exposição, até desaparecer a partir do nº. 30, voltando de novo, desta vez a partir do nº. 201, e assim se manterá até ao 317. No nº. 318 o seu formato é menor. A partir do nº. 360, altera de desenhador e de aspeto, a montar um cavalo de pau, pois passa a ser criado por ETC. Esta imagem irá ser a escolhida para um dos emblemas de lapela, que a revista criará para os seus leitores. O outro emblema (haverá dois) terá o mosquito a empunhar um chapéu.

Ao longo dos números a figura do simpático inseto vai mudando de grafismo. No nº. 390 surge de laço e cartola. Depois, vai de novo alterando a sua imagem, transformando-se num ardina a vender a revista, até que desaparece de novo a partir do nº. 537. Depois volta, a partir do nº. 642. No 681, devido à mudança de formato da revista para maior, o boneco sofre alterações… é um condutor de automóveis. Depois toca viola. E com várias alterações vai-se mantendo pelas capas até ao nº. 1201, com novo formato, mais uma vez reduzido para metade. No nº. 1373 temos um formato maior, que se irá manter até ao fim da publicação da revista, com mais novos grafismos no que respeita ao boneco, inclusive montado num burro, até acabar por desaparecer.

AS CONSTRUÇÕES DE ARMAR

Desde o início do século XX que algumas revistas infantis portuguesas resolveriam incluir nas suas páginas suplementos que apresentavam uma grande variedade de temas, desde jogos, passando por bonecos articulados, uniformes, figuras de animais, folhetos de propaganda, cupões de concursos, figuras para recortar, calendários, presépios, bonecos/bonecas, com os seus fatos ou vestidos, e mais tarde as Construções de Armar. Todas elas acabariam por ser um fator importante no sucesso da publicação, pois havia sempre alguns leitores que estavam à espera delas para as construírem e divertirem-se.

A primeira revista a incluir esse material nas suas páginas em Portugal seria “O Gafanhoto”, de 1903. Seguem-se o “ABC-zinho”, em 1921, o “Cócórócó”, em 1928, o “Tic-Tac”, em 1932, o “Senhor Doutor”, no ano seguinte, “O Papagaio”, em 1935, e finalmente “O Mosquito”, em 1936, e desde os seus primeiros números. Algumas construções que “O Mosquito” oferece aos seus leitores são de uma qualidade inquestionável, não só pela qualidade da sua conceção e desenho, como pela beleza e interesse. “Um Cruzador”, “Mobília de Bonecas”, “Aviões”, “Carros”, “Um Castelo”, “A Torre de Belém”, “Praça de Touros de Lisboa”, ”Presépios”, cupões de concursos, retratos de artistas de cinema, concurso de selos com artistas de cinema, “Índios e cow-boys”, etc… Seria um manancial de “brinquedos” para gáudio dos leitores da revista. As primeiras construções são impressas a uma cor, outras a preto e branco, mas mais tarde já serão coloridas, o que irá salientar o seu interesse e também a sua apresentação. Todas estas construções eram concebidas e desenhadas por pessoas igualmente ligadas às artes gráficas e arquitetura, como será o caso de Tiotónio, ETC, Vicente Ribeiro, Monteiro Neves, Rocha Vieira, Américo Taborda, A. Velez, etc.