RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 3

Das novelas para as legendas, o mesmo método narrativo

Raoul Correia e Cardoso LopesComo novelista em publicações juvenis, Raul Correia foi realmente um precursor, não só ao criar um estilo apreciado por todos os leitores (em que, na harmonia da forma e na icástica simplicidade do verbo, transparecia a influência de Eça de Queirós, o seu romancista favorito), mas, sobretudo, abrindo múltiplos caminhos a uma geração de novos escritores, também exímios no género de aventuras, que apadrinhou e acarinhou como um verdadeiro mestre. Graças ao seu exemplo e ao seu espírito de abertura (secundado por Cardoso Lopes), é que a produção de novelas n’O Mosquito foi muito superior à de histórias aos quadradinhos de autores nacionais, mesmo tendo em conta que entre estes figuravam E. T. Coelho, Vítor Péon, Jayme Cortez, José Garcês e José Ruy, que se estrearam quase todos nas mesmas páginas.

pelo-mundo-fora-mosq-124-902Com a chegada de Lúcio Cardador, Orlando Marques e José Padinha, a presença de Raul Correia como novelista tornou-se mais discreta, no propósito deliberado de dar lugar aos novos. Colaborou também n’A Formiga, suplemento para as meninas dirigido por Tia Nita (Mariana Cardoso Lopes), e noutras publicações das Edições O Mosquito, como Filmagem (onde assinou algumas crónicas com o curioso pseudónimo de João da Lua) e Mosquito Magazine. O cariz diferente desses trabalhos — bem como as impagáveis legendas que escreveu para Serafim e Malacueco e muitas outras séries cómicas inglesas — dão bem a ideia do seu talento e da sua versatilidade.

Também traduziu e adaptou muitas séries de aventuras que ficaram célebres, como Pelo Mundo Fora, O Gavião dos Mares, O Capitão Meia-Noite, O Voo da Águia, Na Pista de Fu-Chong, Os Companheiros de Londres, Ao Serviço da Lei, O Capitão Ciclone, Cuto, O Planeta Misterioso, Pepe Carter e Coco, etc, e colaborou, em estreita união, com E. T. Coelho nalgumas das melhores criações do genial desenhador, nomeadamente Os Guerreiros do Lago Verde, O Grande Rifle Branco, Os Náufragos do Barco Sem Nome, Falcão Negro, o Filho de Jim West, Sigurd, o Herói, O Caminho do Oriente, A Moura e A Fonte, A Moura e o Dragão, A Lei da Selva, Lobo Cinzento, cujas legendas escreveu com inexcedível mestria, numa prosa elegante, emotiva e vigorosa que não ficava aquém da beleza formal e da energia cinética que irradiavam das imagens.

mosquito-253-gaviao-dos-mares904É verdade que não se lhe pode legitimamente atribuir a co-autoria dessas histórias, mas seria lamentável e injusto não reconhecer que sem a sua prosa elas ficariam desfalcadas de um importante elemento, na relação verbo-icónica.

Outro dos seus melhores trabalhos como autor de legendas, que escrevia baseado apenas nos desenhos, sem outro suporte narrativo — no caso das HQ’s nacionais —, está patente em A Casa da Azenha, magistral criação de Vítor Péon, inspirada nos clássicos da “novela negra” americana. Não sabemos se foi Péon (cuja carreira artística muito ficou, também, a dever ao impulso que lhe deu O Mosquito) quem teve a ideia de narrar a história na 1ª pessoa, mas o certo é que esse método típico da literatura policial, sobretudo de autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler, tornou ainda mais vernácula a prosa de Raul Correia, que para entrar no âmago de uma história, mesmo inventada por outrem, precisava apenas de apelar à sua imaginação.

Há quem o acuse apressadamente de ser demasiado redundante nas legendas que escrevia, mas esses detractores recentes esquecem-se de que as histórias com textos didascálicos tinham dois níveis diferentes (e autónomos) de leitura. Os desenhos, mesmo expressivos como os dos autores ingleses que rechearam os primeiros anos d’O Mosquito, não podiam contar tudo, pois faltava-lhes o discurso directo, parte integrante, hoje em dia, de qualquer história aos quadradinhos.

Como novelista e autor de legendas, Raul Correia procurava acima de tudo descrever fluentemente (e coerentemente) o desen- rolar da acção, sem se preocupar com o excesso de prosa, pondo mesmo em risco, por vezes, a integridade das vinhetas, isto é, dos desenhos. Não era um escritor de meias palavras… para mal dos tipógrafos, mas benefício dos leitores! E isso era qualidade mais do que suficiente para que estes seguissem com tanta atenção e interesse a sequência narrativa como a sequência desenhada.

Foi graças à expressividade do seu verbo e ao vigor do seu estilo que os heróis das histórias “mudas” inglesas ganharam vida, parecendo ultrapassar o limite das vinhetas, de formato geralmente uniforme, como se a acção extravasasse para um espaço mais vasto: o do imaginário narrativo.

Aliás, Raul Correia teve bons discípulos, como Roussado Pinto, Orlando Marques e outros, que também se distinguiram como prolixos narradores, dando primazia, nas HQ’s que criaram, ao texto didascálico ou no interior das vinhetas. Escola de raízes literárias que, durante muito tempo, dos anos 20 até quase aos 80, foi predominante na BD portuguesa do século passado (mas isso será tema para outro trabalho), essa forma narrativa estava intimamente associada à influência do romance (sobretudo o de características mais juvenis) e dos fascículos populares (a chamada literatura de cordel), que antecedeu a influência do cinema e do cartoon na evolução orgânica da Banda Desenhada.

Para Raul Correia, novelista, tradutor e autor de legendas, que abominava os “balões”, o texto descritivo foi sempre a sua linguagem narrativa peculiar.

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CURIOSIDADES E ANOMALIAS – 4

Durante os seus primeiros cinco anos de existência, o aspecto gráfico d’O Mosquito pouco mudou. Com apenas oito páginas (mais quatro, durante um breve período), recheadas de histórias aos quadradinhos inglesas, contos e novelas ilustrados também com gravuras inglesas e os poemas do Avozinho, que eram lidos com tanto interesse como o resto do sumário, O Mosquito conseguiu impor-se a todos os seus concorrentes, conquistando um lugar cada vez mais proeminente no panorama da imprensa infanto-juvenil dessa época.

mosquito-201-784A guerra em curso na Europa dificultava também, como era inevitável, a vida dos portugueses, agravando, no caso particular dos jornais, o custo do papel e de outras matérias-primas, com cuja escassez O Mosquito e os seus congéneres se debatiam semana após semana. Parece quase um milagre que, numa altura em que muitas pessoas tinham de fazer bicha para comprar pão, leite e outros alimentos, as máquinas impressoras continuassem a trabalhar, fornecendo aos ávidos leitores juvenis uma espécie de “maná” que servia de alimento ao seu espírito e de lenitivo aos temores que as notícias dessa guerra longínqua infundiam aos mais timoratos.

Em Novembro de 1939, ignorando o que se passava bem perto das nossas fronteiras, com os fantasmas da guerra já a rondarem alguns países europeus, O Mosquito deu um passo de gigante que lhe permitiu consolidar ainda mais o seu lugar de líder no mercado, com uma tiragem que fazia inveja a todos os concorrentes — incluindo os que tinham nascido antes dele, como O Senhor Doutor e O Papagaio.

Com efeito, foi nessa data que se mudou para as suas novas oficinas gráficas, na Travessa de S. Pedro nº 9, em Lisboa (perto do jardim e miradouro de S. Pedro de Alcântara), onde ficaram, também instalados os seus escritórios e armazéns, pois o amplo rés-do-chão de um prédio que era pertença da família de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) tinha espaço para tudo.

A partir desse histórico momento, não só o seu aspecto gráfico melhorou como pôde aumentar o número de páginas, que passaram de oito para doze (mantendo a separata com uma construção de armar), e incluir outros melhoramentos, como  a nova rubrica dedicada à colaboração dos leitores (onde se estrearam, pouco depois, dois grandes novelistas, Orlando Marques e Lúcio Cardador), e mais histórias ilustradas pelos melhores artistas ingleses, que não tardaram a cotar-se entre os seus maiores êxitos: “O Voo da Águia” (por Reg Perrott), “Serafim e Malacueco” (por Percy Cocking) e “Pedro de Lemos, Tenente, e o Manel, Dez Reis de Gente” (por Roy Wilson).

mosquito-206-a-786A cor, que até então tinha sido sistematicamente monocromática, diversificou também a sua gama, tornando mais garridas algumas capas, a partir do nº 201, de 17/11/1939. Foi essa a primeira experiência policromática — ainda não totalmente conseguida, como os próprios editores reconhe- ciam no editorial desse número  — realizada por Cardoso Lopes na nova máquina onde era impresso O Mosquito, uma moderna Rollan, importada da Alemanha, que imprimia as páginas do jornal a uma velocidade nunca vista e com uma perfeição que, ultrapassadas as primeiras e notórias deficiências, deu um ar ainda mais atraente ao simpático “insecto” de papel, que se intitulava o “Mosquito” mais bonito de Portugal, do Minho ao Algarve.

A impressão em offset a três cores voltou a engalanar as capas d’O Mosquito nºs 206 (especial de Natal, com uma ilustração da ilustre artista Raquel Roque Gameiro) e 222, de 11/4/1940; neste o cabeçalho também mudou, ostentando um desenho de Cabrero Arnal, criador do famoso Cão Top, em vez da usual figura do “Mosquito” desenhada por Cardoso Lopes. Mas os tempos não estavam para folias e, por isso, a rotina voltou a instalar-se com o regresso das duas cores, na capa e na contracapa, quebrada apenas no nº 318, de 12/2/1942, primeiro de uma nova etapa, com O Mosquito a dar outro gigantesco passo em frente, apesar do formato ter diminuído, intitulando-se agora “formato de guerra”. Mas isso é outra história…

EM MEMÓRIA DE VÍTOR PÉON – O MAIOR CRIADOR DE “WESTERNS” DA BD PORTUGUESA

Mosquito 396Se tivéssemos de designar uma data “oficial” para o nascimento do western na BD portuguesa, não hesitaríamos em escolher a de 10 de Abril de 1943, pois foi nesse dia (um sábado) que se estreou uma empolgante aventura de cowboys n’O Mosquito nº 396, a primeira em estilo realista de um desenhador português, que assinava apenas Péon no cabeçalho da história. Identi- dade que, pela ausência de contactos, nessa época, com os leitores, passou quase desper- cebida, embora o dinamismo dos desenhos e a emoção contida em cada cena, num suspense sempre crescente, à maneira das melhores histórias inglesas, tivesse contagiado a rapaziada que lia com verdadeira paixão O Mosquito, pequeno mas atraente jornal juvenil que se publicava duas vezes por semana.

“Falsa Acusação” era o título dessa movimentada aventura do Far West e Vítor Péon Mourão o nome do jovem artista que a desenhava, autor também do argumento, embora o texto, que aparecia em legendas didascálicas, no rodapé das vinhetas, fosse escrito por Raul Correia, um dos directores e fundadores d’O Mosquito e narrador de larga veia, afeito a todos os géneros de aventuras que faziam as delícias dos seus jovens leitores.

Falsa Acusação a 10Antes de Péon se lançar na trilha do western, com a história que assinalou também a sua estreia como autor de BD, este género, em estilo “sério”, era apanágio apenas de alguns desenha- dores estrangeiros e de um excelente artista português, também ainda muito jovem, que dava pelo nome de Eduardo Teixeira Coelho (ou E.T. Coelho), mas se limitava a ilustrar as novelas de aventuras publicadas n’O Mosquito, como foi o caso de “Leis do Oeste”, um conto de Lúcio Cardador que serviu de tema à capa do nº 396.

Genuínas histórias de cowboys aos quadradinhos não eram presença rara nas páginas das revistas portuguesas, com primazia para O Mosquito, desta- cando-se entre todas elas uma notável criação de Reg Perrott, o mais talentoso desenhador inglês dessa época, intitu- lada “A Flecha de Oiro” (no original, The Golden Arrow). Perrot foi sem dúvida o artista que mais influenciou Vítor Péon no início da sua carreira e “Falsa Acusação” é a melhor prova disso, com um estilo que procurava imitar não só o dinamismo de linhas de Perrott como o realismo cinematográfico com que ele retratava os cenários e as personagens.

A tal ponto Péon admirava o trabalho do mestre inglês que, anos mais tarde, realizou para a revista Valente, editada por Roussado Pinto, uma versão de “A Flecha de Oiro” em tudo fiel ao original, ainda que num estilo já sensível a outras influências. Infelizmente essa versão ficaria incompleta, porque o Valente não resistiu por muito tempo à concorrência.

A Flecha de Oiro - MosquitoA par do seu inato dinamismo, Péon revelou-se um exímio desenhador de cavalos e de figuras femininas, elementos fundamentais de um western, sem os quais qualquer história de cowboys parece perder todo o interesse. Ao longo da sua carreira, o futuro criador de Tomahawk Tom, o mais icónico aventureiro do Oeste que já existiu na BD portuguesa, digno rival de outros grandes cowboys do seu tempo, como Cisco Kid, Roy Rogers e Hopalong Cassidy, nunca olvidou por muito tempo o género que cultivava com tanto entusiasmo.

Tomawak Tom logotipoE foi mesmo ao western que dedicou uma última homenagem quando, atingido por grave doença e impossibilitado de continuar a desenhar histórias aos quadradinhos, mostrou ainda uma centelha do seu talento pintando telas admiráveis, de cores quentes e pince- ladas impressionistas, cujos temas eram as vastas pradarias, os destemidos cavaleiros e os fogosos mustangs que tinham inflamado a sua imaginação, ao enveredar muito jovem por uma carreira em que somou os maiores êxitos e granjeou uma vasta legião de admiradores, tanto em Portugal como noutros países.

Recordando uma data histórica da BD portuguesa — que certamente muitos fãs do western celebrarão também com agrado, pois simboliza a transição de um estilo infantil e paródico, ainda vigente nas histórias de muitos autores nacionais, em plenos anos 30, para um género inteiramente realista que recria a verdadeira essência das histórias de cowboys —, a nossa Loja de Papel criou um novo blogue, com o nome de Era uma vez o Oeste, dedicado à memória de Vítor Péon e à heróica epopeia do Oeste americano, que ele, com o seu talento artístico e o vigor do seu estilo e da sua imaginação, ajudou também a enraizar no culto de várias gerações de jovens leitores, elevando-a a um patamar raramente ultrapassado por outros artífices da Banda Desenhada de cariz popular.

Nota: podem ver os primeiros posts deste nosso “irmão” mais novo através do link https://eraumavezooeste.wordpress.com

O MOSQUITO EM 1943 – 8

mosquito-1943-8-nc2ba422-961A partir do nº 422, o grande salto qualitativo d’O Mosquito, iniciado no ano transacto, desde o nº 360, com a primeira das espectaculares capas ilustradas por E. T. Coelho, atingiu um nível ainda maior, repercutindo-se na tiragem, na popularidade e na difusão da revista, que era lida em todos os cantos de Portugal e por miúdos de todas as origens, ricos e pobres.

Depois de tantas novidades, esse número e os seguintes ofereceram aos leitores alguns dos melhores contos e novelas de Raul Correia, como “Noite Tranquila” — que assinalou o regresso, embora breve, de Rudy Carter, um dos seus mais emblemáticos e apreciados detectives —, “A Emboscada” e “O Navio Negro” — duas aventuras de ambiente histórico, em que ao primor do estilo e à emoção do enredo se somava o fascínio dos cenários e das personagens —, como sempre magistralmente ilustrados (advérbio que já parece supérfluo) por Eduardo Teixeira Coelho, cujos versáteis dotes artísticos, em constante evolução, tinham cada vez mais admiradores, surpreendendo até os que olhavam de forma acrítica para esses trabalhos, sem saberem que o seu autor era ainda um jovem de 24 anos, pouco mais velho do que alguns deles que já andavam nos últimos anos do liceu.

Merece também referência, tanto pelos desenhos como pelo texto, o conto “Um Valente”, original de Lúcio Cardador, que seria a sua última produção literária publicada durante essa fase d’O Mosquito, por razões que mais tarde abordaremos.

mosquito-1943-8-para-ti-amigo-leitor-0031Algumas úteis secções ilustradas por E. T. Coelho continuavam também a aparecer regularmente, como “Carpintaria Aplicada”, que ensinava a fazer estantes, secretárias e outros móveis de estilo moderno (para a época). E até Tiotónio (A. Cardoso Lopes Jr.) deu um ar da sua graça ilustrando uma página assinada por “Cocabichinhos”, com instruções para os jovens campistas.

Nessa etapa que reservava ainda muitas surpresas, O Mosquito continuava a publicar com grande sucesso as façanhas do intrépido e misterioso Capitão Meia-Noite, juntamente com outra criação de Walter Booth, “Luta sem Tréguas”, que tinha como cenário o Oeste americano, às quais fazia companhia — além de algumas histórias italianas desenhadas por Giorgio Scudellari (“Ivan, o Terrrível”) e Giuseppe Cappadonia (“Os Piratas da Polinésia”) — outro vibrante western, intitulado “Falsa Acusação”, o primeiro êxito da carreira artística de Vítor Péon, que se estreara no nº 396 e teve o seu epílogo no nº 423.  

mosquito-1943-8-nc2ba423-e-424mosquito-1943-8-nc2ba425-e-4261mosquito-1943-8-nc2ba427-e-428mosquito-1943-8-nc2ba429-e-430mosquito-1943-8-noite-tranquila-1-e-21mosquito-1943-8-um-valente-1-e-21mosquito-1943-8-um-valente-3-9761mosquito-1943-8-a-emboscada-12mosquito-1943-8-a-emboscada-2-e-3mosquito-1943-8-o-navio-negro-1-e-2mosquito-1943-8-o-navio-negro-3-e-4mosquito-1943-8-o-navio-negro-5-e-61mosquito-1943-8-carpintaria-aplicada-1e-2 mosquito-1943-8-carpintaria-aplicada-31mosquito-1943-8-carpintaria-aplicada-4-e-5mosquito-1943-8-capitc3a3o-meia-noite-1-e-2mosquito-1943-8-luta-sem-trc3a9guas-1-e-2mosquito-1943-8-falsa-acusac3a7c3a3o-1-e-2mosquito-1943-8-ivan-o-terrc3advel-e-os-piratas-da-polinc3a9sia

Mas a mais sensacional novidade — que se tornou um marco de fundamental importância na história d’O Mosquito, ao abrir-lhe as portas de uma nova escola europeia recheada de grandes valores, capazes de rivalizar com E. T. Coelho (e até de lhe servirem de modelo) —, chegou no nº 424, de 17/7/1943, com a estreia de Emilio Freixas, um autor espanhol de traço elegante e estilizado, já famoso no seu país e cuja obra seria também muito apreciada e aplaudida em Portugal, graças ao Mosquito e ao Diabrete. Desse grande acontecimento falaremos com mais detalhes no próximo post desta série.

NOVELISTAS D’O MOSQUITO – 1

EM JEITO DE INTRODUÇÃO

ABczinho 165      006Corriam os anos 20 e 30 do século passado quando as novelas de aventuras de estilo moderno se estrearam no ABC-zinho e n’O Senhor Doutor; mas foi no Tic-Tac e depois n’O Mosquito, com o seu excelente lote de colaboradores, que este género evoluiu para uma escola mais dinâmica e realista, atingindo a plenitude entre 1936 e 1946 — aquela que podemos intitular «a década gloriosa da novela de aventuras em Portugal».

Até então, os textos, embora tivessem predominância sobre as imagens nas publicações infanto-juvenis, não eram genuínos (à parte os de teor humorístico), isto é, limitavam-se, salvo raras excepções, a copiar servil- mente os modelos vindos de fora, sobretudo de França e Inglaterra, países em cuja produção os directores de algumas dessas revistas, como Cottinelli Telmo, Carlos Ribeiro, Luís Ferreira (Tio Luís), José de Oliveira Cosme e Carlos Cascais, colhiam boa parte das histórias que publicavam nas suas páginas. Tic Tac 163      007Na sua maioria, tratava-se de traduções (ou adaptações) de novelas de autores anónimos. As obras originais de índole aventurosa eram raras, destacando-se, entre os seus autores, os nomes de Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X, António Feio e Henrique Samorano, um jovem talentoso que a morte arrebatou prematuramente.

Até meados dos anos 30, o género nunca teve grandes cultores entre as figuras mais distintas da nossa imprensa infantil, algumas delas oriundas do nobre campo das Belas Letras, que à elegância e ao primor da escrita aliavam um cunho didáctico e moralista, bem distante do conceito moderno de aventuras à maneira inglesa e americana.

Coube a um pequeno mas dinâmico “insecto”, concebido em moldes artísticos e comerciais inovadores, modificar de uma assentada esses parâmetros, não só devido à variedade nunca antes vista de histórias aos quadradinhos sugestivamente ilustradas (sobretudo inglesas e espanholas), como ao estilo vigoroso e emocionante das novelas de aventuras, escritas exclusivamente por autores nacionais. Numa primeira época, entre 1936 e 1939, os que mais se distinguiram foram Fidalgo dos Santos, Pedro de Sagunto, Roberto Ferreira (com o acrónimo de Rofer), e sobretudo Raul Correia.

Mosquito 11Lembro-me de que, no alvor da minha mocidade, quando lia avidamente O Mosquito — revista pela qual sentia um carinho especial, apesar de não ter sido a primeira que me veio parar às mãos —, as histórias de texto tinham o condão de me despertar tanto entusiasmo como as histórias ilustradas. Aliás, quer neste jornal quer nos seus concorrentes mais directos (O Senhor Doutor, O Papagaio e o Diabrete), a prosa preenchia ainda boa parte do sumário, atestando o que hoje se perdeu entre a maioria dos jovens: o gosto pela leitura.

Mas n’O Mosquito e no seu companheiro de jornada (durante dois anos) Colecção de Aventuras, até as legendas das histórias aos quadradinhos — que eram como que um prolongamento das histórias de texto, pois primavam pela ausência de filacteras (isto é, de balões) — se liam com interesse, graças ao cunho inconfundível da prosa de Raul Correia, a quem cabia a tarefa de as traduzir e adaptar. O director literário d’O Mosquito e autor também dos poemas do Avozinho, escrevia com rara elegância, ora num tom ameno e risonho, ora vibrante e emotivo, equilibrando as duas facetas com notável mestria.

colecção Aventuras 114Alguns desses predicados influenciaram naturalmente os seus colaboradores mais jovens, como Orlando Marques e Lúcio Cardador (que se juntaram à equipa em 1940), embora estes, apesar do seu inegável talento, nunca tenham atingido a craveira do mestre.

Todos os temas clássicos da novela de aventuras, desde as histórias policiais e de cowboys às de fundo histórico ou exótico, figuram na vasta obra de Raul Correia, como se a sua pena prolífica quisesse transmitir ao papel o colorido caleidoscópio de imagens captadas pelos seus olhos e pela sua mente, no convívio assíduo com os livros e com o cinema. Sem um novelista da sua envergadura, é possível que dois amigos inseparáveis, que viviam, então, na Amadora — e já tinham trabalhado juntos no Tic-Tac —, nunca tivessem acalentado o sonho de criar um jornal como O Mosquito; e, nesse caso, todos os novelistas formados na sua escola poderiam, também, nunca ter tido a oportunidade de sair do anonimato.

 A seguir: Raul Correia – A importância de um estilo

O MOSQUITO EM 1943 – 7

A partir do nº 410, publicado em 29 de Maio de 1943, os problemas com a aquisição de papel, que a guerra tornara um produto extremamente raro e cada vez mais valioso, pareciam ter-se atenuado e até a qualidade melhorou, deixando de aparecer papel de cor e tão fino que as imagens e as letras se viam à transparência.

mosquito-43-um-herc3b3i-de-17-anos-1-6422Nesta série de 10 números que hoje passamos em revista (do 412 ao 421), as capas d’O Mosquito, embora mantendo o mesmo cabeçalho, voltaram a enfeitar-se com cores garridas, que realçavam o deslumbrante e sedutor grafismo das ilustrações cada vez mais pujantes e dinâmicas de E. T. Coelho, em contraste com a monótona e insípida bicromia de alguns dos números anteriores.

 Acabada a longa novela de ambiente exótico “Sunyana, o Rebelde”, assinada por Robert Bess (Roberto Ferreira), regressaram logo a seguir os contos, não menos empolgantes, de Orlando Marques e Lúcio Cardador, secundados por mais uma história de guerra de A. S. Lopes (Augusto Simões Lopes, irmão de António Cardoso Lopes (Tiotónio), e por uma aventura africana, de autor desconhecido, todos magnificamente ilustrados por Eduardo Teixeira Coelho. O talentoso desenhador, que ainda não completara 25 anos, mosquito-43-correios-de-todo-o-mundo-680continuava a rechear O Mosquito com ilustrações de todos os géneros — abrangendo pequenos anúncios, rubricas de curiosidades e de trabalhos manuais, como já fizera no Engenhocas, outra revista das Edições O Mosquito, orientada por Tiotónio —, numa demonstração de grande versatilidade, tanto no estilo infantil e humorístico como no aventuroso e realista. Pela primeira vez, até os cabeçalhos dos contos e das novelas de aventuras, pela sua forma inspirada e inovadora, desde o desenho harmonioso das letras ao arranjo gráfico, suscitavam o interesse e a admiração dos leitores, aflorando também como trabalhos que mereciam ser valorizados no cômputo geral da revista.

mosquito-43-mosquito-106-6441Mantinham-se em publicação duas histórias aos quadradinhos inglesas, “O Capitão Meia-Noite” (cuja 1ª série se tinha estreado no nº 106, de 20/1/1938), e “Luta Sem Tréguas”, ambas do mestre Walter Booth — embora na segunda despontasse, por vezes, a intervenção de um medíocre colaborador —, enquanto que, pelo lado português, o vibrante western “Falsa Acusação”, do jovem e promissor estreante Vítor Péon, continuava a fazer-lhes honrosa companhia. No nº 417 surgiu uma nova história italiana, com o título “Ivan, o Terrível”, ilustrada sem grandes rasgos, mas com artesanal eficácia, por Giorgio Scudellari, cujo estilo já se tornara familiar aos leitores d’O Mosquito. Além disso, o episódio lia-se com interesse, destacando-se pelo seu enredo como um dos melhores dessa série.                                           

mosquito-43-separata-cary-grant-645Como já referimos, o airoso e popular bissemanário, a par das habituais folhas com construções de armar, tinha começado a inserir no nº 409 uma série de pequenas separatas de género muito diferente, com fotografias de artistas de cinema (alguns dos quais são recordados e admirados ainda hoje). Noutra rubrica, com mais informações sobre O Mosquito, satisfaremos a curiosidade dos nossos leitores cinéfilos, apresentando na íntegra essa colecção de raríssimas separatas.

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O ANIVERSÁRIO D’O MOSQUITO… HÁ 29 ANOS

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Quando passaram 50 anos sobre a data de nascimento d’O Mosquito ainda não havia Internet nem a “febre” das redes sociais e dos blogues que hoje cobrem e discutem todos os acontecimentos de relevo nas áreas da cultura, do desporto, da política (e em muitas outras), mas estava ainda em publicação a última série da mais famosa revista juvenil portuguesa, ressuscitada dois anos antes pela Editorial Futura, sob a direcção do malogrado dr. Chaves Ferreira, médico de profissão, amante das letras e da BD.

mosquito-50-anos-mosquito-nc2ba-12488Foi por sua iniciativa que um numeroso grupo de colaboradores dessa série (a quinta, no quadro histórico e cronológico d’O Mosquito), a que se juntaram outras figuras — algumas também já desaparecidas, como António Homem Christo, António Costa Ramos, Augusto Simões Lopes, António Barata e Lúcio Cardador —, se reuniu junto da antiga sede das Edições O Mosquito, onde funcionavam também as suas oficinas, na Travessa de S. Pedro, nº 9 (contígua ao Jardim de S. Pedro de Alcântara), e depois num restaurante do Bairro Alto para celebrar essa data histórica e, ao mesmo tempo, dizer adeus à nova série, cujo último número se publicou nesse mês de Janeiro de 1986.

Mosquito faz véniaO encontro promovido em pleno coração da imprensa lisboeta e o simbolismo da efeméride não passaram despercebidos a alguns jornais, como foi o caso do Diário de Lisboa e do Diário Popular, vespertinos na altura ainda em circulação, que no dia seguinte, 15 de Janeiro, publicaram com assinalável destaque as notícias que seguidamente reproduzimos.

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Mesmo sem Internet, Facebook, Google, Twitter, TV por cabo e outros avanços tecnológicos dos meios de comunicação que desde essa época se registaram a espantosa velocidade, um facto merece ser sublinhado: nos anos 80 do século XX (e até em décadas anteriores) os jornais davam mais importância à Banda Desenhada, como forma moderna e transversal de arte figurativa popular, do que dão hoje.

Mosquito ao guardachuvaMas os encontros entre gerações de leitores entusiastas, estudiosos, colaboradores e coleccionadores d’O Mosquito, esses não se extinguiram, nem o sentimento especial que Cardoso Lopes e Raul Correia, com o seu papel lúdico e educativo (mas distanciando-se da escola e da pedagogia), fomentaram numa larga camada da juventude portuguesa — que, por sua vez, o acalentou, num recanto nostálgico da sua memória, e o transmitiu no tempo, partilhando-o, pelo espírito e pelo exemplo, com as gerações futuras.

Nota: Queremos também recordar e prestar homenagem ao nome de Estrompa, outro colaborador d’O Mosquito (5ª série) que já não está entre nós.

Mosquito 50 anos - Mosquito nº 12 B489