HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 7

Avô Raul capa

VII

Assim se passaram os quase três anos seguintes, sem mais sobressaltos, até uma manhã de sábado, dia 1 de Maio de 1984. A minha mãe estava, na altura, a fazer uma tradução para um cliente francês, juntamente com a irmã “Bijéu”, na casa dos seus sogros, que, por sinal, viviam também na Rua Carlos Mardel. Quando chegámos ao portão, a minha tia, de expressão acabrunhada, caminhou na nossa direcção… e percebi que alguma coisa se passava. Disse-nos que a avó Teresa tinha morrido de manhã, na cama. Uma veia no seu cérebro rebentara. Ainda foi levada de ambulância para o hospital, já sem vida, com o meu avô ao seu lado. Tinha morrido rapidamente, sem sofrimento.  

Fomos para casa da minha tia Adelaide e lembro-me – como num sonho – de atravessar o corredor em direcção ao seu quarto e parar à porta… O meu avô estava sentado na cama, de cabeça baixa; sentiu-me entrar e olhou para mim… Nunca tinha visto tanta tristeza na expressão de alguém. Não fui capaz de lhe dizer nada e voltei para trás… De repente, “acordei”. A minha avó tinha morrido. A primeira cara que vi foi a da minha prima “Bibi”, que chorava no corredor e, apesar da sua própria tristeza, por saber o quanto eu era ligado à nossa avó, me disse “não chores”.

A avó que eu pensava viver para sempre, que me adormecia com histórias, me ia levar e buscar à escola e me concedia todos os pedidos, já não estava por ali. E se eu me sentia assim, como se sentiria o meu avô…

Nesse dia, tudo mudou. Para mim, foi o fim da primeira “parte” da minha vida. Para o meu avô, foi tão só o começo do fim. Rasgou o seu bilhete de identidade e disse que Deus o tinha traído. Não é preciso dizer mais nada.

Dois meses antes de ter morrido – como se já soubesse –, a minha avó tinha escrito uma carta de despedida, que entregou à minha tia, pedindo-lhe que o meu avô nunca a lesse. Nessa carta, pedia-lhe também que “olhasse por mim”.

Fotos 4

A vida continuou, menos bem.

A primeira vez que o meu avô foi sozinho receber a pensão ao Banco, o empregado, ao vê-lo entrar sem a minha avó e depois de saber o que tinha acontecido, disse-lhe que sempre o impressionara o amor e a amizade que transpareciam entre os dois. Estou a falar de uma pessoa que os via uma vez por mês, durante uns minutos…

Lembro-me do lugar vazio à mesa e do olhar vago do meu avô. Por vezes, durante o almoço, olhava para a cadeira desocupada e chorava.

Apesar de tudo, por saber o quanto a minha avó gostava de mim, o meu avô transferiu para si a “tarefa” de olhar por mim. Uma vez, a minha mãe foi sair e eu fiquei à espera dela em casa da minha tia; quando voltou para me vir buscar, tinha o meu avô à sua espera, muito zangado, porque já era muito tarde e eu tinha de descansar! Era meia-noite e eu tinha 16 anos, mas para ele, eram cinco da manhã e eu tinha 6 anos.

Em certos momentos, poucos, parecia-me que queria ultrapassar a avassaladora realidade, mas a tristeza era esmagadora, demasiado pesada para ele. Começou lentamente a ficar curvado e ficava longos momentos em silêncio, como se já não estivesse ali. De certa forma, já não estava. Dez meses depois, com a alma completamente sangrada, desistiu de viver. No dia 13 de Março de 1985, deitou-se na cama e ali ficou três dias sem comer e beber, aguardando o momento que sabia estar a chegar. No dia 15, deixou o mundo dos vivos e reuniu-se para sempre com a sua Maria Teresa.

Obrigado a ambos por tudo o que me deram, até sempre! Gosto de pensar, que de alguma forma, continuam a olhar por mim…

Alexandre Correia Gonçalves  

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Nota: Termina assim a publicação de uma série de artigos, recheados de curiosos factos da vida familiar de Raul Correia (o inesquecível Avozinho), em homenagem à sua memória (por tudo o que legou aos seus leitores, particularmente aos d’O Mosquito), à sua personalidade de homem de letras e de cultura e à sua obra vasta e multifacetada.

Renovamos os nossos agradecimentos ao seu neto Alexandre Correia Gonçalves por nos ter generosamente facultado este precioso testemunho biográfico, com várias fotos e documentos inéditos, cuja publicação muito honra e prestigia O Voo d’O Mosquito.

 

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