DIA 21 DE ABRIL, EM MOURA: HOMENAGEM PÓSTUMA A ARTUR CORREIA

No passado domingo, 15 de Abril, a Câmara Municipal de Moura inaugurou uma exposição de trabalhos de Artur Correia, nome incontornável da Banda Desenhada e do Cinema de Animação, recentemente falecido. Integrada em mais uma edição da Feira do Livro de Moura, a exposição conta com trabalhos originais nunca antes publicados nem expostos ao público.

Por gentileza dos familiares de Artur Correia, dois desses trabalhos (as adaptações dos poemas populares “Donzela que Vai à Guerra” e “A Nau Catrineta”) serão publicados em estreia absoluta em mais um número da colecção Cadernos Moura BD. A mostra, como dissemos, foi inaugurada no passado dia 15, no Parque de Feiras e Exposições de Moura (Pavilhão 2), e encerra a 26 de Abril. Fica, no entanto, aqui uma chamada de atenção (também em jeito de convite) aos interessados, para a data da sessão de homenagem: 21 de Abril, sábado, às 16:30.

Nesse dia se evocará o Homem, o Autor e a Obra, com a presença dos familiares mais próximos e de muitos amigos e colegas de ofício que, desde logo, confirmaram a sua ida até Moura, cidade que Artur Correia tantas vezes visitou, por ocasião do Salão de Banda Desenhada (onde foi “Convidado de Honra” na edição de 1994).

Nota: noticiário extraído do blogue BDBD (http://bloguedebd.blogspot.pt), a cargo dos nossos amigos Luiz Beira e Carlos Rico. Em devido tempo, este blogue publicará a reportagem que se impõe sobre a meritória iniciativa da Câmara Municipal de Moura. Até lá, porque não uma visita à Feira do Livro e à grande exposição de Artur Correia, particularmente no próximo dia 21 de Abril?

“O Voo d’O Mosquito” associa-se também a esta homenagem, recordando que Artur Correia — cuja vasta obra cobriu quase 70 anos — foi colaborador da última série da mais emblemática revista da BD portuguesa, ressuscitada em 1983/86 pela Editorial Futura.

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EXPOSIÇÃO “GENTE DA AMADORA – HISTÓRIA E MEMÓRIA ILUSTRADAS”

No próximo sábado, 14 de Abril, pelas 16:00 horas, inaugura-se na Casa Roque Gameiro a exposição intitulada “Gente da Amadora – História e Memória Ilustradas”, uma curiosa mostra sobre personagens históricas da cidade da Amadora (a capital portuguesa da BD), produzida a partir das ilustrações de Nuno Saraiva que serviram de tema à imagem gráfica da última edição do Festival Amadora BD (Outubro e Novembro de 2017).

Entre as personagens representadas, figuram cinco indelevelmente ligadas ao mundo da 9ª Arte: Stuart Carvalhais, António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), José Garcês, José Ruy e Vasco Granja, todos eles moradores ou naturais da Amadora (e os quatro primeiros colaboradores de uma emblemática revista nascida também nesta cidade, O Mosquito, fundada por Cardoso Lopes e Raul Correia).

A organização é da Câmara Municipal da Amadora. A Casa Roque Gameiro — um dos seus edifícios históricos de mais artísticas tradições — está situada na Praceta 1º de Dezembro, nº 2, Venteira-Amadora, e abre todos os dias, excepto às segundas-feiras e aos feriados.

Contactos: 21 436 90 58 / http://www.cm-amadora.pt

CANTINHO DE UM POETA – 41

Fugindo à regra, neste cantinho surge hoje, em vez de um poema ou de um texto em forma de parábola moral — método muito usado também pelo Avozinho para ensinar e encantar os seus milhares de leitores —, um conto cujo tema é a Páscoa, escrito por Raul Correia (o verdadeiro “eu” do Avozinho) e publicado, pela primeira vez, no Almanaque O Mosquito e A Formiga, saído dos prelos em finais de 1944.

Além do teor do conto, que revela toda a sensibilidade poética de Raul Correia — em harmonia com a do seu “duplo” literário —, são de destacar as ilustrações de E. T. Coelho, o jovem artista que, dois anos antes, iniciara uma trajectória fulgurante n’O Mosquito, que o guindaria, a breve prazo, aos lugares cimeiros da BD portuguesa e internacional.

Em 1982, este conto foi reeditado no Mundo de Aventuras nº 448 (2ª série), de onde extraímos as duas páginas que se seguem.

O NOSSO “IRMÃO” MAIS NOVO

Tenho o grande prazer de anunciar, finalmente, o aparecimento na Loja de Papel do meu “irmão” mais novo, O Gato Alfarrabista Júnior, cujos primeiros posts podem visitar clicando aquiEstejam, pois, atentos ao Júnior, que promete seguir os alvitres dos “manos” mais velhos…. para aprender a “gatinhar” sozinho.

(Atenção: quando chegar ao Gato Alfarrabista Júnior, se clicar na palavra Início, na barra preta debaixo do cabeçalho, para activar o side bar, aparecerá o último post publicado e bastará recuar para ver todos os outros). 

IN MEMORIAM: SERVAIS TIAGO (1925-2018)

Lisboeta, nascido a 16 de Junho de 1925, Armando de Almeida Servais Tiago colaborou em revistas como Sempre-em-Pé, Filmagem, O Mosquito, Diabrete, Cartaz, Riso Mundial, O Século, Boletim do Clube Português de Banda Desenhada ou Almada BD Fanzine.

Foi um desenhador de estilo caricatural e humorístico, sendo “Barnabé” (que se estreou em 1945 n’O Mosquito) o seu personagem de BD mais emblemático. Fez ilustrações e capas de livros, tendo-se, também, dedicado ao cinema de animação (criou os estúdios Movicine), obtendo alguns prémios em festivais internacionais.

Em 1943, com apenas 18 anos de idade, produziu “Automania”, filme inspirado no grafismo de Walt Disney e dos seus colaboradores — que, aliás, também imitava nas suas histórias aos quadradinhos —, com o qual venceu várias competições, incluindo o prémio Galo de Ouro da Pathé-Baby, o Troféu Ferrania e a Taça do Melhor Filme do Concurso Nacional de Cinema de Amadores. Ainda hoje, segundo Paulo Cambraia, é o filme português de animação original mais antigo, completo e em bom estado.

Em 1946, Servais Tiago começou a trabalhar nos estúdios Kapa, onde adquiriu conhecimentos mais profundos sobre a técnica de animação. Fez vários filmes publicitários, dos quais se destacam “Perfumes Kimono” (1946) e “Malhas Locitay” (1946), realizando ainda os primeiros filmes de animação portugueses a cores: “Tricocida” (1955) e “Grandella” (1956). Para a RTP, da qual foi também colaborador, criou o famoso “Zé Sempre em Pé”.

Servais Tiago faleceu tragicamente em Lisboa, no passado mês de Fevereiro, vítima de atropelamento. Com 92 anos, era o decano dos autores portugueses de BD e um dos últimos pioneiros do cinema de animação (como Artur Correia, de quem foi grande amigo), mas nunca teve as homenagens que merecia. Nem sequer depois da sua morte…

Nota: parte deste texto foi adaptado dos blogues BDBD e Animação Portuguesa. Brevemente, apresentaremos mais páginas do “Barnabé” publicadas n’O Mosquito, a primeira revista juvenil onde Servais Tiago colaborou.

PÁGINAS DE ANTOLOGIA – 2 (AUGUSTO TRIGO)

Mais duas páginas da história Kumalo – A Vingança do Elefante, publicadas no nº 6 da revista O Mosquito (5ª série), da Editorial Futura (Março de 1985), com ilustrações de Augusto Trigo e argumento de Jorge Magalhães.

Dois caçadores, um ranger (guarda florestal) e o seu guia negro, perseguem Kumalo, o elefante louco, ferido por um caçador furtivo, para o impedir de causar mais danos aos indígenas da região. Mas, durante o percurso, são assombrados por estranhas visões e por fantásticos pesadelos, como se os deuses da selva — em que Ilanga, o guia, supersticiosamente acredita — quisessem proteger Kumalo, que para os negros é a reincarnação de um grande induna (régulo) dos Matabeles.

Num desses pesadelos, Ilanga fica cativo e à mercê das selvagens amazonas de Nabunimbwa, uma cidadela antiquíssima, meio em ruínas, habitada só por mulheres. Onde acaba o sonho e começa a realidade?

Prescindindo quase do texto, estas duas magníficas páginas demonstram cabalmente a força expressiva dos desenhos de Augusto Trigo, através de uma paginação dinâmica e de uma refinada técnica do preto-e-branco — matriz em que a sua obra atinge, por vezes, o máximo da pujança e do esplendor.

Esta história foi publicada também a cores num álbum editado pela Meribérica, em 1988, de onde extraímos as mesmas páginas, para que os nossos leitores possam fazer a comparação entre a estética do preto-e-branco (com o cariz dramático, quase opressivo, que confere às imagens) e a paleta cromática do álbum.

Noutra altura, voltaremos ainda a Kumalo – A Vingança do Elefante, uma das maiores criações de Augusto Trigo, no começo da sua carreira como autor de BD.

ARTUR CORREIA (1932-2018), UM GRANDE MESTRE DA BD HUMORÍSTICA E DO CINEMA DE ANIMAÇÃO

Artur Correia e alguns dos seus personagens retratados por Zé Manel

Num país onde são raros os bons humoristas, até na Banda Desenhada, ARTUR CORREIA era quase um exemplo isolado. A sua obra vasta e variada, dispersa por publicações como “Camarada”, “Cavaleiro Andante”, “Fagulha”, “Picapau” e “Fungágá da Bicharada” (entre muitas outras), e o seu estilo divertido, inconfundível, que chegou também ao grande público através de um meio de expressão audiovisual de que foi um dos maiores pioneiros no nosso país — os desenhos animados —, dão-lhe jus ao título de “O GRANDE MESTRE DO RISO”.

Distinguido este ano pela Academia Portuguesa de Cinema com o Prémio de Carreira SOPHIA 2018 e premiado, em 1967, no maior Festival de Cinema de Animação do mundo, Artur Correia morreu na passada quinta-feira, dia 1 de Março, aos 85 anos.

Segundo a informação divulgada pelo Cine Clube de Avanca, em cujos estúdios de animação foi produzida a série “História a Passo de Cágado”, a obra de Artur Correia “marca de forma indelével vários momentos da história do cinema de animação português”.

Artur Correia iniciou-se na animação nos anos 60 e foi o primeiro cineasta português distinguido no maior Festival de Cinema de Animação, em Annecy (França), onde o seu filme “O Melhor da Rua” ganhou o prémio Melhor Filme Publicitário (1967).

Os filmes de Artur Correia receberam várias distinções, nomeadamente no campo do cinema de animação publicitário, tendo sido laureados com prémios em Veneza, Cannes, Hollywood, Bilbau, Nova York (1968 e 1969), Argentina (1970), Tomar (1981) e Lugano (1983).

Em 1970, realizou “Eu Quero a Lua”, que, segundo o Cine Clube de Avanca, “parece ser o primeiro filme português de desenho animado destinado ao grande público”.

Fundou a Topefilme, juntamente com Ricardo Neto e outros sócios, que se tornou o primeiro estúdio português de animação a trabalhar numa grande série internacional de animação. “Jackson Five” permitiu a Artur Correia dirigir a animação de um dos filmes desta série, produzida para os estúdios de Robert Balser (1972).

A primeira série portuguesa de animação, realizada em 1988 por Artur Correia e Ricardo Neto, foi “O Romance da Raposa”, baseada no célebre romance homónimo de Aquilino Ribeiro, que se trans- formou rapidamente num dos maiores sucessos da indústria audiovisual portuguesa.

Artur Correia aliava o seu trabalho na animação à autoria de ilustrações e de álbuns de banda desenhada. Publicou as suas primeiras histórias aos quadradinhos no semanário infantil O Papagaio e no quinzenário da Mocidade Portuguesa Camarada, mas foi no Cavaleiro Andante que assinou algumas das suas criações mais icónicas, entre elas as mirabolantes “Aventuras de D. João e Cebolinha”, que seriam reeditadas em 1985, pela Editorial Futura, na colecção Antologia da BD Portuguesa. Passou também por outras revistas infanto-juvenis de referência, como João Ratão, Fagulha, Camarada (2ª série), FoguetãoZorroPisca-PiscaFungagá da Bicharada Mundo de Aventuras (2ª série). Colaborou ainda, nos anos 80, no Almanaque O Mosquito, da Futura, e em 2004 num livro de homenagem a Vasco Granja (Edições ASA).

Atraído para a ilustração pela Banda Desenhada, levado para o Cinema de Animação por influência, quando ainda era muito jovem, dos filmes clássicos de Walt Disney, tinha no humor, na História e nos contos tradicionais portugueses as suas grandes inspirações criativas. Disso são exemplo algumas das suas obras de maior vulto na BD, como “História Alegre de Portugal” e “Super-Heróis da História de Portugal” (em parceria com o argumentista e seu grande amigo António Gomes de Almeida). Este último título obteve o prémio de Melhor Álbum no AMADORA BD 2005 e, em 2016, foi reeditado em fascículos, com grande êxito, pelo jornal Correio da Manhã.

Em 2011, Artur Correia recebeu o Prémio de Honra do supracitado Festival da Amadora, certame em que marcou presença desde o seu início. Mais tarde, voltou a ser pioneiro com a realização da série “História a Passo de Cágado”, produzida nos estúdios do Cine Clube de Avanca, que se tornou na primeira série europeia de animação a ser exibida em telemóveis.

Ainda em Avanca, viria a realizar a sua derradeira película, uma adaptação do Romanceiro de Almeida Garret. “A Nau Catrineta” (2012) foi exibida em Zlin, na República Checa (o mais importante festival de cinema para a infância), mas também em competições em Espanha, EUA, França, Grécia, Irão, Itália, Sérvia e Brasil (Prémio Melhor Animação no “Curta Amazónia”).

Em Portugal, foi exibida no Fantasporto, Avanca, Monstra, Fike e CineCôa, entre outros, tendo sido o filme de encerramento do Cinanima 2012.

Homenageado pelo CINANIMA em 1993 e, de novo, na última edição, em 2017, Artur Correia foi várias vezes júri e presença constante, acompanhando de perto o crescimento deste evento.

Foi igualmente homenageado pela CARTOON PORTUGAL e, já este ano, como referimos, foi distinguido pela Academia Portuguesa de Cinema com o Prémio Carreira SOPHIA 2018.

Fontes biográficas (adaptadas): Público / Lusa –  3/3/2018