NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA – 7

roussado-pinto-foto-aSob esta epígrafe, como já recordámos várias vezes, surgiu no Jornal do Cuto uma rubrica assinada por Roussado Pinto, nome mítico da BD portuguesa, que — correspondendo aos pedidos e desafios dos leitores — resolveu desfiar um punhado de memórias da sua vida profissional, ligada, durante essas três décadas, a alguns dos títulos mais emblemáticos da nossa imprensa juvenil, desde O Pluto, O Papagaio, O Mosquito e o Mundo de Aventuras ao Titã, ao Flecha, ao Valente, a maioria dos quais dirigiu e editou à sua própria custa (ou associado a velhos amigos), com notável dinamismo e persistência, mas sofrendo quase sempre avultados prejuízos econó- micos, que ditaram o seu temporário afastamento da Banda Desenhada para se dedicar a outros ofícios.

As referências ao jornal que mais amou, O Mosquito, preenchem muitas dessas notas que Roussado Pinto redigiu de memória ou retirou dos seus apontamentos, recheadas de episódios pitorescos de que ele próprio foi testemunha nos bastidores da redacção, onde trabalhou durante algum tempo como assistente de Cardoso Lopes e Raul Correia, depois da carreira d’O Pluto, a sua primeira aventura editorial (entre Novembro de 1945 e Maio de 1946), ter sido ingloriamente interrompida.

Stuart, visto por AmarelheNo texto que a seguir reproduzimos — o primeiro desta série iniciada em 10/9/1975, no nº 110 do Jornal do Cuto —, Roussado Pinto recorda a forma (algo atribulada para um novato) como travou conhecimento com o mestre Stuart Carvalhais, que era também colaborador das Edições O Mosquito e visitava amiúde a redacção/oficina da Travessa de S. Pedro, onde todos, especialmente Cardoso Lopes, apreciavam a sua companhia.

Artista sem vintém, dotado de um talento prodigioso que esbanjava também às mãos cheias, preocupando-se primeiro com o trabalho e depois com a paga (quase sempre irrisória), Stuart distinguia-se da maioria dos seus colegas de  profissão (que trabalhavam, às vezes, nas mesmas condições) por nunca perder o espírito de boémio. 

Nota: para o Mosquito Magazine, publicação semanal dirigida e coordenada por Cardoso Lopes (mas que teve existência efémera, apesar do seu ecléctico e curioso recheio, extinguindo-se ao cabo de cinco dezenas de números), Stuart realizou uma série de capas com os mais variados motivos, que são dignas de figurar entre os seus bons trabalhos de ilustrador.  

Notas de BD - 7    

QUADRICULOGRAFIA PORTUGUESA ILUSTRADA DE EDUARDO TEIXEIRA COELHO – 3

E T Coelho quadricolografia capa 351Apresentamos seguidamente as págs. XII-XVI (e últimas) de um artigo da autoria de Carlos Bandeira Pinheiro e Jorge Magalhães, com uma extensa quadriculografia de Eduardo Teixeira Coelho, relativa à sua colaboração n’O Mosquito e noutras publicações portuguesas de histórias aos quadra- dinhos (incluindo as obras oriundas de revistas estrangeiras, como o Vaillant).

Este trabalho, como temos referido, foi inicial- mente divulgado num suplemento da revista Biblioteca nºs 1 e 2, editada pela Câmara Municipal de Lisboa em Dezembro de 1998; e por ser um dos mais completos publicados até essa data (ressal- vando a parte dedicada às Selecções BD, cuja 2ª série começou em 1998), decidimos reproduzi-lo também neste espaço — para partilhar com quem nos visita um útil acervo de informações sobre a valiosa e prolífica obra do magnífico Artista que ficou conhecido, na história da BD portuguesa, pelo epíteto de “poeta da linha”.

Nota: sobre a parte dos livros ilustrados (1.5. Anexo), tencionamos apresentar, neste e noutros blogues da nossa “Loja de Papel”, a continuação de uma resenha que há muitos anos começámos a elaborar e que ainda não está completa.

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CURIOSIDADES & ANOMALIAS – 3

Mosquito 482 + 482 A

Na mesma ordem centenária (400 ao 499), voltaram a registar-se anomalias na numeração d’O Mosquito, pois encontrámos dois exemplares diferentes com o mesmo número (482), embora as datas estejam correctas.

As ilustrações das capas, pela mão e pelo traço do magnífico ETC (Eduardo Teixeira Coelho), são alusivas à novela “O Rancho do Sol”, da autoria de José Padinha, um novo e bem sucedido colaborador literário d’O Mosquito, que não assinou nenhuma obra com o seu nome, preferindo bizarros pseudónimos como Peter Tenerife, Juan L. Guanche, Gusmão Pó ou Montes de Oca, que caíram no goto dos leitores.

Dada a tiragem sempre crescente, nessa época, do popular bissemanário, admitimos que o número da edição de 9/2/1944 tenha sido emendado nalguns dos exemplares ainda existentes… o que até agora não foi possível confirmar.

Por curiosidade, atente-se nos cabeçalhos destes dois números, em que variam as letras e as imagens do título — com um mosquito peralvilho, de bengala (ou coisa parecida), laçarote e cartola, e um mosquito ardina, de boné, como era vulgar na sua modesta profissão. Que contraste mais flagrante entre o mosquito “pobre”, trabalhador, e o mosquito “rico”, bon vivant! Verdade se diga que este teve vida breve… enquanto que o outro durou uma eternidade!

É de salientar, também, a ausência no primeiro cabeçalho da ficha técnica (que nem sempre aparecia na capa) e do slogan publicitário que era a confirmação do estrondoso êxito d’O Mosquito, “o jornal infantil português de maior tiragem”.

A criatividade e o espírito fantasista de E.T. Coelho, quase sempre ofuscado pela sua mestria no estilo mais “sério”, em que acabaria por se especializar, rechearam de primores como estes os cabeçalhos que desenhou a partir do nº 360. 

CANTINHO DE UM POETA – 23

Cantinho de um poeta 23 630

Mais uma fábula infantil de Raul Correia — no tom lírico, eloquente e melancólico que tanta fama deu ao Avozinho, o seu carismático e familiar heterónimo que muitos leitores d’O Mosquito guardaram saudosamente na memória —, reeditada no Jornal do Cuto nº 86, de 1/3/1973, com uma ilustração  de Jobat (José Batista).

RAUL CORREIA, TRADUTOR PARA TODO O SERVIÇO (2)

Selecção FBI 39 617Aqui têm mais alguns livros das inúmeras colecções saídas das operosas oficinas da Agência Portuguesa de Revistas (APR), que foi, sem dúvida, a editora para a qual Raul Correia fez mais traduções, não só neste género de romances de cariz popular que abrangiam diversas temáticas, mas também para revistas de histórias aos quadradinhos, como Mundo de Aventuras, Ciclone, Condor Popular, Selecções e outras.

Numa consulta ao site da Biblioteca Nacional (BN), encontrámos muitos títulos de livros com tradução ou da autoria de Raul Correia… mais de três centenas e meia, o que demonstra bem a sua prolífica actividade de escritor, mas sobretudo de tradutor. E deve haver ainda mais!… A maior parte não consta, infelizmente, da nossa colecção, motivo porque não poderão ser incluídos nesta resenha, onde pretendemos reproduzir também as capas, indicando sempre que possível o seu autor — no caso das que foram realizadas nos “ateliers” gráficos da APR.

Na BN, alguns dos títulos catalogados têm datas de depósito legal que não correspondem, por vezes, às datas de edição, embora as diferenças possam ser de poucas semanas.

R Correia - Dossier Crime 19 618No lote que hoje vos apresentamos, com algumas colecções de temática policial, o destaque vai para a que tem por título Dossier Crime, e que neste grupo é a excepção à regra por causa do seu maior formato (11 x 18 cms) e da apresentação mais cuidada. A APR procurava, assim, ombrear com outras colecções policiais de maior prestígio, como a Rififi, da Íbis (num formato semelhante e recheada de autores americanos), diversificando a sua linha editorial para captar um público mais vasto, mais exigente e potencialmente com maior poder de compra.

Embora exibindo nomes ingleses, os autores incluídos nesta colecção eram, na sua maioria, de origem espanhola, mas escolhidos entre os melhores do género, em obediência a um critério mais rigoroso.

Outras colecções mais antigas e de maior longevidade (todas com copyright da Editorial Rollan), figuram também neste lote traduzido por Raul Correia, como FBI, Selecções FBI e Serviço Secreto. Note-se que as dimensões de Selecções FBI, colecção criada na senda do êxito da sua homóloga em formato de bolso, eram ligeiramente superiores, equiparando-se às da colecção Dossier Crime. Mas esta publicava também autores americanos, alguns de nomeada, como Frank Gruber.… merecendo, portanto, uma nota à parte.

Eis os respectivos títulos e demais elementos bibliográficos, incluindo as datas, colhidas no site da Biblioteca Nacional: “Quatro para o Inferno”  (Cuatro hacia el Infierno), de Anthony G. Murphy – Selecções FBI nº 39 (1963); “O Morto Subiu a Escada”, de Frank Gruber – Dossier Crime nº 19 (1965); “O Destino Manda” (El Destino Manda), de A. Gallard – Serviço Secreto nº 128 (1963); “Orquídeas de Morte” (La Muerte Amarilla) , de M. Saavdrovitch – FBI nº 186 (1963); “Tempestade de Violência” (Tempestad de Violencia), de Herman Tellgon – FBI nº 200 (1963); “Operação Patos Brancos” (Operacion “Patos Blancos”), de Frank Mc Fair – FBI nº 206 (1964); “À espera da Morte” (Esperando la muerte), de Henry Keystone – FBI nº 210 (1964); “A  Revolução dos Diabos” (La Revolucion de los Diablos) – FBI nº 303 (1968).

R Correia - col SS - FBI 186 e 200

R Correia - FBI 206 - 210 e 303

Algumas das capas destes livros foram realizadas por Carlos Alberto Santos, um dos mais talentosos e eclécticos desenhadores ao serviço da APR: Dossier Crime nº 19, FBI nºs 200, 210 e 303. A do FBI nº 186 tem a assinatura de Prieto Muriana, que fazia parte de um escol de ilustradores naturais do país vizinho, também com vasta obra.