PÁGINAS DE ANTOLOGIA: “LEVEM-ME NESSE SONHO” (TEXTO E DESENHOS DE JOSÉ RUY)

Nas páginas verdadeiramente antológicas que hoje vos apresentamos — extraídas de um dos melhores álbuns de Mestre José Ruy, “Levem-me Nesse Sonho” (“História da Cidade da Amadora em Banda Desenhada”, 1992, Edições ASA) —, são evocadas algumas das maiores figuras da BD portuguesa, como Zé Pacóvio e Grilinho, criadas por António Cardoso Lopes Júnior, o Tiotónio de mítica memória, colaborador de revistas como o ABCzinho, o Senhor Doutor, o Tic-Tac e O Mosquito, tendo nesta última (que fundou em 1936, juntamente com Raul Correia) assumido também o cargo de director artístico.

A par d’O Mosquito e do Tiotónio, desfilam neste álbum outras famosas revistas de BD e outros autores ligados ao património histórico da BD portuguesa, como Rafael Bordalo Pinheiro, E.T. Coelho e Mariana Cardoso Lopes, a carismática Tia Nita, directora d’A Formiga, suplemento feminino d’O Mosquito, que fez as delícias das raparigas e dos rapazes dessa época.

Por outras palavras, neste álbum, além da história da cidade da Amadora (antiga Porcalhota), perpassam também alguns dos vultos heróicos de uma época pioneira que deu às histórias aos quadradinhos os seus primeiros títulos de nobreza. Um álbum que nasceu dos sonhos de Mestre José Ruy — que também é um dos grandes pioneiros da BD portuguesa —, os sonhos com que ele homenageou, de forma inspirada, a cidade onde nasceu, reside e trabalha, e a Arte a que dedicou grande parte da sua vida, os sonhos que ainda hoje continuam a alimentar a sua fecunda carreira artística, o seu espírito criativo, a sua inesgotável imaginação.

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AVENTURAS NA SELVA – 3 (E. T. COELHO)

Página publicada n’O Mosquito nº 601, de 28/3/1945

Mais uma história de aventuras na selva, mas esta desenhada por E. T. Coelho e dada à estampa em 1945 n’O Mosquito, entre os nos 601 e 630. Tratou-se, aliás, da primeira incursão de E. T. Coelho nas histórias aos quadradinhos [de estilo realista, pois já antes publicara algumas “tiras” humorísticas no Engenhocas e na Filmagem], um novo passo, que os leitores saudaram com júbilo, de uma carreira já recheada de êxitos.

Como ilustrador, a sua obra é vasta e variada, dispersa por centenas de números d’O Mosquito, desde meados do ano de 1942, mas foi somente em 1944 que se estreou como autor de histórias aos quadradinhos, com dois trabalhos publicados, não em Portugal mas na revista espanhola Chicos, com a qual O Mosquito mantinha um frutuoso intercâmbio, permutando as ilustrações de E. T. Coelho com originais de Emilio Freixas e as aventuras de Cuto e Anita Pequenita desenhadas por Jesús Blasco.

Essas primeiras histórias aos quadradinhos de E. T. Coelho só apareceram n’O Mosquito em 1946, quase um ano depois de “Os Guerreiros do Lago Verde”, obra que seria também publicada em Espanha, na revista mensal Gran Chicos.

No plano formal e artístico, são poucas as diferenças entre essas histórias  uma delas passada também na selva, com o título “El Hechichero de los Matabeles” — “Os Guerreiros do Lago Verde”, o que nos leva a supor que foram todas realizadas no mesmo período, isto é, sem interrupção, desde 1944 até meados de 1945.

Mas já é patente na última o amadurecimento do estilo gráfico de E. T. Coelho e o seu domínio cada vez mais perfeito do desenho anatómico, que lhe permitia criar cenas de grande vigor e realismo, com ferozes combates entre animais selvagens ou entre aguerridas tribos africanas e exploradores brancos, bem ao gosto dos jovens dessa época, que vibravam com os filmes de Tarzan, o rei da selva, mas poucas vezes tinham visto combates semelhantes revividos nas telas de cinema com tamanha emoção.

Página publicada n’O Mosquito nº 602, de 31/3/1945

AVENTURAS NA SELVA – 2 (AUGUSTO TRIGO)

Mais duas páginas da história Kumalo – A Vingança do Elefante, publicadas no nº 6 da revista O Mosquito (5ª série), da Editorial Futura (Março de 1985), com ilustrações de Augusto Trigo e argumento de Jorge Magalhães.

Dois caçadores, um ranger (guarda florestal) e o seu guia negro, perseguem Kumalo, o elefante louco, ferido por um caçador furtivo, para o impedir de causar mais danos aos indígenas da região. Mas, durante o percurso, são assombrados por estranhas visões e por fantásticos pesadelos, como se os deuses da selva — em que Ilanga, o guia, supersticiosamente acredita — quisessem proteger Kumalo, que para os negros é a reincarnação de um grande induna (régulo) dos Matabeles.

Num desses pesadelos, Ilanga fica cativo e à mercê das selvagens amazonas de Nabunimbwa, uma cidadela antiquíssima, meio em ruínas, habitada só por mulheres. Onde acaba o sonho e começa a realidade?

Prescindindo quase do texto, estas duas magníficas páginas demonstram cabalmente a força expressiva dos desenhos de Augusto Trigo, através de uma paginação dinâmica e de uma refinada técnica do preto-e-branco — matriz em que a sua obra atinge, por vezes, o máximo da pujança e do esplendor.

Esta história foi publicada também a cores num álbum editado pela Meribérica, em 1988, de onde extraímos as mesmas páginas, para que os nossos leitores possam fazer a comparação entre a estética do preto-e-branco (com o cariz dramático, quase opressivo, que confere às imagens) e a paleta cromática do álbum.

Noutra altura, voltaremos ainda a Kumalo – A Vingança do Elefante, uma das maiores criações de Augusto Trigo, no começo da sua carreira como autor de BD.

AVENTURAS NA SELVA – 1 (AUGUSTO TRIGO)

A carga brutal de Kumalo, o elefante louco — que os indígenas do povo Matabele crêem ser a reencarnação de um induna, um grande chefe chamado Milikatzé —, numa das cenas finais de “Kumalo – A Vingança do Elefante”, história originalmente publicada na revista O Mosquito (5ª série), em 1984/85, com a arte magistral de Augusto Trigo e argumento de Jorge Magalhães.

Mais tarde, foi reeditada em álbum pela Meribérica, numa versão colorida mas amputada de algumas páginas. Esta prancha esteve exposta, em 2016, na Bedeteca da Amadora, durante uma mostra consagrada aos trabalhos de Augusto Trigo e do seu principal argumentista. Aqui ficam as duas versões, a preto e branco e a cores.