ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 9

O ENGANO DE WILL ARBLASTER (por F. R. Buckley)

Mosquito 887Frederick Robert Buckley, ou F. R. Buckley (1896-1976), é o nome de um escritor americano (mas natural de Inglaterra) que nada dirá à maioria dos visitantes deste blogue, embora não seja totalmente desco- nhecido dos leitores d’O Mosquito, pois foi autor de um conto de Natal traduzido por Raul Correia, no nº 887, de 24/12/1947 (com outra bela capa de E. T. Coelho).

É curioso, e talvez até um pouco insólito, associar o espírito natalício a uma história de cowboys, no sentido mais verídico e realista do tema, mas não foi caso único, pois outro escritor americano mais famoso, com o pseu- dónimo de O. Henry, fê-lo frequentemente, recorrendo ao mesmo assunto quando a inspiração assim o ditava.

The Saturday Evening Post (Christmas) aparadoNo caso de F. R. Buckley, o seu conto — que agora recuperámos das páginas d’O Mosquito, a pretexto desta quadra natalícia e como homenagem a dois nomes que têm estado sempre presentes no nosso blogue, os de Raul Correia e Eduardo Teixeira Coelho — tem ainda a curiosidade de ter sido apresentado na revista muito tempo antes da estreia da rubrica Antologia de Contos de Acção, onde foram publicadas muitas histórias do género, algumas de reputados novelistas, na sua maioria norte-americanos (como Jack London, Ernest Haycox, Johnston Mac Culley, James Warner Bellah, C. E. Mulford, Max Brand e o próprio O. Henry), que Raul Correia traduziu e adaptou com o seu habitual primor literário.

Noventa por cento desses contos eram oriundos (como já tivemos ocasião de referir num post anterior) de um popular magazine americano, The Saturday Evening Post, a que Raul Correia devia ter fácil acesso devido à sua ligação, como gerente comercial, ao Hotel Avenida Palace, frequentado por muitos estrangeiros. Daí também o seu conhecimento de vários idiomas, entre eles o inglês, que falava e escrevia correctamente.

Argosy (F.RDe qualquer modo, mesmo que a origem das suas “fontes” fosse outra, o que importa frisar é a grande quantidade e variedade de contos de aventuras que seleccionou e traduziu para essa rubrica — iniciada, ainda sem título, no nº 1032 —, e que já anteriormente tinham começado a aparecer n’O Mosquito, embora de forma dispersa, para preencher uma lacuna quando o principal novelista de “serviço”, Orlando Marques, estava ausente, como foi o caso de “O Engano de Will Arblaster”, da autoria de F. R. Buckley.

Refira-se, a título de curiosidade, que este novelista era um apaixonado pelos temas do velho Oeste, mas também abordou com frequência outros géneros, como o swashbuckling (aventuras históricas e de capa e espada), em revistas de larga tiragem como Argosy e Adventure, dois célebres pulp magazines que se publicaram, sobretudo o primeiro, durante muitas décadas. A preferência por esses temas devia-se, sem dúvida, ao seu currículo como argumentista e assistente de realização, nos tempos heróicos do cinema mudo.

Adventure - 4E. T. Coelho fez duas ilustrações para este conto, com um traço mais espesso e sombrio do que era habitual e que nos traz à memória os seus primeiros trabalhos, num vigoroso e aliciante preto e branco, para revistas tão emblemáticas como O Senhor DoutorEngenhocas e O Mosquito. Só um pouco mais tarde, fruto de uma rápida e magistral evolução, daria preferência ao uso do aparo e às linhas de contornos suaves e de textura luminosa, cujo contraste com a técnica do pincel era flagrante.

Aqui fica, pois, reproduzido directamente de um número especial d’O Mosquito, alusivo ao Natal de 1947, o emotivo conto de F. R. Buckley (cujo título original desconhecemos), que revive com mestria o cenário turbulento do Oeste americano, num tempo em que os jovens pistoleiros sem escrúpulos como Will Arblaster não ligavam muita importância ao espírito e aos festejos natalícios. Até conhecerem uma nova realidade, num final digno de O. Henry.

Para visionar melhor estas páginas, basta clicar sobre elas duas vezes, ampliando-as ao máximo. Boa leitura e até à próxima… (Atenção ao aviso no fim deste post).

AVISO IMPORTANTE: POR MOTIVOS IMPREVISTOS, QUE MUITO LAMENTAMOS, ESTE E OS OUTROS BLOGUES DA “LOJA DE PAPEL” VÃO FICAR TEMPORARIAMENTE SUSPENSOS. VOLTAREMOS AO VOSSO CONTACTO LOGO QUE NOS FOR POSSÍVEL.

O NATAL NA ARTE DE E.T. COELHO

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Esta bela e clássica ilustração de Eduardo Teixeira Coelho foi publicada no último número da 3ª fase d’O Mosquito, servindo de alegoria natalícia a um poema do seu director Raul Correia, cuja personalidade lírica se continuava a confundir com a do mítico Avozinho, o poeta de “alma triste e coração feliz”.

NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 5

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Com data do dia de Natal de 1948, apareceu nas bancas o garrido número especial de uma nova revista de pequeno formato — idêntico ao que O Mosquito adoptara anos antes —, e que era dirigida por um experiente profissional das artes gráficas e da imprensa infanto- -juvenil: António Cardoso Lopes (Tiotónio).

Na ficha técnica, o seu nome aparecia igualmente como editor, sob o patrocínio das Edições O Mosquito, localizadas na mesma sede, à Travessa de S. Pedro – 9, em Lisboa, de que ele continuava a ser proprietário. Este facto insólito e incompreensível para muitos leitores desse tempo devia-se à brusca cisão entre os dois directores d’O Mosquito, a qual impelira Raul Correia, com armas e bagagens (isto é, com a revista “debaixo do braço”), a dizer adeus ao seu sócio e a assumir com outros apoios a continuidade da mais antiga publicação infanto-juvenil portuguesa.

Tendo ficado sem o título que mais êxito e prestígio dera à sua editora, mas dono de uma oficina com equipamento do melhor que havia na época, Cardoso Lopes não perdeu tempo a congeminar novos projectos e assim nasceu O Gafanhoto, em 11/12/1948, criado à imagem d’O Mosquito, na fase que durara entre 1942 e 1945, embora com outro conteúdo, em que ainda se sentia a mão de Tiotónio no plano gráfico e artístico, mas sem um elemento primordial e que fazia toda a diferença: o talento literário de Raul Correia.

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Curiosamente, neste número de Natal (com uma capa desenhada por Cardoso Lopes, em que o bonacheirão velhote de fartas barbas brancas exibia algumas preciosidades saídas da “fábrica de sonhos” das Edições O Mosquito), um dos principais temas alusivos à quadra era uma poesia de Raul Correia, com o título “Noite de Natal”, publicada em tempos idos, com o cognome de Avozinho, no jornal que ainda lhe pertencia. A única novidade natalícia foi o Presépio apresentado em separata, modesto e simples, à semelhança do próprio “insecto” recém-nascido, ainda a exercitar timidamente as suas patas, na esperança de poder saltar maiores distâncias.

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Embora não tivesse tido vida longa (por razões que nunca foram completamente do domínio público), O Gafanhoto conseguiu granjear o entusiasmo de um vasto grupo de simpatizantes, graças não só ao seu preço e à sua periodicidade concorrenciais com os d’O Mosquito e do Diabrete, mas também a algumas excelentes histórias que apresentou nas suas páginas, nomeadamente a que tinha por título “As Aventuras de Gafanhoto” — adaptação livre (para “encher o olho” ao leitor) de uma série americana bem conhecida, com um simpático chinês que apreciava tiradas filosóficas, chamado Ming Foo, e que era desenhada por Nicholas Afonsky.

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Na última página deste número, sob o título Necas, Tonecas & C.ª, surgiam outros célebres personagens oriundos das mesmas fontes, que também já tinham feito as delícias dos leitores d’O Mosquito. Cardoso Lopes, cujos trunfos como editor de uma nova revista eram ainda poucos, soube apostar numa das séries cómicas mundialmente mais famosas, desenhada, nesse período, por Harold Knerr, mas cujo nome original — Katzenjammer Kids — continuava a ser desconhecido da maioria dos jovens portugueses.

As tropelias dos dois garotos endiabrados, cujo maior divertimento era pregar partidas ao façanhudo Capitão Barbaças, sem receio das reprimendas nem dos castigos dos adultos, provocaram muitas gargalhadas e foram um dos principais factores de êxito d’O Gafanhoto, nessa primeira etapa da sua existência.

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NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 4

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Este número especial d’O Pluto, comemorativo do Natal de 1945, é bem nutrido de páginas (trinta e duas) e de ilustrações de Vítor Péon, que o recheiam de uma ponta à outra.

Diga-se de passagem, para quem não souber, que este prolífico artista, então com 22 anos — cuja carreira na imprensa infanto-juvenil começara pouco tempo antes, e logo na revista mais famosa desse tempo, O Mosquito —, era a “mais valia” d’O Pluto e do seu director artístico e editor, o também jovem e dinâmico José Augusto Roussado Pinto, que apesar dos seus “verdes” 18 anos, acalentava o homérico projecto de fazer concorrência ao Mosquito e talvez, se os deuses e a sorte o ajudassem, superar até o seu êxito.

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Para isso, contou com a ajuda dos tipógrafos e de outros trabalhadores gráficos da Imprensa Barreiro, sita em Lisboa (a quem O Pluto prestava uma homenagem fotográfica nas páginas centrais desse número), mas sobretudo de Vítor Péon, que foi o autor de mais de 80% das histórias aos quadradinhos publicadas na revista e de quase todas as ilustrações que guarneciam as suas páginas, desde as capas aos textos e às rubricas mais variadas. Exceptuando o primeiro número, que contou com uma capa e um conto ilustrados por António Barata, todos os créditos artísticos no que respeita à produção nacional pertencem exclusivamente a Vítor Péon e ao seu prodigioso e rotineiro esforço criativo (sem quebra notória de qualidade), que já nessa altura começava a pedir meças aos talentos de E.T. Coelho e de outros grandes desenhadores da época, mesmo com estilos muito diferentes do seu, como era o caso de Fernando Bento.

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Só para dar uma ideia da volumosa produção de Péon, contabilizam-se neste número de Natal as seguintes histórias em episódios com a sua assinatura, abordando os mais distintos temas: de âmbito aventuroso, “Dick, Terry e Tom no Reino Selvagem”, “Roubo e Crime”, “Três Balas”; e em estilo cómico (género que ele também muito apreciava), “Furacão e o Seu Cavalo Trovão”, “Fitas Sonoras”, “Felizardo, o Rei do Azar” e “As Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota”. Por opção editorial, a fim de dar mais uniformidade à revista — e talvez, também, para imitar O Mosquito —, todas tinham legendas didascálicas.

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Além desta proeza, num total de onze páginas, Péon conseguiu ainda tempo para ilustrar outros assuntos, incluindo três novelas assinadas por Jomar (pseudónimo de Orlando Jorge B. Marques, outro prolífico colaborador que Roussado Pinto foi “roubar” ao Mosquito),  com os títulos “Os Planos H.P. 202”, “O Crime do Lucky Night” e “Hoje não, Joe!”, esta última de tema natalício. Até a página de abertura — com a tocante epígrafe “Mãezinha que estás no Céu!…” (capaz de derreter o coração dos leitores de mais tenra idade), em que, sob o “disfarce” de Velho Augusto, o jovem Roussado Pinto pretendia imitar o Avôzinho Raul Correia — foi também ilustrada a preceito por Péon, como seguidamente mostramos.

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A fértil criatividade destes dois activos e talentosos colaboradores, cujo entusiasmo e dedicação à “causa” transparecem em todos os números d’O Pluto, não teve paralelo em nenhuma revista infanto-juvenil dessa época, mesmo destacando o papel de Fernando Bento e E.T. Coelho nos quadros artísticos d’O Mosquito e do Diabrete, os dois grandes rivais com que O Pluto garbosamente se batia.

O valoroso despique não teve desfecho feliz para Roussado Pinto, que viu os seus sonhos esfumarem-se ao cabo de 25 números; mas esse “fracasso” inicial não o impediu de voltar à liça pouco tempo depois, primeiro aliando-se a Cardoso Lopes e a Raul Correia n’O Mosquito — onde criou concursos e conseguiu introduzir as primeiras HQ’s de origem americana —, depois passando para as fileiras do recém-chegado Mundo de Aventuras, na companhia do seu inseparável amigo e “braço direito” Vítor Péon.

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A capa deste número d’O Pluto, com o tema do Presépio (que Péon voltaria a retratar noutras imagens natalícias) serviu de mote à magnífica separata em folha dupla que a revista ofereceu como brinde aos seus leitores — como se já não bastassem todas as outras atracções por um preço quase simbólico de 1$50 escudos —,  num ano em que O Mosquito se engalanou também com (mais) um Presépio de E.T. Coelho.

Nos nºs 7 e 8 d’O Pluto vinham inseridas as restantes folhas deste Presépio de Vítor Péon, que temos o privilégio de reproduzir integralmente no nosso blogue, 70 anos depois da sua publicação naquela raríssima e apreciável revista.

E, como já estamos a poucos dias do Natal, aproveitamos este ensejo para endereçar, em nome d’O Voo do Mosquito — um blogue dedicado à mais emblemática revista da BD portuguesa —, os melhores votos de BOAS FESTAS a todos os nossos leitores e amigos.

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NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 3

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Eis a capa de outra famosa revista infantil, contemporânea d’O Mosquito: O Papagaio nº 506, de 21/12/1944, com uma magnífica ilustração de Méco, nome com que ficou conhecido para a posteridade António Serra Alves Mendes, um dos maiores artistas no seu género, pai de outro grande vulto da BD e das artes gráficas portuguesas do nosso tempo: Zé Manel.

Este número estava recheado de contos natalícios ilustrados por Méco, que era, desde há muito, um dos colaboradores mais em foco na revista, onde deixou sobejas marcas do seu talento, sobretudo numa longa série de capas, mas também em alegres histórias aos quadradinhos, como as célebres “Aventuras da Família Patelhicas”.

Um neófito colega artístico deu também um “ar da sua graça” neste número, cabendo-lhe a honra de ilustrar as páginas centrais com uma alegoria dedicada ao Natal. Apesar de ser ainda menino e moço, com 14 anos evoluídos, a mão já afeita ao traço desempenhava-se bem dessas tarefas, preparando-o intensamente para uma longa e triunfante carreira que lhe abriria, em breve, as páginas d’O Mosquito e de muitas outras revistas infanto-juvenis, e as portas de grandes editoras. O seu nome (e assinatura): José Ruy Pinto.

Ainda hoje em actividade, com o mesmo vigor, o mesmo entusiasmo e a mesma dedicação de outrora, José Ruy está prestes, assim, a festejar 71 anos da mais longa carreira ao serviço da BD portuguesa. Um recorde mundial digno do Guiness! Parabéns, Mestre!!!

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Uma nota curiosa para os admiradores de Tim Tim, que nesta edição d’O Papagaio (onde era, por todos os motivos, a figura principal) vivia mais uma das suas empolgantes aventuras: “A Estrela Misteriosa”. Na última página, o jovem e intrépido repórter, à data ao serviço do diário Le Soir, dirigiu uma mensagem natalícia a todos os leitores do semanário que fora o primeiro, em Portugal, a publicar as suas proezas… e ainda por cima a cores.

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OS DOZE DE INGLATERRA – por E.T. Coelho (2)

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A propósito do álbum que será lançado em breve pela Gradiva, com a reedição de uma das melhores histórias ilustradas por E.T. Coelho, cuja publicação teve lugar n’O Mosquito, entre Dezembro de 1950 e Dezembro de 1951 — e à qual já nos referimos com destaque num post anterior, que podem (re)ver aqui —, divulgamos seguidamente um texto de José Ruy, outro grande autor português de BD, com vasta obra de reconhecido mérito, que muito nos tem honrado com a sua colaboração e a sua amizade.

É de realçar, fazendo nossas as palavras de José Ruy, não só a qualidade gráfica desse álbum como as características que o distinguem da edição d’O Mosquito (e de outra, nos anos 70, sob a égide do Jornal do Cuto), pois foi realizado com base em provas originais, sem legendas, o que permitiu ultrapassar alguns defeitos dessas publicações, conservando, em todo o seu esplendor, a beleza imaculada da arte de E.T. Coelho.

As duas páginas, com novas legendas, e as capas do álbum foram-nos também enviadas por José Ruy, podendo apreciar-se numa das imagens o contraste, por causa das cores e dos textos (que tiveram de ser refeitos para não cortarem pormenores dos desenhos), entre a mesma página publicada n’O Mosquito e a que consta do álbum.
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OS DOZE DE INGLATERRA EM QUADRINHOS

«A grande novidade deste final de ano e início de 2016 é a brilhante iniciativa da editora Gradiva ao publicar uma obra notável, Os Doze de Inglaterra, adaptada em quadrinhos, a partir de um opúsculo atribuído a Campos Júnior, por Eduardo Teixeira Coelho, com o seu traço magistral. A história, com 112 páginas primorosamente desenhadas e inicialmente publicada n’ O Mosquito nos anos de 1950/51, foi agora recuperada numa edição de luxo e insere-se na comemoração dos 80 anos da saída do primeiro número deste mítico jornal, a 14 de Janeiro de 1936.

Aquando da primeira publicação no jornal O Mosquito, devido ao texto excessivo, embora muito bem escrito, de Raul Correia, partes importantes dos desenhos foram lamentavelmente amputadas e a sua composição gráfica alterada devido a esse facto. Apresenta-se-nos agora a ocasião única de podermos, pela primeira vez, observar os desenhos completos do grande ilustrador E. T. Coelho.

O aspecto de cada página, embora muito melhorado pelas novas tecnologias ao nosso alcance, mantém as características da publicação no jornal O Mosquito, com a sua textura peculiar. É uma edição a não perder, por todos os que mantêm a recordação desse tempo e pelos que tomarem agora contacto, pela primeira vez, com a obra de E.T. Coelho, descobrindo a mestria deste exímio e consagrado autor de histórias em quadrinhos, reconhecido não só em toda a Europa como além dela.

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Deixo aqui um conselho, se me permitem: façam já a sua reserva de um exemplar na editora (http://www.gradiva.pt), pois a edição será limitada.

O editor da Gradiva, Guilherme Valente, está, por isso, de parabéns por esta preciosa edição. Destaco a dedicação dos técnicos especializados da casa impressora, a Multitipo, e do arranjo da capa sobre um desenho de E.T. Coelho, pelo gráfico Armando Lopes, ele também autor de histórias em quadrinhos.

Compete-nos a todos, admiradores da arte de Teixeira Coelho, acarinhar esta heróica iniciativa, adquirindo exemplares e divulgando-a como merece.

Se um livro é sempre uma boa prenda para alguém que estimamos, este fará, sem dúvida, a felicidade de quem gosta de ler e aprecia as histórias em quadrinhos de qualidade».

                                                                                                                                José Ruy

NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 2

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Esta foi a primeira capa de Natal que Eduardo Teixeira Coelho (ETC) realizou para o bissemanário O Mosquito, pouco tempo depois de ter feito a sua estreia nas páginas da revista, em cujo quadro de colaboradores nacionais pontificara, até então, o traço simples e a veia humorística de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), salvo nas ilustrações inglesas com que, à falta de outras, se guarneciam os contos e as novelas de aventuras.

natal-poema-do-avozinho309Com a chegada de E.T. Coelho — depois de ter passado pel’O Senhor Doutor e pelo Engenhocas e Coisas Práticas, outra revista concebida e editada por Cardoso Lopes —, o aspecto gráfico d’O Mosquito (que adoptara novo formato a partir do nº 318) sofreu uma reviravolta total, começando pelos sugestivos e alegres cabeçalhos, renovados com frequência (depois da “normalização” seguida por Tiotónio), e pelas capas cheias de acção e movimento, quase sempre inspiradas nas histórias de texto que constituíam parte substancial do sumário — além dos respectivos títulos, das rubricas mais variadas, com curiosidades e passatempos, e dos poemas do Avôzinho (leia-se Raul Correia), ilustrados com poético e decorativo encanto, como o soneto que figurava neste número, a par da secção do correio.

Pode mesmo dizer-se que, sem as magníficas ilustrações de E.T. Coelho, o nº 366, comemorativo do Natal de 1942, seria mais um igual aos outros, embora recheado de excelentes séries inglesas, como O Capitão Ciclone e Ao Serviço da Lei, em que refulgia o talento de dois grandes ilustradores dessa velha escola, à época ainda anónimos: T. Heath Robinson e Hilda Boswell.Capitão Ciclone + Ao Serviço da Lei - Mosquito 366

Mas a “prenda” mais valiosa desta edição de Natal, a primeira de várias com capas de ETC alusivas à festiva quadra, foi, sem dúvida, o Presépio criado também pelo inspirado artista, cuja primeira folha se publicava neste número, inaugurando uma série de construções de armar em que se destacavam a beleza e a perfeição de todas as figuras animadas pelo seu traço, em contraste com o estilo caricatural de Tiotónio ou com o rigor geométrico de Calvet de Magalhães, ambos autores também de várias (e apreciadas) construções.

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Nos números seguintes, saíram as restantes folhas deste Presépio, sem dúvida um magnífico exemplo da versatilidade gráfica do jovem Eduardo Coelho (seu primeiro nome artístico), que nessa fase inicial da sua carreira dava ainda primazia, nas manchas e no contorno bem delineado das figuras, ao uso intensivo e vigoroso do pincel.

Os leitores d’O Mosquito seriam brindados nos Natais de 1943 e 1944 com outros preciosos Presépios (um deles numa folha de grandes dimensões) concebidos pelo genial “poeta da linha”, cujo fulgor artístico não tardaria a guindá-lo a um lugar de honra entre os principais colaboradores do semanário infanto-juvenil português de maior tiragem.  

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NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 1

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Durante esta quadra festiva, iremos apresentar uma curta série de números de Natal que fizeram as delícias dos leitores d’O Mosquito e de outras publicações infanto-juvenis suas contemporâneas — e com ele, por razões diferentes, directamente relacionadas.

Como foi o caso do Tic-Tac, fundado em 1932 por António Cardoso Lopes (Tiotónio) e João Vicente Sampaio, o primeiro dos quais foi uma das figuras mais proeminentes do jornalismo infanto-juvenil português e um dos pioneiros da BD humorística dos anos 20 e 30 do século XX, autor de inúmeras e patuscas personagens cujas rábulas ficaram célebres, nomeadamente o Zé Pacóvio, uma criação memorável surgida nas páginas do ABC-zinho, d’O Bébé (2ª série), do Có-Có-Ró-Có, do Tic-Tac e d’O Mosquito. No início de 1936, Tiotónio (ou Tio-Tónio) abalançou-se a projecto ainda de maior vulto, criando — com Raul Correia — uma das mais emblemáticas revistas da história da BD portuguesa: O Mosquito.

Pois aqui têm a capa do 1º número de Natal do Tic-Tac, 2ª série (24-12-1933), assinada por Raquel [Roque Gameiro], uma das maiores ilustradoras portuguesas de todos os tempos, com obra extensa e singular, de rara sensibilidade artística, em publicações infantis, mas que também se notabilizou nas artes plásticas, como seu pai Alfredo Roque Gameiro.

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Neste número do Tic-Tac, com 16 páginas, a duas e quatro cores, em que os temas natalícios têm a primazia, destaque para o conto de Ana de Castro Osório, “Uma História do Natal”, com ilustrações de Pinto de Magalhães (Filho), e a narrativa humorística “O Testamento do Peru”, original de Luíz Ferreira (Tio Luíz) e ilustrada por Tiotónio, que, além de dar o nome a uma curiosa secção de “engenhocas larocas”, também fez as honras da contracapa, com novas e azaradas peripécias do seu “compadre” Zé Pacóvio… por causa de um velho peru recheado que fez o saloio espertalhão ver a lua e as estrelas!

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Curiosamente, esta página foi inspirada numa historieta de outro grande desenhador humorístico, o mestre espanhol José Cabrero Arnal, publicada pouco tempo antes na revista Pocholo nº 109, copiosa fonte à qual O Mosquito foi beber muitas criações de alguns excelentes artistas do país vizinho, como Moreno, Arnal e Jesús Blasco.

Agradecemos ao nosso amigo Leonardo De Sá — e por seu intermédio a Jordi Artigas, que fez a pesquisa no Pocholo — pela oportunidade que nos proporcionaram de dar a conhecer aos nossos leitores duas versões da mesma história, feitas por autores diferentes, ambos com uma notável carreira artística que prestigiou a BD dos seus países.

Depois de as cotejarmos, leva vantagem a do Tiotónio, por ser a cores e ter como prota- gonista um “herói” de aspecto castiço — como os saloios da Malveira da Serra — que, apesar de não servir de exemplo, fazia rir a miudagem a bandeiras despregadas!

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Em resumo, um número de Natal também bem recheado de nomes célebres e de amenas propostas de leitura, entre as quais as rubricas Caçadas e Aventuras, De Tudo um Pouco (por Tiotónio), Para Moer o Juízo (secção charadística) e História dos Portugueses (por Eduardo de Noronha, com ilustrações de Rocha Vieira) — além de um novo episódio da mais empolgante série de aventuras dessa época, Pelo Mundo Fora (Rob the Rover), com desenhos de um grande pioneiro da BD inglesa (Walter Booth) e um herói que viria a tornar-se, tempos depois, uma das figuras mais populares do novel jornal juvenil concebido também por António Cardoso Lopes: o nosso imorredoiro O Mosquito!

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CANTINHO DE UM POETA – 16

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Mais um poema de Raul Correia, num tom de lírica e infantil simplicidade, repassado de suave melancolia, que nos traz à memória alguns dos versos e poemas em prosa publicados n’O Mosquito, com o célebre pseudónimo de Avozinho, cujo estro fluía também harmoniosamente, num modo quase sempre risonho e ameno, que divertia e encantava os seus jovens e fiéis leitores.

“Essa velhinha que vinha” foi reproduzido do Jornal do Cuto nº 91, de 5/4/1973, merecendo também destaque a ilustração de Jobat (José Batista), cujo traço realista, num expressivo preto e branco, se tornou complemento indispensável destes acordes poéticos onde vibrava ainda a lira do Avozinho.

 

 

OS DOZE DE INGLATERRA – por E. T. Coelho (1)

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Nos finais de 1950, O Mosquito — uma das mais antigas e famosas revistas da “época de ouro” da BD portuguesa — voltou a passar por profundas transformações, mudando de formato e aumentando o número de páginas (de oito para dezasseis), mas sem alteração do módico preço de 10 tostões (1 escudo), que mantinha simbolicamente há vários anos. O objectivo dessa mudança radical era continuar a atrair o interesse da rapaziada, oferecendo-lhe mais páginas e mais histórias pelo mesmo preço, embora o formato tivesse sido reduzido para metade, como na 2ª fase, publicada durante quase meia década — talvez a mais gloriosa da sua história —, entre Janeiro de 1942 e Dezembro de 1945.

A concorrência dos seus maiores rivais, como o Mundo de Aventuras (nascido pouco tempo antes, em Agosto de 1949) e o Diabrete (que já ia no 9º ano de publicação), foi, aliás, uma das razões mais fortes que ditaram essa decisão, largamente anunciada (e aplaudida pela esmagadora maioria dos leitores) nos últimos números do formato precedente, fazendo jus ao lema d’O Mosquito, tantas vezes repetido: Cada vez melhor!

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O principal colaborador artístico da revista continuava a ser Eduardo Teixeira Coelho, que deslumbrara a numerosa hoste dos seus juvenis admiradores com as magníficas adaptações de contos e novelas de Eça de Queirós publicadas pel’O Mosquito sem interrupção, desde o nº 1113: A Torre de D. Ramires (novela longa extraída do romance A Ilustre Casa de Ramires), O Defunto e O Suave Milagre.

12 Inglaterra Mosq 1280 704Histórias escritas por um dos maiores prosadores da língua portuguesa, que se transfiguraram, através do traço destro e harmonioso de outro extraordinário artista, numa obra-prima dos quadradinhos nacionais, digna até de chegar ao conhecimento de um público mais ecléctico e culturalmente mais amadurecido — como era o sonho de Raul Correia, grande promotor dessa fervorosa home- nagem ao insigne romancista que tanto admirava —, o que só viria a acontecer muitos anos depois, com a sua compilação em álbuns pelas editoras Vega e Futura.

No entanto, ao iniciar-se no nº 1201, de 27 de Dezembro de 1950, uma nova etapa, outra surpresa estava reservada aos leitores d’O Mosquito. Mas não foi o Eça que regressou às suas páginas, para mágoa de alguns — já contagiados pelo ritmo e pelo estilo lapidar da sua prosa —, embora E.T. Coelho continuasse presente, com outra excelente criação de ambiente histórico.

Tratava-se de uma narrativa com texto de Raul Correia, cujo enredo era baseado num tema conhecido de muitos jovens, sobretudo daqueles que já frequentavam o curso liceal, onde nas aulas de Português era obrigatória a leitura d’Os Lusíadas, o poema épico de Luís de Camões que descreve, em estâncias imortais, alguns dos maiores feitos da nossa História.

12 Inglaterra Mosq 1288Inspirando-se na romântica e heróica gesta dos Doze de Inglaterra — um grupo de jovens cavaleiros da corte de D. João I, o Rei de Boa Memória, que foram a Inglaterra participar num torneio em defesa de doze damas injuriadas por membros da nobreza, mais rudes no tratamento cortês do que no manejo das armas, como ficou provado durante a liça, para glória dos doze mancebos portugueses, entre os quais se destacou a bravura de Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço —, E.T. Coelho produziu outra obra-prima de perfeita beleza, que infelizmente n’O Mosquito perdeu muitos dos seus atractivos por causa do formato reduzido da revista e, sobretudo, do aspecto gráfico das vinhetas, onde o texto cortava, por vezes, a margem inferior dos desenhos.

Ressalvados, porém, esses defeitos — além da publicação descontínua, devido aos frequentes atrasos de E.T. Coelho, ocupado com outras tarefas —, não há dúvida de que os leitores d’O Mosquito acompanharam sempre com grande entusiasmo o relato das façanhas do Magriço, que decidiu fazer uma longa viagem por terra com o seu escudeiro, pisando 12 Inglaterra Mosq 1285 705somente solo inglês (para se juntar aos outros cavaleiros embarcados, tempos antes, em Lisboa) depois de viver inúmeras e pitorescas aventuras.

Com mais de 100 páginas, impressas a duas cores e cujo lugar de honra foi, durante muitos números, o espaço central da revista, com legendas em rodapé que tinham o cunho fluente e emotivo da prosa de Raul Correia, “Os Doze de Inglaterra” constitui, como já referimos, um magnífico exemplo do deslumbrante estilo de E.T. Coelho, então no cume da sua evolução artística, iniciada cerca de oito anos antes nas páginas de revistas como O Senhor Doutor, o Engenhocas e O Mosquito.

12 Inglaterra Mosq 1287 706Uma obra que obteve grande êxito e ficou na história da BD portuguesa, digna, por todos os motivos, de ser apresentada às gerações actuais, numa nova e cuidada edição, sob os auspícios de outro grande nome das histórias aos quadradinhos, mestre José Ruy — que acompanhou grande parte da carreira de E.T. Coelho em Portugal, como amigo e colega de trabalho, e é um dos mais profundos conhecedores da sua obra — e de uma editora com notável projecção em várias áreas, nomea- damente na da Banda Desenhada: a Gradiva.

Brevemente, divulgaremos uma nota informativa de José Ruy, onde essa sensacional novidade, ou seja, a apresentação em álbum (a partir de provas originais) de “Os Doze de Inglaterra” — coincidindo, a título de expressiva homenagem, com o 80º aniversário d’O Mosquito, que ocorrerá no próximo mês de Janeiro —, é descrita e explicada com mais pormenores.