AMADORA BD 2017 – UM FESTIVAL QUE TEM POR TEMA A REPORTAGEM

Cumprindo uma tradição já com 28 anos, o Amadora BD está de novo em destaque, no final deste mês de Outubro (é oficialmente inaugurado hoje, sexta-feira, dia 27, no Fórum Luís de Camões, e encerra em 12 de Novembro), com um programa subordinado ao tema “A Reportagem na Banda Desenhada”.

Pontos fortes: as exposições evocativas O Espírito de Will Eisner Jack Kirby – 100 anos de um Visionário, em homenagem a dois “monstros sagrados”, ambos já centenários, pelo extraordinário contributo que deram a um dos meios de expressão mais dinâmicos do nosso tempo, revolucionando graficamente a forma de contar histórias; e a exposição dedicada a Nuno Saraiva, autor da obra Tudo Isto é Fado, prémio de Melhor Álbum Português em 2016.

Da sua autoria é também o “populoso” cartaz do Festival, acima reproduzido, em cuja parte inferior é bem visível a imagem de um “mosquito”, idêntica à ladina figura do “insecto” mais bonito, que recheou os cabeçalhos da emblemática revista nascida em 1936, na mesma localidade da Amadora, por obra de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) e Raul Correia. O primeiro até se juntou ao seu “pupilo”.

Outro pormenor digno de nota é a presença de dois “monstros sagrados” da BD portuguesa, ligados desde sempre ao Festival: José Garcês, no 1º plano, junto de um magnífico tigre, o seu animal favorito, e José Ruy, ao alto, de pincel em punho, o precioso instrumento de trabalho que não larga há mais de 70 anos.  

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JOSÉ GARCÊS: AS PRIMEIRAS ETAPAS (1946/1950) – 1

O Mosquito foi, sem dúvida, um verdadeiro banco de ensaio para os principais desenhadores portugueses da década de 1940: Vítor Péon, E.T. Coelho, Jayme Cortez, José Garcês, José Ruy. Só por lá não passaram Fernando Bento, Júlio Gil e António Barata.

Nem sequer havia uniformidade de estilos na revista dirigida artisticamente por António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio). O que havia era juventude, entusiasmo, arrojo, fantasia, inovação, mesmo quando algumas influências saltavam à vista. Diz-se que E.T. Coelho, considerado o mais talentoso desse grupo de novos ilustradores, criou uma “escola”, influenciando quase todos os artistas de Banda Desenhada da sua geração. Curiosamente, é fora d’O Mosquito (com excepção de José Ruy) que vamos encontrar, mais tarde, os seus “discípulos”. Mesmo quando Péon era acusado, por alguns sectores, de copiar Coelho, já se descobria nas suas histórias aos quadradinhos o gérmen de um estilo pessoal, que acabaria por evoluir noutra direcção. Péon nunca se limitou a ser um ilustrador; Coelho, por vezes, ressentia-se disso. Os leitores chegaram, em certa altura, a preferir o primeiro ao segundo, e lá sabiam porquê.

Vem todo este arrazoado a propósito de um jovem desenhador — tinha, então, 18 anos — que se estreou n’O Mosquito nº 762, de 12 de Outubro de 1946, com uma HQ que já denotava as suas reais capacidades. Era um estilo novo, diferente de tudo o que já se tinha visto no jornal, embora quem examinasse atentamente os desenhos se aperce- besse da influência, mais subtil do que profunda, do mestre norte-americano Burne Hogarth, o mais famoso desenhador de Tarzan. Essa história intitulava-se “O Inferno Verde” e o seu autor era J. Garcês — assinatura num canto do último quadradinho, que iria tornar-se rapidamente conhecida.

O estilo era correcto e meticuloso, e assim permaneceria até hoje (exceptuando alguns trabalhos realizados em épocas mais conturbadas, quando as preocupações familiares e a falta de tempo, pois era desenhador-litógrafo do Serviço Nacional de Meteorologia, pesavam sobre o artista). À harmonia de linhas e de formas opunha-se um certo estatismo da expressão corporal, compensado pela perfeição dos enquadramentos e dos cenários, embora já se manifestasse a tendência para o plano geral. Há a registar, também, o bom emprego das sombras e do tracejado, importante meio estético que Garcês já demons- trava dominar com segurança.

Depois dessa promissora estreia, apare- ceram n’O Mosquito, durante os dois anos seguintes, mais três histórias com a sua assinatura: “O Império Enlutado” (2ª vinheta), “O Segredo das Águas do Rio” e “A Maldição Branca”. Os progressos foram árduos e lentos, mas era notória a aptidão narrativa e o à vontade com que o novel artista retratava personagens e ambientes exóticos — sem excluir o cenário, tão popular entre a juventude, do turbulento Oeste americano.

Na última etapa, o seu estilo já amadurecera o suficiente para figurar em primeiro plano num jornal que continuava a publicar duas das melhores histórias de E.T. Coelho, “O Caminho do Oriente” e “A Lei da Selva”, e onde se estreara pouco antes outra obra-prima, o Príncipe Valente, de Harold Foster (que se tornaria o seu desenhador favorito).

Os balões estavam ausentes, mas a maioria dos desenhadores portugueses dessa época ainda não se tinham afeiçoado à moderna linguagem dos comics americanos, apesar do exemplo dos artistas catalães que, a partir de meados dos anos 1940, revolucionaram O Mosquito: Jesús e Alejandro Blasco, Emilio Freixas, Puigmiquel, Carlos Roca, etc.

Cremos que a regra das legendas em didascálico, que duraram até ao último número, foi imposta por Raul Correia, director literário d’O Mosquito (embora Cardoso Lopes raspasse todos os diálogos das HQ inglesas, há balões em muitas das suas histórias), pois é um facto que Raul Correia sempre preferiu trabalhar com legendas, onde a sua veia de prosador e poeta podia espraiar-se à vontade. São dele, aliás, todos os textos das histórias publicadas n’O Mosquito, não só das que traduziu e adaptou (espanholas, francesas, inglesas e americanas), como dos originais portugueses de Coelho, Péon, Garcês, Cortez e, mais tarde, José Ruy e Monteiro Neves.

Aluno da Escola António Arroio e do Mestre Rodrigues Alves, que lhe incutiu uma sólida formação artística, Garcês revelou grande habilidade, desde o início da sua carreira, para a execução de presépios e construções de armar (esta última, uma modalidade que esteve muito em voga nas revistas infanto- -juvenis da primeira metade do século XX e que ele cultivou com grande sucesso).

Mais tarde, ao ingressar na revista feminina Modas e Bordados e nos semanários infantis Lusitas e Camarada, viria a especializar-se num tema a que poucos desenhadores podem habilitar-se sem estarem para tal devidamente preparados: a BD histórica. Escolha que, se por um lado contribuiu para a sua consagração oficial (como ele próprio admite), serviu também, durante algum tempo, para alimentar as críticas (preconceituosas e pouco fundamentadas) de muitos detractores desse género de narrativas.

Mas são as produções da sua juventude (como “Fathma”, “Rumo a Oriente”, “A Princesa e o Mágico”, “A Ave Encantada”, “As Três Princesas Cristãs”), fantásticas, alegóricas e barrocas, aliando a poesia do fundo à delicadeza da forma, que muitos dos seus leitores de antanho continuam a recordar — e talvez até a preferir.

A seguir: “O Inferno Verde”, história publicada nos nºs 762 a 769 d’O Mosquito.

A predilecção de J. Garcês,  no início da sua carreira, por temas fantásticos e ambientes feéricos está bem patente nesta história (Camarada, 1949)

CUTO, HERÓI DE UMA GERAÇÃO – 4

Depois da grande evolução patente em “O Mundo Perdido”, tanto ao nível dos desenhos como do argumento, o estilo de Jesús Blasco continuou sempre a aperfeiçoar-se, atingindo um dos seus pontos culminantes numa fantástica aventura (El Planeta Misterioso”), escrita por Huertas Ventosa, que fez também as delícias dos leitores d’O Mosquito, durante o ano de 1945, entre duas curtas aventuras de Cuto: Bandidos e Cavalos” e O Rapto de Juanita”.

Esse pleno domínio da forma, num alarde de virtuosismo gráfico que seria, desde então, a nota dominante dos trabalhos de Jesús Blasco em estilo realista, desenvolveu-se a par da sua maturidade como autor completo, dando origem a um novo e extraordinário ciclo na movimentada carreira de Cuto. Assim o demonstra a história seguinte, onde Blasco quis retratar a barbárie e a tirania em páginas de inaudita violência, numa clara alusão aos crimes do nazismo e do fascismo, desafiando abertamente a censura. Mas esta não pareceu ver, por detrás da acção empolgante e do cenário oriental, a analogia com a Espanha franquista e a mensagem sobre os malefícios da ditadura, destinada a alertar a consciência dos jovens que seguiam com emoção as peripécias de Cuto em “Tragedia en Oriente”, a mais dramática história aos quadradinhos publicada, nessa época, em Espanha e, pouco tempo depois, também n’O Mosquito.

Cuto, repórter fotográfico vivendo em São Francisco (EUA), tornou-se nessa aventura uma espécie de David que enfrentava, armado apenas com a sua coragem, um monstruoso Golias personificado pela sinistra fortaleza de Tok Saloung, onde imperava o cruel “Mago Branco”, figura maquiavélica que sonhava dominar o mundo, raptando para esse efeito os melhores aviadores e cientistas, quando a guerra ainda grassava na Europa e noutras paragens. Mas o “Mago Branco” foi vítima da sua própria ambição, abatido pelos esbirros do coronel Wei, numa luta secreta e implacável pelo poder que fez também numerosas vítimas entre os prisioneiros da fortaleza. E Cuto jurou vingar-se e acabar com o domínio do novo tirano, depois de ver os seus amigos tibetanos (habitantes da mesma região onde se situava a fortaleza) serem cobardemente atacados pelos sicários do usurpador, que não hesitava em empregar as armas mais destruidoras, construídas pelo “Mago Branco”, para alcançar os seus fins: tornar-se também dono do mundo.

Durante grande parte do ano de 1946 — no novo formato d’O Mosquito, que voltara a crescer, embora diminuindo o número de páginas —, Tragédia no Oriente” foi a aventura que mais prendeu a atenção dos leitores, impressionados pelo horror das peripécias, mas também pela coragem de Cuto, símbolo do herói comum capaz de transformar a sua fragilidade juvenil numa desmedida força que acabaria por triunfar sobre o mal e sobre os carrascos da hedionda seita de Tok Saloung.

Apresentamos seguidamente mais duas páginas do jornal O Louletano — onde se inseriu a magnífica rubrica 9ª Arte, coordenada pelo nosso saudoso amigo José Baptista (Jobat), falecido em Março de 2013 —, com a continuação do artigo de Jorge Magalhães e as primeiras páginas de outra aventura de Cuto, “O Lago da Morte”, oriunda do Almanaque Chicos (1947) e publicada anteriormente no nosso país em três revistas cujo nome ainda perdura, saídas do prelo de fecundas editoras: Mundo de Aventuras (APR, 1953), Colecção Jaguar (Portugal Press, 1972) e Almanaque O Mosquito (Futura, 1985).

TOM BROWNE E PERCY COCKING, REIS DO HUMOR NA BD BRITÂNICA DOS SÉCULOS XIX E XX – 1

Como anunciado há pouco tempo, aqui têm o artigo de Roussado Pinto dedicado a Tom Browne, artista inglês hoje quase esquecido que foi o criador da série Weary Willie and Tired Tim — celebrizada em Portugal, sobretudo entre os leitores d’O Mosquito, pelo carismático nome de Serafim e Malacueco com que a baptizou Raul Correia, tradutor e adaptador, no mais livre sentido do termo, das suas mirabolantes peripécias.

É óbvio que Roussado Pinto nutria também especial afeição por estes dois burlescos personagens, vagabundos sem eira nem beira que davam tratos à imaginação para viver à custa dos outros, pois ressuscitou-os no Jornal do Cuto, em episódios extraídos d’O Mosquito, e no Valente, uma das primeiras revistas que editou, ainda nos anos 1950, com páginas originais em que luzia o traço de Percy Cocking, um dos sucessores de Tom Browne. Cocking trabalhou na série (e na sombra) durante mais de 40 anos, dando-lhe um inconfundível cunho histriónico e elevando-a aos píncaros da fama. São da sua autoria todas as histórias apresentadas n’O Mosquito e na Colecção de Aventuras, até à década de 1950.

O artigo de Roussado Pinto, em que pela primeira vez os leitores portugueses viram em letras gordas o nome de Tom Browne (embora, por lapso, mal grafado no texto), foi publicado no Jornal do Cuto #18, de 3/11/1971, e é o primeiro que respigamos de uma rubrica recheada de interesse, onde Roussado Pinto publicou vários artigos sobre personagens e autores famosos da recém consagrada 9ª Arte, tanto portu- gueses (Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, Carlos Alberto Santos, António Cardoso Lopes, José Garcês, Stuart Carvalhais), como estrangeiros, a começar por Jesús Blasco. Foi também Roussado Pinto, com a sua insaciável curiosidade, o primeiro, como já referimos, a levantar o véu (no nosso país) sobre o criador da mais popular série humorística inglesa da primeira metade do século XX — que surgiu no Mosquito #209 (Janeiro de 1940) e noutros números, transitando depois, com retumbante êxito, para a Colecção de Aventuras, lançada nesse mesmo ano pelas Edições O Mosquito, onde permaneceu até ao final da primeira fase (de figurino idêntico ao d’O Mosquito), muitas vezes com honras de capa. Mas o seu regresso à origem não se fez esperar, pois já se tornara a predilecta da juventude portuguesa e até do seu tradutor.

Brevemente apresentaremos outro artigo sobre esta emblemática série inglesa, publicado no Mundo de Aventuras, em 1979, com a assinatura de Leonardo (Leonardo De Sá), então um jovem e promissor articulista cujos conhecimentos sobre os obscuros primórdios da narração figurativa já chamavam a atenção de muitos bedéfilos.

TERRY E OS PIRATAS (9º E 10º VOLUMES)

Continuando a manter uma regularidade sem pausas, José Pires lançou em Setembro/Outubro mais seis edições dos seus fanzines, com destaque para Terry e os Piratas, a obra-prima de Milton Caniff, cuja reedição integral, quase totalmente inédita entre nós, abrangerá 25 volumes do FandClassics, cada um deles com mais de 70 páginas. O preço, no entanto, não varia, fixando-se nos 15 euros. 

Uma tarefa quase homérica, com a duração prevista de dois anos (!), mas que o incansável José Pires (experiente nestas lides) encara sem preocupações, pois a colecção, de cadência mensal, já vai no 10º volume e o número de assinantes não tem parado de aumentar, proporcionando-lhe a indispensável garantia financeira para um projecto de tão grande vulto.

Recordamos que esta famosa série se estreou em Portugal n’O Mosquito, em 1952/53, mas já na fase em que era desenhada por George Wunder, cujo estilo procurava ser fiel ao de Caniff. Com o fim d’O Mosquito, a sua publicação prosseguiu no Titã e no Mundo de Aventuras, onde passou quase despercebida. As tiras originais com o 1º episódio (1934) só surgiriam na 2ª série do MA, em 1975.

Estes fanzines podem ser encomendados directamente a José Pires, bastando contactá-lo pelo e-mail gussy.pires@sapo.pt