JAYME CORTEZ HOMENAGEADO NUM “PROZINE” PORTUGUÊS (DE HÁ 30 ANOS)

Texto de Geraldes Lino

Jayme Cortez (Jaime Cortez Martins) nasceu português, em Lisboa, a 8 de Setembro de 1926, mas quando faleceu, a 4 de Julho de 1987, em São Paulo, já era brasileiro, porque, além de ter passado a viver no Brasil, adoptara em 1957 a nacionalidade do país que o acolhera e onde era admirado.

Inicialmente influenciado pelo mestre (1) Eduardo Teixeira Coelho, Jayme Cortez muito cedo foi criando o seu próprio estilo, o que se tornou bem evidente na sua produção de banda desenhada brasileira, iniciada com a adaptação às histórias em quadrinhos, em tiras diárias, de “O Guarani”, da obra clássica do autor brasileiro José de Alencar, para o jornal Diário da Noite.

A última banda desenhada de Jayme Cortez publicada em Portugal foi a que teve por título “Os Espíritos Assassinos”, impressa na revista infanto-juvenil O Mosquito, entre Janeiro e Abril de 1947. Foi esse conto curto gráfico (27 pranchas), imaginado e desenhado por Cortez que Jorge Magalhães escolheu para o prozine (2) Cadernos de Banda Desenhada, editado há trinta anos.

A nota “A obra-prima de Jayme Cortez” incluída na capa, refere-se naturalmente à produção portuguesa do autor, visto que, na sua bibliografia brasileira há obras de BD de elevadíssimo nível ficcional e estilístico, designadamente “O Retrato do Mal”, “Sérgio do Amazonas” e “Zodíaco”.

(1) Sou contra o uso (e abuso)  indiscriminado do título de Mestre que por vezes é usado em relação a vários autores portugueses de BD. Considero que E.T. Coelho é o único a assim poder ser classificado, por ter tido vários seguidores estilísticos, ou discípulos, caso singular da BD em Portugal.

(2) Já o escrevi várias vezes: um prozine é um zine editado por um pro dessa área. Consequentemente, é o caso de um zine de banda desenhada editado por um profissional de BD, e tanto Jorge Magalhães como Catherine Labey, responsáveis pela edição do zine, sempre estiveram ligados profissionalmente à BD.

Ficha técnica:

Cadernos de Banda Desenhada
Director: A.A. de Castro (*)
Editor e proprietário: 
Catherine Labey
Redacção e Administração:
R. Joaquim Ereira, 2693
Torre, 2750 Cascais
Tiragem [inicial]: 4000 exemplares
Preço: 125$00

(*) Pseudónimo de Jorge Magalhães

(Texto e imagens reproduzidos, com a devida vénia, do blogue Sítio dos Fanzines, orientado por Geraldes Lino. Ler também a nota de Jorge Magalhães, depois das páginas que se seguem).

Nota de J. M. — A ideia de publicar esta história de Jayme Cortez nos Cadernos de Banda Desenhada (revista cujo projecto já estava em elaboração, depois de um número experimental, também impresso em tipografia, saído algum tempo antes), começou a germinar quando eu soube que Jayme Cortez passaria por Portugal, ao regressar do Festival Internacional de Lucca, onde foi homenageado em finais desse ano (1986), por ter cumprido 50 anos de prestigiosa carreira e ser autor de obras marcantes, como Zodíaco, a que a crítica internacional, sobretudo a italiana, tecera rasgados elogios.

De facto, Cortez veio a Lisboa e foi festivamente recebido por um numeroso grupo de admiradores e amigos, que se reuniram, em sua honra, num restaurante do Parque Mayer. Foi lá que o conheci e lhe falei no meu projecto, mostrando muito interesse em reeditar «Os Espíritos Assassinos», a sua última obra publicada n’O Mosquito, pouco tempo antes de partir como emigrante para o Brasil, em busca de melhores condições de trabalho.

Jayme Cortez aderiu imediatamente à minha ideia, autorizando a publicação dessa história sem quaisquer encargos autorais para os editores — como, aliás, também aconteceu com José Ruy, autor da obra que seria publicada no 1º número, as magníficas «Lendas Japonesas», reproduzidas da 2ª série  d’O Papagaio.

Como já não havia originais, «Os Espíritos Assassinos» teve também de ser recuperada por processos fotográficos, a partir das páginas d’O Mosquito — tarefa que não saiu barata e exigiu à Catherine muitas horas de trabalho a retocar os fotolitos, porque nesse tempo, em que ainda não se utilizavam computadores, era tudo feito à base da fotografia e do offset. Mas Jayme Cortez ficou imensamente satisfeito quando viu a revista, não nos regateando elogios por a sua história ter ficado tão bem impressa a preto e branco, sem as manchas de cor e as redes que tinha n’O Mosquito.

E em sinal de agradecimento até me enviou uma das suas últimas edições, recheada de amostras dos seus trabalhos, ilustrando o extraordinário percurso da sua carreira no Brasil. Intitula-se «A Arte de Jayme Cortez» e é duplamente preciosa para mim por ter uma dedicatória do grande mestre luso-brasileiro… que, infelizmente, pouco tempo depois, disse adeus a este mundo, apenas com 60 anos de idade.  

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O BOLETIM DO CPBD CONTINUA EM PUBLICAÇÃO

O Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) acaba de editar o nº 143 do seu Boletim, com data de Fevereiro de 2017, um dos fanzines mais antigos em publicação, não só em Portugal como em toda a Europa, e que pela sua qualidade e longevidade merece ombrear com os melhores (como, aliás, tem sido realçado por vários especialistas).

Neste número, dedicado ao Titã — uma revista de BD dos anos 1950, editada pela Fomento de Publicações em moldes inovadores, mas que não teve o sucesso esperado, devido à forte concorrência do Cavaleiro Andante e do Mundo de Aventuras —, destaca-se um excelente artigo sobre este tema, da autoria de Ricardo Leite Pinto, sobrinho do saudoso Roussado Pinto, incontornável pioneiro da “época de ouro” da BD portuguesa, que no Titã exerceu as funções de novelista/argumentista, redactor principal e, a breve trecho, director, depois de ter saído do Mundo de Aventuras e da Agência Portuguesa de Revistas.

No Titã colaboraram também alguns desenhadores portugueses, já nessa época com largo e invejável currículo, como Vítor Péon, José Garcês e José Ruy, devendo-se a Péon e ao seu traço dinâmico a capa do 1º número e a história “Circos em Luta”, cujo herói, criado por Edgar (Roussado Pinto) Caygill, se chamava nem mais nem menos… Titã!

Completa este número um artigo de Carlos Gonçalves sobre a magnífica arte de E.T. Coelho, com uma galeria de trabalhos deste grande desenhador para O Mosquito, que estiveram patentes, até há pouco tempo, numa exposição realizada pelo CPBD na sua nova sede.

As imagens reproduzidas neste post foram extraídas, com a devida vénia, do blogue Sítio dos Fanzines de Banda Desenhada, orientado por Geraldes Lino, cuja consulta recomendamos a todos os interessados por este aliciante tema que o mestre Lino conhece e aborda como poucos. Ou melhor dizendo, como ninguém!…

REPORTAGEM DA ASSEMBLEIA GERAL E DAS NOVAS EXPOSIÇÕES DO CPBD – 1

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No passado sábado, dia 16 de Abril, pelas 16h00, na sede do Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), sita na Avenida do Brasil 52A, Reboleira (Amadora), reuniu-se a sua Assembleia Geral, depois de convocatória enviada a todos os associados, a fim de tomar várias deliberações urgentes no âmbito dos processos de obtenção de apoio em curso, junto da Câmara Municipal da Amadora (ratificação das contas de 2013 e 2014, orçamento e plano de actividades de 2016).

Foram também votadas as contas de 2015 e prestada informação sobre a recente actividade do Clube, projectos futuros e outras questões de interesse geral. Todas as deliberações seriam aprovadas por unanimidade, com acta assinada pelos presentes.

Durante a sessão, foi distribuído aos sócios o nº 142 (Abril 2016) do Boletim do CPBD, dedicado à primeira de duas exposições marcantes, inauguradas na sua sede em Janeiro último: Os 80 anos d’O MosquitoTributo a Eduardo Teixeira Coelho. Do sumário deste número consta também um artigo de Carlos Bandeira Pinheiro e Jorge Magalhães, com uma completa quadriculografia (em publicações portuguesas) de E.T. Coelho, o “poeta da linha”, cujas ilustrações se destacam na capa e na contracapa do Boletim.

boletim-142 CAPA E CONTRACAPA

Divulgamos seguidamente algumas imagens desta Assembleia Geral, captadas por Dâmaso Afonso, presidente da respectiva Mesa (que só por causa disso não aparece nas fotos). Aqui ficam, mais uma vez, os agradecimentos que lhe são devidos pela valiosa colaboração que tem prestado, desde o início, aos nossos blogues.

Entre os sócios presentes, reconhecem-se, nas primeiras filas, António Martinó (outro eficiente repórter, sempre de câmara em punho), José Ruy e Geraldes Lino; e nas últimas, Pedro Bouça, António Amaral, Paulo Duarte (coordenador do Boletim do CPBD), Luís Valadas, Catherine Labey, José Vilela, Carlos Gonçalves e um sujeito de barbas grisalhas que eu vejo todos os dias no espelho…

A Mesa da Assembleia, composta por três elementos, foi ocupada (nas fotos) por Pedro Mota (presidente da Direcção) e Carlos Moreno (secretário da Assembleia Geral). Pedimos desculpa aos sócios não identificados. Fica para a próxima… 

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Quem reparar, ou fizer comentários acerca de tantas cabeças grisalhas, deve lembrar-se de que o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) festeja em 2016 quarenta anos de existência… e alguns dos sócios presentes já o acompanham desde a primeira hora! Honra lhes seja feita, pois, sobretudo aos que, como Carlos Gonçalves e Geraldes Lino, continuam abnegadamente a exercer funções directivas.

Posto isto, queremos também referir as duas exposições, recentemente montadas, que se encontram numa das salas do piso inferior da nova sede e que versam o tema Eça de Queirós e Alexandre Herculano na Banda Desenhada, numa parceria do CPBD com o GICAV (Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu). Aqui fica esta breve menção e o anúncio, dado o interesse que elas nos suscitam, de uma reportagem alusiva (neste e noutros blogues da nossa Loja de Papel), em próxima oportunidade.

Nota: Há algumas horas, recebemos também uma remessa de fotos enviadas pelo segundo “repórter de serviço” na Assembleia Geral do CPBD, o nosso bom amigo e colega da blogosfera, Professor António Martinó (autor do blogue Largo dos Correios), a quem agradecemos a generosa partilha e a colaboração sempre expedita, reservando para um próximo post a publicação das suas imagens.

OS 80 ANOS D’O MOSQUITO EM DESTAQUE NA TSF

CPBD (C. Gonçalves e G. Lino)

TSF Rádio NotíciasComo já tivemos oportunidade de informar, foram inauguradas este mês duas novas exposições do Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), integradas num ciclo de homenagem ao aniversário d’O Mosquito — que fez 80 anos em 14 de Janeiro último —, uma delas especialmente dedicada a Eduardo Teixeira Coelho e aos magníficos trabalhos que este pujante e criativo mestre da BD portuguesa realizou para os contos e novelas publicados numa das fases mais populares da revista onde teve início a sua carreira (1942-1946), trabalhos esses que marcaram também, de forma indelével, a história das nossas artes gráficas e figurativas no século XX.

A propósito dessa efeméride e das duas exposições citadas — que estarão patentes na sede do CPBD até finais de Março —, a TSF Rádio Notícias deu também cobertura ao evento, emitindo uma entrevista com um notório elemento do CPBD: Geraldes Lino.

012 e 08

Aqui fica, para memória futura, o registo áudio dessa entrevista, que a amabilidade de Carlos Gonçalves fez chegar às nossas mãos, assim como algumas fotos com o repórter António Pinto Rodrigues, da TSF,  no desempenho da sua função.

Embora a entrevista realizada no CPBD incluísse também Carlos Gonçalves, somente se ouvem nesta gravação as declarações de Geraldes Lino, apresentado pelo locutor da TSF como activo militante da Banda Desenhada e dos fanzines.

http://www.tsf.pt/cultura/interior/o-mosquito-um-meteoro-da-banda-desenhada-4998996.html

O MOSQUITO RESSUSCITADO… PELA 4ª VEZ (2)

Mosquito futura nº1vinheta manus kelly

Mosquito Futura - nº 1 Tarzan EstrompaNos números seguintes desta 5ª série da mítica revista O Mosquito, “ressuscitada” em Abril de 1984 pela Editorial Futura (ver o primeiro post sobre este título), a participação de artistas nacionais, depois de Augusto Trigo e Estrompa, alargou-se a José Garcês, José Abrantes, Fernando Relvas, Victor Mesquita, Carlos Roque, António Barata, Carlos Alberto, Renato Abreu, Arlindo Fagundes — e a uma jovem dupla de novos talentos, Luís Louro e Tozé Simões, que n’O Mosquito apresentaram a sua criação mais famosa: Jim del Monaco.

Mas a colaboração da “prata da casa” não ficou por aí, contemplando também o género literário, uma das mais emblemáticas tradições do primogénito O Mosquito, com contos de Orlando Marques e Lúcio Cardador — novelistas de larga currículo que, sob as suas “asas”, tinham ensaiado os primeiros “voos” —, e de A. J. Ferreira, nome mais conhecido como profundo estudioso de literatura popular e banda desenhada.

Além disso, esta série contou ainda com algumas rubricas informativas e artigos de análise histórica, assinados pelos mais valiosos colaboradores nessa área, como António Dias de Deus, António J. Ferreira, Luiz Beira, António Alfaiate, Luís Mesquitela e Geraldes Lino (que teve também a seu cargo a secção do correio, desde o nº 4, assumindo a identidade do próprio O Mosquito, como Raul Correia na 1ª série).

Mosquito FUTURA - ENTREVISTA R CORREIA 1 e 2

Nos três primeiros números, merece, aliás, destaque a entrevista feita por Dias de Deus a um dos “pais” e fundadores d’O Mosquito, então já à beira dos 80 anos. E no nº 6 foi publicada a última entrevista de outro grande nome da BD, nem mais nem menos do que o popular criador de Tintin, Georges Rémi (Hergé), falecido em Março de 1983.

O autor dessa “cacha” — como se diz em gíria jornalística — foi Luiz Beira, que manteve uma longa amizade com Hergé, depois de ter sido o primeiro repórter e bedéfilo português a entrevistá-lo para a revista Plateia.

Mosquito futura nº1 rostoNo primeiro número deste ambicioso O Mosquito dos anos 80 — que a crítica e os leitores (da “velha e da nova guarda”) receberam com um misto de aplauso e de expectativa, deixando no ar algumas propostas e algumas dúvidas, como era de esperar, pois os rumos da revista não pareciam ainda solidamente definidos —, outro motivo de destaque é a nota de abertura assinada por Raul Correia, sob a epígrafe “Reviver outros tempos… e continuar”, em que o inesquecível “Avozinho” d’O Mosquito, ainda na plena posse do seu génio literário, afirmava em tom emotivo, a propósito da nova série que vira imprevistamente nascer:

“(…) Para mim, é todo um passado de mais de 50 anos que revive. Outros tempos? Sim, com certeza, mas espero bem que, mercê de Deus, sejam também o tempo de agora, ligado ao passado, olhando o futuro que lhe desejo longo e próspero” (ler na imagem o texto completo).

Raul Correia foi também amplamente citado num belo artigo de A. J. Ferreira, com o título “História de El-Rei O Mosquito I”, que traçava minuciosamente o percurso da 1ª série, descrevendo as suas diversas fases, acompanhadas por ciclos de crescimento e de crise, e passando em revista as publicações paralelas (álbuns e almanaque) das Edições O Mosquito, assim como as recidivas que, alguns anos depois, começaram a surgir pelo caminho (ver também o post anterior aqui).

Mosquito futura nº1 el rei o mosquito 1 e 2

Outro articulista, António Alfaiate, encarregou-se da apresentação de uma das principais séries estreadas na revista: “Ás de Espadas”, criação de Ricardo Barreiro (argumento) e Juan Gimenez, dois excelentes autores sul-americanos cuja obra começava a ganhar notoriedade nos fóruns da BD europeia e aos quais O Mosquito iria também dar lugar de destaque entre os seus colaboradores estrangeiros.

Mosquito futura nº1 ás de espadas 1 e 2

Mosquito Futura - Ás de Espadas 3 e 4

O segundo número d’O Mosquito, recheado de novidades — entre elas, uma das mais afamadas séries da “nova vaga” espanhola: Torpedo 1936 —, só iria aparecer nas bancas dois meses depois, isto é, em Junho de 1984. Mas, em Maio, a equipa que o criara, formada pelo seu director, o seu coordenador/tradutor e a sua maquetista (além de legendadora) Catherine Labey, acompanhados por alguns dos seus mais próximos colaboradores, encetou outra aventura, rumando ao Salón del Comic de Barcelona. Mas isso é uma história diferente (e com peripécias divertidas, por sinal)… que ficará, talvez, para outro dia.

Mosquito futura nº1anúncio