“DOM AFONSO HENRIQUES NA BANDA DESENHADA” – GICAV REALIZA EXPOSIÇÃO EM VISEU E PUBLICA ÁLBUM COM HISTÓRIA DE E. T. COELHO

Conforme notícia que atempadamente divulgámos, abriu ao público no passado dia 27 de Agosto, em pleno Pavilhão Multiusos da Feira de São Mateus, a exposição intitulada “Dom Afonso Henriques na Banda Desenhada” — uma organização do GICAV (Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu), com o apoio da Câmara Municipal daquela cidade, da Viseu Marca e do IPDJ (Instituto Português do Desporto e Juventude).

Os nossos colegas do BDBD, Luiz Beira e Carlos Rico, estiveram lá aquando da inauguração e fizeram uma reportagem fotográfica deste evento, que pode ser vista no seu blogue: http://bloguedebd.blogspot.pt/2017/09/d-afonso-henriques-na-bd-reportagem.html

Antes da abertura da exposição no Pavilhão Multiusos — segundo informa o BDBD —, teve lugar, mesmo ao lado, num pequeno mas acolhedor auditório, o lançamento oficial do álbum “D. Afonso Henriques – A Balada da Conquista de Lisboa”, narrativa extraída da obra “O Caminho do Oriente”, publicada n’O Mosquito de 1946 a 1948, com texto de Raul Correia e desenhos de Eduardo Teixeira Coelho, cuja capa gostosamente reproduzimos, com a devida vénia ao BDBD e ao GICAV.

A sessão teve início com um curto mas interessante vídeo, onde o numeroso público presente visionou imagens virtuais da nova Arena de Viseu, um magnífico espaço completamente apetrechado para receber eventos culturais e desportivos, que em breve (crê-se que dentro de um ano) tomará o lugar do Pavilhão Multiusos. A cerimónia teve a participação do Director Executivo da Viseu Marca, Dr. Jorge Sobrado, da Presidente do GICAV, Drª. Filipa Mendes, e de Carlos Almeida, coordenador do GICAV na área da BD.

Após o lançamento do álbum, seguiu-se a inauguração oficial da exposição, um conjunto de vinte painéis em grande formato, com exemplos de praticamente todas as BD’s onde a figura de D. Afonso Henriques, o Conquistador, foi retratada por desenhadores de várias gerações, entre os quais, além de E. T. Coelho, Artur Correia, Baptista Mendes, Carlos Alberto, Carlos Rico, Eugénio Silva, Filipe Abranches, Jorge Miguel, José Antunes, José Garcês, José Projecto, José Ruy, Pedro Castro, Pedro Massano, Santos Costa e Vítor Péon.

Vista parcial da exposição, com o painel dedicado a E.T. Coelho em grande plano, à direita, e ao lado o de José Antunes; também em 1º plano, de costas, o desenhador Baptista Mendes, outro autor com participação nesta grandiosa mostra (foto do BDBD).

Advertisements

SECÇÃO DOS SÁBIOS – 2

A pretexto do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, recordamos novamente a  Secção dos Sábios, rubrica de curiosidades e cultura geral apresentada no Jornal do Cuto — quase um fac-simile da secção homónima criada por Eduardo Teixeira Coelho n’O Mosquito, com textos de Raul Correia.

As duas páginas aqui reproduzidas, ilustrando passagens d’Os Lusíadas, mostram um ETC em plena forma — apesar da sua carreira se ter iniciado poucos anos antes —, cujo traço robusto, dinâmico e harmonioso continuava a encantar os juvenis leitores d’O Mosquito, preparando-se para voos ainda mais altos, a partir de 1946.

Estas páginas foram publicadas no Jornal do Cuto nºs 5 (4/8/1971) e 10 (8/9/1971), ambos com capas de E. T. Coelho oriundas também d’O Mosquito.

CANTINHO DE UM POETA – 33

Eis mais um sugestivo poema de Raul Correia (o “misterioso” e carismático Avozinho, cuja maneira de escrever e de versejar tão indeléveis recordações deixou aos leitores d’O Mosquito), ilustrado como habitualmente por José Batista (Jobat) e publicado no Jornal do Cuto nº 14, com data de 6/10/1971.

SECÇÃO DOS SÁBIOS – 1

No seu nº 5, de 4/8/1971, o Jornal do Cuto começou a apresentar uma curiosa rubrica intitulada Secção dos Sábios — que era, como muitas das histórias que ilustravam as suas páginas, oriunda também d’O Mosquito, o mítico jornal infanto-juvenil a que Roussado Pinto, director/editor do Jornal do Cuto, ficara também ligado por laços profissionais (pois trabalhou na sua redacção em 1947/48), e de profunda amizade e camaradagem com os seus dois directores e fundadores: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) e Raul Correia.

seccao-dos-sabios-mosquito-361-491O que distinguia a Secção dos Sábios de outras rubricas de curiosidades eram os magníficos desenhos de E.T. Coelho, um jovem artista fora de série que começara a colaborar n’O Mosquito (e na Colecção de Aventuras) em meados de 1942, não tardando a renovar por completo o aspecto gráfico do jornal com as suas exuberantes ilustrações para cabeçalhos, capas, contos e vinhetas decorativas de toda a espécie.

Graças ao contributo deste valioso elemento, cujo estilo dinâmico e harmonioso nunca parou de evoluir, atingindo em pouco tempo um grau de inaudita perfeição, O Mosquito transfor- mou-se na revista infanto-juvenil mais lida do seu tempo, sobretudo ao passar a publicar-se duas vezes por semana (desde o nº 361).

A par das capas e dos contos recheados de ilustrações de grande beleza e efeito estético, E.T. Coelho ocupou-se também, com evidente prazer, de pequenas rubricas de curiosidades, ora intituladas Coisas do Arco da Velha e Coisas e Loisas ou Curiosidades de Todos os Tempos e Curiosidades de Todo o Mundo, que mais tarde substituiu pela Secção dos Sábios, abordando com a mesma perícia e erudição os mais variados e bizarros assuntos. Aqui têm um dos primeiros exemplos desse artístico e primoroso labor, extraído do nº 362 (12 de Dezembro de 1942).

Os textos, com um “sabor” também especial, que valorizavam ainda mais a rubrica, eram de Raul Correia, talentoso escritor e poeta que tinha o raro condão, como E.T. Coelho, de transformar em preciosidades todas as suas criações, inclusive os poemas e os textos que assinava com o pseudónimo de Avozinho.

Por obra destes dois pilares d’O Mosquito, a Secção dos Sábios tornou-se uma das mais memoráveis rubricas da “série de ouro”, que assinalou entre 1943 e 1946 a fulgurante evolução da trajectória artística de E.T. Coelho e de outros autores de primeiro plano como Jesús Blasco, Jayme Cortez, Vítor Péon e Emilio Freixas.

Extraídas dos nºs 437 e 438 d’O Mosquito (Setembro de 1943), eis duas magníficas páginas que o Jornal do Cuto publicou nos seus nºs 21 e 26, de 24/11 e 29/12/1971, com a Secção dos Sábios que tanto divertira (e instruíra), três décadas antes, os leitores d’O Mosquito.

CANTINHO DE UM POETA – 32

O lirismo do Avozinho — que atinge uma expressão de pungente mágoa em muitos dos seus poemas repassados de saudade, em que assume ipsis verbis o fado de um homem mais velho, cujos passos já se aproximam do fim do caminho —, recheia também o estro do seu “duplo” Raul Correia, que só no Jornal do Cuto se libertou, como poeta, do véu do anonimato. Verdade se diga que n’O Mosquito a aura (quase mítica) do Avozinho e da sua musa empalideceu o brilho do novelista que escrevia e traduzia histórias de acção, mau grado a popularidade destas na revista.

“O Poço Velho” — poema extraído do Jornal do Cuto nº 8, de 25/8/1971, com a habitual ilustração de Jobat — é um típico exemplo dessa faceta do Avozinho, que despertava no espírito dos seus jovens admiradores um caudal de emoções que eles próprios não entendiam muito bem, mas que os aproximava ainda mais, numa íntima e ardente comunhão, da figura tutelar desse bondoso “velhinho”. Cujo mistério explica a longevidade do lírico versejador que renasceu das cinzas no Jornal do Cuto, fundindo-se pela primeira vez com a personalidade literária de Raul Correia.

CURIOSIDADES E ANOMALIAS – 6

mosquito-1943-8-nc2ba427-e-428

Eis mais dois exemplos das malfadadas “gralhas”, com erros de  datas ou de numeração (por vezes ambos, como já constatámos), que O Mosquito — apesar de se intitular ufanamente o “jornal infantil mais bonito” de Portugal — não conseguiu “caçar” a tempo.

Após uma breve sequência de números com elementos correctos no cabeçalho, surge novamente uma data “tresmalhada” no nº 428: 28 de Julho de 1943 (idêntica à do número anterior), em vez de 31 de Julho. A título de curiosidade, para os bedéfilos menos familiarizados com as diversas fases d’O Mosquito, anote-se que as capas destes dois números exibem o magnifico traço de E. T. Coelho — ainda no alvor da sua juventude e da sua carreira, mas já fazendo gala dos seus dotes artísticos — e que “O Navio Negro” é o título de uma das melhores novelas de Raul Correia.

Mais adiante, decorrida uma escassa dezena de números, encontramos outro exemplo de “gralhas” que saltam à vista de quem estiver atento à sequência cronológica: no nº 437 — cuja capa tem por tema uma história do artista inglês Walter Booth, que foi também autor da trepidante série “O Capitão Meia-Noite” —, a data adiantou-se (ao contrário da hora de Inverno), trocando o nome dos meses. Mas o fagueiro Setembro (ainda período de férias grandes, nessa época) regressou, para gáudio da miudagem, no número seguinte.

Quantos leitores d’O Mosquito terão dado por estas anomalias? Praticamente nenhuns, pois o que interessava a garotos que, na sua maioria, ainda frequentavam a escola primária, era ler as aventuras com “bonecos”, deixando de parte tudo o que para eles era banal e acessório. Só quando, muitos anos depois, alguns se tornaram coleccionadores, por nostalgia ou passatempo — e outros os imitaram, fazendo com que O Mosquito atingisse, de repente, no mercado alfarrabista, valores surpreendentes —, é que passaram a dar importância a esses ínfimos pormenores, esmiuçando todos os exemplares da sua colecção.

CANTINHO DE UM POETA – 31

cantinho-de-um-poeta-31-259

Nesta quadra, vem a propósito recordar uma exortação ao Ano Novo que se mantém actual, do princípio ao fim, mostrando a veia humorística de Raul Correia — ou, por afinidade, do Avozinho (e os exemplos abundam, ao folhearmos O Mosquito) —, publicada no Jornal do Cuto nº 126, de 31 de Dezembro de 1975, com uma curiosa ilustração de Carlos Alberto Santos.