JOSÉ GARCÊS E A HISTÓRIA DE SILVES EM BD

Texto de José de Matos-Cruz

historia-de-silvesUm privilegiado cruzamento entre modos actuais de informação, meios consagrados de divulgação e métodos artísticos de expressão, consuma-se em A História de Silves em BD. Novo álbum de José Garcês – editado pela Câmara Municipal de Silves – que, assim, concretiza outras propostas de revitalização, em incidências sociais, políticas, criativas, e nas primordiais implicações comuni- tárias. Em referência e testemunho, «a história de um território com uma ocupação humana muito antiga e rica de factos e episódios, que remonta à Idade do Ferro, e por onde passaram gregos, fenícios, cartagineses, romanos e muçulmanos. Dá a conhecer importantes figuras da cultura e do desporto locais, bem como nos encanta com a célebre Lenda das Amendoeiras em Flor»… Eis uma aliciante incidência, pela concepção de mestre José Garcês, atribuindo à figuração narrativa uma componente interactiva, quanto à função pedagógica e ao entretenimento.

Com uma carreira intensa e multifacetada, que recentemente celebrou 70 anos, José Garcês considera que «o autor de banda desenhada procura transmitir, ao público em geral, uma mensagem visual apoiada num texto, e essa mensagem não terá de ser igual para um adulto ou uma criança com menos de dez anos. Se o conseguir, melhor para todos».

garces-em-silves

Actualmente com 88 anos, e sendo ainda pintor, ilustrador e autor de construções de armar, José Garcês tratou em quadradinhos, por revistas, jornais e separatas, ou em livro e álbum, com uma importante vertente didáctica e notáveis valências gráficas e estéticas, os mais variados assuntos e géneros, desde a biografia, a natureza, a arquitectura e os temas militares, à História de Portugal, das cidades e vilas, ou à ênfase literária.

(Nota: texto e imagens reproduzidos, com a devida vénia, do blogue Imaginário-Kafre (http://imaginario-kafre.blogspot.pt/2016/12/imaginario-extra-jose-garces-e-historia.html), orientado por José de Matos-Cruz).

UMA DATA QUE MERECE SER ASSINALADA

garces-cabecallho

Ao completar 70 anos de carreira na área da Banda Desenhada, acontece que esta efeméride coincide exactamente com a minha entrada no famoso jornal infantil O Mosquito. Ainda estudante da Escola António Arroio, visitei com o saudoso Mestre Rodrigues Alves as oficinas d’O Mosquito, onde tive o privilégio de conhecer o seu director, o Amigo desde a primeira hora António Cardoso Lopes.

O carinho dispensado na visita viria a confirmar-se quando, em Outubro de 1946, passei a colaborar no jornal que lia desde os oito anos. Soube, mais tarde, que o meu querido Amigo Roussado Pinto tinha também apadrinhado a minha entrada naquele popular bissemanário. Recordo a emoção dos dias que antecede­ram a publicação da minha primeira his­tória, com um título que revelava o fascí­nio que me tinham causado as aventuras de Tarzan e os desenhos do Mestre Burne Hogarth, desenhador americano que vim a conhecer nos anos 80, em Itália, e que foi apresentado pelo Vasco Granja aos dois portugueses presentes, eu e o E. T. Coelho.

garces-o-inferno-verde

A história «O Inferno Verde», imagina­da por mim, teve o apoio na parte do tex­to desse grande novelista e poeta que se chamou Raul Correia, de quem me lembro com muita gratidão pela amizade e o carinho que sempre me dispensava quando me recebia no seu gabinete de trabalho, no Hotel Avenida Palace.

N’O Mosquito aprendi muito com todos esses amigos e colegas. Mas a vida tem caminhos difíceis e, por isso, o Cortez partiu para o Brasil, o Coelho para França, o Péon para Inglaterra. Eu fiquei, já então na função pública e a trabalhar para vários jornais de Banda Desenhada. Não me encantava a emigração e fui ficando preso à família e ao país. Mas não estou arrependido.

Hoje, quando olho para os meus pri­meiros trabalhos e observo a ingenuidade e as imensas deficiências de alguns deles, nem sempre me lembro de que tinha 18 anos e que a Escola António Arroio não ensina­va desenho de figura. Foi a partir d’O Mosquito que, com o apoio do Mestre Rodrigues Alves e os conselhos de António Cardoso Lopes e Eduardo Teixeira Coelho, iniciei o meu caminho de investigação e estudo, que contribuiu para que hoje seja possível apresentar um balanço positivo ao atingir 70 anos de acti­vidade no mundo da BD.

JOSÉ GARCÊS

Nota: Este depoimento do veterano Mestre José Garcês, que muito nos apraz publicar, devidamente inserido nas evocações dos seus 70 anos de carreira artística, pode servir como intróito da antologia que em breve iremos dedicar-lhe, começando pelo seu primeiro trabalho publicado n’O Mosquito, a partir do nº 762, de 12 de Outubro de 1946: a curta e exótica história de aventuras «O Inferno Verde».

Aproveitamos esta data para endereçar a José Garcês, em nome do nosso blogue, como já o fizemos pessoalmente, as mais jubilosas felicitações pela sua memorável carreira em várias áreas das artes figurativas, incluindo, numa avassaladora percentagem, um dos seus primeiros e maiores amores: as histórias aos quadradinhos. 

MAIS UMA HOMENAGEM A JOSÉ GARCÊS

garces-batalha-880

Num ano assinalado por várias manifestações comemorativas dos 70 anos de carreira artística de um dos maiores autores e ilustradores portugueses — como a exposição que esteve patente na Biblioteca Nacional, durante os meses de Março e Abril, numa parceria desta instituição com o Clube Português de Banda Desenhada —, José Garcês, ilustre veterano de uma lúdica forma de Arte que tanto ajudou a  prestigiar, vai ser novamente homenageado, desta vez pela Associação Portuguesa de Psicogerontologia, que lhe atribuiu o prémio Drª. Maria Raquel Ribeiro. A cerimónia, em que serão também distinguidas outras personalidades, realiza-se no próximo dia 11 de Outubro, a partir das 14h30, no Auditório do Montepio, sito na Rua do Ouro nºs. 219/241 – Lisboa.

Este prémio (instituído no dia 1 de Outubro de 2012, Dia Internacional das Pessoas Idosas, com o apoio da Fundação Montepio e da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa) visa dignificar o envelhecimento activo e promover uma imagem positiva das pessoas com mais de 80 anos que se mantêm activas e participativas, dentro da sua área cívica ou profissional, prestando, desse modo, um contributo relevante para a sociedade portuguesa. José Garcês foi agraciado na Categoria Arte e Espectáculo, juntando-se a outros ilustres homenageados, nas anteriores atribuições de tão honorífico galardão: Eunice Munoz (2012), Ruy de Carvalho (2013), Carmen Dolores (2014) e Glória de Matos (2015).

PARABÉNS, MESTRE JOSÉ GARCÊS!

SANTO ANTÓNIO EM BANDA DESENHADA – NOVO ÁLBUM DE JOSÉ GARCÊS

garces-santo-antonio

Com este novo lançamento, o Público e a Europress puseram à disposição de todos os devotos de Santo António (e dos leigos que são apreciadores de Banda Desenhada), um belo álbum realizado por Mestre José Garcês, decano da BD portuguesa, que em 2016 celebra 70 anos de meritória carreira (iniciada n’O Mosquito), como autor de vasta obra de índole recreativa, didáctica e cultural. Citando o Público:

“Na sua narrativa fluida e envolvente, José Garcês recria a vida, os milagres e a herança de Santo António, um homem comum com qualidades invulgares que o transformaram em ícone da Igreja Católica e da cultura popular”.

Uma obra a vários títulos assinalável, que demonstra o vigor e a paixão com que, nesta fase do seu exemplar percurso artístico, José Garcês continua a abordar temas e personagens da nossa História que lhe são caros.

Em breve, este blogue terá também a honra de homenagear essa extraordinária carreira, apresentando algumas das primeiras histórias que José Garcês realizou para as mais emblemáticas revistas da BD portuguesa.

JOSÉ GARCÊS N’O PAPAGAIO (1948)

Garcês - Papagaio 704 715Esta capa do Papagaio nº 704, que chegou às mãos dos seus leitores em 7 de Outubro de 1948, marca um momento alto da breve colaboração de José Garcês (então ainda nos primórdios da sua carreira) com a revista que apresentou em Portugal um dos maiores heróis da BD europeia.

As saudades de Tintin (que “desertara”, poucos meses antes, com armas e bagagens, para o Diabrete) ainda se faziam sentir, mas O Papagaio procurava minorar essa ausência recorrendo a novos e talentosos colaboradores, como José Garcês, José Ruy, Artur Correia e Vítor Silva, cujos trabalhos deram um aspecto renovado e mais airoso à revista, naquela que seria a sua última fase como publicação independente.

Garcês com cerca de 24 anosAliciado por projectos mais ambiciosos, em jornais como o Camarada e o Lusitas, que reclamavam também os seus préstimos, Garcês passou fugazmente pelo semanário infantil mais antigo e garrido dessa época (em comparação com O Mosquito e o Diabrete), onde publicou apenas duas capas, um conto ilustrado e uma história aos quadradinhos de ambiente western — tema que já explorara com êxito n’O Mosquito, em cujas páginas deu vida a um intrépido cowboy vestido de negro e a outras memoráveis personagens, na dramática aventura intitu- lada “O Segredo das Águas do Rio” (1947).

Garcês - Tonito cowboy pag 5716Mas n’O Papagaio Garcês mudou de agulha, apresentando como protagonista da sua nova história, publicada entre os nºs 704 e 716, um rapazito com cerca de 10 anos (que era a idade média dos leitores da revista) e intitulando-a, a preceito, “Tonito Cowboy”.

Com vários ingredientes do western, aliados a um estilo gráfico que já sabia manipular com perícia a anatomia das personagens e os cenários exóticos onde se desenrolava a acção, Garcês criou uma história de enredo onírico e aventuroso, cujo tema original agradou certamente a muitos leitores.

Embora curto, este episódio merece ser citado como um bom exemplo dos recursos gráficos e narrativos que Garcês já evidenciava no início da sua carreira — apenas alguns meses depois de ter deixado O Mosquito, onde publicou quatro aventuras que se distinguem, a par das de E.T. Coelho, Vítor Péon e Jayme Cortez, entre as melhores criações dessa época com que O Mosquito brindou os seus leitores.

Recordando mais uma efeméride da vida de José Garcês, que festejou no passado mês de Julho o seu aniversário natalício, este blogue felicita calorosamente, em nome d’O Mosquito, o ilustre decano dos autores portugueses de BD, desejando-lhe as maiores felicidades e novos êxitos numa carreira que parece ainda estar longe do fim.

Garcês - Papagaio 714

Conto de José Garcês publicado n’O Papagaio nº 714, de 16/12/1948.