INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO EM HONRA DOS 90 ANOS DE JOSÉ GARCÊS

Como é do conhecimento dos nossos leitores, realizou-se no passado sábado, dia 8 de Setembro, pelas 16h00, a sessão de abertura da mostra “Parabéns GARCÊS”, que estará patente na Bedeteca da Amadora até 11 de Novembro p.f.

Constituída unicamente por originais de várias épocas, doados por Garcês ao acervo da Bedeteca — desde a sua primeira HQ publicada n’O Mosquito, em 1946, “O Inferno Verde”, às narrativas de cunho histórico e animalista em que se especializou durante a sua longa carreira, como “Vagô, o Tigre”, “Eurico, o Presbítero”, “Bartolomeu Dias” ou “A História de Portugal em BD”, um grande êxito editorial, sem esquecer trabalhos de outra espécie, como as suas monumentais construções de armar —, a exposição atraiu um público numeroso e foi apresentada pelo Vereador da Cultura da Câmara Municipal da Amadora, José Agostinho Marques, e por Pedro Mota, Presidente do Clube Português de Banda Desenhada, entidade que, em parceria com a Bedeteca, organizou esta excelente mostra.

Da esquerda para a direita: Geraldes Lino, José Ruy, José Garcês, José Agostinho Marques, Pedro Mota, Ricardo Garcês, Manuela Garcês e Maria Fernanda Pinto.

Por gentileza de Dâmaso Afonso, habitual colaborador dos nossos blogues —  e que preside à Mesa da Assembleia Geral do CPBD —, registamos, para memória futura, uma reportagem fotográfica deste evento em que José Garcês, actualmente o decano da BD portuguesa, teve mais uma calorosa e merecida homenagem, com a presença dos seus familiares e de colegas, admiradores e amigos. Ao Dâmaso os nossos agradecimentos. E para o Mestre José Garcês os nossos sinceros e afectuosos parabéns.

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EXPOSIÇÃO DE HOMENAGEM A JOSÉ GARCÊS NA BEDETECA DA AMADORA

Decano da BD portuguesa, JOSÉ GARCÊS será alvo, no próximo sábado, dia 8 de Setembro, às 16h00, de merecida homenagem pelos seus 90 anos de idade e mais de 70 de carreira, numa louvável iniciativa da Bedeteca da Amadora e do Clube Português de Banda Desenhada. Parabéns, MESTRE GARCÊS!

FICHEIRO DA BD PORTUGUESA: JOSÉ GARCÊS

A rubrica em epígrafe surgiu no Mundo de Aventuras nº 481, em 1982, e foi sugerida por mim, que era o coordenador da revista, a António J. Ferreira, um dos mais insignes estudiosos e investigadores da BD portuguesa, particularmente da que antecedeu o nascimento d’O Mosquito, nas décadas de 1920 e 1930.

A. J. Ferreira foi leitor do ABCzinho, d’O Senhor Doutor, do Tic-Tac, d’O Papagaio e obviamente d’O Mosquito, e conhece a fundo todas essas revistas, dando especial relevo aos artistas portugueses que nelas colaboraram. E muitos foram!

Aceite o convite, A. J. Ferreira lançou-se imediatamente ao trabalho… que deu valiosos frutos, aparecendo no Mundo de Aventuras até ao seu último número (1987). São algumas dessas Fichas, com mini-biografias de autores portugueses, que nos propomos, agora, dar a conhecer (ou a reler) aos internautas que nos visitam.

Começamos por José Garcês, cuja carreira se iniciou, em 1946, nas páginas d’O Mosquito — então a atravessar uma das suas melhores fases, com histórias de Jesús Blasco, Eduardo Teixeira Coelho, Jayme Cortez e de outros grandes desenhadores, tanto europeus como americanos. E esta escolha tem uma razão especial, porque José Garcês celebrou ontem, dia 23 de Julho, o seu 90º aniversário, efeméride que merece ser devidamente assinalada… como já o fizeram os blogues O Gato Alfarrabista e O Gato Alfarrabista Júnior, da nossa Loja de Papel.

José Garcês colaborou n’O Mosquito até 1948, tendo realizado quatro aventuras em que são patentes, desde a primeira página, a evolução do seu estilo e a sua preferência (nessa época) por temas exóticos e enredos dramáticos… além do acerto com que desenhava sugestivas figuras femininas, cunho que manteve para sempre.

O Voo d’O Mosquito endereça também a José Garcês as melhores felicitações pelo seu aniversário e por uma memorável carreira, com mais de 70 anos, ao serviço da ilustração, da pintura, da banda desenhada e do seu ensino… em suma, da cultura, das artes portuguesas e das gerações mais jovens, que, ao longo deste incansável percurso, durante várias décadas, muito lhe ficaram a dever.

Parabéns, Mestre José Garcês, e que conte ainda muitos anos de vida!

(Nota: as fichas que aqui apresentamos foram publicadas no Mundo de Aventuras nºs 487 e 585, de 10/2/1983 e 1/11/1986, respectivamente. As duas últimas dizem respeito às primeiras histórias de José Garcês estreadas n’O Mosquito).

A HISTÓRIA DO PRESÉPIO EM BD

Numa quadra tão especial e tão festiva como a do Natal, cujo símbolo mais consagrado é o Presépio, não deve haver melhor exemplo do significado profundo do tema da Natividade e da mensagem redentora que esta fez chegar a todo o mundo e ao coração de muitos homens, através de imagens tão enternecedoras como a da Sagrada Família, com o Menino Jesus nos braços de Sua Mãe ou deitado num berço de palhas, numa humilde manjedoura.

A história que seguidamente apresentamos, O Poverello e o Presépio de Greccio“, com a assinatura de dois mestres da BD franco- -belga, Yves Duval (texto) e William Vance (desenhos), foi publicada no número de Natal do Camarada, 2ª série, 6º ano, dado à estampa em 28 de Dezembro de 1963, com uma bela capa de Júlio Gil, e narra a cruzada de dois frades mendicantes (um deles chamado Francisco de Assis) e de outros homens de boa vontade, que há mais de oito séculos levaram a cabo uma missão cheia de fé, acendendo pela primeira vez, na noite escura da Idade Média, as luzes do Presépio de Natal.

No Tintin belga, onde Vance iniciou em 1962 a sua brilhante carreira, este episódio surgiu no nº 52, de 25 de Dezembro desse ano, com o título Le Poverello et la Crèche de Greccio”.

Il poverello 3 e 4

Noutro número de Natal do Camarada, este de 1958 — ano do lançamento da 2ª série da revista da Mocidade Portuguesa, dirigida por Marcelo de Morais —, a história da criação do Presépio foi ilustrada por um grande desenhador português, cujos magníficos trabalhos recheiam muitas revistas da chamada “época de ouro”, como O Mosquito e o Camarada, e que ainda hoje, apesar dos seus 89 anos, continua cheio de projectos.

Pelo traço harmonioso de José Garcês, “Aquele Rapaz de Assis”, título do episódio que podem visionar a seguir, conta outra versão de um acontecimento que as lendas e as narrativas históricas atribuem a S. Francisco, o humilde monge que trocou a riqueza, a boémia e a companhia dos mais afortunados pela autêntica doutrina de Jesus Cristo, tornando-se um dos mais fervorosos apóstolos da caridade e do amor ao próximo.

JOSÉ GARCÊS: AS PRIMEIRAS ETAPAS (1946/1950) – 1

O Mosquito foi, sem dúvida, um verdadeiro banco de ensaio para os principais desenhadores portugueses da década de 1940: Vítor Péon, E.T. Coelho, Jayme Cortez, José Garcês, José Ruy. Só por lá não passaram Fernando Bento, Júlio Gil e António Barata.

Nem sequer havia uniformidade de estilos na revista dirigida artisticamente por António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio). O que havia era juventude, entusiasmo, arrojo, fantasia, inovação, mesmo quando algumas influências saltavam à vista. Diz-se que E.T. Coelho, considerado o mais talentoso desse grupo de novos ilustradores, criou uma “escola”, influenciando quase todos os artistas de Banda Desenhada da sua geração. Curiosamente, é fora d’O Mosquito (com excepção de José Ruy) que vamos encontrar, mais tarde, os seus “discípulos”. Mesmo quando Péon era acusado, por alguns sectores, de copiar Coelho, já se descobria nas suas histórias aos quadradinhos o gérmen de um estilo pessoal, que acabaria por evoluir noutra direcção. Péon nunca se limitou a ser um ilustrador; Coelho, por vezes, ressentia-se disso. Os leitores chegaram, em certa altura, a preferir o primeiro ao segundo, e lá sabiam porquê.

Vem todo este arrazoado a propósito de um jovem desenhador — tinha, então, 18 anos — que se estreou n’O Mosquito nº 762, de 12 de Outubro de 1946, com uma HQ que já denotava as suas reais capacidades. Era um estilo novo, diferente de tudo o que já se tinha visto no jornal, embora quem examinasse atentamente os desenhos se aperce- besse da influência, mais subtil do que profunda, do mestre norte-americano Burne Hogarth, o mais famoso desenhador de Tarzan. Essa história intitulava-se “O Inferno Verde” e o seu autor era J. Garcês — assinatura num canto do último quadradinho, que iria tornar-se rapidamente conhecida.

O estilo era correcto e meticuloso, e assim permaneceria até hoje (exceptuando alguns trabalhos realizados em épocas mais conturbadas, quando as preocupações familiares e a falta de tempo, pois era desenhador-litógrafo do Serviço Nacional de Meteorologia, pesavam sobre o artista). À harmonia de linhas e de formas opunha-se um certo estatismo da expressão corporal, compensado pela perfeição dos enquadramentos e dos cenários, embora já se manifestasse a tendência para o plano geral. Há a registar, também, o bom emprego das sombras e do tracejado, importante meio estético que Garcês já demons- trava dominar com segurança.

Depois dessa promissora estreia, apare- ceram n’O Mosquito, durante os dois anos seguintes, mais três histórias com a sua assinatura: “O Império Enlutado” (2ª vinheta), “O Segredo das Águas do Rio” e “A Maldição Branca”. Os progressos foram árduos e lentos, mas era notória a aptidão narrativa e o à vontade com que o novel artista retratava personagens e ambientes exóticos — sem excluir o cenário, tão popular entre a juventude, do turbulento Oeste americano.

Na última etapa, o seu estilo já amadurecera o suficiente para figurar em primeiro plano num jornal que continuava a publicar duas das melhores histórias de E.T. Coelho, “O Caminho do Oriente” e “A Lei da Selva”, e onde se estreara pouco antes outra obra-prima, o Príncipe Valente, de Harold Foster (que se tornaria o seu desenhador favorito).

Os balões estavam ausentes, mas a maioria dos desenhadores portugueses dessa época ainda não se tinham afeiçoado à moderna linguagem dos comics americanos, apesar do exemplo dos artistas catalães que, a partir de meados dos anos 1940, revolucionaram O Mosquito: Jesús e Alejandro Blasco, Emilio Freixas, Puigmiquel, Carlos Roca, etc.

Cremos que a regra das legendas em didascálico, que duraram até ao último número, foi imposta por Raul Correia, director literário d’O Mosquito (embora Cardoso Lopes raspasse todos os diálogos das HQ inglesas, há balões em muitas das suas histórias), pois é um facto que Raul Correia sempre preferiu trabalhar com legendas, onde a sua veia de prosador e poeta podia espraiar-se à vontade. São dele, aliás, todos os textos das histórias publicadas n’O Mosquito, não só das que traduziu e adaptou (espanholas, francesas, inglesas e americanas), como dos originais portugueses de Coelho, Péon, Garcês, Cortez e, mais tarde, José Ruy e Monteiro Neves.

Aluno da Escola António Arroio e do Mestre Rodrigues Alves, que lhe incutiu uma sólida formação artística, Garcês revelou grande habilidade, desde o início da sua carreira, para a execução de presépios e construções de armar (esta última, uma modalidade que esteve muito em voga nas revistas infanto- -juvenis da primeira metade do século XX e que ele cultivou com grande sucesso).

Mais tarde, ao ingressar na revista feminina Modas e Bordados e nos semanários infantis Lusitas e Camarada, viria a especializar-se num tema a que poucos desenhadores podem habilitar-se sem estarem para tal devidamente preparados: a BD histórica. Escolha que, se por um lado contribuiu para a sua consagração oficial (como ele próprio admite), serviu também, durante algum tempo, para alimentar as críticas (preconceituosas e pouco fundamentadas) de muitos detractores desse género de narrativas.

Mas são as produções da sua juventude (como “Fathma”, “Rumo a Oriente”, “A Princesa e o Mágico”, “A Ave Encantada”, “As Três Princesas Cristãs”), fantásticas, alegóricas e barrocas, aliando a poesia do fundo à delicadeza da forma, que muitos dos seus leitores de antanho continuam a recordar — e talvez até a preferir.

A seguir: “O Inferno Verde”, história publicada nos nºs 762 a 769 d’O Mosquito.

A predilecção de J. Garcês,  no início da sua carreira, por temas fantásticos e ambientes feéricos está bem patente nesta história (Camarada, 1949)

A HISTÓRIA DE SILVES EM BD – POR JOSÉ GARCÊS

Muitas décadas depois da sua memorável estreia nas páginas d’O Mosquito (1946), José Garcês (que comemorou ontem, dia 23 de Julho, mais um aniversário natalício) continua a produzir histórias aos quadradinhos, como documentam dois trabalhos de notável erudição publicados em 2016, concretizando projectos antigos que o venerando mestre conseguiu ainda levar a cabo: uma minuciosa e apaixonante biografia de Santo António de Lisboa, publicada com a chancela da EuroPress (e que este ano, em Junho, voltou às bancas), e outra excelente monografia sobre um tema em que Garcês se tornou também um dos nossos maiores espe- cialistas: a história das cidades portuguesas. Depois de Porto, Guarda, Ourém, Oliveira do Hospital, Pinhel, Faro e Olhão, foi a vez de Silves, num álbum editado em Outubro de 2016 pela respectiva Câmara Municipal, mas cuja realização remonta a 2009/2010. O “compasso de espera” deveu-se como sempre ao excesso de burocracia, que domina ainda grandes áreas da administração pública.

Mas valeu a pena o esforço da edilidade para romper essas barreiras, pois o álbum (em edição brochada e cartonada) representa uma preciosa homenagem à antiquíssima urbe algarvia recheada de tradições, revelando inúmeros factos da sua história, com o rigor documental e artístico que é apanágio de Garcês e a harmonia e beleza gráfica que caracterizam, desde há muito, o seu estilo — bem patentes na maravilhosa recriação da célebre “Lenda das Amendoeiras em Flor”, com que encerra mais um álbum digno inegavelmente de figurar entre as suas melhores obras sobre esta temática.

SANTO ANTÓNIO EM PORTALEGRE – COM ANTÓNIO MARTINÓ E JOSÉ GARCÊS

Página do jornal “Alto Alentejo”, dedicada à memorável sessão de homenagem a um grande mestre da BD portuguesa, José Garcês (e a Santo António, padroeiro de Portalegre), ocorrida no passado dia 21 de Maio, naquela cidade alentejana, e em que foi sapiente orador o Professor António Martinó.

Decano da BD portuguesa, José Garcês concretizou em 2016 um dos seus mais antigos projectos, publicando um álbum sobre a vida de Santo António, ao comemorar 70 anos de carreira (iniciada, muito jovem ainda, n’O Mosquito), como autor de uma vasta e multifacetada obra que dignifica não só a Banda Desenhada como a arte da ilustração ao serviço da cultura, do ensino e do património.

Recordamos que uma exposição com pranchas originais desse magnífico álbum está ainda patente no Museu de Santo António, em Lisboa.