O MOSQUITO EM 1943 – 5

No nº 393, último publicado em Março do referido ano, regressou em grande forma um dos melhores novelistas d’O Mosquito, Orlando Marques, com o conto “O Mistério do Starnight”, que abordava um dos seus temas favoritos: as aventuras de ambiente marítimo, a bordo de velhos cargueiros comandados por rijos lobos do mar. Outro regresso festejado por muitos leitores foi o de Lúcio Cardador, com uma trepidante novela de cowboys, intitulada “Leis do Oeste”. E. T. Coelho, também na sua melhor forma, ilustrou ambas com vigor e dinamismo, demonstrando novamente ter aptidão para todos os géneros e preparando-se para ainda mais altos voos ao serviço d’O Mosquito.

Os nºs 394, 395 e 396 incluíram mais separatas com temas da empolgante novela, original de Raul Correia, “Aventuras de Jim West”, que terminara no nº 392, mas cujos ecos ainda perduravam na memória dos leitores. Aqui as apresentamos, graças mais uma vez à boa vontade e ao espírito de colaboração do nosso amigo Carlos Gonçalves.

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Como curiosidade a assinalar nestes três números, temos outro decorativo (e primaveril) cabeçalho criado pela fértil imaginação de E. T. Coelho, embora, a partir do nº 398, fosse dada preferência à imagem de um “mosquito” ardina, entoando alegremente o seu pregão, que se tornou, para a posteridade, o mais vulgar e emblemático cabeçalho da revista.

Outra curiosidade é a capa do nº 395 ter sido dedicada à segunda história italiana publicada n’O Mosquito, “A Viagem do Narval”, com desenhos de Carlo Cossio, o que poucas vezes voltaria a acontecer. No número anterior, a escolha da capa recaiu sobre a longa e emocionante aventura “Ao Serviço da Lei”, ilustrada por Hilda Boswell, que desbravava agora novos cenários, levando o valente cão Storm, numa jornada imprevista, até às gélidas e solitárias paragens do círculo polar árctico.

falsa-acusação 7c3a3o-1-2441Mas a grande, a mais sensacional novidade desta nova fase d’O Mosquito, nos primeiros meses de 1943 — ano que, aliás, seria fértil em surpresas, confirmando a imparável evolução da pequena e dinâmica revista, que não dormia à sombra dos louros colhidos —, foi a estreia no nº 396 de outro jovem artista português, cujo nome não tardaria a ombrear com os dos maiores desenhadores do seu tempo… embora no cabeçalho da história apresentada nesse número e nos seguintes, com o título “Fora da Lei”, figurasse apenas um breve apelido de sonoridade espanhola, que deve ter despertado o “bichinho” da curiosidade em muitos leitores.

Foi esse o começo da carreira de Péon (de seu nome completo, Vítor Amadeu Batista Péon Mourão), depois de já ter realizado para a Colecção de Aventuras algumas ilustrações baseadas numa história de outro grande desenhador inglês, Reg Perrott, cujo estilo influenciou profundamente os seus primeiros trabalhos, com destaque para “Fora da Lei”, uma abordagem tradicional às histórias de cowboys a que não faltavam emoção, movimento, lances de vigor e heroísmo, belos cenários naturais e personagens de ambos os sexos capazes de cativar os leitores, como nos melhores filmes do género, que nessa época punham ao rubro o entusiasmo das plateias.  

Com Vítor Péon, O Mosquito ganhou (na histórica data de 10 de Março de 1943) um novo e promissor elemento artístico que iria dar um forte impulso às histórias aos quadradinhos nacionais de cunho realista, e nomeadamente ao western, até aí subordinado, na maioria das nossas publicações infanto-juvenis, a uma linha caricatural e paródica.

No nº 399, teve início outra grande novela de aventuras magistralmente ilustrada por E. T. Coelho, “Sunyana, o Rebelde” — cuja acção se desenrolava na Índia dos Rajás e dos fanáticos Tughs, ainda dominada pelo Império britânico —, assinalando o regresso de um antigo colaborador literário d’O Mosquito, Roberto Ferreira (ou Rofer), curiosidades-2-234que escondia agora a sua identidade sob um pseudónimo de raiz anglo-saxónica: Robert Bess. Caso raro, mas não único, entre os novelistas d’O Mosquito, porque o próprio Raul Correia já tinha usado um pseudónimo de origem seme- lhante: C. David Grim.

Resta assinalar, no nº 395, a con- clusão da magnífica aventura “O Ca- pitão Ciclone”, cujo desenhador, Thomas Heath Robinson, já aqui referimos várias vezes, e o início no nº 400 de mais uma história italiana, “O Assalto à Diligência”, desta vez desenhada por Giorgio Scudellari. O Avozinho voltou a dar um ar da sua graça no nº 400, com um soneto intitulado “Regresso”, em que festejava o seu jornal “quatro vezes centenário”.

O mesmo número inseria mais uma secção de curiosidades de todo o mundo e de todos os tempos ilustradas por E. T. Coelho, que revelava especial apreço por temas didácticos e divertidos; e os populares concursos “Relâmpago” também voltaram a ser notícia nos nºs 396, 397 e 399, com pitorescas e bem rimadas respostas em verso.

mosquito-393-294mosquito-395-396mosquito-397-398mosquito-399-400o-misterio-do-starnight-1-e-22leis-do-oeste-1-e-22Leis do oeste 2curiosidades-e-sunyana 2sunyana-o-rebelde-2-2322nas-montanhas-da-Índia-1-e-2capitão-ciclone-1-e-24a-viagem-do-narval-1-e-22ao-serviço-da-lei-1-e-22falsa-acusação-2-e-33falsa-acusação-e-assalto-à-diligência 3Concurso relâmpago Mosq 1943 - 5

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TOMMY, O RAPAZ DO CIRCO – 3

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Tommy Tilton deixa o lar, com o pronto consentimento da irmã — que não parece ficar muito triste por se separar dele, nem preocupada com a sua educação, preferindo vê-lo singrar na “escola” do circo (mas são assim os heróis da BD!) —, e junta-se à companhia dirigida por Mr. Bingham, onde a sua nova amiga Sue Graham está prestes a tornar-se uma artista equestre, seguindo a tradição familiar. Mas um dos elementos do circo, com a bizarra alcunha “Molho de Carne”, resolveu pregar uma partida ao pai da jovem, consumado cavaleiro em quem Sue deposita toda a confiança…

Eis mais doze tiras desta maravilhosa história escrita e desenhada por John Lethi, com datas de publicação compreendidas entre 22/11 e 5/12/1946, e que reproduzimos integralmente d’O Mosquito nºs 904 a 906.

Nota: podem ver melhor as imagens clicando sobre elas duas vezes.

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A ÁGUIA VERMELHA E A TORRE ARRUINADA

Torre de D Ramires 1Já aqui fizemos referência a um notável trabalho do Professor António Martinó de Azevedo Coutinho sobre a espe- cificidade e singularidade das histórias aos quadradinhos como forma narrativa e meio de comunicação verbo-icónico que utiliza simultaneamente o texto e a imagem, adicionando-lhes um conjunto de regras teóricas — trabalho esse publicado em várias partes no seu ecléctico blogue Largo dos Correios, sob o título genérico “O ABC da BD” (podem ver o último post desta rubrica no link http://largodoscorreios.wordpress.com/2014/11/18/o-a-b-c-da-b-d-12-fim/).

Continuando a analisar de forma rigorosa, eloquente e objectiva os processos criativos que participam da génese da chamada 9ª Arte, o Professor Martinó deu-nos outra brilhante lição num anterior artigo desta série, inti- tulado “As Monstruosidades Vulgares”, em que abordou os atentados estéticos, morfológicos e sintácticos de que a BD também é vítima, usando como exemplo uma versão retalhada (e apócrifa) de “A Torre de D. Ramires”, narrativa histórica de Eça de Queirós magistralmente ilustrada por Eduardo Teixeira Coelho, em 1950, nas páginas d’O Mosquito e que, mais tarde, sofreu autênticos vandalismos nas mãos de outros editores — sobretudo nessa versão deturpada, que surgiu na 2ª série d’O Falcão, com o título “O Cavaleiro da Águia Vermelha”.

Como o assunto tem para nós significativa importância — na qualidade de coordenadores deste blogue, dedicado à mais emblemática revista infanto-juvenil portuguesa, e de incondicionais admiradores da arte de E. T. Coelho —. não resistimos ao impulso óbvio de reproduzir, com a devida vénia, mais um magnífico texto crítico e analítico do Professor Martinó, precedendo esse post de algumas notas alusivas ao exemplo citado, que modestamente complementam os seus esclarecidos e pertinentes comentários.

Told in pictures capa 174Nota prévia: O episódio a que o Largo dos Correios faz referência, publicado n’O Falcão nº 365, num formato mais reduzido que o da versão original (respeitada, até certo ponto, no Jornal do Cuto), foi extraído de uma publicação inglesa, tal como a maioria das aventuras que O Falcão apresentou na sua 2ª série. Essa revista inglesa, com 64 páginas e também de pequeno formato (quase idêntico ao d’O Falcão), chamava-se Thriller Picture Libray e já tinha apresentado alguns episódios da série Robin Hood desenhados por E. T. Coelho (assim como por Vítor Péon).

Curiosamente, tanto um como outro iniciaram os seus trabalhos para os editores ingleses com esta caris- mática série, que passou pelas mãos de muitos desenhadores das mais variadas origens, incluindo italianos, franceses e espanhóis. E. T. Coelho chegou mesmo a ter lugar de honra no almanaque Robin Hood de 1957, em que ilustrou um bom número de páginas.

Torre D Tamires 6Na versão estropiada de “A Torre de D. Ramires” (com o título inglês “Knight of the Red Eagle”), onde o texto do Eça foi suprimido e até os nomes das personagens foram alterados, para que toda a acção pudesse decorrer em Inglaterra, verifica-se, além da remontagem das vinhetas e da inserção de numerosos balões, o aditamento de algumas imagens inéditas, cujo traço tem inegáveis seme- lhanças com o de E. T. Coelho (como demonstram amplamente os exemplos anexos).

O que prova que esta história só poderia ter sido publicada em Inglaterra com o seu acordo e que foi ele próprio quem realizou uma série de novas vinhetas, destinadas a preencher alguns “vazios” criados pelos cortes que o episódio sofreu, bem como pela adaptação a um novo formato (de duas/três vinhetas, em média, por página). A drástica redução de tamanho implicou necessariamente o sacrifício de muitas páginas publicadas n’O Mosquito — como a que mais acima reproduzimos, extraída do nº 1115, em que só foi aproveitada a 1ª tira, com um extenso corte lateral.

Torre D Tamires 4 & 5

O autor da adaptação inglesa procurou ter êxito numa missão impossível: restaurar a unidade e o ritmo da história, depois de tantos cortes, embora tivesse alterado também algumas passagens e o próprio final, em que a agonia de Sweyn (ou o Bastardo) perdeu toda a carga dramática da versão primitiva, na prosa ímpar de Eça de Queirós.

Antologia da BD Portuguesa 21Mas, pelo menos, E. T. Coelho não deixou que os editores ingleses retalhassem os originais de “A Torre de D. Ramires”, pois foi a partir deles que se fez a excelente reedição da Editorial Futura na Antologia da BD Portuguesa nº 21 (em que foi utilizada também a capa d’O Mosquito, com cores de Catherine Labey), mais de quinze anos depois da sua publicação no Jornal do Cuto. E esses originais, completos, tinham ainda anotações em inglês, escritas obviamente pelos responsáveis da referida (des)montagem.

Portanto, O Falcão não cometeu, como era suposto, um crime de lesa-arte, pois limitou-se a reproduzir a versão que apareceu no Thriller P. L. nº 172, de 7/5/1957. Torre D Tamires Falcão capaTudo leva a crer que Mário do Rosário, editor d’O Falcão nos anos 60/70, não sabia que essa história era desenhada por E. T. Coelho e que se baseava numa obra de Eça de Queirós, publicada anos antes n’O Mosquito. Quanto aos leitores d’O Falcão, na sua maioria nascidos noutra época, esses não sabiam, de certeza.

A capa deste número foi ilustrada por José Garcês. Julgo que terá sido um dos poucos a aperceber-se de tamanha “monstruosidade”… como lhe chamou, com toda a justiça, o Professor Martinó!

Esta história foi reeditada n’O Falcão nº 976, com um título mais abreviado, “A Águia Vermelha”, e uma nova capa de Garcês (cujo nome já aparece na ficha técnica). Mas os de E. T. Coelho e Eça de Queirós continuavam ausentes… como na versão do Thriller Picture Library, que procurou apenas “vender gato por lebre”!

Layout 1Nos anos 60 e 70, tais práticas eram comuns por parte dos editores e toleradas pelos próprios autores, cujos nomes, sobretudo na BD inglesa, ficavam sempre na sombra. Só recentemente, há cerca de quatro anos, graças ao apreciável trabalho de uma editora, a Book Palace, e de dois eminentes especialistas dos comics ingleses, David Ashford e Steve Holland, surgiu uma obra (literalmente) de peso, com quase 300 páginas, dedicada ao Thriller e a outras publicações similares, em que pela pri- meira vez foram revelados os nomes de todos os seus colaboradores artísticos e literários.

No episódio em questão, “Knight of the Red Eagle”, com uma sugestiva capa de James McConnell, a sua autoria é atribuída a Eduardo Coelho e a um desconhecido R. Perrins (que reescreveu o argumento, como se a história se passasse em solo inglês, durante a Idade Média). Que comentário teria saído da pena irónica e contundente de Eça de Queirós se este plágio mal disfarçado tivesse acontecido no seu tempo?

Segue-se o post do Largo dos Correios, com algumas vinhetas extraídas do Jornal do Cuto e d’O Falcão, propiciando aos mais interessados uma concludente análise comparativa.

Torre D Tamires 2 E 3


o A.B.C. da B.D. – X

ABC da BD

Toda e qualquer narrativa servida pelos suportes verbo-icónicos, audiovisuais e multimédia implica a montagem. Esta traduz-se nas operações pelas quais se define e concretiza a maneira de articular espaços e tempos significativos para assim conferir à narração da história o ritmo e efeitos pretendidos.

Se no cinema (vídeo ou DVD) e na informática (powerpoint, por exemplo) estas operações se exercem a posteriori sobre o material já colhido (ou construído), se na televisão (em directo) decorrem em simultâneo com a captação das imagens e do som, pode dizer-se que na banda desenhada a montagem é globalmente concebida a priori, no próprio acto complexo da criação da história.

Portanto, os esquemas morfológico e sintáctico da linguagem BD englobam planos/ângulos/enquadramentos e equilíbrios articulados, paralelamente, entre esta participação icónica e a componente verbal/sonora/simbólica traduzida em legendas, balões ou onomatopeias. Estes elementos participam tanto da organização interna de cada vinheta (morfologia) quanto da articulação entre as vinhetas consecutivas (sintaxe), à semelhança do que acontece com as imagens do cinema e da televisão. Por outras palavras, pode dizer-se que funcionam simultaneamente como sistema (significante) e como natureza (significado).

A organização interna de cada vinheta, a sua articulação na página e, finalmente, na história completa, normalmente em função do álbum a que dará origem, todo esse processo exige uma lógica baseada na integralidade.

Por isso, as posteriores intervenções soltas não previstas originariamente podem desarticular todo o processo, ou, no mínimo, prejudicar o seu equilíbrio.

 AS MONSTRUOSIDADES VULGARES

Parafraseando José Régio, poder-se-á afirmar que o universo dos quadradinhos também apresenta as suas monstruosidades vulgares, pequenas “transgressões” à normalidade criativa e gráfica que constitui, felizmente, a regra geral.

Escolhemos hoje um exemplo, talvez extremo, de uma espécie de “atentado” não muito vulgar, o de estropiar a obra alheia, em cópias (!?) de mau gosto estético, literário e, sobretudo, ético.

Num período já tardio de O Mosquito, pelos anos 50, surgiram nas suas páginas algumas adaptações de obras literárias clássicas de autores nacionais de nomeada, como Alexandre Herculano e Eça de Queirós, devidas à criatividade de um dos maiores desenhadores portugueses de sempre, Eduardo Teixeira Coelho.

Foi o caso de A Torre de D. Ramires, conto de Eça incluído na sua obra A Ilustre Casa de Ramires. Quase um quarto de século mais tarde, o Jornal do Cuto reeditou muitas dessas histórias, entre as quais a referida. Ainda depois, uma outra revista infanto-juvenil de BD, O Falcão, recuperaria a banda desenhada em causa, ainda que disfarçada com outras “roupagens”.

10 a

Atente-se, desde já, às capas que respectivamente assinalam as distintas publicações, com a do Jornal do Cuto respeitando a ilustração original e apenas lhe alterando o colorido, enquanto a de O Falcão consiste numa sua versão livre, “anarquia” plenamente confirmada no próprio título…

Sem comentários, por supérfluos, aqui se deixam cinco pares de vinhetas, respectivamente seleccionadas do Jornal do Cuto (C) e de O Falcão (F), a fim de que possam ser apreciadas as tropelias de toda a ordem cometidas sobre os textos e as imagens, até na “invenção” dos balões que Eduardo Teixeira Coelho nunca usou nas adaptações da obra literária de Eça de Queirós…

10 b 10 c 10 d 10 e 10 f


GALERIA D’O MOSQUITO – 1

Mosquito nº 1 capa e contracapa

Na rubrica Números “Primus” (oriunda do Gato Alfarrabista) já tivemos ensejo de mostrar o aspecto com que O Mosquito se apresentou ao público infanto-juvenil no dia 14 de Janeiro de 1936… há quase 79 anos!

Anúncio do MosquitoCom oito páginas apenas, metade das quais a duas cores (preto e magenta), mas recheadas de textos e de histórias aos quadradinhos, numa proporção equilibrada e inédita em qualquer publicação congénere, ataviava-se ainda com o primeiro poema em prosa de um desconhecido “Avozinho” — que se tornaria futuramente a figura mais tutelar e estimada pelos leitores, apesar do seu anonimato — e uma secção destinada às meninas, o “Correio da Ti’rene”, cuja orientação estava a cargo da irmã mais velha de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), um dos directores e criadores do jornal, juntamente com Raul Correia, a quem cabia toda a parte literária, incluindo os poemas em prosa e em verso do misterioso “Avozinho”.

Tiotónio, autor da capa inaugural, com a cara alegre de um petiz em grande plano, junto da figura janota do “Mosquito” (que serviu também de reclamo no Diário de Notícias), teria papel mais activo como ilustrador, a partir do segundo número.

Mosquito nº 1 página 2  e 3

Ao abrirmos esta galeria, onde iremos apresentar os primeiros números d’O Mosquito — uma das maiores raridades do coleccionismo de banda desenhada, tão procurados que já eram vendidos a “peso de ouro” quando comecei a refazer a minha colecção, há mais de 40 anos, enquanto procurava também encetar um novo caminho profissional —, decidimos repetir o número primus, mas desta vez com todas as páginas, emparceirando a capa com a contracapa e dispondo as outras pela ordem numérica respectiva.

As histórias aos quadradinhos, com o traço de excelentes desenhadores europeus, como Walter Booth, Roy Wilson e Arturo Moreno (cobertos ainda pelo véu do anonimato), eram o “chamariz” da revista, mas não tardou que as novelas policiais escritas por Raul Correia, num estilo vibrante e emotivo, despertassem também o entusiasmo dos leitores.

Mosquito nº 1 Pág central

Na sua primeira etapa, que durou quase quatro anos e 200 números, O Mosquito, de periodicidade ainda semanal, era impresso numa máquina que teve de ser substituída duas vezes, na razão directa do imparável êxito da revista, cuja tiragem subiu dos 5.000 exemplares iniciais para o dobro no espaço de poucos meses… atingindo em finais de 1939 a espantosa cifra, para um jornal infantil, de 15.000 exemplares!

MOSQUITO GRÁFICA 1 e 2

Esse estrondoso sucesso, que acabou por ter grande impacto no destino de alguns dos seus principais concorrentes — a começar pelo Tic-Tac, revista criada também por Cardoso Lopes e onde Raul Correia iniciou a sua actividade literária —, permitiu manter durante bastante tempo o preço de capa de cinco tostões, “bandeira” que O Mosquito orgulhosamente desfraldava junto do seu numeroso público, uma legião de miúdos com idade média inferior a 10 anos, espalhados por todo o país e oriundos em grande parte das classes menos privilegiadas… mas que sabiam ler, escrever e contar, sem papas na língua, e tinham uma predilecção especial pelas histórias com “bonecos”.

Aproveitem para ler também, de ponta a ponta, este raríssimo número primus d’O Mosquito (até o suplemento do Jornal do Cuto onde foi reimpresso já é difícil de encontrar), clicando segunda vez sobre as imagens para as ampliar ao máximo.

Mosquito nº 1 pedro e paulo marinheiros   475

Sobre o que foi a “odisseia” d’O Mosquito nos primeiros anos de vida, debatendo-se com grandes problemas — resultantes sobretudo da escassez de papel, devido à guerra, e do equipamento das suas oficinas gráficas, que já não era compatível com o ritmo de impressão exigido pelo crescente aumento da tiragem —, queremos chamar a atenção para um excelente artigo de José Ruy editado no BDBD – Blogue de Banda Desenhada, um dos nossos confrades que acompanhamos regularmente, com muito interesse, e que, por mérito próprio, incluímos na nossa lista de favoritos.

Cabeçalho BDBD

Esse artigo, além da mais-valia das informações e dos inesgotáveis conhecimentos de Mestre José Ruy (cuja memória privilegiada não cessa de nos encantar), tem ainda um valioso acervo de imagens sobre as primeiras máquinas que imprimiram O Mosquito — e é o preâmbulo de uma série que o BDBD apresentará ao longo de vários meses, com o título “Como eram por dentro as redacções dos jornais infantis”. Para o lerem e desfrutarem, como merece, basta clicar em http://bloguedebd.blogspot.pt/2014/10/a-vida-interior-das-redacoes-dos.html#comment-form

 

 

 

 

 

 

TOMMY, O RAPAZ DO CIRCO – 2

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Atraído pelo feérico espectáculo do circo, Tommy, um garoto que vive com a irmã numa cidade americana do interior e que aparentemente não trabalha nem estuda — o que lhe dá, desde logo, total liberdade de movimentos —, enceta uma grande aventura, guiado por uma jovem que promete abrir-lhe as portas daquele mundo exótico e maravilhoso.

Tommy of the Big Top - strip 3,jpgTommy of the Big Top - strip 4,jpg

Apresentamos seguidamente, tal como foram publicadas n’O Mosquito nºs 901 a 903, mais 12 tiras (8/11 a 21/11/1946) desta inesquecível série criada por John Lehti para o King Features Syndicate. Algumas legendas manuscritas, de qualidade mais fraca, não parecem ter sido obra de Cardoso Lopes.

Lamentamos que a má impressão e o mau papel que O Mosquito tinha nessa época não nos permita obter melhores resultados na digitalização deste material. Podem ver melhor as imagens clicando sobre elas duas vezes.

Tommy tiras 11-22

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO

A NOITE DO ANO NOVO – 3 (por Johnston McCulley)

cowboy-lasso-saturday-evening-postEmbora já tivessem aparecido n’O Mosquito com regularidade, a partir do nº 1032, outros contos de acção traduzidos por Raul Correia, esta epígrafe surgiu pela primeira vez no nº 1100, com um conto de Max Brand intitulado “Deserto”, publicando-se sem interrupções até ao nº 1320. Quase seis meses depois, reapareceu no nº 1373, primeiro de uma nova fase (que seria também a última), mas a sua publicação foi descontínua até ao nº 1408.

Muitos desses contos, com predominância dos géneros western e policial, eram oriundos do célebre magazine americano The Saturday Evening Post (cujas capas, assinadas por artistas como Norman Rockwell, N. C. Wyeth e outros, marcaram uma época), e com eles Raul Correia pretendeu certamente chamar a atenção dos leitores para temáticas mais amadurecidas e para um estilo narrativo completamente novo, preenchendo assim a vaga deixada por alguns antigos colaboradores literários d’O Mosquito.

Nos anos 50 e 60, com o ressurgimento da literatura policial e do western, vários contos publicados nessa rubrica, incluindo “A Noite do Ano Novo”, de Johnston McCulley (cuja terceira parte seguidamente apresentamos), foram reeditados em Antologias organizadas por Roussado Pinto, nomeadamente no Edgar Caygill Magazine e em dois volumes com o título 18 Grandes Histórias de “Western” e Best-Sellers” do Conto “Western”, cujas capas oferecemos também à curiosidade dos nossos leitores.

Bestsellers do conto western1 e 2E. Caygill+18-w

A noite do Ano novo - 3

III

Resumo: O Ranger Pat Malloy chega a Copper City nas vésperas do Ano Novo, para visitar a sua noiva, e é informado pelo pai desta que a cidade poderá tornar-se um inferno quando começarem os festejos, à meia-noite, devido à presença de dois bandos rivais, um deles chefiado pelo desordeiro Bart French, que planeia vingar-se de Malloy e de Ed Catlin, o gerente da Companhia Mineira. Nos “saloons” a balbúrdia ainda não começou, mas já se sente a tensão na atmosfera…

ERA quase meia-noite e as possíveis complicações não tardariam a começar… se não houvesse meio de evitá-las. Malloy deixou-se ficar numa esquina sombria, até que viu Ed Catlin aparecer ao fim da rua e dirigir-se para o primeiro saloon. O Ranger seguiu-o, conservando-se a distância.

Catlin entrou, aproximou-se do balcão corrido e fez um sinal ao dono da casa.

— Sirva de beber a toda a gente, amigo! A Companhia Mineira paga a despesa!

Os mineiros empurraram-se uns aos outros na direcção do balcão, rindo e soltando exclamações de alegria. Os brush-poppers ficaram afastados.

— Nós pagamos as nossas bebidas! — disse um deles.

Catlin não respondeu. Bebeu um gole de whisky e encaminhou-se tranquilamente para a porta, passando a poucos metros de Malloy.

No segundo saloon, a cena repetiu-se, quase igual. Quando Catlin saía, o Ranger foi ao seu encontro.

— Por que não fica por aqui, Ed?

— Estou a cumprir as ordens da Companhia, Pat! Agora vou ao saloon de Pedro Lopez… e logo se vê o que acontece!

— Bem, visto que assim o quer… Mas depois vá para o armazém e fique ao lado de Tom Dell! É mais seguro!…

Catlin acenou afirmativamente e atravessou a rua. Pat Malloy deu a volta pela ruela estreita e foi postar-se junto da porta da retaguarda do saloon. Viu Ed Catlin aproximar-se do balcão e fazer um sinal a Lopez. Este respondeu com um gesto que queria dizer que tinha entendido, e dirigiu-se para o meio da casa.

— Como de costume, meus senhores, a Compa­nhia Mineira convida toda a gente para beber e deseja-lhes um feliz Ano Novo!…

Um coro de aclamações acolheu o convite e os mineiros adiantaram-se para o balcão. A um gesto de Bart French, os brush-poppers ficaram onde estavam.

— Não precisamos do whisky da Compa­nhia! — rouquejou French.

Sem responder, Catlin levantou o copo e saudou os mineiros. Depois, muito calmo, enrolou um ci­garro e acendeu-o. Teve um meio sorriso na direc­ção de French, um meio sorriso em que havia uma espécie de desdenhosa piedade. E encaminhou-se para a porta.

Correndo ao longo da ruela, Malloy deu a volta ao barracão e atravessou de novo a rua em direcção ao armazém. Além de Catlin e de Tom Dell, só lá se encontravam dois empregados e velhos habitantes de Copper-City. O Ranger parou no limiar e disse em voz baixa:

— Peço-lhe que não saia por enquanto, Catlin! Eu volto já!

Evitando os pontos frouxamente iluminados através das portas e janelas dos saloons, voltou a atravessar a rua e parou à esquina do barracão de Pedro Lopez. Do lado de dentro, junto à porta, French falava com um dos seus homens.

— Ele está no armazém, com o Dell! — disse uma voz.

De súbito, a rua encheu-se de gente e o vulto maciço de Pedro Lopez apareceu à porta do sa­loon, de relógio em punho. Malloy viu-o levantar um braço e olhar atentamente para o relógio. Fez-se um silêncio quase completo. E bruscamente Lopez gritou:

— Meia-noite!

Um barulho ensurdecedor, feito de brados e de bater de pés, precedeu de pouco o detonar de cen­tenas de armas. Na sombra, Pat Malloy tentava observar tudo ao mesmo tempo. Podia ver, à porta do armazém, os vultos que se recortavam na luz que vinha de dentro. Dell baixou-se de repente e o Ranger teve a impressão de que ele devia ter sentido uma bala assobiar-lhe aos ouvidos.

Foi nesse momento que Bart French apareceu à porta do saloon, de revólver em punho, dispa­rando para o ar. Pat Malloy avançou um passo, mas não podia intervir sem que Bart lhe desse motivo. E o motivo surgiu. Voltando-se rapidamente, Bart baixou o cano da arma e disparou mais uma vez. O Ranger viu o vulto de Catlin oscilar e cair…

Empunhando o revólver, Pat lançou-se para a frente. French fez fogo sobre ele, mas a bala perdeu-se. Um grupo de brush-poppers quis interpôr-se, mas o Ranger disparou e os homens recua­ram, enquanto um deles lançava um brado agudo. Rápido, arrancou a arma da mão de French e abateu-o com uma coronhada. Uma dezena de balas veio cravar-se na parede do barracão. Pat disparou até despejar as suas armas e a de French. Então, curvando-se, pulou para a sombra e voltou a carregar os colts. Os brush-poppers atropelavam-se uns aos outros, procurando-o. O Ranger olhou em volta: French já não estava caído à porta do saloon… o que significava que a sua gente o tinha transportado para dentro.

Dell e um dos empregados levavam também Catlin para o interior do armazém, do outro lado da rua. Alguém correu, gritando que ia buscar o médico. Os mineiros agrupavam-se e uma voz bradou:

— Foram os brush-poppers! Mataram Ed Catlin!

                                                        (Continua )