DIA 21 DE ABRIL, EM MOURA: HOMENAGEM PÓSTUMA A ARTUR CORREIA

No passado domingo, 15 de Abril, a Câmara Municipal de Moura inaugurou uma exposição de trabalhos de Artur Correia, nome incontornável da Banda Desenhada e do Cinema de Animação, recentemente falecido. Integrada em mais uma edição da Feira do Livro de Moura, a exposição conta com trabalhos originais nunca antes publicados nem expostos ao público.

Por gentileza dos familiares de Artur Correia, dois desses trabalhos (as adaptações dos poemas populares “Donzela que Vai à Guerra” e “A Nau Catrineta”) serão publicados em estreia absoluta em mais um número da colecção Cadernos Moura BD. A mostra, como dissemos, foi inaugurada no passado dia 15, no Parque de Feiras e Exposições de Moura (Pavilhão 2), e encerra a 26 de Abril. Fica, no entanto, aqui uma chamada de atenção (também em jeito de convite) aos interessados, para a data da sessão de homenagem: 21 de Abril, sábado, às 16:30.

Nesse dia se evocará o Homem, o Autor e a Obra, com a presença dos familiares mais próximos e de muitos amigos e colegas de ofício que, desde logo, confirmaram a sua ida até Moura, cidade que Artur Correia tantas vezes visitou, por ocasião do Salão de Banda Desenhada (onde foi “Convidado de Honra” na edição de 1994).

Nota: noticiário extraído do blogue BDBD (http://bloguedebd.blogspot.pt), a cargo dos nossos amigos Luiz Beira e Carlos Rico. Em devido tempo, este blogue publicará a reportagem que se impõe sobre a meritória iniciativa da Câmara Municipal de Moura. Até lá, porque não uma visita à Feira do Livro e à grande exposição de Artur Correia, particularmente no próximo dia 21 de Abril?

“O Voo d’O Mosquito” associa-se também a esta homenagem, recordando que Artur Correia — cuja vasta obra cobriu quase 70 anos — foi colaborador da última série da mais emblemática revista da BD portuguesa, ressuscitada em 1983/86 pela Editorial Futura.

IN MEMORIAM: SERVAIS TIAGO (1925-2018)

Lisboeta, nascido a 16 de Junho de 1925, Armando de Almeida Servais Tiago colaborou em revistas como Sempre-em-Pé, Filmagem, O Mosquito, Diabrete, Cartaz, Riso Mundial, O Século, Boletim do Clube Português de Banda Desenhada ou Almada BD Fanzine.

Foi um desenhador de estilo caricatural e humorístico, sendo “Barnabé” (que se estreou em 1945 n’O Mosquito) o seu personagem de BD mais emblemático. Fez ilustrações e capas de livros, tendo-se, também, dedicado ao cinema de animação (criou os estúdios Movicine), obtendo alguns prémios em festivais internacionais.

Em 1943, com apenas 18 anos de idade, produziu “Automania”, filme inspirado no grafismo de Walt Disney e dos seus colaboradores — que, aliás, também imitava nas suas histórias aos quadradinhos —, com o qual venceu várias competições, incluindo o prémio Galo de Ouro da Pathé-Baby, o Troféu Ferrania e a Taça do Melhor Filme do Concurso Nacional de Cinema de Amadores. Ainda hoje, segundo Paulo Cambraia, é o filme português de animação original mais antigo, completo e em bom estado.

Em 1946, Servais Tiago começou a trabalhar nos estúdios Kapa, onde adquiriu conhecimentos mais profundos sobre a técnica de animação. Fez vários filmes publicitários, dos quais se destacam “Perfumes Kimono” (1946) e “Malhas Locitay” (1946), realizando ainda os primeiros filmes de animação portugueses a cores: “Tricocida” (1955) e “Grandella” (1956). Para a RTP, da qual foi também colaborador, criou o famoso “Zé Sempre em Pé”.

Servais Tiago faleceu tragicamente em Lisboa, no passado mês de Fevereiro, vítima de atropelamento. Com 92 anos, era o decano dos autores portugueses de BD e um dos últimos pioneiros do cinema de animação (como Artur Correia, de quem foi grande amigo), mas nunca teve as homenagens que merecia. Nem sequer depois da sua morte…

Nota: parte deste texto foi adaptado dos blogues BDBD e Animação Portuguesa. Brevemente, apresentaremos mais páginas do “Barnabé” publicadas n’O Mosquito, a primeira revista juvenil onde Servais Tiago colaborou.

ARTUR CORREIA (1932-2018), UM GRANDE MESTRE DA BD HUMORÍSTICA E DO CINEMA DE ANIMAÇÃO

Artur Correia e alguns dos seus personagens retratados por Zé Manel

Num país onde são raros os bons humoristas, até na Banda Desenhada, ARTUR CORREIA era quase um exemplo isolado. A sua obra vasta e variada, dispersa por publicações como “Camarada”, “Cavaleiro Andante”, “Fagulha”, “Picapau” e “Fungágá da Bicharada” (entre muitas outras), e o seu estilo divertido, inconfundível, que chegou também ao grande público através de um meio de expressão audiovisual de que foi um dos maiores pioneiros no nosso país — os desenhos animados —, dão-lhe jus ao título de “O GRANDE MESTRE DO RISO”.

Distinguido este ano pela Academia Portuguesa de Cinema com o Prémio de Carreira SOPHIA 2018 e premiado, em 1967, no maior Festival de Cinema de Animação do mundo, Artur Correia morreu na passada quinta-feira, dia 1 de Março, aos 85 anos.

Segundo a informação divulgada pelo Cine Clube de Avanca, em cujos estúdios de animação foi produzida a série “História a Passo de Cágado”, a obra de Artur Correia “marca de forma indelével vários momentos da história do cinema de animação português”.

Artur Correia iniciou-se na animação nos anos 60 e foi o primeiro cineasta português distinguido no maior Festival de Cinema de Animação, em Annecy (França), onde o seu filme “O Melhor da Rua” ganhou o prémio Melhor Filme Publicitário (1967).

Os filmes de Artur Correia receberam várias distinções, nomeadamente no campo do cinema de animação publicitário, tendo sido laureados com prémios em Veneza, Cannes, Hollywood, Bilbau, Nova York (1968 e 1969), Argentina (1970), Tomar (1981) e Lugano (1983).

Em 1970, realizou “Eu Quero a Lua”, que, segundo o Cine Clube de Avanca, “parece ser o primeiro filme português de desenho animado destinado ao grande público”.

Fundou a Topefilme, juntamente com Ricardo Neto e outros sócios, que se tornou o primeiro estúdio português de animação a trabalhar numa grande série internacional de animação. “Jackson Five” permitiu a Artur Correia dirigir a animação de um dos filmes desta série, produzida para os estúdios de Robert Balser (1972).

A primeira série portuguesa de animação, realizada em 1988 por Artur Correia e Ricardo Neto, foi “O Romance da Raposa”, baseada no célebre romance homónimo de Aquilino Ribeiro, que se trans- formou rapidamente num dos maiores sucessos da indústria audiovisual portuguesa.

Artur Correia aliava o seu trabalho na animação à autoria de ilustrações e de álbuns de banda desenhada. Publicou as suas primeiras histórias aos quadradinhos no semanário infantil O Papagaio e no quinzenário da Mocidade Portuguesa Camarada, mas foi no Cavaleiro Andante que assinou algumas das suas criações mais icónicas, entre elas as mirabolantes “Aventuras de D. João e Cebolinha”, que seriam reeditadas em 1985, pela Editorial Futura, na colecção Antologia da BD Portuguesa. Passou também por outras revistas infanto-juvenis de referência, como João Ratão, Fagulha, Camarada (2ª série), FoguetãoZorroPisca-PiscaFungagá da Bicharada Mundo de Aventuras (2ª série). Colaborou ainda, nos anos 80, no Almanaque O Mosquito, da Futura, e em 2004 num livro de homenagem a Vasco Granja (Edições ASA).

Atraído para a ilustração pela Banda Desenhada, levado para o Cinema de Animação por influência, quando ainda era muito jovem, dos filmes clássicos de Walt Disney, tinha no humor, na História e nos contos tradicionais portugueses as suas grandes inspirações criativas. Disso são exemplo algumas das suas obras de maior vulto na BD, como “História Alegre de Portugal” e “Super-Heróis da História de Portugal” (em parceria com o argumentista e seu grande amigo António Gomes de Almeida). Este último título obteve o prémio de Melhor Álbum no AMADORA BD 2005 e, em 2016, foi reeditado em fascículos, com grande êxito, pelo jornal Correio da Manhã.

Em 2011, Artur Correia recebeu o Prémio de Honra do supracitado Festival da Amadora, certame em que marcou presença desde o seu início. Mais tarde, voltou a ser pioneiro com a realização da série “História a Passo de Cágado”, produzida nos estúdios do Cine Clube de Avanca, que se tornou na primeira série europeia de animação a ser exibida em telemóveis.

Ainda em Avanca, viria a realizar a sua derradeira película, uma adaptação do Romanceiro de Almeida Garret. “A Nau Catrineta” (2012) foi exibida em Zlin, na República Checa (o mais importante festival de cinema para a infância), mas também em competições em Espanha, EUA, França, Grécia, Irão, Itália, Sérvia e Brasil (Prémio Melhor Animação no “Curta Amazónia”).

Em Portugal, foi exibida no Fantasporto, Avanca, Monstra, Fike e CineCôa, entre outros, tendo sido o filme de encerramento do Cinanima 2012.

Homenageado pelo CINANIMA em 1993 e, de novo, na última edição, em 2017, Artur Correia foi várias vezes júri e presença constante, acompanhando de perto o crescimento deste evento.

Foi igualmente homenageado pela CARTOON PORTUGAL e, já este ano, como referimos, foi distinguido pela Academia Portuguesa de Cinema com o Prémio Carreira SOPHIA 2018.

Fontes biográficas (adaptadas): Público / Lusa –  3/3/2018

RICHARD CORBEN – VENCEDOR DO GRANDE PRÉMIO NO FESTIVAL DE ANGOULÊME 2018

O mestre do horror Richard Corben é o novo Grand Prix de Angoulême

Na véspera da abertura da 45ª edição do festival, o cartoonista americano de 77 anos foi recompensado por todo o seu trabalho.

Richard Corben é o quinto americano a vencer o Grande Prémio de Angoulême. Tem sido comum que a ficção científica e a fantasia apareçam pouco no panteão do Festival de Angoulême. A nomeação, na quarta-feira 24 de Janeiro, de Richard Corben para o Grande Prémio, é um evento a saudar pelos leitores de um dos principais géneros dos quadradinhos contemporâneos: o  horror.

Escolhido pelos profissionais do sector, em detrimento do seu compatriota Chris Ware e do francês Emmanuel Guibert, que tinham assumido com ele a liderança na primeira volta da votação, Corben recebeu essa distinção depois dos seus compatriotas Will Eisner (1975), Robert Crumb (1999), Art Spiegelman (2011) e Bill Watterson (2014).

Uma estética única

A sua vitória no Grand Prix de Angoulême celebra um excelente estilista e um mestre do horror, mas também um escrupuloso adaptador de Howard Phillips Lovecraft e Edgar Alan Poe, duas das suas principais influências.

O trabalho de Richard Corben pode ser resumido no elenco e no bestiário que povoam as dezenas de álbuns que publicou em mais de 45 anos de carreira: uma multidão de mutantes, zombies, criaturas dos pântanos, bruxas, ladrões de túmulos, gladiadores, monstros, guerreiros tribais, espectros com jaquetas esfarrapadas, mulheres delirantes, animais diabólicos e bárbaros de todos os tipos.

Pilar das edições Warren Publishing, como colaborador assíduo das revistas de terror Creepy, Eerie e Vampirella, Corben desenvolveu uma estética única que provém tanto da cultura “pulp” quanto da literatura fantástica. O seu trabalho também deve muito a Robert E. Howard, o fundador da fantasia heróica com as aventuras de Conan, o Bárbaro, de que ele desenhou várias histórias.

Nascido em Anderson (Missouri), em 1940, Richard Corben é conhecido desde há muito na França. A revista Actuel foi a primeira a publicá-lo, em 1972. Três anos depois, Métal Hurlant hospedou nas suas páginas a série Den, contando as aventuras erótico- -fantásticas de um jovem geek que se transformou num guerreiro culturista.

A sua técnica de aerógrafo — uma arma de pintura em miniatura — grangeou-lhe uma enorme admiração de leitores “adultos” a quem, finalmente, os quadradinhos foram revelados. Corben tornou-se um autor de “culto”, embora sem nunca alcançar uma grande audiência no seu próprio país ou na Europa, apesar de algumas colaborações famosas, como no Hellboy de Mike Mignola.

Permanecendo fiel ao seu universo particular, o residente de Kansas City, a cidade onde recebeu o seu treino artístico, é “o arquétipo do autor independente“, de acordo com Laurent Lerner, fundador da pequena editora francesa Delirium, que tem publicado as suas criações na França nos últimos anos: “Ele é independente de tudo: do mercado, do marketing, dos média, dos leitores, das editoras… A sua abordagem artística nunca se desviou da direcção que assumiu na início da sua carreira. Tinha altos e baixos, e mesmo grandes momentos de solidão“.

Numa entrevista que concedeu no final de Ragemoor (Delirium, 2014), uma fantástica narrativa feita com o argumentista Jan Strnad, Richard Corben explica por que é que ele, o mestre das cores, optou por um tratamento a preto e branco: “Quando da concepção deste projecto, não sabia se encontraria um lugar na Dark Horse ou noutro editor de grande dimensão. Pensei que teria de apresentá-lo a editores menores, que não podiam dar-se ao luxo de publicá-lo a cores“.

O desenhador também fez um balanço da “longa carreira” e das pesquisas apesar da sua considerável idade: “Eu sempre adorei as possibilidades oferecidas pelos quadradinhos, como um meio de expressão, para contar as histórias que quero fazer e não apenas aquelas que vendem bem. Ainda tenho objectivos para serem alcançados e, por isso, provavelmente nunca me aposentarei. Continuarei a desenhar quadradinhos até morrer!“.

(Texto extraído, com a devida vénia, do blogue Largo dos Correios)

Nota pessoal (J.M.): A minha grande admiração por este autor americano, muito pouco publicado em Portugal, levou-me a incluí-lo na revista O Mosquito (5ª série), da Editorial Futura, de que fui coordenador, dedicando-lhe a capa do nº 5 (Janeiro 1985) e escolhendo uma das suas melhores histórias a preto e branco, realizada em 1970: “O Crepúsculo dos Cães”, com 10 páginas, também publicada nesse número. Anteriormente, só outro trabalho de Richard Corben fora apresentado aos leitores portugueses, na revista Zakarella nº 8, da Portugal Press, dirigida por Roussado Pinto.

Por ter sido O Mosquito (5ª série) a divulgar de novo Corben, mostrando as suas potencialidades gráficas e narrativas, num registo mais realista, achei que essa edição devia ser recordada por este blogue numa altura em que o Festival de Angoulême lhe prestou também, finalmente, homenagem, como um dos maiores autores ainda vivos da BD norte-americana e com uma obra que o tempo decerto não apagará da memória dos seus inúmeros admiradores. Aqui ficam, pois, a capa d’O Mosquito nº 5 (5ª série) e a primeira página da referida história de Richard Corben.

REQUIEM POR FERNANDO RELVAS (1954-2017)

Como já foi largamente noticiado, Fernando Relvas, um dos mais talentosos autores portugueses de BD, morreu com 63 anos, em 21 de Novembro p.p., vítima de pneumonia, depois de ter sido sujeito a uma operação no Hospital Egas Moniz, de onde foi transferido para o Amadora-Sintra. O funeral realizou-se hoje, no cemitério de Barcarena.

Justamente considerado por Nelson Dona, diretor do Festival Amadora BD, como um dos “autores-chave da BD portuguesa contemporânea, que trabalhou em todo o tipo de BD com registos gráficos brilhantes muito diferentes, e também em narrativas diversas, desde a infantil até à que era só para adultos”, Fernando Relvas, nascido em Lisboa em 20 de Setembro de 1954, publicou os seus primeiros trabalhos em meados da década de 1970, somando, desde então, colaborações em várias revistas de BD, nomeadamente Fungagá da Bicharada, Tintin, Mundo de Aventuras e Selecções BD, nos semanários Se7e e Sábado e no jornal Diário de Notícias. Ultimamente, utilizava também os meios digitais e criara blogues, como o Urso Relvas, onde escrevia textos inspirados.

Algumas das histórias publicadas na imprensa foram, mais tarde, compiladas em álbum, como “Karlos Starkiller”, “Çufo”, “Em Desgraça”, “As Aventuras do Pirilau: O Nosso Primo em Bruxelas” e “L123/Cevadilha Speed”. Em 2012, saiu o álbum “Sangue Violeta e Outros Contos” — englobando as histórias “Sangue Violeta”, “Taxi Driver” e “Sabina”, publicadas no Se7e —, premiado como clássico da Nona Arte no Festival de BD da Amadora.

A extensa obra de Fernando Relvas, interrompida nos últimos dois anos, devido à doença de Parkinson de que sofria, foi apresentada várias vezes na cidade da Amadora, capital portuguesa da Banda Desenhada, onde morava com a artista plástica Anica Govedarica, que conheceu na Croácia e com quem estava casado desde 2010.

Entre Janeiro e Abril do ano em curso, a Bedeteca da Amadora foi cenário da exposição retrospectiva “Horizonte, Azul Tranquilo”, que o seu organizador, Pedro Moura, descreveu como “uma obra maior no panorama nacional, ainda que sob muitos aspectos fragmentária (…), um verdadeiro sismógrafo da sociedade portuguesa e global das últimas décadas”. A exposição exibia trabalhos de Fernando Relvas publicados em fanzines, em revistas como o Tintin e noutra imprensa, como o semanário Se7e, onde deu largas, durante vários anos, a um imaginário ousado e irreverente e a uma veia gráfica experimentalista.

Em declarações à Agência Lusa, Pedro Moura sintonizou a carreira de Relvas com “um percurso nervoso por entre géneros e humores, métodos e técnicas, veículos de publicação e modos de produção e circulação, que servirá de retrato de uma incessante e intranquila busca pela expressividade própria da banda desenhada”.

Recorde-se também a exposição “Fernando Relvas e a Revista Tintin”, inaugurada em 16/5/2014 no extinto CNBDI (Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem), onde hoje se localiza a sede do CPBD (Clube Português de Banda Desenhada). Essa mostra assinalou a entrada da obra de Fernando Relvas, Prémio Nacional Amadora BD 2012, na importante e vasta colecção de originais da CMA/CNBDI, actualmente depositada na Bedeteca da Amadora.

Em finais de Outubro p.p., Relvas teve ainda a satisfação de assistir à abertura da sua nova mostra, na Galeria Artur Bual, integrada no 28º Festival Amadora BD, com uma abordagem retrospectiva (e não só) da sua obra, organizada por João Miguel Lameiras. Menos de um mês depois, partiu para o paraíso dos grandes artistas, onde descansará em paz, eternamente…

Este blogue, em homenagem à sua memória, está a preparar a apresentação de uma história publicada n’O Mosquito nº 2 (5ª série), Junho de 1984, cujos originais já estiveram também patentes na Bedeteca da Amadora. Infelizmente, foi a única colaboração que Relvas, sempre disperso por múltiplos projectos, prestou àquela revista — última “reencarnação” do mais emblemático título da BD portuguesa —, onde surgiu ao lado de autores como Jordi Bernet, Juan Gimenez, Esteban Maroto, Mandrafina, Antonio Hernandez Palácios, Eduardo Teixeira Coelho, Estrompa e Augusto Trigo.

Nota: este artigo utilizou algumas informações extraídas do DN Artes online.

TOM BROWNE E PERCY COCKING, REIS DO HUMOR NA BD BRITÂNICA DOS SÉCULOS XIX E XX – 1

Como anunciado há pouco tempo, aqui têm o artigo de Roussado Pinto dedicado a Tom Browne, artista inglês hoje quase esquecido que foi o criador da série Weary Willie and Tired Tim — celebrizada em Portugal, sobretudo entre os leitores d’O Mosquito, pelo carismático nome de Serafim e Malacueco com que a baptizou Raul Correia, tradutor e adaptador, no mais livre sentido do termo, das suas mirabolantes peripécias.

É óbvio que Roussado Pinto nutria também especial afeição por estes dois burlescos personagens, vagabundos sem eira nem beira que davam tratos à imaginação para viver à custa dos outros, pois ressuscitou-os no Jornal do Cuto, em episódios extraídos d’O Mosquito, e no Valente, uma das primeiras revistas que editou, ainda nos anos 1950, com páginas originais em que luzia o traço de Percy Cocking, um dos sucessores de Tom Browne. Cocking trabalhou na série (e na sombra) durante mais de 40 anos, dando-lhe um inconfundível cunho histriónico e elevando-a aos píncaros da fama. São da sua autoria todas as histórias apresentadas n’O Mosquito e na Colecção de Aventuras, até à década de 1950.

O artigo de Roussado Pinto, em que pela primeira vez os leitores portugueses viram em letras gordas o nome de Tom Browne (embora, por lapso, mal grafado no texto), foi publicado no Jornal do Cuto #18, de 3/11/1971, e é o primeiro que respigamos de uma rubrica recheada de interesse, onde Roussado Pinto publicou vários artigos sobre personagens e autores famosos da recém consagrada 9ª Arte, tanto portu- gueses (Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, Carlos Alberto Santos, António Cardoso Lopes, José Garcês, Stuart Carvalhais), como estrangeiros, a começar por Jesús Blasco. Foi também Roussado Pinto, com a sua insaciável curiosidade, o primeiro, como já referimos, a levantar o véu (no nosso país) sobre o criador da mais popular série humorística inglesa da primeira metade do século XX — que surgiu no Mosquito #209 (Janeiro de 1940) e noutros números, transitando depois, com retumbante êxito, para a Colecção de Aventuras, lançada nesse mesmo ano pelas Edições O Mosquito, onde permaneceu até ao final da primeira fase (de figurino idêntico ao d’O Mosquito), muitas vezes com honras de capa. Mas o seu regresso à origem não se fez esperar, pois já se tornara a predilecta da juventude portuguesa e até do seu tradutor.

Brevemente apresentaremos outro artigo sobre esta emblemática série inglesa, publicado no Mundo de Aventuras, em 1979, com a assinatura de Leonardo (Leonardo De Sá), então um jovem e promissor articulista cujos conhecimentos sobre os obscuros primórdios da narração figurativa já chamavam a atenção de muitos bedéfilos.

ENTREVISTA NO DN COM OS AUTORES DE “JIM DEL MONACO”: LUIS LOURO E TOZÉ SIMÕES

Entrevista publicada no prestigioso Diário de Notícias, edição de 21/8/2017, de onde a reproduzimos com a devida vénia ao seu autor, João Céu e Silva, congratulando-nos com esta merecida homenagem a uma dupla incontornável (e inseparável) da BD portuguesa — que se estreou auspiciosamente no Mundo de Aventuras, em Abril de 1985 — e ao seu herói “fetiche”, Jim del Monaco, com mais de 30 anos de carreira, parte dela iniciada n’O Mosquito (5ª série) e nos álbuns da Editorial Futura.

IN MEMORIAM: CARLOS ALBERTO FERREIRA DOS SANTOS (1933-2016)

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A Banda Desenhada, a Cultura e as Artes Plásticas portuguesas acabam de ficar mais pobres, pois perderam um dos seus maiores valores das últimas décadas…

Com 83 anos, faleceu na madrugada de 1 de Novembro, no Hospital Egas Moniz, onde estava internado há vários dias, devido ao súbito agravamento do seu estado de saúde, o pintor e ilustrador Carlos Alberto Santos, nascido em 18 de Julho de 1933, em Lisboa, e cuja carreira artística começou bem cedo, depois de ter entrado como aprendiz para a Bertrand & Irmãos, apenas com 10 anos de idade. Consolidando essa iniciação nas artes gráficas, trabalhou também na Fotogravura Nacional e no atelier de publicidade de José David. 

O seu enorme talento começou a notabilizar-se noutra empresa de grandes dimensões, a Aguiar & Dias (vulgo APR ou Agência Portuguesa de Revistas), onde colaborou assiduamente desde o 1º número do Mundo de Aventuras, integrando pouco tempo depois o seu quadro de desenhadores privativos.  Embora relativamente escassa no campo da Banda Desenhada, a sua produção como ilustrador é vasta e diversificada, com destaque para a “História de Portugal” em cromos, um grande sucesso editorial, e outras valiosas colecções do mesmo género, assim como para o álbum “Camões – Sua Vida Aventurosa”, editado pela APR em 1972 e anos depois reeditado, a cores, pela ASA.

Foi também autor das mais eróticas ilustrações da BD portuguesa, para a revista Zakarella da Portugal Press, dirigida por Roussado Pinto.
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Mais vasta e rica ainda é a sua obra como pintor, consagrada à divulgação dos grandes heróis e dos feitos mais relevantes da nossa História Pátria. Com efeito, foi a pintura (e só ela) que lhe permitiu exteriorizar a sua verdadeira personalidade artística. As suas telas estão espalhadas por diversas instituições públicas e particulares, como o Museu Militar do Porto, suscitando também o interesse de coleccionadores de todo o mundo.

O funeral de Carlos Alberto Santos realizou-se na passada quinta-feira, às 11h00, no cemitério do Alto de S. João, depois da missa de corpo presente na Igreja do Santo Condestável, bairro de Campo de Ourique (onde o artista casou, em Janeiro de 1959, com a pintora Maria de Lurdes Paes, ainda viva).

Em memória de um extraordinário vulto das artes gráficas e plásticas portuguesas dos últimos 60 anos e de um homem de gentileza ímpar, reproduzimos seguidamente um artigo publicado na revista Temas nº 3 (Abril 2000), em que se evoca o seu percurso, breve mas igualmente extraordinário, como banda desenhista.

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Nota – Tive a grande honra de colaborar com Carlos Alberto, como argumentista, num projecto que me encheu de satisfação (mas que seria a sua última obra em banda desenhada): a história “O Rei de Nápoles”, com 14 páginas a cores, publicada no 4º volume da colecção Contos Tradicionais Portugueses em BD, das Edições ASA (1993).

Na cena de abertura dessa história, de ambiente medieval, propus-lhe retratar uma caçada a um dos muitos animais selvagens que povoavam as florestas europeias desse tempo. Mas Carlos Alberto opôs-se, alegando respeitar, por princípio humanitário, a vida dos animais, de qualquer espécie. E a referida cena ficou assim…
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Infelizmente, os seus problemas de visão afastaram-no definitivamente da BD e até da ilustração, para se dedicar apenas à pintura, onde deixou obras que perpetuam a tradição dos grandes mestres figurativos, honrando o nosso património artístico e cultural. Mas as suas criações para o Mundo de Aventuras, o Jornal do Cuto e outras revistas de banda desenhada também não serão esquecidas!

Nos anos 80, Carlos Alberto foi colaborador d’O Mosquito (5ª série), publicado pela Editorial Futura, onde ilustrou no nº 8 (Setembro 1985) um conto de Lúcio Cardador, intitulado “O Primeiro Caso”; e uma BD publicitária publicada num folheto inserido, como suplemento, no nº 11 (Dezembro 1985). Aqui a reproduzimos, à laia de curiosidade, recordando a breve passagem de Carlos Alberto pela derradeira série d’O Mosquito.

(Para ler melhor esta página em toda a sua extensão, clicar duas vezes sobre a imagem).

GRANDES AUTORES – 2

ARTURO MORENO: O WALT DISNEY ESPANHOL

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Moreno (KKO)Arturo Moreno Salvador (1909-1993) foi uma das maiores revelações da “historieta” na época em que iniciou a sua carreira, encabeçando um ilustre grupo de humoristas que fez escola nas revistas Pulgarcito, TBO, Mickey, Pocholo, KKO, Chicos e outras, e que rapidamente ultrapassou fronteiras. Entre nós, o seu estilo caricatural, moderno (já nos anos 30) e burlesco, roçando, por vezes, o non-sense sem parecer adulto, e as suas histórias recheadas de fantasiosas peripé- cias, tornaram-no também uma referência, fazendo as delícias dos leitores d’O Mosquito, Tic-Tac, O Senhor Doutor, Diabrete e de outras publicações infanto-juvenis.

Esteve presente n’O Mosquito desde o 1º número, com as “formidáveis” e exóticas aventuras de Mick, Mock e Muck (Formidables Trapisondas del Grumete Mick, el Viejo Mock y el Perro Muck), um valoroso trio constituído por um velho taberneiro, um rapaz e um cão, cuja popularidade se manteve durante largos anos — dando origem, em 1947, a quatro pequenos e vistosos álbuns saídos das oficinas gráficas d’O Mosquito com a reedição das suas movimentadas aventuras.

moreno-punto-negro-1No Natal de 1937, Moreno brindou os seus admiradores com outro bizarro personagem chamado Ponto Negro, um borrão de tinta que ganhou vida num dos primeiros álbuns de BD editados em Portugal: Ponto Negro, Cavaleiro Andante (Punto Negro en el País del Juego).

Arturo Moreno apareceu também, de forma mais esporádica, no Diabrete com as suas inimitáveis historietas de uma página, que mesmo sem heróis fixos (salvo raras excepções) divertiam e encantavam os leitores. Muitas delas foram reeditadas, mais tarde, nas revistas O Mosquito (2ª série) e Escaravelho Azul — e também n’A Formiga, suplemento do Jornal do Cuto, criado por Roussado Pinto em homenagem  à Anita Pequenita, outra célebre personagem de Jesús Blasco.

Como exemplo do talento e do singular grafismo de um grande humorista espanhol, apresentaremos brevemente, na rubrica “Os Reis do Riso”, várias páginas publicadas n’O Mosquito durante a década que assinalou o seu período de maior êxito como ilustrador de tebeos, antes de se dedicar ao cinema de animação — género em que deixou também a sua marca como realizador de Garbancito de la Mancha (1945), o primeiro filme europeu de desenhos animados de longa metragem, totalmente produzido em Espanha e que obteve um enorme êxito, valendo-lhe o cognome de Walt Disney castelhano.

moreno-tboA partir dessa data, Moreno dedicou-se a tempo inteiro ao cinema publicitário e de animação, tanto em Espanha como na América do Sul (Venezuela), para onde emigrou em 1948, pouco tempo depois de ter realizado os seus primeiros filmes. Mas a precariedade dos projectos cinematográficos levou-o, várias vezes, a interromper esse percurso, regressando aos tebeos, em revistas como Tricolor e TBO, onde o seu traço continuou a ser sinónimo de humor burlesco e de surrealista inspiração.

Morreu em Espanha, já octogenário, depois de longa carreira, sempre coroada de sucesso, como prova a colaboração que prestou, nos últimos anos de criatividade, à revista Chito, divulgada oportuna- mente em Portugal nas páginas do Jornal do Cuto.

Apesar da indiferença ou da pesporrência crítica com que hoje se encara o passado, em muitos sectores artísticos e culturais, inclusive nos da 7ª e 9ª Artes, a memória da obra e do talento multifacetado de Arturo Moreno continua a suscitar calorosas e significativas homenagens entre os seus compatriotas, numa redescoberta e valorização permanentes dos melhores trabalhos que legou aos fãs do humor (e aos jovens de espírito).

Moreno (álbum-de-cromos)