ENTREVISTAS COM JOSÉ RUY – 1

O jornal Correio da Manhã, na sua revista Domingo (edição de 20 do corrente mês de Novembro), publicou com grande destaque uma reportagem no estúdio de José Ruy, homenageando assim a vasta obra e os 72 anos de laboriosa carreira, na área das artes gráficas, da ilustração e da BD, do insigne Mestre da BD portuguesa, que continua imparável, com o mesmo entusiasmo e vigor criativo de outros tempos — como se os anos não diminuíssem a sua fibra de lutador –, anunciando para breve dois novos álbuns, depois do lançamento, durante o recente Festival de BD da Amadora, da obra “Carolina Beatriz Ângelo – Pioneira na Cirurgia e no Voto”, que teve o alto patrocínio da Ordem dos Médicos (Secção Regional do Sul).

Reproduzimos seguidamente a referida entrevista do Correio da Manhã, com a devida vénia aos seus autores, os repórteres Vanessa Fidalgo e Pedro Catarino, e ao jornal — que, de vez em quando, tem dedicado especial atenção à BD portuguesa e a artistas como José Ruy, com uma longa experiência e muitas histórias para contar.

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A reportagem no estúdio do “Mestre dos Quadradinhos” foi também gravada pela CMTV, num vídeo com a duração de 5 minutos, que pode ser visto abrindo este link:

CUTO, HERÓI DE UMA GERAÇÃO – 3

mosquito-531-cuto-753Depois de “O Ardina Detective”, cujo êxito excedeu todas as expectativas, Cuto tornou-se a nova “coqueluche” dos leitores d’O Mosquito. As duas grandes aventuras publicadas seguidamente no jornal infantil português de maior tiragem dessa época, “Sem Rumo” e “O Mundo Perdido”, eram também oriundas do semanário Chicos, onde surgiram durante os anos de 1941 a 1943, com o mesmo título em versão espanhola: “Sin Rumbo” e “El Mundo Perdido”.

Jesús Blasco deu um grande salto em frente nestes episódios, demonstrando já um perfeito domínio dos códigos narrativos das histórias realistas (lembremos que ele começou a sua carreira como desenhador humorístico, bastante influenciado pelo estilo de Floyd Gottfredson, Ub Iwerks e outros colaboradores dos Estúdios Disney), ao mesmo tempo que dava também largas ao seu gosto pelo mistério, o horror e o fantástico.

Todos esses “ingredientes”, que Blasco soube manipular com mestria noutras aventuras de Cuto, como “O Castelo do Terror”, “Tragédia no Oriente” e “A Ilha dos Homens Mortos”, transformaram o cenário e o argumento de “Sem Rumo” e “O Mundo Perdido” numa espécie de “pesadelo” exótico, capaz de deixar os leitores sem fôlego em muitas cenas em que o horror e a crueldade estão bem patentes e as vidas de Cuto e dos seus parceiro(a)s de aventuras parecem presas por um fio, naqueles recônditos e sinistros domínios, governados por tiranos (uma ilha perdida do Pacífico e o misterioso reino egípcio oculto sob as areias do deserto), onde todos os perigos, incluindo os da natureza, se conjuram contra eles. E será sempre assim nas posteriores aventuras de Cuto, sobretudo as de maior importância, como uma melodia fúnebre que repete sistematicamente as mesmas notas…

Por outro lado, é de realçar (fruto de uma rápida e notável evolução) o uso frequente de onomatopeias e de balões ideográficos, assim como o tratamento mais realista que Blasco começava a dar aos ambientes e aos personagens secundários — estes, às vezes, com um papel tão destacado como o de Cuto —, em contraste com os traços caricaturais que o seu pequeno e fogoso aventureiro continuava a manter, imitando outros heróis (sobretudo na BD americana) de personalidade muito semelhante.

Apresentamos seguidamente mais duas páginas do jornal O Louletano — onde se inseria a magnífica rubrica 9ª Arte, coordenada pelo nosso saudoso amigo José Batista (Jobat) —, com a conclusão da aventura “Cuto em Nápoles”, inicialmente publicada n’O Gafanhoto, entre os nºs 10 e 17 (Janeiro-Março de 1949), cujas páginas também aqui se reproduzem.

A título de curiosidade, repare-se na última vinheta desta história, com uma imagem que podemos apelidar de natalícia, diferente da que surge na versão publicada pel’O Louletano. Tudo indica que essa imagem foi alterada mais tarde por Jesús Blasco, a pretexto de alguma reedição, nomeadamente a que foi dada à estampa na Colecção Jaguar nº 2 (Novembro de 1971), edição da Portugal Press — publicada também no Almanaque O Mosquito 1984, de onde foi extraída a d’O Louletano. A versão original de “Cuto em Nápoles” surgiu no Almanaque Chicos 1948, publicado em finais do ano anterior.

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CANTINHO DE UM POETA – 28

CARLOS ALBERTO E RAUL CORREIA

Hoje, em vez da habitual ilustração de Jobat, o poema de Raul Correia (o célebre Avozinho d’O Mosquito) é ilustrado por Carlos Alberto, outro excelente colaborador do Jornal do Cuto, que em 1972 trocou a Agência Portuguesa de Revistas, onde trabalhava há mais de 20 anos, pela Portugal Press, do seu amigo de longa data Roussado Pinto, encetando uma nova fase da sua carreira, em que utilizou com frequência o pseudónimo de M. Gustavo, inspirado pelo nome do seu compositor musical favorito: Gustav Mahler.

Carlos Alberto Santos, assinatura que também se encontra em muitos dos seus trabalhos, deixou o mundo dos vivos no passado dia 1 de Novembro, com grande mágoa de todos os admiradores da sua vasta e magnífica obra como pintor e ilustrador.

Entre os artistas gráficos da sua época  (a segunda “idade de ouro” da BD portuguesa), foi sem dúvida um dos mais talentosos, mas a sua personalidade modesta e reservada impediu-o sempre de ascender ao estatuto de “celebridade”, com que a fama e o reconhecimento público consagraram outros autores da mesma craveira.

Na última fase do Jornal do Cuto (1976-78), Carlos Alberto substituiu José Batista (Jobat) — que regressara à sua terra natal, Loulé, para se dedicar a outras actividades —, como ilustrador dos poemas em prosa e em verso de Raul Correia, com quem, aliás, colaborou assiduamente na editora Amigos do Livro, de onde saíram dois dos seus melhores trabalhos, Histórias do Avozinho e Vida de Jesus, ambos com texto do escritor e poeta que tanto admirava — ao ponto de ilustrar também um dos seus livros de versos: O Comboio de Corda (cuja capa, muito curiosa, exemplo da versatilidade do notável artista, a seguir reproduzimos).

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Nota: o poema “O Brinquedo Estragado” foi reproduzido do Jornal do Cuto nº 166, de 1/6/1977. A revista, que voltara à periodicidade mensal, suspendeu a sua publicação em Fevereiro do ano seguinte, no nº 174. Roussado Pinto, que editou também, com êxito, o Jornal do Incrível, faleceu em Março de 1985.

IN MEMORIAM: CARLOS ALBERTO FERREIRA DOS SANTOS (1933-2016)

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A Banda Desenhada, a Cultura e as Artes Plásticas portuguesas acabam de ficar mais pobres, pois perderam um dos seus maiores valores das últimas décadas…

Com 83 anos, faleceu na madrugada de 1 de Novembro, no Hospital Egas Moniz, onde estava internado há vários dias, devido ao súbito agravamento do seu estado de saúde, o pintor e ilustrador Carlos Alberto Santos, nascido em 18 de Julho de 1933, em Lisboa, e cuja carreira artística começou bem cedo, depois de ter entrado como aprendiz para a Bertrand & Irmãos, apenas com 10 anos de idade. Consolidando essa iniciação nas artes gráficas, trabalhou também na Fotogravura Nacional e no atelier de publicidade de José David. 

O seu enorme talento começou a notabilizar-se noutra empresa de grandes dimensões, a Aguiar & Dias (vulgo APR ou Agência Portuguesa de Revistas), onde colaborou assiduamente desde o 1º número do Mundo de Aventuras, integrando pouco tempo depois o seu quadro de desenhadores privativos.  Embora relativamente escassa no campo da Banda Desenhada, a sua produção como ilustrador é vasta e diversificada, com destaque para a “História de Portugal” em cromos, um grande sucesso editorial, e outras valiosas colecções do mesmo género, assim como para o álbum “Camões – Sua Vida Aventurosa”, editado pela APR em 1972 e anos depois reeditado, a cores, pela ASA.

Foi também autor das mais eróticas ilustrações da BD portuguesa, para a revista Zakarella da Portugal Press, dirigida por Roussado Pinto.
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Mais vasta e rica ainda é a sua obra como pintor, consagrada à divulgação dos grandes heróis e dos feitos mais relevantes da nossa História Pátria. Com efeito, foi a pintura (e só ela) que lhe permitiu exteriorizar a sua verdadeira personalidade artística. As suas telas estão espalhadas por diversas instituições públicas e particulares, como o Museu Militar do Porto, suscitando também o interesse de coleccionadores de todo o mundo.

O funeral de Carlos Alberto Santos realizou-se na passada quinta-feira, às 11h00, no cemitério do Alto de S. João, depois da missa de corpo presente na Igreja do Santo Condestável, bairro de Campo de Ourique (onde o artista casou, em Janeiro de 1959, com a pintora Maria de Lurdes Paes, ainda viva).

Em memória de um extraordinário vulto das artes gráficas e plásticas portuguesas dos últimos 60 anos e de um homem de gentileza ímpar, reproduzimos seguidamente um artigo publicado na revista Temas nº 3 (Abril 2000), em que se evoca o seu percurso, breve mas igualmente extraordinário, como banda desenhista.

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Nota – Tive a grande honra de colaborar com Carlos Alberto, como argumentista, num projecto que me encheu de satisfação (mas que seria a sua última obra em banda desenhada): a história “O Rei de Nápoles”, com 14 páginas a cores, publicada no 4º volume da colecção Contos Tradicionais Portugueses em BD, das Edições ASA (1993).

Na cena de abertura dessa história, de ambiente medieval, propus-lhe retratar uma caçada a um dos muitos animais selvagens que povoavam as florestas europeias desse tempo. Mas Carlos Alberto opôs-se, alegando respeitar, por princípio humanitário, a vida dos animais, de qualquer espécie. E a referida cena ficou assim…
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Infelizmente, os seus problemas de visão afastaram-no definitivamente da BD e até da ilustração, para se dedicar apenas à pintura, onde deixou obras que perpetuam a tradição dos grandes mestres figurativos, honrando o nosso património artístico e cultural. Mas as suas criações para o Mundo de Aventuras, o Jornal do Cuto e outras revistas de banda desenhada também não serão esquecidas!

Nos anos 80, Carlos Alberto foi colaborador d’O Mosquito (5ª série), publicado pela Editorial Futura, onde ilustrou no nº 8 (Setembro 1985) um conto de Lúcio Cardador, intitulado “O Primeiro Caso”; e uma BD publicitária publicada num folheto inserido, como suplemento, no nº 11 (Dezembro 1985). Aqui a reproduzimos, à laia de curiosidade, recordando a breve passagem de Carlos Alberto pela derradeira série d’O Mosquito.

(Para ler melhor esta página em toda a sua extensão, clicar duas vezes sobre a imagem).