NOVIDADES DO “FANDAVENTURAS”

“Mantendo a cabeça e os ombros bem acima dos históricos e ficcionais salteadores de estrada que o cinema, os livros, a literatura de cordel, os folhetins de terror e as histórias aos quadradinhos popularizaram, surge a figura de Dick Turpin. Ele foi o único salteador de estrada que se tornou um verdadeiro herói popular inglês. Um novelista pegou um dia na tradição oral deste destemido salteador-cavaleiro e introduziu-o numa novela que tornou famoso o nome de Dick Turpin por todo o mundo ocidental. O nome desse novelista era William Harrison Ainsworth e a novela chamava-se “Rookwood”.

O próximo número do Fandaventuras — um fanzine criado em Julho de 1990, portanto já quase com 27 anos de existência, e que José Pires relançou recentemente, com novas reedições de grandes autores clássicos ingleses — oferece-nos uma magnífica adaptação da obra de William Harrison Ainsworth, com desenhos do incomparável Tony Weare (já depois de ter abandonado a série Matt Marriott), publicada na revista Look and Learn, em 1980. Um clássico da literatura popular inglesa do século XVIII,  em que certamente Walter Booth se terá inspirado para criar o seu Captain Moonlight. Uma peça de colecionador!

E a propósito de Walter Booth convém lembrar que sai também este mês outro número do Fandaventuras (mas em formato especial, à italiana), com a reedição integral da série “Os Companheiros de Londres”, aventura que obteve grande êxito n’O Mosquito, em 1943, e que confirma em absoluto os excepcionais dotes de ilustrador deste célebre pioneiro da época áurea da BD inglesa.

Outra reedição de um clássico dos anos ’30, reproduzido directamente das páginas do semanário inglês Puck (onde Walter Booth publicou a maioria das suas obras), portanto com uma qualidade fora de série… como, aliás, tem sido timbre do Fandaventuras.

A título de curiosidade, recordamos que José Pires já reeditou, em vários volumes de formato à italiana, todas as grandes criações de Walter Booth, desde Rob the Rover (Pelo Mundo Fora) e Orphans of the Sea (O Gavião dos Mares) até Captain Moonlight (O Capitão Meia-Noite), que fizeram também as delícias dos leitores d’O Mosquito. Faltava apenas apresentar, nesse formato horizontal, “Os Companheiros de Londres (Chums of London Town), que fica agora, num só volume, ao dispor de todos os coleccionadores do Fandaventuras.

Estes fanzines estarão brevemente à venda na Loja de José Manuel Vilela, Calçada do Duque, 19-A, 1200-155, Lisboa, mas podem também ser encomendados ao editor, por quem não morar na capital, bastando escrever para o e-mail gussy.pires@sapo.pt.

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CURIOSIDADES E ANOMALIAS – 6

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Eis mais dois exemplos das malfadadas “gralhas”, com erros de  datas ou de numeração (por vezes ambos, como já constatámos), que O Mosquito — apesar de se intitular ufanamente o “jornal infantil mais bonito” de Portugal — não conseguiu “caçar” a tempo.

Após uma breve sequência de números com elementos correctos no cabeçalho, surge novamente uma data “tresmalhada” no nº 428: 28 de Julho de 1943 (idêntica à do número anterior), em vez de 31 de Julho. A título de curiosidade, para os bedéfilos menos familiarizados com as diversas fases d’O Mosquito, anote-se que as capas destes dois números exibem o magnifico traço de E. T. Coelho — ainda no alvor da sua juventude e da sua carreira, mas já fazendo gala dos seus dotes artísticos — e que “O Navio Negro” é o título de uma das melhores novelas de Raul Correia.

Mais adiante, decorrida uma escassa dezena de números, encontramos outro exemplo de “gralhas” que saltam à vista de quem estiver atento à sequência cronológica: no nº 437 — cuja capa tem por tema uma história do artista inglês Walter Booth, que foi também autor da trepidante série “O Capitão Meia-Noite” —, a data adiantou-se (ao contrário da hora de Inverno), trocando o nome dos meses. Mas o fagueiro Setembro (ainda período de férias grandes, nessa época) regressou, para gáudio da miudagem, no número seguinte.

Quantos leitores d’O Mosquito terão dado por estas anomalias? Praticamente nenhuns, pois o que interessava a garotos que, na sua maioria, ainda frequentavam a escola primária, era ler as aventuras com “bonecos”, deixando de parte tudo o que para eles era banal e acessório. Só quando, muitos anos depois, alguns se tornaram coleccionadores, por nostalgia ou passatempo — e outros os imitaram, fazendo com que O Mosquito atingisse, de repente, no mercado alfarrabista, valores surpreendentes —, é que passaram a dar importância a esses ínfimos pormenores, esmiuçando todos os exemplares da sua colecção.

O 1º ANIVERSÁRIO D’O MOSQUITO

mosquito-52-capa-289Nascido em 14 de Janeiro de 1936, com oito páginas (e apenas duas delas a cores, a capa e a contracapa), modesto no seu aspecto e quiçá nas suas ambições, O Mosquito foi, no entanto, o jornal dessa época que mais cativou os leitores infanto-juvenis, destronando toda a concorrência ao conquistar o valioso ceptro de “semanário infantil português de maior tiragem”, pois oferecia no seu sumário emoção, aventura e fantasia a rodos, pelo traço de excelentes artistas estrangeiros (como Walter Booth, Reg Perrott, José Cabrero Arnal, Arturo Moreno e outros), e pela sugestiva prosa de um talentoso escritor, o seu director literário e editor Raul Correia, cuja veia poética rivalizava com a de novelista, sob o carinhoso, lírico e enigmático heterónimo de Avozinho.

Com estes trunfos, aliados ao saber e à experiência nas artes gráficas de António Cardoso Lopes Jr. (o outro fundador e director d’O Mosquito, mais conhecido pelo seu nome artístico, Tiotónio, autor da famosa dupla Zé Pacóvio e Grilinho), o pequeno “insecto” de papel voou cada vez mais alto, acabando por perder de vista os seus competidores, que no final dessa década já estavam reduzidos a uma pequena hoste, de que faziam parte O Senhor Doutor e O Papagaio, de aspecto mais vistoso mas menos aptos a conquistar o coração dos leitores.

Em homenagem ao glorioso voo d’O Mosquito, que por “ares e ventos” chegou ao mais alto pódio da BD portuguesa, recordamos o editorial do nº 52, de 7 de Janeiro de 1937, publicado na secção de correspondência, uma das mais apreciadas pelos leitores, onde o estro literário de Raul Correia brilhava tanto como o de humorista. Foi dessa forma que O Mosquito celebrou a passagem do seu 1º ano de vida (uma semana antes da data oficial de nasci- mento), modestamente como era lema dos dois homens simples que o tinham criado.

CURIOSIDADES & ANOMALIAS – 2

A grande tiragem d’O Mosquito — que nos anos 40, depois de passar a bissemanário, chegou a atingir 30.000 exemplares por número! — impunha a realização de turnos nas oficinas e a utilização de várias chapas de impressão, nas quais, por vezes, os erros (sempre inevitáveis) só eram detectados quando a máquina, a grande impressora Rolland de “offset”, já estava em pleno funcionamento, “carburando” a toda a velocidade (pois imprimia mais de 7.000 cópias por hora!). Eis a sua vetusta imagem, reproduzida do Jornal do Cuto nº 22, de 1 de Dezembro de 1971, com nota à margem de Roussado Pinto.

Máquina Rolland 262

Havia sempre, porém, a possibilidade de emendar esses erros, rasurando as próprias chapas, desde que não fosse demasiado tarde, isto é, antes da máquina acabar a sua tarefa. Alguns dos erros mais insólitos (e que ficaram para memória futura, pois parcialmente já não tinham remédio) dizem respeito à numeração e às datas de certas capas que ainda ostentam os elementos da edição anterior. Como por exemplo, a do nº 407, impressa em muitos exemplares (talvez mais de metade da tiragem) com o nº 406 e com a data respectiva, embora os temas das duas capas sejam muito diferentes.

Verificado o erro por algum impressor mais atento, ou pelo próprio Tiotónio (António Cardoso Lopes), que era quem geralmente manuseava a preparação das chapas, foi ainda possível corrigi-lo num bom número de exemplares, pois já apareceram revistas com a sequência devidamente alterada. E uma delas, reproduzida a seguir neste post, ao lado da sua congénere, faz parte afortunadamente da minha colecção.

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Claro que para os editores d’O Mosquito seria um grande prejuízo se tivessem de destruir todos os exemplares mal numerados. Por isso, acabavam sempre por distribui-los mesmo com essa anomalia, em que muitos leitores, garotos ainda da escola primária, nem sequer reparavam. Aliás, nesses tempos, quantos é que já possuíam o vício de coleccionadores?

O Mosquito era lido num ápice e passava de mão em mão, entre miúdos do mesmo bairro e colegas da mesma escola, indo parar, depois de manuseado por muitos e entusiásticos admiradores do Capitão Meia-Noite, do Cuto e do Serafim e Malacueco, às prateleiras de alguma estante ou a uma caixa guardada num sótão onde o pó e as teias de aranha não tardariam a cobri-la. E na pior das hipóteses ficaria esquecido no chão, arrastado pelo vento e pisado por quem passava. Ou seria vendido ao desbarato, como outros papéis velhos, condenado, depois de tantas aventuras e glórias, ao tristonho destino de embrulhar castanhas assadas (“quentes e boas”), quando chegasse o Inverno!…

Mosquito 406 259Mas como a tiragem era grande, quase desco- munal para um jornal infantil, foram muitos também os exemplares que se salvaram. Mesmo aqueles em que há duas capas diferentes com números e datas iguais (para estabelecer a confusão entre os coleccionadores mal informa- dos). No caso que hoje trazemos à tona a capa do 407 era, como habitualmente, de E. T. Coelho, ilustrando uma cena da novela “Sunyana, o Rebelde”, escrita por Robert Bess (aliás, Roberto Ferreira, novelista que também usava o anagrama de Rofer); mas a do 406, também de E.T. Coelho, dizia respeito ao famoso Capitão Meia-Noite, herói de uma magnífica série desenhada pelo veterano mestre inglês Walter Booth, cuja segunda parte se estreara pouco antes, no nº 403 da revista.

Durante a sua existência, O Mosquito foi vítima de outras anomalias deste género, embora não seja fácil descobrir todos os números em que aconteceram repetições semelhantes (ou se chegaram a ser emendados). Pela nossa parte, a pesquisa continua…

O MÍTICO NÚMERO 100 (O MOSQUITO) – 2

No historial de qualquer publicação periódica, o número 1 representa o primeiro contacto com os leitores, o arranque para a vida, e o número 100 a consolidação de um longo caminho percorrido (dois anos, no caso das revistas semanais), a passagem do “gatinhar” e dos primeiros passos ainda incertos e hesitantes para uma postura mais firme e confiante.

Por isso, esse número centenário, sinónimo de vitalidade e esperança — em contraste com o significado que tem na existência humana —, é geralmente comemorado de forma sugestiva, ataviando-se com novas galas: cores mais garridas, um novo cabeçalho ou uma bela ilustração que fique na memória dos leitores. Nem sempre todos esses atributos se englobam na mesma capa.

Mas casos há em que o número 100 parece ficar esquecido, sem se distinguir — na correnteza das capas com grafismo sempre igual — dos seus companheiros de jornada, sem merecer sequer dos seus editores uma breve nota de rodapé.

Nos dois exemplos que hoje apresentamos, essas diferenças, a nível gráfico, saltam particularmente à vista: a capa d’O Mosquito nº 100 e a capa homóloga do Diabrete, separadas por cinco anos de intervalo e por outras características estéticas e morfológicas que num exame, mesmo ligeiro, não passam despercebidas, dando vantagem ao Diabrete, com apresentação mais garrida, o mesmo número de páginas (8), mas em formato ligeiramente maior, e um cabeçalho mais decorativo.

Diabrete nº 100Desde logo, caiu no goto dos leitores a vistosa imagem da capa, criada pelo traço fantasista de Fernando Bento, mestre das artes figurativas nacionais, enquanto que O Mosquito se limitou, fiel à rotina que seguia desde os primeiros números, a uma página das viagens de D. Triquetraque, história humorística curta ilustrada pelo notável artista catalão Arturo Moreno.

Verdade se diga que o sumário deste número (como dos anteriores) era de respeito, pois incluía mais três histórias aos quadradinhos, todas de origem inglesa, com destaque para a longa saga de Rob, o juvenil herói de “Pelo Mundo Fora”, magistralmente ilustrada por Walter Booth, e para as animadas peripécias de um irresistível trio de aventureiros, “O Capitão Bill, o Grumete Bell e o Cozinheiro Ball”, criação de Roy Wilson, outro grande nome da BD inglesa. Assinale-se também uma história que ficaria incompleta, “Beric, o Bretão”, passada na antiga Roma, com desenhos (ainda incipientes) de Jock McCail. que foi também um prolífico autor de séries de aventuras. Para completar o sumário, não faltava uma novela policial em episódios, “Rudy Carter, G-Man”, e um conto do Oeste, ambos com assinatura de Raul Correia. E ainda, em separata, uma construção de armar realizada pelo Tiotónio: “Grande Locomotiva” (folha 8, de um total de 17).

Nenhuma revista juvenil, em 1937, oferecia tantas doses de aventura, emoção, audácia, humor e fantasia, por tão pouco dinheiro. Mesmo não tendo nada de especial em relação aos anteriores, esse número centenário valia bem o seu preço: 50 centavos (5 tostões). Registe-se, igualmente, a nota inserida na coluna do correio, rubrica muito apreciada pela maioria dos leitores, devido sobretudo ao cunho inconfundível da prosa de Raul Correia, que, em nome d’O Mosquito, respondia espirituosamente às cartas da garotada. Nessa nota, ao lado de mais um poema do Avozinho, lia-se o seguinte (ampliar a imagem):

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Mosquito 100 pag 4 e 5

Ao requinte gráfico de Fernando Bento, no Diabrete, correspondia, assim, n’O Mosquito, o estro literário de Raul Correia. Um e outro dignos do festivo e simbólico número 100, que ambos — à distância de cinco anos, convém repetir — pretenderam assinalar com maior ou menor exuberância. Verdade se diga, mais uma vez, que O Mosquito preparava um número de Natal digno dos seus pergaminhos. E esse número seria precisamente o 101… como podem ver no post publicado em 31/12/2014.

Voltaremos, numa próxima oportunidade, ao Diabrete, para descrever também, com o devido relevo, o “suculento” sumário do seu nº 100.

NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 1

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Durante esta quadra festiva, iremos apresentar uma curta série de números de Natal que fizeram as delícias dos leitores d’O Mosquito e de outras publicações infanto-juvenis suas contemporâneas — e com ele, por razões diferentes, directamente relacionadas.

Como foi o caso do Tic-Tac, fundado em 1932 por António Cardoso Lopes (Tiotónio) e João Vicente Sampaio, o primeiro dos quais foi uma das figuras mais proeminentes do jornalismo infanto-juvenil português e um dos pioneiros da BD humorística dos anos 20 e 30 do século XX, autor de inúmeras e patuscas personagens cujas rábulas ficaram célebres, nomeadamente o Zé Pacóvio, uma criação memorável surgida nas páginas do ABC-zinho, d’O Bébé (2ª série), do Có-Có-Ró-Có, do Tic-Tac e d’O Mosquito. No início de 1936, Tiotónio (ou Tio-Tónio) abalançou-se a projecto ainda de maior vulto, criando — com Raul Correia — uma das mais emblemáticas revistas da história da BD portuguesa: O Mosquito.

Pois aqui têm a capa do 1º número de Natal do Tic-Tac, 2ª série (24-12-1933), assinada por Raquel [Roque Gameiro], uma das maiores ilustradoras portuguesas de todos os tempos, com obra extensa e singular, de rara sensibilidade artística, em publicações infantis, mas que também se notabilizou nas artes plásticas, como seu pai Alfredo Roque Gameiro.

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Neste número do Tic-Tac, com 16 páginas, a duas e quatro cores, em que os temas natalícios têm a primazia, destaque para o conto de Ana de Castro Osório, “Uma História do Natal”, com ilustrações de Pinto de Magalhães (Filho), e a narrativa humorística “O Testamento do Peru”, original de Luíz Ferreira (Tio Luíz) e ilustrada por Tiotónio, que, além de dar o nome a uma curiosa secção de “engenhocas larocas”, também fez as honras da contracapa, com novas e azaradas peripécias do seu “compadre” Zé Pacóvio… por causa de um velho peru recheado que fez o saloio espertalhão ver a lua e as estrelas!

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Curiosamente, esta página foi inspirada numa historieta de outro grande desenhador humorístico, o mestre espanhol José Cabrero Arnal, publicada pouco tempo antes na revista Pocholo nº 109, copiosa fonte à qual O Mosquito foi beber muitas criações de alguns excelentes artistas do país vizinho, como Moreno, Arnal e Jesús Blasco.

Agradecemos ao nosso amigo Leonardo De Sá — e por seu intermédio a Jordi Artigas, que fez a pesquisa no Pocholo — pela oportunidade que nos proporcionaram de dar a conhecer aos nossos leitores duas versões da mesma história, feitas por autores diferentes, ambos com uma notável carreira artística que prestigiou a BD dos seus países.

Depois de as cotejarmos, leva vantagem a do Tiotónio, por ser a cores e ter como prota- gonista um “herói” de aspecto castiço — como os saloios da Malveira da Serra — que, apesar de não servir de exemplo, fazia rir a miudagem a bandeiras despregadas!

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Em resumo, um número de Natal também bem recheado de nomes célebres e de amenas propostas de leitura, entre as quais as rubricas Caçadas e Aventuras, De Tudo um Pouco (por Tiotónio), Para Moer o Juízo (secção charadística) e História dos Portugueses (por Eduardo de Noronha, com ilustrações de Rocha Vieira) — além de um novo episódio da mais empolgante série de aventuras dessa época, Pelo Mundo Fora (Rob the Rover), com desenhos de um grande pioneiro da BD inglesa (Walter Booth) e um herói que viria a tornar-se, tempos depois, uma das figuras mais populares do novel jornal juvenil concebido também por António Cardoso Lopes: o nosso imorredoiro O Mosquito!

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O MÍTICO NÚMERO 100 (TIC-TAC) – 1

O pato TictacRecheado de simbolismo e de inexplicável atracção, o número 100 é, por natureza, um número “mágico”, quase cabalístico, que parece representar, no imaginário colectivo, um marco difícil de atingir, uma barreira que só é ultrapassada por aqueles que se esforçam em obter a vitória, ou seja, os mais lutadores, os mais persistentes e melhor preparados no exercício do seu mister, qualquer que ele seja.

Tictac numero 100 capaNa própria existência humana há uma meta que a todos atrai, mas que poucos conseguem alcançar: os 100 anos de idade, um século de vida! Claro que, por vezes, a importância que se dá ao número 100 é exagerada, mas na vida de uma revista periódica, mormente as do género infanto-juvenil — que são as mais precárias, pois dependem exclusivamente do frágil poder de compra de um público que ainda não trabalha nem tem rendimentos, a não ser os que provêm da gene- rosidade e das posses dos seus familiares —, ele tem um valor mais do que simbólico, pois coroa uma lenta caminhada de semanas, meses (ou até anos), ao serviço de uma causa que só interessa, geral- mente, aos seus promotores e aos seus jovens beneficiários.

Quase todas as publicações portuguesas de maior longevidade, destinadas a esse público juvenil, festejaram condignamente o seu número 100, não deixando de sublinhar as etapas percorridas e os êxitos averbados durante o percurso — sinal de vida mais longa e próspera, nem sempre confirmada pelos acontecimentos posteriores.

Iniciando esta rubrica, aqui vos apresentamos a capa centenária da revista Tic-Tac (2ª série), que deu especial destaque ao mítico número 100, dedicando-lhe uma sugestiva ilustração, realizada por um dos seus mais talentosos e experientes colaboradores: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), que tempos depois (Janeiro de 1936) viria a tornar-se co-fundador e director artístico do novel semanário O Mosquito.

Na terceira página desse número, datado de 11 de Novembro de 1934, um extenso editorial assinalava a centenária proeza, que o Tic-Tac (cujo nome era o de um pato!) voltaria a repetir, anos volvidos, pois chegou a atingir o nº 263.

Tictac numero 100 pag 2 e 3 J

Entre outras matérias de interesse, o nº 100 publicava histórias aos quadradinhos cómicas e realistas, como Diabruras do Zeca e Toi (com texto de Tio Luiz e desenhos de José Félix), Kid, a Águia Humana e Pelo Mundo Fora (célebre série inglesa magistralmente ilustrada por Walter Booth), uma novela policial de empolgante enredo, da autoria de Raul Correia, com o título A Vida Aventurosa de António de Lencastre, um concurso cinematográfico, uma secção charadística sugestivamente intitulada Para Moer o Juízo, versos de Aníbal Nazaré e, para rematar este sumário bem recheado, a rubrica  Histórias dos Portugueses, assinada por dois nomes ilustres: o escritor Eduardo de Noronha e o ilustrador Rocha Vieira. Quase tudo “prata da casa”, como era norma na maioria das publicações infanto-juvenis dessa época.

Tictac numero 100 pag 5 e 7 J

Tictac numero 100 pag 8 e 9 J

Fazia também parte desse número uma separata com a “caraça” de um famoso actor cómico, o Estica (Oliver Hardy), Os pequenos leitores eram convidados a apresentar-se com ela, como se brincassem ao Carnaval, durante a emissão do programa infantil da Rádio- -Graça, o que lhes valeria uma recompensa.

Apesar da sua idade centenária, o patinho Tic-Tac apresentava-se em excelente forma… prometendo continuar, por mais alguns anos, a ser um dos amigos predilectos da juventude portuguesa.