CURIOSIDADES E ANOMALIAS – 6

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Eis mais dois exemplos das malfadadas “gralhas”, com erros de  datas ou de numeração (por vezes ambos, como já constatámos), que O Mosquito — apesar de se intitular ufanamente o “jornal infantil mais bonito” de Portugal — não conseguiu “caçar” a tempo.

Após uma breve sequência de números com elementos correctos no cabeçalho, surge novamente uma data “tresmalhada” no nº 428: 28 de Julho de 1943 (idêntica à do número anterior), em vez de 31 de Julho. A título de curiosidade, para os bedéfilos menos familiarizados com as diversas fases d’O Mosquito, anote-se que as capas destes dois números exibem o magnifico traço de E. T. Coelho — ainda no alvor da sua juventude e da sua carreira, mas já fazendo gala dos seus dotes artísticos — e que “O Navio Negro” é o título de uma das melhores novelas de Raul Correia.

Mais adiante, decorrida uma escassa dezena de números, encontramos outro exemplo de “gralhas” que saltam à vista de quem estiver atento à sequência cronológica: no nº 437 — cuja capa tem por tema uma história do artista inglês Walter Booth, que foi também autor da trepidante série “O Capitão Meia-Noite” —, a data adiantou-se (ao contrário da hora de Inverno), trocando o nome dos meses. Mas o fagueiro Setembro (ainda período de férias grandes, nessa época) regressou, para gáudio da miudagem, no número seguinte.

Quantos leitores d’O Mosquito terão dado por estas anomalias? Praticamente nenhuns, pois o que interessava a garotos que, na sua maioria, ainda frequentavam a escola primária, era ler as aventuras com “bonecos”, deixando de parte tudo o que para eles era banal e acessório. Só quando, muitos anos depois, alguns se tornaram coleccionadores, por nostalgia ou passatempo — e outros os imitaram, fazendo com que O Mosquito atingisse, de repente, no mercado alfarrabista, valores surpreendentes —, é que passaram a dar importância a esses ínfimos pormenores, esmiuçando todos os exemplares da sua colecção.

O NATAL NA ARTE DE E.T. COELHO

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Prestes a despedir-se dos seus leitores — que desertavam, cada vez em maior número, para outras e mais aliciantes companhias —, O Mosquito não deixou de evocar, em 1952, a data mais festiva do ano (como já fizera tantas vezes), recorrendo novamente aos préstimos do seu melhor colaborador, Eduardo Teixeira Coelho, que ilustrou a capa do nº 1404 com a clássica e estilizada elegância do seu traço.

Nem mesmo as figuras do burrico e do campino, pitoresco pormenor do cabeçalho (cujo estilo vivo e alegre revela outra faceta da veia artística de E. T. Coelho), parecem destoar nesta poética, singela e tradicional visão do Presépio.

CURIOSIDADES E ANOMALIAS – 5

mosquito-62Aqui têm outro exemplo das trocas e erros de numeração que ocorriam com alguma frequência n’O Mosquito dos tempos heróicos, quando a sua tiragem não parava de crescer, na razão directa da popularidade conquis- tada, desde o primeiro número, entre o entusiástico público infanto-juvenil.

Embora fosse o principal responsável pela direcção gráfica e artística do jornal, António Cardoso Lopes (Tiotónio) não podia atender a tudo, sobretudo na época em que O Mosquito ainda não tinha oficinas próprias. Mas mesmo depois disso, embora a quali- dade de impressão tivesse melhorado bastante, os erros numéricos não acabaram, para arrelia dos tipógrafos e confusão dos leitores, sobretudo dos que já pensavam em coleccionar a revista.

Até Novembro de 1939, como já referimos noutro post desta rubrica, O Mosquito era impresso numa primitiva máquina da Litografia Castro, sita na Travessa das Pedras Negras, em Lisboa (onde funcionava também, para efeitos legais, a sua redacção e administração provisória) —, máquina essa que, aliás, mosquito-62-bisjá não era a mesma que tinha dado à estampa os seus primeiros números, com uma tiragem que orçava entre os 5.000 e os 7.500 exemplares semanais. Mas essa tiragem não tardou muito a atingir o dobro, obrigando a gráfica a utilizar outra máquina maior e mais rápida para não agravar os repetidos atrasos na periodicidade d’O Mosquito (que era, então, distribuído pela Empresa Nacional de Publicidade).

Admira-nos, por isso, que o erro que se detecta entre os nºs 62 e 63, aqui reproduzidos — com capas ilustradas pelo grande artista espanhol Arturo Moreno —, não tivesse acontecido mais cedo. A “gralha”, desta vez, foi apenas de numeração, estando as datas correctas. O que não serve de aviso para os coleccionadores, antigos e actuais, sobretudo para os menos atentos a estes pormenores, que correm o risco de omitir nas suas listas dois nºs 62, ficando assim sempre à espera que lhes apareça um nº 63 que, em teoria, não existe. Pelo menos, até alguém demonstrar o contrário, exibindo um exemplar correctamente datado e numerado… que poderá valer, para os interessados, o seu “peso em ouro”.

CURIOSIDADES E ANOMALIAS – 4

Durante os seus primeiros cinco anos de existência, o aspecto gráfico d’O Mosquito pouco mudou. Com apenas oito páginas (mais quatro, durante um breve período), recheadas de histórias aos quadradinhos inglesas, contos e novelas ilustrados também com gravuras inglesas e os poemas do Avozinho, que eram lidos com tanto interesse como o resto do sumário, O Mosquito conseguiu impor-se a todos os seus concorrentes, conquistando um lugar cada vez mais proeminente no panorama da imprensa infanto-juvenil dessa época.

mosquito-201-784A guerra em curso na Europa dificultava também, como era inevitável, a vida dos portugueses, agravando, no caso particular dos jornais, o custo do papel e de outras matérias-primas, com cuja escassez O Mosquito e os seus congéneres se debatiam semana após semana. Parece quase um milagre que, numa altura em que muitas pessoas tinham de fazer bicha para comprar pão, leite e outros alimentos, as máquinas impressoras continuassem a trabalhar, fornecendo aos ávidos leitores juvenis uma espécie de “maná” que servia de alimento ao seu espírito e de lenitivo aos temores que as notícias dessa guerra longínqua infundiam aos mais timoratos.

Em Novembro de 1939, ignorando o que se passava bem perto das nossas fronteiras, com os fantasmas da guerra já a rondarem alguns países europeus, O Mosquito deu um passo de gigante que lhe permitiu consolidar ainda mais o seu lugar de líder no mercado, com uma tiragem que fazia inveja a todos os concorrentes — incluindo os que tinham nascido antes dele, como O Senhor Doutor e O Papagaio.

Com efeito, foi nessa data que se mudou para as suas novas oficinas gráficas, na Travessa de S. Pedro nº 9, em Lisboa (perto do jardim e miradouro de S. Pedro de Alcântara), onde ficaram, também instalados os seus escritórios e armazéns, pois o amplo rés-do-chão de um prédio que era pertença da família de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) tinha espaço para tudo.

A partir desse histórico momento, não só o seu aspecto gráfico melhorou como pôde aumentar o número de páginas, que passaram de oito para doze (mantendo a separata com uma construção de armar), e incluir outros melhoramentos, como  a nova rubrica dedicada à colaboração dos leitores (onde se estrearam, pouco depois, dois grandes novelistas, Orlando Marques e Lúcio Cardador), e mais histórias ilustradas pelos melhores artistas ingleses, que não tardaram a cotar-se entre os seus maiores êxitos: “O Voo da Águia” (por Reg Perrott), “Serafim e Malacueco” (por Percy Cocking) e “Pedro de Lemos, Tenente, e o Manel, Dez Reis de Gente” (por Roy Wilson).

mosquito-206-a-786A cor, que até então tinha sido sistematicamente monocromática, diversificou também a sua gama, tornando mais garridas algumas capas, a partir do nº 201, de 17/11/1939. Foi essa a primeira experiência policromática — ainda não totalmente conseguida, como os próprios editores reconhe- ciam no editorial desse número  — realizada por Cardoso Lopes na nova máquina onde era impresso O Mosquito, uma moderna Rollan, importada da Alemanha, que imprimia as páginas do jornal a uma velocidade nunca vista e com uma perfeição que, ultrapassadas as primeiras e notórias deficiências, deu um ar ainda mais atraente ao simpático “insecto” de papel, que se intitulava o “Mosquito” mais bonito de Portugal, do Minho ao Algarve.

A impressão em offset a três cores voltou a engalanar as capas d’O Mosquito nºs 206 (especial de Natal, com uma ilustração da ilustre artista Raquel Roque Gameiro) e 222, de 11/4/1940; neste o cabeçalho também mudou, ostentando um desenho de Cabrero Arnal, criador do famoso Cão Top, em vez da usual figura do “Mosquito” desenhada por Cardoso Lopes. Mas os tempos não estavam para folias e, por isso, a rotina voltou a instalar-se com o regresso das duas cores, na capa e na contracapa, quebrada apenas no nº 318, de 12/2/1942, primeiro de uma nova etapa, com O Mosquito a dar outro gigantesco passo em frente, apesar do formato ter diminuído, intitulando-se agora “formato de guerra”. Mas isso é outra história…

CURIOSIDADES & ANOMALIAS – 3

Mosquito 482 + 482 A

Na mesma ordem centenária (400 ao 499), voltaram a registar-se anomalias na numeração d’O Mosquito, pois encontrámos dois exemplares diferentes com o mesmo número (482), embora as datas estejam correctas.

As ilustrações das capas, pela mão e pelo traço do magnífico ETC (Eduardo Teixeira Coelho), são alusivas à novela “O Rancho do Sol”, da autoria de José Padinha, um novo e bem sucedido colaborador literário d’O Mosquito, que não assinou nenhuma obra com o seu nome, preferindo bizarros pseudónimos como Peter Tenerife, Juan L. Guanche, Gusmão Pó ou Montes de Oca, que caíram no goto dos leitores.

Dada a tiragem sempre crescente, nessa época, do popular bissemanário, admitimos que o número da edição de 9/2/1944 tenha sido emendado nalguns dos exemplares ainda existentes… o que até agora não foi possível confirmar.

Por curiosidade, atente-se nos cabeçalhos destes dois números, em que variam as letras e as imagens do título — com um mosquito peralvilho, de bengala (ou coisa parecida), laçarote e cartola, e um mosquito ardina, de boné, como era vulgar na sua modesta profissão. Que contraste mais flagrante entre o mosquito “pobre”, trabalhador, e o mosquito “rico”, bon vivant! Verdade se diga que este teve vida breve… enquanto que o outro durou uma eternidade!

É de salientar, também, a ausência no primeiro cabeçalho da ficha técnica (que nem sempre aparecia na capa) e do slogan publicitário que era a confirmação do estrondoso êxito d’O Mosquito, “o jornal infantil português de maior tiragem”.

A criatividade e o espírito fantasista de E.T. Coelho, quase sempre ofuscado pela sua mestria no estilo mais “sério”, em que acabaria por se especializar, rechearam de primores como estes os cabeçalhos que desenhou a partir do nº 360. 

CURIOSIDADES & ANOMALIAS – 2

A grande tiragem d’O Mosquito — que nos anos 40, depois de passar a bissemanário, chegou a atingir 30.000 exemplares por número! — impunha a realização de turnos nas oficinas e a utilização de várias chapas de impressão, nas quais, por vezes, os erros (sempre inevitáveis) só eram detectados quando a máquina, a grande impressora Rolland de “offset”, já estava em pleno funcionamento, “carburando” a toda a velocidade (pois imprimia mais de 7.000 cópias por hora!). Eis a sua vetusta imagem, reproduzida do Jornal do Cuto nº 22, de 1 de Dezembro de 1971, com nota à margem de Roussado Pinto.

Máquina Rolland 262

Havia sempre, porém, a possibilidade de emendar esses erros, rasurando as próprias chapas, desde que não fosse demasiado tarde, isto é, antes da máquina acabar a sua tarefa. Alguns dos erros mais insólitos (e que ficaram para memória futura, pois parcialmente já não tinham remédio) dizem respeito à numeração e às datas de certas capas que ainda ostentam os elementos da edição anterior. Como por exemplo, a do nº 407, impressa em muitos exemplares (talvez mais de metade da tiragem) com o nº 406 e com a data respectiva, embora os temas das duas capas sejam muito diferentes.

Verificado o erro por algum impressor mais atento, ou pelo próprio Tiotónio (António Cardoso Lopes), que era quem geralmente manuseava a preparação das chapas, foi ainda possível corrigi-lo num bom número de exemplares, pois já apareceram revistas com a sequência devidamente alterada. E uma delas, reproduzida a seguir neste post, ao lado da sua congénere, faz parte afortunadamente da minha colecção.

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Claro que para os editores d’O Mosquito seria um grande prejuízo se tivessem de destruir todos os exemplares mal numerados. Por isso, acabavam sempre por distribui-los mesmo com essa anomalia, em que muitos leitores, garotos ainda da escola primária, nem sequer reparavam. Aliás, nesses tempos, quantos é que já possuíam o vício de coleccionadores?

O Mosquito era lido num ápice e passava de mão em mão, entre miúdos do mesmo bairro e colegas da mesma escola, indo parar, depois de manuseado por muitos e entusiásticos admiradores do Capitão Meia-Noite, do Cuto e do Serafim e Malacueco, às prateleiras de alguma estante ou a uma caixa guardada num sótão onde o pó e as teias de aranha não tardariam a cobri-la. E na pior das hipóteses ficaria esquecido no chão, arrastado pelo vento e pisado por quem passava. Ou seria vendido ao desbarato, como outros papéis velhos, condenado, depois de tantas aventuras e glórias, ao tristonho destino de embrulhar castanhas assadas (“quentes e boas”), quando chegasse o Inverno!…

Mosquito 406 259Mas como a tiragem era grande, quase desco- munal para um jornal infantil, foram muitos também os exemplares que se salvaram. Mesmo aqueles em que há duas capas diferentes com números e datas iguais (para estabelecer a confusão entre os coleccionadores mal informa- dos). No caso que hoje trazemos à tona a capa do 407 era, como habitualmente, de E. T. Coelho, ilustrando uma cena da novela “Sunyana, o Rebelde”, escrita por Robert Bess (aliás, Roberto Ferreira, novelista que também usava o anagrama de Rofer); mas a do 406, também de E.T. Coelho, dizia respeito ao famoso Capitão Meia-Noite, herói de uma magnífica série desenhada pelo veterano mestre inglês Walter Booth, cuja segunda parte se estreara pouco antes, no nº 403 da revista.

Durante a sua existência, O Mosquito foi vítima de outras anomalias deste género, embora não seja fácil descobrir todos os números em que aconteceram repetições semelhantes (ou se chegaram a ser emendados). Pela nossa parte, a pesquisa continua…

CURIOSIDADES & ANOMALIAS – 1

Mosquito-368 e 369

Entre as muitas curiosidades d’O Mosquito que se registaram durante um longo período de dezassete anos — a algumas poderemos mesmo chamar “anomalias”, pelo seu carácter mais ou menos bizarro —, assinalamos hoje duas capas (ambas alusivas a histórias aos quadradinhos inglesas) em que as datas deviam ter sido alteradas, mas não foram, pois trata-se dos primeiros números publicados em 1943. Distracção dos tipógrafos e do responsável gráfico da revista (apesar da sua larga experiência), o Tiotónio ou António Cardoso Lopes Jr. — e logo em dois números seguidos!

O novo ano só apareceu correctamente inscrito no cabeçalho do nº 370, de 9 de Janeiro desse ano da graça para o mais garrido jornal infantil português do seu tempo, mas de desgraça para a maior parte do mundo (onde lavrava uma guerra sangrenta que causaria ainda muitas vítimas e terrível devastação).

Atente-se mais uma vez na bela capa desse número, da autoria do jovem artista Eduardo Teixeira Coelho ou E.T. Coelho (ou ainda ETC, como gostava de assinar), a quem O Mosquito ficaria a dever alguns dos seus maiores êxitos. E que foi, aliás, o inspirado criador da página anexa de Curiosidades — estas de carácter menos anómalo —, uma rubrica publicada nessa nova fase da revista e muito apreciada pela quase generalidade dos leitores (isto é, pelos miúdos mais espertos e ávidos de saber).

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