ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO: “O ICEBERG” (CONTO DE ORLANDO MARQUES)

Há muito que não publicávamos um conto nesta rubrica. Mas hoje ela regressa, em homenagem a um dos melhores colaboradores literários d’O Mosquito, que se estreou e formou na sua escola: Orlando Jorge Bertoldo Marques. Mais tarde, passou pel’O Pluto, pel’O Faísca, pelo Mundo de Aventuras e pelo Jornal do Cuto, onde deixou também indeléveis marcas do seu prolífico talento de novelista, apreciado por uma larga legião de leitores.

O conto que leram foi originalmente publicado na última fase da Colecção de Aventuras, uma revista “gémea” d’O Mosquito (no seu conteúdo e nos seus formatos), que teve vida breve (1940-1942), e foi ilustrado por Eduardo Teixeira Coelho, então no início da sua carreira, com um estilo muito diferente do que adoptou pouco tempo depois.

As páginas que reproduzimos saíram no Mundo de Aventuras nº 467 (2ª série), de 25/09/1982, onde Orlando Marques publicou também muitos contos inéditos, ilustrados por outros desenhadores. O cabeçalho da página 2 foi desenhado por Catherine Labey.

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AVENTURAS NA SELVA – 3 (E. T. COELHO)

Página publicada n’O Mosquito nº 601, de 28/3/1945

Mais uma história de aventuras na selva, mas esta desenhada por E. T. Coelho e dada à estampa em 1945 n’O Mosquito, entre os nos 601 e 630. Tratou-se, aliás, da primeira incursão de E. T. Coelho nas histórias aos quadradinhos [de estilo realista, pois já antes publicara algumas “tiras” humorísticas no Engenhocas e na Filmagem], um novo passo, que os leitores saudaram com júbilo, de uma carreira já recheada de êxitos.

Como ilustrador, a sua obra é vasta e variada, dispersa por centenas de números d’O Mosquito, desde meados do ano de 1942, mas foi somente em 1944 que se estreou como autor de histórias aos quadradinhos, com dois trabalhos publicados, não em Portugal mas na revista espanhola Chicos, com a qual O Mosquito mantinha um frutuoso intercâmbio, permutando as ilustrações de E. T. Coelho com originais de Emilio Freixas e as aventuras de Cuto e Anita Pequenita desenhadas por Jesús Blasco.

Essas primeiras histórias aos quadradinhos de E. T. Coelho só apareceram n’O Mosquito em 1946, quase um ano depois de “Os Guerreiros do Lago Verde”, obra que seria também publicada em Espanha, na revista mensal Gran Chicos.

No plano formal e artístico, são poucas as diferenças entre essas histórias  uma delas passada também na selva, com o título “El Hechichero de los Matabeles” — “Os Guerreiros do Lago Verde”, o que nos leva a supor que foram todas realizadas no mesmo período, isto é, sem interrupção, desde 1944 até meados de 1945.

Mas já é patente na última o amadurecimento do estilo gráfico de E. T. Coelho e o seu domínio cada vez mais perfeito do desenho anatómico, que lhe permitia criar cenas de grande vigor e realismo, com ferozes combates entre animais selvagens ou entre aguerridas tribos africanas e exploradores brancos, bem ao gosto dos jovens dessa época, que vibravam com os filmes de Tarzan, o rei da selva, mas poucas vezes tinham visto combates semelhantes revividos nas telas de cinema com tamanha emoção.

Página publicada n’O Mosquito nº 602, de 31/3/1945

STRONGHEART, O CÃO PRODÍGIO

Este artigo do nosso prezado colaborador Carlos Gonçalves é oriundo, tal como os que temos publicado noutros blogues, do fanzine brasileiro Q.I. (Quadrinhos Independentes), editado e coordenado por Edgard Guimarães, conceituado especialista, editor e divulgador das histórias aos quadradinhos (ou quadrinhos) no seu país. A ambos, os nossos melhores agradecimentos.

Strongheart, o cão prodígio do cinema, foi uma das grandes séries publicadas n’O Mosquito, onde alcançou sucesso ainda mais duradouro do que n’O Senhor Doutor, embora alguns episódios fossem repetidos. Mas a mudança de nomes baralhou um pouco os leitores, que nunca tiveram a certeza de que o popular herói canino fosse o mesmo em todas as aventuras que apareceram n’O Mosquito

À grande artista Hilda Boswell cabe o privilégio de ter sido a única mulher a dedicar-se às histórias aos quadradinhos de aventuras, nessa época pioneira da BD inglesa. Nenhum leitor deve ter suspeitado que aquele robusto, dinâmico e vigoroso traço que tanto apreciavam era obra de mãos femininas, dado o anonimato que envolvia os colaboradores da Amalgamated Press e de outras editoras do Reino Unido.

Hilda Boswell ombreou talentosamente com os melhores desenhadores do seu tempo, nas revistas juvenis inglesas, além de ter ilustrado vários livros da famosa escritora Enid Blyton. O seu nome não merece cair no esquecimento, assim como o de G.W. Backhouse e de outros artistas ingleses das primeiras décadas do século XX, cujos trabalhos anónimos foram prolíficamente publicados, com grande êxito, n’O Mosquito e noutras revistas portuguesas da mesma época.

E.T. Coelho dedicou três capas ao episódio intitulado “Ao Serviço da Lei”, que se estreou n’O Mosquito nº 353, pouco tempo depois deste magnífico artista se tornar seu colaborador. A capa do nº 360 foi, aliás, a primeira com o traço de E.T. Coelho a aparecer na revista, inaugurando uma das melhores fases do atraente semanário juvenil, prestes a transformar-se em bissemanário e a encetar mais altos voos.

Na citada aventura, Strongheart (Coração Forte) chamava-se Storm (Tempestade), nome decerto inventado pelo tradutor/adaptador das legendas, ou seja, Raul Correia. Aqui ficam as três capas de E. T. Coelho, referentes aos nºs 360, 367 e 394 (1942-1943).   

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 1

Iniciamos hoje, com o maior prazer, a publicação de uma série de artigos assinados por um dos nomes mais prestigiosos da BD portuguesa, cuja longa carreira recheada de êxitos já abarca mais de sete décadas.

José Ruy é, de facto, um caso espantoso de longevidade e amor à arte da ilustração, com obra dispersa por inúmeros jornais, livros, revistas e álbuns. Ainda hoje a sua actividade se espraia por vários domínios, incluindo o de autor memorialista, em homenagem, sobretudo, à época de ouro da BD portuguesa, durante a qual aprofundou os seus conhecimentos e o seu virtuosismo artístico, cimentando as relações profissionais e os laços de amizade com outros nomes ilustres da 9ª Arte portuguesa, como E. T. Coelho, António Cardoso Lopes Jr., Raul Correia, Roussado Pinto, Adolfo Simões Müller e muitos outros.

Um dos seus maiores títulos de glória é, sem dúvida, o de ser presentemente o único autor de BD (ou histórias em quadrinhos) dessa época que se mantém ainda em actividade, com uma produção vasta e assinalável, mesmo nos últimos anos.

A José Ruy, que muito nos honra com esta valiosa colaboração, os melhores agradecimentos d’O Voo do Mosquito, um blogue dedicado à emblemática revista onde colaboraram alguns dos maiores mestres da BD portuguesa e onde José Ruy foi também presença marcante, como minuciosamente nos elucida, com a sua prodigiosa memória, nestes primeiros artigos, enriquecidos também com algumas imagens inéditas.

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (1)

Por José Ruy

No início da década de 1950, partilhava um atelier com o Eduardo Teixeira Coelho, na Calçada do Sacramento, ao Carmo, em Lisboa. Por essa altura, colaborámos na exposição de Histórias em Quadrinhos, no Palácio da Independência, a primeira feita em Portugal, e eu esboçara uma prancha, como exemplo do desenrolar do processo de trabalho, para estar exposta [que mostramos a seguir].

Repare-se que as primeiras vinhetas estão ainda em esboço, enquanto a última tem já o acabamento a tinta-da-china. A razão disso é para evitar arrastar o lápis, com a mão, sobre as vinhetas inferiores, enquanto trabalho as de cima. Costumo começar o desenho por baixo, da direita para a esquerda, e quando este está coberto a Nankim (tinta da china), sigo para os outros, da última vinheta para a primeira.

Em cada vinheta, esboço ligeiramente a lápis as figuras nas posições que pretendo, e depois utilizo o modelo vivo. Na vinheta 5, só uma das personagens já está desenhada em definitivo. Esta história ficara sem seguimento, pois tratava-se apenas de um exemplo para a exposição.

Mas o tema era o da minha preferência, os animais, e o melhor ambiente para os localizar tinha naturalmente de ser o continente africano. Comecei a desenvolvê-la, com a intenção de a publicar n’«O Mosquito».

Dei-lhe o título de «O Reino Proibido», e a trama do argumento andava à volta de uma tribo da região de África que se opunha à passagem de um caçador pelo seu território, criando uma série de problemas.

Surgira entretanto, havia pouco tempo, a revista «Cavaleiro Andante» e o Coelho, que tinha entre mãos uns trabalhos de publicidade e fizera uma interrupção na colaboração n’«O Mosquito», aconselhou-me a tentar antes publicar a história nessa nova revista, pois como pertencia ao «Diário de Notícias» pagavam melhor a colaboração. Além disso, no «Cavaleiro Andante» fora publicado um pedido da Direcção para que jovens autores levassem histórias desenhadas, de modo a poderem ser publicadas.

Hesitei, mas ele encorajou-me em face do nível já alcançado. Enrolei três pranchas e levei-as à redacção do «Cavaleiro Andante», que era no próprio edifício do «Diário de Notícias», e deixei-as à secretária do Adolfo Simões Müller, o director, para apreciação.

Passadas duas semanas, como não recebesse resposta, resolvi lá voltar, pois pensei que podiam ter perdido o meu contacto. Reparei que o rolo estava no mesmo sítio em que o deixara. Achei estranho que em duas semanas não tivessem a curiosidade de ver o que eu levara. Delicadamente, disse que pretendia acrescentar algo nos originais e se podia levá-los, o que me pareceu ser um «alívio» para a secretária. Trouxe comigo a história, sem vontade de lá voltar.

Também o E.T. Coelho achou estranho esse desinteresse e o destino da história foi mesmo «O Mosquito» [a partir do nº 1335, de 9 de Abril de 1952].

Página de «O Reino Proibido» publicada n’«O Mosquito» nº 1336, de 12/4/1952.

O Raul Correia [director d’«O Mosquito»] ficou satisfeito e, além dessa narrativa ilustrada, fiquei também a fazer capas sobre outras histórias que o jornal publicava, de origem estrangeira. O Coelho nessa altura, como referi, estava ocupado a fazer publicidade, capas de livros e desenhos para o jornal «O Século». Deixara um vazio no velho «O Mosquito» [depois da publicação de «Os Doze de Inglaterra]. O meu papel foi, modestamente, preencher essa lacuna com as minhas parcas possibilidades.

Algumas capas de José Ruy, com destaque para a história «O Reino Proibido». O cabeçalho d’«O Mosquito» também foi desenhado por ele.

SECÇÃO DOS SÁBIOS – 3

Eis mais duas páginas de curiosidades d’O Mosquito dos anos 1944-45, com primorosos desenhos de Eduardo Teixeira Coelho (ETC) e textos de Raul Correia — reproduzidas no Jornal do Cuto nºs 9 e 14 (Setembro/Outubro 1971) —, em que o tema escolhido foram os deuses e heróis da Mitologia Grega.

Uma forma amena, instrutiva e, ao mesmo tempo, divertida — bem ao jeito de E.T. Coelho e Raul Correia —, de levar a História antiga e alguns dos seus mitos ao conhecimento dos jovens leitores d’O Mosquito. Mas convém sublinhar que essas páginas não teriam o mesmo efeito se fossem da autoria de outro desenhador, pois o talento artístico de ETC não estava ao alcance de todos os seus colegas.

O NATAL NA ARTE DE E.T. COELHO

Mais uma ilustração de Eduardo Teixeira Coelho, no seu estilo de clássica beleza, publicada num número especial d’O Mosquito, como alegoria natalícia de um versículo do Novo Testamento — e de um poema do seu director Raul Correia, cuja personalidade lírica se confundiu sempre com a do mítico Avozinho, o poeta de “alma triste e coração feliz”, idolatrado por muitos jovens que liam avidamente “o melhor jornal para rapazes de todos os tempos” (ou, pelo menos, dos anos 30 e 40 do século XX).

“DOM AFONSO HENRIQUES NA BANDA DESENHADA” – GICAV REALIZA EXPOSIÇÃO EM VISEU E PUBLICA ÁLBUM COM HISTÓRIA DE E. T. COELHO

Conforme notícia que atempadamente divulgámos, abriu ao público no passado dia 27 de Agosto, em pleno Pavilhão Multiusos da Feira de São Mateus, a exposição intitulada “Dom Afonso Henriques na Banda Desenhada” — uma organização do GICAV (Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu), com o apoio da Câmara Municipal daquela cidade, da Viseu Marca e do IPDJ (Instituto Português do Desporto e Juventude).

Os nossos colegas do BDBD, Luiz Beira e Carlos Rico, estiveram lá aquando da inauguração e fizeram uma reportagem fotográfica deste evento, que pode ser vista no seu blogue: http://bloguedebd.blogspot.pt/2017/09/d-afonso-henriques-na-bd-reportagem.html

Antes da abertura da exposição no Pavilhão Multiusos — segundo informa o BDBD —, teve lugar, mesmo ao lado, num pequeno mas acolhedor auditório, o lançamento oficial do álbum “D. Afonso Henriques – A Balada da Conquista de Lisboa”, narrativa extraída da obra “O Caminho do Oriente”, publicada n’O Mosquito de 1946 a 1948, com texto de Raul Correia e desenhos de Eduardo Teixeira Coelho, cuja capa gostosamente reproduzimos, com a devida vénia ao BDBD e ao GICAV.

A sessão teve início com um curto mas interessante vídeo, onde o numeroso público presente visionou imagens virtuais da nova Arena de Viseu, um magnífico espaço completamente apetrechado para receber eventos culturais e desportivos, que em breve (crê-se que dentro de um ano) tomará o lugar do Pavilhão Multiusos. A cerimónia teve a participação do Director Executivo da Viseu Marca, Dr. Jorge Sobrado, da Presidente do GICAV, Drª. Filipa Mendes, e de Carlos Almeida, coordenador do GICAV na área da BD.

Após o lançamento do álbum, seguiu-se a inauguração oficial da exposição, um conjunto de vinte painéis em grande formato, com exemplos de praticamente todas as BD’s onde a figura de D. Afonso Henriques, o Conquistador, foi retratada por desenhadores de várias gerações, entre os quais, além de E. T. Coelho, Artur Correia, Baptista Mendes, Carlos Alberto, Carlos Rico, Eugénio Silva, Filipe Abranches, Jorge Miguel, José Antunes, José Garcês, José Projecto, José Ruy, Pedro Castro, Pedro Massano, Santos Costa e Vítor Péon.

Vista parcial da exposição, com o painel dedicado a E.T. Coelho em grande plano, à direita, e ao lado o de José Antunes; também em 1º plano, de costas, o desenhador Baptista Mendes, outro autor com participação nesta grandiosa mostra (foto do BDBD).