MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 3

Depois da interrupção forçada da publicação desta história [«O Reino Proibido»] em O Mosquito, como contei nos artigos anteriores, entreguei em mão ao Raul Correia as duas últimas pranchas, que ele fez publicar a partir da semana seguinte. Mas algo se modificara no jornal.

Raul Correia tinha decidido alterar mais uma vez o formato, desdobrando a folha de máquina e, desta maneira, ficando com metade das páginas, pois o formato de cada uma, agora, ocupava duas das anteriores.

Como eu sempre fiz os originais ao dobro, ou seja, quatro vezes o tamanho da publicação, para o novo formato ainda reduziu um pouco.

As duas últimas páginas de «O Reino Proibido», publicadas n’O Mosquito nºs 1385 e 1386

Como este final da narrativa saiu nas páginas do interior do jornal, não levaram cor. O rapaz que me servia de modelo para essa história era um conhecido do Coelho, que pertencia a uma corporação de bombeiros. À noite, ia ao nosso ateliê, na Calçada do Sacramento, para posar.

Mostro, a seguir, alguns estudos para as figuras da última página.

Capa d’O Mosquito, no novo formato 30x22cm, onde terminou «O Reino Proibido» (nº 1386)

O Eduardo Teixeira Coelho voltara a colaborar nas páginas do jornal, com uma das suas melhores fases, ilustrando os contos de Eça de Queirós. Dois números a seguir a este, no 1388, iniciou ele o «São Cristóvão», que ficaria incompleto pela interrupção da publicação, ao fim de dezassete anos de vida, não conseguindo resistir à poderosa concorrência do Cavaleiro Andante e do Mundo de Aventuras. Faltou-lhe o «dedo mágico» do Tiotónio para reverter a situação, mas este encontrava-se no Brasil, em outras actividades.

A minha, além da paixão pela ilustração, era a arte gráfica, e foi por essa via que fui convidado a ingressar na equipa da «rotogravura» (gravura em cobre) do conceituado Diário de Notícias.

Estava em projecto um semanário de actualidades, que se chamaria Esfera, dirigido pelo Leitão de Barros. O Coelho seria o colaborador artístico principal e eu teria a função de paginar, desenhar cabeçalhos e algumas ilustrações; e como faltavam técnicos disponíveis para o processo de «rotogravura», acharam que a minha experiência no «offset» daria para me adaptar na montagem e retoque dos positivos fotográficos.

Assim foi e contrataram-me logo nessa altura, para quando a revista saísse estar logo operacional. Afinal, a revista não chegou a publicar-se, pois era necessária uma rotativa de «rotogravura» só para essa publicação e a administração da empresa tentava resolver a questão só com uma máquina de impressão «Mailander», à folha, onde imprimiam parte do Cavaleiro Andante, e que pela sua lentidão não garantia a cadência necessária. Foi o próprio Leitão de Barros quem os alertou e rescindiu o contrato.

E eu fiquei durante seis anos, acabando por me especializar no processo. Mas continuava a fazer histórias em quadrinhos.

No próximo artigo: «A minha primeira história no Cavaleiro Andante»

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PÁGINAS DE ANTOLOGIA: “LEVEM-ME NESSE SONHO” (TEXTO E DESENHOS DE JOSÉ RUY)

Nas páginas verdadeiramente antológicas que hoje vos apresentamos — extraídas de um dos melhores álbuns de Mestre José Ruy, “Levem-me Nesse Sonho” (“História da Cidade da Amadora em Banda Desenhada”, 1992, Edições ASA) —, são evocadas algumas das maiores figuras da BD portuguesa, como Zé Pacóvio e Grilinho, criadas por António Cardoso Lopes Júnior, o Tiotónio de mítica memória, colaborador de revistas como o ABCzinho, o Senhor Doutor, o Tic-Tac e O Mosquito, tendo nesta última (que fundou em 1936, juntamente com Raul Correia) assumido também o cargo de director artístico.

A par d’O Mosquito e do Tiotónio, desfilam neste álbum outras famosas revistas de BD e outros autores ligados ao património histórico da BD portuguesa, como Rafael Bordalo Pinheiro, E.T. Coelho e Mariana Cardoso Lopes, a carismática Tia Nita, directora d’A Formiga, suplemento feminino d’O Mosquito, que fez as delícias das raparigas e dos rapazes dessa época.

Por outras palavras, neste álbum, além da história da cidade da Amadora (antiga Porcalhota), perpassam também alguns dos vultos heróicos de uma época pioneira que deu às histórias aos quadradinhos os seus primeiros títulos de nobreza. Um álbum que nasceu dos sonhos de Mestre José Ruy — que também é um dos grandes pioneiros da BD portuguesa —, os sonhos com que ele homenageou, de forma inspirada, a cidade onde nasceu, reside e trabalha, e a Arte a que dedicou grande parte da sua vida, os sonhos que ainda hoje continuam a alimentar a sua fecunda carreira artística, o seu espírito criativo, a sua inesgotável imaginação.

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO: “O ICEBERG” (CONTO DE ORLANDO MARQUES)

Há muito que não publicávamos um conto nesta rubrica. Mas hoje ela regressa, em homenagem a um dos melhores colaboradores literários d’O Mosquito, que se estreou e formou na sua escola: Orlando Jorge Bertoldo Marques. Mais tarde, passou pel’O Pluto, pel’O Faísca, pelo Mundo de Aventuras e pelo Jornal do Cuto, onde deixou também indeléveis marcas do seu prolífico talento de novelista, apreciado por uma larga legião de leitores.

O conto que leram foi originalmente publicado na última fase da Colecção de Aventuras, uma revista “gémea” d’O Mosquito (no seu conteúdo e nos seus formatos), que teve vida breve (1940-1942), e foi ilustrado por Eduardo Teixeira Coelho, então no início da sua carreira, com um estilo muito diferente do que adoptou pouco tempo depois.

As páginas que reproduzimos saíram no Mundo de Aventuras nº 467 (2ª série), de 25/09/1982, onde Orlando Marques publicou também muitos contos inéditos, ilustrados por outros desenhadores. O cabeçalho da página 2 foi desenhado por Catherine Labey.

AVENTURAS NA SELVA – 3 (E. T. COELHO)

Página publicada n’O Mosquito nº 601, de 28/3/1945

Mais uma história de aventuras na selva, mas esta desenhada por E. T. Coelho e dada à estampa em 1945 n’O Mosquito, entre os nos 601 e 630. Tratou-se, aliás, da primeira incursão de E. T. Coelho nas histórias aos quadradinhos [de estilo realista, pois já antes publicara algumas “tiras” humorísticas no Engenhocas e na Filmagem], um novo passo, que os leitores saudaram com júbilo, de uma carreira já recheada de êxitos.

Como ilustrador, a sua obra é vasta e variada, dispersa por centenas de números d’O Mosquito, desde meados do ano de 1942, mas foi somente em 1944 que se estreou como autor de histórias aos quadradinhos, com dois trabalhos publicados, não em Portugal mas na revista espanhola Chicos, com a qual O Mosquito mantinha um frutuoso intercâmbio, permutando as ilustrações de E. T. Coelho com originais de Emilio Freixas e as aventuras de Cuto e Anita Pequenita desenhadas por Jesús Blasco.

Essas primeiras histórias aos quadradinhos de E. T. Coelho só apareceram n’O Mosquito em 1946, quase um ano depois de “Os Guerreiros do Lago Verde”, obra que seria também publicada em Espanha, na revista mensal Gran Chicos.

No plano formal e artístico, são poucas as diferenças entre essas histórias  uma delas passada também na selva, com o título “El Hechichero de los Matabeles” — “Os Guerreiros do Lago Verde”, o que nos leva a supor que foram todas realizadas no mesmo período, isto é, sem interrupção, desde 1944 até meados de 1945.

Mas já é patente na última o amadurecimento do estilo gráfico de E. T. Coelho e o seu domínio cada vez mais perfeito do desenho anatómico, que lhe permitia criar cenas de grande vigor e realismo, com ferozes combates entre animais selvagens ou entre aguerridas tribos africanas e exploradores brancos, bem ao gosto dos jovens dessa época, que vibravam com os filmes de Tarzan, o rei da selva, mas poucas vezes tinham visto combates semelhantes revividos nas telas de cinema com tamanha emoção.

Página publicada n’O Mosquito nº 602, de 31/3/1945

STRONGHEART, O CÃO PRODÍGIO

Este artigo do nosso prezado colaborador Carlos Gonçalves é oriundo, tal como os que temos publicado noutros blogues, do fanzine brasileiro Q.I. (Quadrinhos Independentes), editado e coordenado por Edgard Guimarães, conceituado especialista, editor e divulgador das histórias aos quadradinhos (ou quadrinhos) no seu país. A ambos, os nossos melhores agradecimentos.

Strongheart, o cão prodígio do cinema, foi uma das grandes séries publicadas n’O Mosquito, onde alcançou sucesso ainda mais duradouro do que n’O Senhor Doutor, embora alguns episódios fossem repetidos. Mas a mudança de nomes baralhou um pouco os leitores, que nunca tiveram a certeza de que o popular herói canino fosse o mesmo em todas as aventuras que apareceram n’O Mosquito

À grande artista Hilda Boswell cabe o privilégio de ter sido a única mulher a dedicar-se às histórias aos quadradinhos de aventuras, nessa época pioneira da BD inglesa. Nenhum leitor deve ter suspeitado que aquele robusto, dinâmico e vigoroso traço que tanto apreciavam era obra de mãos femininas, dado o anonimato que envolvia os colaboradores da Amalgamated Press e de outras editoras do Reino Unido.

Hilda Boswell ombreou talentosamente com os melhores desenhadores do seu tempo, nas revistas juvenis inglesas, além de ter ilustrado vários livros da famosa escritora Enid Blyton. O seu nome não merece cair no esquecimento, assim como o de G.W. Backhouse e de outros artistas ingleses das primeiras décadas do século XX, cujos trabalhos anónimos foram prolíficamente publicados, com grande êxito, n’O Mosquito e noutras revistas portuguesas da mesma época.

E.T. Coelho dedicou três capas ao episódio intitulado “Ao Serviço da Lei”, que se estreou n’O Mosquito nº 353, pouco tempo depois deste magnífico artista se tornar seu colaborador. A capa do nº 360 foi, aliás, a primeira com o traço de E.T. Coelho a aparecer na revista, inaugurando uma das melhores fases do atraente semanário juvenil, prestes a transformar-se em bissemanário e a encetar mais altos voos.

Na citada aventura, Strongheart (Coração Forte) chamava-se Storm (Tempestade), nome decerto inventado pelo tradutor/adaptador das legendas, ou seja, Raul Correia. Aqui ficam as três capas de E. T. Coelho, referentes aos nºs 360, 367 e 394 (1942-1943).   

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 1

Iniciamos hoje, com o maior prazer, a publicação de uma série de artigos assinados por um dos nomes mais prestigiosos da BD portuguesa, cuja longa carreira recheada de êxitos já abarca mais de sete décadas.

José Ruy é, de facto, um caso espantoso de longevidade e amor à arte da ilustração, com obra dispersa por inúmeros jornais, livros, revistas e álbuns. Ainda hoje a sua actividade se espraia por vários domínios, incluindo o de autor memorialista, em homenagem, sobretudo, à época de ouro da BD portuguesa, durante a qual aprofundou os seus conhecimentos e o seu virtuosismo artístico, cimentando as relações profissionais e os laços de amizade com outros nomes ilustres da 9ª Arte portuguesa, como E. T. Coelho, António Cardoso Lopes Jr., Raul Correia, Roussado Pinto, Adolfo Simões Müller e muitos outros.

Um dos seus maiores títulos de glória é, sem dúvida, o de ser presentemente o único autor de BD (ou histórias em quadrinhos) dessa época que se mantém ainda em actividade, com uma produção vasta e assinalável, mesmo nos últimos anos.

A José Ruy, que muito nos honra com esta valiosa colaboração, os melhores agradecimentos d’O Voo do Mosquito, um blogue dedicado à emblemática revista onde colaboraram alguns dos maiores mestres da BD portuguesa e onde José Ruy foi também presença marcante, como minuciosamente nos elucida, com a sua prodigiosa memória, nestes primeiros artigos, enriquecidos também com algumas imagens inéditas.

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (1)

Por José Ruy

No início da década de 1950, partilhava um atelier com o Eduardo Teixeira Coelho, na Calçada do Sacramento, ao Carmo, em Lisboa. Por essa altura, colaborámos na exposição de Histórias em Quadrinhos, no Palácio da Independência, a primeira feita em Portugal, e eu esboçara uma prancha, como exemplo do desenrolar do processo de trabalho, para estar exposta [que mostramos a seguir].

Repare-se que as primeiras vinhetas estão ainda em esboço, enquanto a última tem já o acabamento a tinta-da-china. A razão disso é para evitar arrastar o lápis, com a mão, sobre as vinhetas inferiores, enquanto trabalho as de cima. Costumo começar o desenho por baixo, da direita para a esquerda, e quando este está coberto a Nankim (tinta da china), sigo para os outros, da última vinheta para a primeira.

Em cada vinheta, esboço ligeiramente a lápis as figuras nas posições que pretendo, e depois utilizo o modelo vivo. Na vinheta 5, só uma das personagens já está desenhada em definitivo. Esta história ficara sem seguimento, pois tratava-se apenas de um exemplo para a exposição.

Mas o tema era o da minha preferência, os animais, e o melhor ambiente para os localizar tinha naturalmente de ser o continente africano. Comecei a desenvolvê-la, com a intenção de a publicar n’«O Mosquito».

Dei-lhe o título de «O Reino Proibido», e a trama do argumento andava à volta de uma tribo da região de África que se opunha à passagem de um caçador pelo seu território, criando uma série de problemas.

Surgira entretanto, havia pouco tempo, a revista «Cavaleiro Andante» e o Coelho, que tinha entre mãos uns trabalhos de publicidade e fizera uma interrupção na colaboração n’«O Mosquito», aconselhou-me a tentar antes publicar a história nessa nova revista, pois como pertencia ao «Diário de Notícias» pagavam melhor a colaboração. Além disso, no «Cavaleiro Andante» fora publicado um pedido da Direcção para que jovens autores levassem histórias desenhadas, de modo a poderem ser publicadas.

Hesitei, mas ele encorajou-me em face do nível já alcançado. Enrolei três pranchas e levei-as à redacção do «Cavaleiro Andante», que era no próprio edifício do «Diário de Notícias», e deixei-as à secretária do Adolfo Simões Müller, o director, para apreciação.

Passadas duas semanas, como não recebesse resposta, resolvi lá voltar, pois pensei que podiam ter perdido o meu contacto. Reparei que o rolo estava no mesmo sítio em que o deixara. Achei estranho que em duas semanas não tivessem a curiosidade de ver o que eu levara. Delicadamente, disse que pretendia acrescentar algo nos originais e se podia levá-los, o que me pareceu ser um «alívio» para a secretária. Trouxe comigo a história, sem vontade de lá voltar.

Também o E.T. Coelho achou estranho esse desinteresse e o destino da história foi mesmo «O Mosquito» [a partir do nº 1335, de 9 de Abril de 1952].

Página de «O Reino Proibido» publicada n’«O Mosquito» nº 1336, de 12/4/1952.

O Raul Correia [director d’«O Mosquito»] ficou satisfeito e, além dessa narrativa ilustrada, fiquei também a fazer capas sobre outras histórias que o jornal publicava, de origem estrangeira. O Coelho nessa altura, como referi, estava ocupado a fazer publicidade, capas de livros e desenhos para o jornal «O Século». Deixara um vazio no velho «O Mosquito» [depois da publicação de «Os Doze de Inglaterra]. O meu papel foi, modestamente, preencher essa lacuna com as minhas parcas possibilidades.

Algumas capas de José Ruy, com destaque para a história «O Reino Proibido». O cabeçalho d’«O Mosquito» também foi desenhado por ele.

SECÇÃO DOS SÁBIOS – 3

Eis mais duas páginas de curiosidades d’O Mosquito dos anos 1944-45, com primorosos desenhos de Eduardo Teixeira Coelho (ETC) e textos de Raul Correia — reproduzidas no Jornal do Cuto nºs 9 e 14 (Setembro/Outubro 1971) —, em que o tema escolhido foram os deuses e heróis da Mitologia Grega.

Uma forma amena, instrutiva e, ao mesmo tempo, divertida — bem ao jeito de E.T. Coelho e Raul Correia —, de levar a História antiga e alguns dos seus mitos ao conhecimento dos jovens leitores d’O Mosquito. Mas convém sublinhar que essas páginas não teriam o mesmo efeito se fossem da autoria de outro desenhador, pois o talento artístico de ETC não estava ao alcance de todos os seus colegas.