TOM BROWNE E PERCY COCKING, REIS DO HUMOR NA BD BRITÂNICA DOS SÉCULOS XIX E XX – 1

Como anunciado há pouco tempo, aqui têm o artigo de Roussado Pinto dedicado a Tom Browne, artista inglês hoje quase esquecido que foi o criador da série Weary Willie and Tired Tim — celebrizada em Portugal, sobretudo entre os leitores d’O Mosquito, pelo carismático nome de Serafim e Malacueco com que a baptizou Raul Correia, tradutor e adaptador, no mais livre sentido do termo, das suas mirabolantes peripécias.

É óbvio que Roussado Pinto nutria também especial afeição por estes dois burlescos personagens, vagabundos sem eira nem beira que davam tratos à imaginação para viver à custa dos outros, pois ressuscitou-os no Jornal do Cuto, em episódios extraídos d’O Mosquito, e no Valente, uma das primeiras revistas que editou, ainda nos anos 1950, com páginas originais em que luzia o traço de Percy Cocking, um dos sucessores de Tom Browne. Cocking trabalhou na série (e na sombra) durante mais de 40 anos, dando-lhe um inconfundível cunho histriónico e elevando-a aos píncaros da fama. São da sua autoria todas as histórias apresentadas n’O Mosquito e na Colecção de Aventuras, até à década de 1950.

O artigo de Roussado Pinto, em que pela primeira vez os leitores portugueses viram em letras gordas o nome de Tom Browne (embora, por lapso, mal grafado no texto), foi publicado no Jornal do Cuto #18, de 3/11/1971, e é o primeiro que respigamos de uma rubrica recheada de interesse, onde Roussado Pinto publicou vários artigos sobre personagens e autores famosos da recém consagrada 9ª Arte, tanto portu- gueses (Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, Carlos Alberto Santos, António Cardoso Lopes, José Garcês, Stuart Carvalhais), como estrangeiros, a começar por Jesús Blasco. Foi também Roussado Pinto, com a sua insaciável curiosidade, o primeiro, como já referimos, a levantar o véu (no nosso país) sobre o criador da mais popular série humorística inglesa da primeira metade do século XX — que surgiu no Mosquito #209 (Janeiro de 1940) e noutros números, transitando depois, com retumbante êxito, para a Colecção de Aventuras, lançada nesse mesmo ano pelas Edições O Mosquito, onde permaneceu até ao final da primeira fase (de figurino idêntico ao d’O Mosquito), muitas vezes com honras de capa. Mas o seu regresso à origem não se fez esperar, pois já se tornara a predilecta da juventude portuguesa e até do seu tradutor.

Brevemente apresentaremos outro artigo sobre esta emblemática série inglesa, publicado no Mundo de Aventuras, em 1979, com a assinatura de Leonardo (Leonardo De Sá), então um jovem e promissor articulista cujos conhecimentos sobre os obscuros primórdios da narração figurativa já chamavam a atenção de muitos bedéfilos.

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SERAFIM & MALACUECO – A MAIS FAMOSA SÉRIE CÓMICA PUBLICADA N’O MOSQUITO

Texto de Luiz Beira, publicado originalmente no blogue BDBD, de onde o reproduzimos com a amável autorização deste nosso colega e amigo. 

A primeira prancha de “Weary Willie and Tired Tim”, publicada na revista “Ilustrated Chips” #298 (16.05.1896)

Esta dupla popular e irresistível viu a luz do dia a 16 de Maio de 1896, na publicação inglesa “Illustrated Chips”. Seu autor: Tom Browne (1870-1910). Na sua versão original, chamavam-se Weary Willie (o esticadinho Serafim) e Tired Tim (o gorducho Malacueco). As suas astutas e/ou aparatosas aventuras foram sempre publicadas com honra de primeira página, pormenor que aconteceu também quando publicadas em Portugal, pela primeira vez, na revista “O Mosquito” #209, de 11 de Janeiro de 1940.

No nosso país, “Serafim e Malaqueco” foram também publicados na “Colecção de Aventuras” (1940/42) [de onde respigaremos brevemente alguns episódios]; em vários números de “O Mosquito”, regressando, após longa ausência, na sua última etapa (1952/53); na revista “Valente” (meados dos anos 50); e nos anos setenta [sob a curiosa epígrafe “TV Serafim & Malacueco Show”] no “Jornal do Cuto” (que recuperou histórias anteriormente publicadas n’ “O Mosquito”).

A série, que divertia uma multidão de bedéfilos em vários países, terminou a 12 de Setembro de 1953. Tom Browne desenhou-a de 1896 a 1900, sendo prosseguida por Arthur Jenner e depois por Percy Cocking. Por volta de 1903, a série conheceu algumas adaptações ao Cinema, em curtas metragens, com realização de William Haggar, que usou dois dos seus filhos como protagonistas: James Haggar (Tired Tim) e Walter Haggar (Weary Willie).

Esta dupla é a de dois vagabundos que tudo fazem para viver bem, graças à sua esperteza… nem sempre triunfante. De certo modo, foram inspirados em Don QuixoteSancho Panza. Mesmo assim, estes dois “heróis” inspiraram muitas parcerias semelhantes, tanto na BD como no Cinema, como foi o caso de Oliver Hardy (Bucha) e Stan Laurel (Estica). Ainda hoje, com carinho e nostalgia, se relêem com muito agrado as suas tão divertidas tropelias.

“Weary Willie and Tired Tim”, in “Ilustrated Chips” #2813 (05.07.1947)

“Serafim e Malacueco”, in “O Mosquito” #1125 (Abril 1950)

“Serafim e Malacueco”, in “O Mosquito” #1149 (Junho 1950)

“Serafim e Malacueco”, in “O Mosquito” #1150 (Julho 1950)

A popularidade destes personagens no nosso país acabou por torná-los alvo de alguns pastiches por parte de consagrados autores portugueses, que, dessa forma, homenagearam as suas divertidas aventuras. Tais foram os casos de José Abrantes e Jorge Magalhães, que publicaram no “Almanaque O Mosquito”, em 1987, uma aventura em quatro pranchas (que foi, vinte anos mais tarde, reeditada no #7 dos “Cadernos Moura BD”)…
“O Regresso de Serafim e Malacueco”, por Jorge Magalhães (texto)
e José Abrantes (desenhos), in “Almanaque O Mosquito” (1987)
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… e de Eugénio Silva que realizou em 2015, para o fanzine de Geraldes Lino “Efeméride” #6 (parte 3 de 4), uma divertida prancha humorística (algo pouco usual neste autor).
(Nota: foram acrescentadas duas imagens a este post. Em breve publicaremos um artigo de Roussado Pinto dedicado, também, à impagável criação de Tom Browne)
 

OS REIS DO RISO D’O MOSQUITO – 4

 A exuberante fantasia de Arturo Moreno

morenoComo tínhamos prometido, num post recente, também dedicado a Arturo Moreno, eis uma primeira selecção dos seus trabalhos humorísticos publicados n’O Mosquito (anos de 1936 e 1937). Seguindo as pisadas de Cabrero Arnal, outro consagrado autor espanhol, Moreno especializou-se nas historietas com gags de uma página, mas ao mesmo tempo lançou-se em projectos mais ambiciosos, alardeando a sua criatividade numa inolvidável criação — as  trepidantes aventuras de três heróis fora do comum, que logo caíram no goto dos jovens portugueses e espanhóis: Mick, Mock e Muck, pitoresco trio formado por um velho marinheiro, um grumete e o seu cão, que corriam mundo vivendo as mais audaciosas e rocambolescas peripécias.

mosquito-62Na memória dos leitores d’O Mosquito ficou também um histriónico personagem chamado D. Triquetraque, cujos pacatos hábitos citadinos (nem sempre isentos de emoções, como demonstra a página anexa) sofreram uma brusca reviravolta ao tornar-se um intrépido explorador das selvas africanas e de outras exóticas paragens. A aventura, condimentada com um humor satírico e um traço caricatural cheio de expressividade e fantasia, estava sempre presente nas criações de maior fôlego de Arturo Moreno, como Mick, Mock e Muck, Ponto Negro e Garbancito de la Mancha, o primeiro filme de animação totalmente produzido e realizado em Espanha, coroa de glória de uma nova arte europeia que procurava competir, embora mais modestamente, com a “fábrica de maravilhas” de Walt Disney.

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OS REIS DO RISO D’O MOSQUITO – 3

FOSQUINHAS (2) – por ILBERINO DOS SANTOS

Aqui têm mais peripécias do Fosquinhas, o sujeito mais distraído e mais patusco do mundo, nascido da imaginação “delirante” e do traço linear, mas efusivo, de Ilberino dos Santos, que foi colaborador d’O Mosquito apenas durante breves períodos.

Mas tanto bastou para se destacar entre outros mestres da BD humorística, não só pela graciosidade do estilo como pela eficácia da linguagem icónica, em páginas que dispensavam formalmente o texto. 

As histórias apresentadas neste post e no anterior (ver aqui) são de 1946 e 1947.

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Mosquito - Fosquinhas 3

OS REIS DO RISO D’O MOSQUITO – 2

D. TALINHAS E FOSQUINHAS por Ilberino dos Santos

Eis as últimas facécias de D. Talinhas publicadas n’O Mosquito, em 1951, com legendas em verso de Raul Correia. A série durou apenas dez números, mas essa aparição fugaz trouxe à memória dos leitores outra espirituosa criação de Ilberino dos Santos, publicada anos antes n’O Mosquito, com um herói não menos patusco e estarola: o Fosquinhas.

Colaborador de revistas como ABC-zinho, O Senhor Doutor, O Papagaio, Rim-Tim-Tim e Século Ilustrado, este talentoso e original humorista distinguiu-se pela graça espontânea dos seus personagens e pela simplicidade linear (e lírica) do seu traço.

Para ler mais façanhas de D. Talinhas clicar aqui.

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Mosquito 1209 e 1210

Divirtam-se também com as primeiras e estapafúrdias peripécias do Fosquinhas, que no capítulo das distracções (e invenções) era um digno rival de D. Talinhas.

Fosquinhas 1

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OS REIS DO RISO D’O MOSQUITO – 1

D. TALINHASpor Ilberino dos Santos

Em finais de 1950, ao inaugurar no nº 1201 uma nova fase, de formato mais pequeno, idêntico ao que já tivera anos antes, O Mosquito dedicou algumas das suas primeiras páginas a um patusco personagem com o nome de D. Talinhas, cujas aventuras e desventuras, idealizadas por Ilberino dos Santos e comentadas espirituosamente, em versos de “pé quebrado”, por Raul Correia, divertiram durante alguns números uma legião, ainda numerosa, de leitores fiéis.

D. Talinhas era o vivo retrato do homenzinho engenhoso mas “estarola”, que acabava sempre por se meter em trapalhadas, fazendo jus ao ditado “por bem fazer mal haver”… as mais das vezes por culpa do azar, mas também por culpa das suas distracções. Sem dúvida que D. Talinhas, como muitos outros personagens do seu tipo, não era o que se chama um modelo de perfeição. Mas os leitores gostaram dele!

Aqui têm uma primeira amostra do traço simples, mas sugestivo, e do humor picaresco de Ilberino dos Santos. Voltaremos, em breve, nesta nova rubrica, a apresentar mais aventuras de D. Talinhas, o rei dos “estarolas”.

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