SECÇÃO DOS SÁBIOS – 1

No seu nº 5, de 4/8/1971, o Jornal do Cuto começou a apresentar uma curiosa rubrica intitulada Secção dos Sábios — que era, como muitas das histórias que ilustravam as suas páginas, oriunda também d’O Mosquito, o mítico jornal infanto-juvenil a que Roussado Pinto, director/editor do Jornal do Cuto, ficara também ligado por laços profissionais (pois trabalhou na sua redacção em 1947/48), e de profunda amizade e camaradagem com os seus dois directores e fundadores: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) e Raul Correia.

seccao-dos-sabios-mosquito-361-491O que distinguia a Secção dos Sábios de outras rubricas de curiosidades eram os magníficos desenhos de E.T. Coelho, um jovem artista fora de série que começara a colaborar n’O Mosquito (e na Colecção de Aventuras) em meados de 1942, não tardando a renovar por completo o aspecto gráfico do jornal com as suas exuberantes ilustrações para cabeçalhos, capas, contos e vinhetas decorativas de toda a espécie.

Graças ao contributo deste valioso elemento, cujo estilo dinâmico e harmonioso nunca parou de evoluir, atingindo em pouco tempo um grau de inaudita perfeição, O Mosquito transfor- mou-se na revista infanto-juvenil mais lida do seu tempo, sobretudo ao passar a publicar-se duas vezes por semana (desde o nº 361).

A par das capas e dos contos recheados de ilustrações de grande beleza e efeito estético, E.T. Coelho ocupou-se também, com evidente prazer, de pequenas rubricas de curiosidades, ora intituladas Coisas do Arco da Velha e Coisas e Loisas ou Curiosidades de Todos os Tempos e Curiosidades de Todo o Mundo, que mais tarde substituiu pela Secção dos Sábios, abordando com a mesma perícia e erudição os mais variados e bizarros assuntos. Aqui têm um dos primeiros exemplos desse artístico e primoroso labor, extraído do nº 362 (12 de Dezembro de 1942).

Os textos, com um “sabor” também especial, que valorizavam ainda mais a rubrica, eram de Raul Correia, talentoso escritor e poeta que tinha o raro condão, como E.T. Coelho, de transformar em preciosidades todas as suas criações, inclusive os poemas e os textos que assinava com o pseudónimo de Avozinho.

Por obra destes dois pilares d’O Mosquito, a Secção dos Sábios tornou-se uma das mais memoráveis rubricas da “série de ouro”, que assinalou entre 1943 e 1946 a fulgurante evolução da trajectória artística de E.T. Coelho e de outros autores de primeiro plano como Jesús Blasco, Jayme Cortez, Vítor Péon e Emilio Freixas.

Extraídas dos nºs 437 e 438 d’O Mosquito (Setembro de 1943), eis duas magníficas páginas que o Jornal do Cuto publicou nos seus nºs 21 e 26, de 24/11 e 29/12/1971, com a Secção dos Sábios que tanto divertira (e instruíra), três décadas antes, os leitores d’O Mosquito.

O 1º ANIVERSÁRIO D’O MOSQUITO

mosquito-52-capa-289Nascido em 14 de Janeiro de 1936, com oito páginas (e apenas duas delas a cores, a capa e a contracapa), modesto no seu aspecto e quiçá nas suas ambições, O Mosquito foi, no entanto, o jornal dessa época que mais cativou os leitores infanto-juvenis, destronando toda a concorrência ao conquistar o valioso ceptro de “semanário infantil português de maior tiragem”, pois oferecia no seu sumário emoção, aventura e fantasia a rodos, pelo traço de excelentes artistas estrangeiros (como Walter Booth, Reg Perrott, José Cabrero Arnal, Arturo Moreno e outros), e pela sugestiva prosa de um talentoso escritor, o seu director literário e editor Raul Correia, cuja veia poética rivalizava com a de novelista, sob o carinhoso, lírico e enigmático heterónimo de Avozinho.

Com estes trunfos, aliados ao saber e à experiência nas artes gráficas de António Cardoso Lopes Jr. (o outro fundador e director d’O Mosquito, mais conhecido pelo seu nome artístico, Tiotónio, autor da famosa dupla Zé Pacóvio e Grilinho), o pequeno “insecto” de papel voou cada vez mais alto, acabando por perder de vista os seus competidores, que no final dessa década já estavam reduzidos a uma pequena hoste, de que faziam parte O Senhor Doutor e O Papagaio, de aspecto mais vistoso mas menos aptos a conquistar o coração dos leitores.

Em homenagem ao glorioso voo d’O Mosquito, que por “ares e ventos” chegou ao mais alto pódio da BD portuguesa, recordamos o editorial do nº 52, de 7 de Janeiro de 1937, publicado na secção de correspondência, uma das mais apreciadas pelos leitores, onde o estro literário de Raul Correia brilhava tanto como o de humorista. Foi dessa forma que O Mosquito celebrou a passagem do seu 1º ano de vida (uma semana antes da data oficial de nasci- mento), modestamente como era lema dos dois homens simples que o tinham criado.

CURIOSIDADES E ANOMALIAS – 5

mosquito-62Aqui têm outro exemplo das trocas e erros de numeração que ocorriam com alguma frequência n’O Mosquito dos tempos heróicos, quando a sua tiragem não parava de crescer, na razão directa da popularidade conquis- tada, desde o primeiro número, entre o entusiástico público infanto-juvenil.

Embora fosse o principal responsável pela direcção gráfica e artística do jornal, António Cardoso Lopes (Tiotónio) não podia atender a tudo, sobretudo na época em que O Mosquito ainda não tinha oficinas próprias. Mas mesmo depois disso, embora a quali- dade de impressão tivesse melhorado bastante, os erros numéricos não acabaram, para arrelia dos tipógrafos e confusão dos leitores, sobretudo dos que já pensavam em coleccionar a revista.

Até Novembro de 1939, como já referimos noutro post desta rubrica, O Mosquito era impresso numa primitiva máquina da Litografia Castro, sita na Travessa das Pedras Negras, em Lisboa (onde funcionava também, para efeitos legais, a sua redacção e administração provisória) —, máquina essa que, aliás, mosquito-62-bisjá não era a mesma que tinha dado à estampa os seus primeiros números, com uma tiragem que orçava entre os 5.000 e os 7.500 exemplares semanais. Mas essa tiragem não tardou muito a atingir o dobro, obrigando a gráfica a utilizar outra máquina maior e mais rápida para não agravar os repetidos atrasos na periodicidade d’O Mosquito (que era, então, distribuído pela Empresa Nacional de Publicidade).

Admira-nos, por isso, que o erro que se detecta entre os nºs 62 e 63, aqui reproduzidos — com capas ilustradas pelo grande artista espanhol Arturo Moreno —, não tivesse acontecido mais cedo. A “gralha”, desta vez, foi apenas de numeração, estando as datas correctas. O que não serve de aviso para os coleccionadores, antigos e actuais, sobretudo para os menos atentos a estes pormenores, que correm o risco de omitir nas suas listas dois nºs 62, ficando assim sempre à espera que lhes apareça um nº 63 que, em teoria, não existe. Pelo menos, até alguém demonstrar o contrário, exibindo um exemplar correctamente datado e numerado… que poderá valer, para os interessados, o seu “peso em ouro”.

CUTO, HERÓI DE UMA GERAÇÃO – 1

JESÚS BLASCO, O PAI DE CUTO

unnamedEm 2 de Fevereiro de 2009, o jornal “O Louletano”, editado em Loulé e ao  serviço, durante muitos anos, daquela ridente região algarvia, começou a publicar na sua rubrica 9ª Arte, excelentemente dirigida pelo saudoso José Batista (Jobat) — a cuja obra artística O Gato Alfarrabista tem prestado significativas e merecidas homenagens —, uma série de artigos em que evocava a memória de outro grande autor de BD, o mestre catalão Jesús Blasco, e a figura de um dos seus maiores personagens, que ainda hoje perdura no imaginário de muitos leitores que acompanharam as suas aventuras n’O Mosquito e no semanário espanhol Chicos, onde Jesús Blasco se confirmou como um dos grandes valores da moderna historieta, na esteira dos mestres americanos que tanto admirava.

alejandro-blasco-nos-anos-40Esse herói que nasceu modestamente nos tebeos do país vizinho, em páginas de cariz cómico, mas não tardou a tornar-se um dos mais célebres em toda a Península Ibérica, chamava-se Cuto, nome inspirado na alcunha familiar de um dos irmãos de Jesús Blasco, o azougado Alejandro, que também se dedicaria com talento às histórias aos quadradinhos, seguindo as pisadas do primogénito, por quem todos no clã Blasco nutriam uma devoção sem limites. Claro que fisicamente Alejandro não era nada parecido com Cuto, nem sequer tinha o mesmo espírito aventureiro, mas para a história e a lenda dos tebeos ficou para sempre como o seu modelo inspirador. Curiosamente, Cuto surgiu pela primeira vez numa publicação chamada Boliche, cujo título já quase caiu no esquecimento, associado a uma pandilha de garotos travessos. Cuto, Gurripato y Camarilla era o nome (intraduzível em português) dessa série, que teve relativo sucesso nas páginas do Boliche.

Cuto (Boliche)Aliás, foi só noutra revista de popularidade e prestígio muito maiores (nascida em plena Guerra Civil espanhola) que Jesús Blasco encontrou terreno propício para ressuscitar o seu herói humorístico, dando-lhe traços menos caricaturais e dotando-o de uma personalidade tão intrépida e irrequieta que caiu imedia- tamente no goto dos leitores. O êxito e a fama do novo herói do Chicos propa- garam-se como faísca num rastilho,  não tardando a atrair as atenções dos editores de uma revista que em Portugal gozava também de grande popularidade junto do público juvenil: O Mosquito.

Todo esse extraordinário trajecto de Cuto — bem como da fulgurante carreira de Jesús Blasco, que transpôs fronteiras, grangeando um renome crescente em muitos mercados europeus e americanos —, está narrado nos artigos (da autoria de José Antunes e Jorge Magalhães) que hoje começamos a apresentar, extraídos das páginas d’O Louletano onde se inseria a rubrica 9ª Arte, publicada como o resto do jornal a preto e branco.

Gafanhoto nº 10Tal facto era bastante lamentado por José Batista, que tinha plena consciência da desvalorização que sofriam com esse tratamento tipográfico imagens e histórias que tinham sido previamente publicadas a cores.

Por esse motivo, iremos também reproduzir, em simultâneo, as páginas da história “Cuto em Nápoles”, originalmente dada à estampa num almanaque do Chicos (1948) e estreada em Portugal n’O Gafanhoto (1949), revista com que António Cardoso Lopes (Tiotónio) procurou colmatar uma lacuna, depois da sua saída d’O Mosquito.

(Nota: a título de curiosidade, informamos que a versão de “Cuto em Nápoles” que surgiu na 9ª Arte é oriunda do Almanaque O Mosquito 1985, publicado em finais do ano anterior pela Editorial Futura, responsável por aquela que foi a última “reencarnação” da famosa revista criada em 14 de Janeiro de 1936 por Cardoso Lopes  e Raul Correia).

Ao apresentarmos estes artigos, extraídos de um jornal regional que provavelmente muitos dos bedéfilos que nos acompanham nunca leram, queremos recordar a figura de um mítico personagem dos quadradinhos, autêntico herói de uma ou mais gerações, e também prestar homenagem à memória do seu genial criador e de outros grandes artistas, como José Batista e José Antunes, que, ainda muito jovens, foram fortemente influenciados pelas obras que admiravam, com um olhar extasiado, nas páginas encantatórias d’O Mosquito.

Blasco, o pai de Cuto - 1

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Cuto em Nápoles 1 e 2 copy

Cuto em Nápoles 3 e 4

MAIS UM ANIVERSÁRIO!

Com estes singelos versos do Avozinho (aka Raul Correia), publicados no nº 313, de 8 de Janeiro de 1942 (um ano cheio de promessas e de novidades para os leitores d’O Mosquito), celebramos também a passagem de mais um aniversário deste blogue — não o sexto, mas o segundo —, assegurando categoricamente aos nossos visitantes e amigos que não baixaremos também os braços, enquanto pudermos, na grata missão de recordar e homenagear o nome (e os criadores) de uma das revistas mais carismáticas — e, sem dúvida, a mais popular — dos anais da BD portuguesa.

Mosquito saudaObrigado a todos que nos acompanharam assiduamente durante esta jornada, que se cifrou até ao momento por um total de 186 posts e mais de 12.500 visualizações, com reportagens, noticiários, efemérides e outros temas de abrangente interesse relacionados com a memória e a lenda sempre vivas d’O Mosquito.

E a aventura continua, nas asas trepidantes do sonho, da emoção e da fantasia, capazes de nos transportar, hoje como há muitas décadas, ao mundo mágico das histórias aos quadradinhos… a que deram vida, nas icónicas páginas d’O Mosquito, autores tão inspirados como António Cardoso Lopes, Cabrero Arnal, Arturo Moreno, Reg Perrott, Walter Booth, Roy Wilson, Percy Cocking, John Jukes, E.T. Coelho, Vítor Péon, Jayme Cortez, Servais Tiago, Emilio Freixas, Jesús Blasco, Alejandro Blasco, Adriano Blasco, Puigmiquel, Carlos Roca, José Garcês, José Ruy, John Lehti, Hal Foster, Harold Knerr e muitos, muitos outros.

Como diria o Avozinho, é uma alegria reviver convosco, amigos, o tempo que passa e os esplendores antigos de um jornal que ainda não perdeu a graça!    

CURIOSIDADES & ANOMALIAS – 2

A grande tiragem d’O Mosquito — que nos anos 40, depois de passar a bissemanário, chegou a atingir 30.000 exemplares por número! — impunha a realização de turnos nas oficinas e a utilização de várias chapas de impressão, nas quais, por vezes, os erros (sempre inevitáveis) só eram detectados quando a máquina, a grande impressora Rolland de “offset”, já estava em pleno funcionamento, “carburando” a toda a velocidade (pois imprimia mais de 7.000 cópias por hora!). Eis a sua vetusta imagem, reproduzida do Jornal do Cuto nº 22, de 1 de Dezembro de 1971, com nota à margem de Roussado Pinto.

Máquina Rolland 262

Havia sempre, porém, a possibilidade de emendar esses erros, rasurando as próprias chapas, desde que não fosse demasiado tarde, isto é, antes da máquina acabar a sua tarefa. Alguns dos erros mais insólitos (e que ficaram para memória futura, pois parcialmente já não tinham remédio) dizem respeito à numeração e às datas de certas capas que ainda ostentam os elementos da edição anterior. Como por exemplo, a do nº 407, impressa em muitos exemplares (talvez mais de metade da tiragem) com o nº 406 e com a data respectiva, embora os temas das duas capas sejam muito diferentes.

Verificado o erro por algum impressor mais atento, ou pelo próprio Tiotónio (António Cardoso Lopes), que era quem geralmente manuseava a preparação das chapas, foi ainda possível corrigi-lo num bom número de exemplares, pois já apareceram revistas com a sequência devidamente alterada. E uma delas, reproduzida a seguir neste post, ao lado da sua congénere, faz parte afortunadamente da minha colecção.

Mosquito 406 B e 407

Claro que para os editores d’O Mosquito seria um grande prejuízo se tivessem de destruir todos os exemplares mal numerados. Por isso, acabavam sempre por distribui-los mesmo com essa anomalia, em que muitos leitores, garotos ainda da escola primária, nem sequer reparavam. Aliás, nesses tempos, quantos é que já possuíam o vício de coleccionadores?

O Mosquito era lido num ápice e passava de mão em mão, entre miúdos do mesmo bairro e colegas da mesma escola, indo parar, depois de manuseado por muitos e entusiásticos admiradores do Capitão Meia-Noite, do Cuto e do Serafim e Malacueco, às prateleiras de alguma estante ou a uma caixa guardada num sótão onde o pó e as teias de aranha não tardariam a cobri-la. E na pior das hipóteses ficaria esquecido no chão, arrastado pelo vento e pisado por quem passava. Ou seria vendido ao desbarato, como outros papéis velhos, condenado, depois de tantas aventuras e glórias, ao tristonho destino de embrulhar castanhas assadas (“quentes e boas”), quando chegasse o Inverno!…

Mosquito 406 259Mas como a tiragem era grande, quase desco- munal para um jornal infantil, foram muitos também os exemplares que se salvaram. Mesmo aqueles em que há duas capas diferentes com números e datas iguais (para estabelecer a confusão entre os coleccionadores mal informa- dos). No caso que hoje trazemos à tona a capa do 407 era, como habitualmente, de E. T. Coelho, ilustrando uma cena da novela “Sunyana, o Rebelde”, escrita por Robert Bess (aliás, Roberto Ferreira, novelista que também usava o anagrama de Rofer); mas a do 406, também de E.T. Coelho, dizia respeito ao famoso Capitão Meia-Noite, herói de uma magnífica série desenhada pelo veterano mestre inglês Walter Booth, cuja segunda parte se estreara pouco antes, no nº 403 da revista.

Durante a sua existência, O Mosquito foi vítima de outras anomalias deste género, embora não seja fácil descobrir todos os números em que aconteceram repetições semelhantes (ou se chegaram a ser emendados). Pela nossa parte, a pesquisa continua…

AS EXPOSIÇÕES DO CPBD (2) – “OS 80 ANOS D’O MOSQUITO”

CPBD (C. Gonçalves e G. Lino)

A segunda exposição patente, até ao próximo dia 12 de Março, no Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) — cuja nova sede, convém recordar, fica na Reboleira (Amadora), onde dantes existia o CNBDI —, engloba vários painéis dispostos ao longo das paredes de uma das suas maiores salas, contígua a outro espaço, no rés-do-chão, onde figura a expo- sição permanente dedicada ao historial do CPBD (já com quatro décadas de vida).

Nesses painéis, de apresentação idêntica aos da exposição “Tributo a Eduardo Teixeira Coelho”, já aqui referida, podem observar-se várias histórias publicadas pel’O Mosquito, ao longo dos seus 17 anos de existência (na 1ª série, que durou de Janeiro de 1936 a Fevereiro de 1953), expostas directamente nas páginas impressas, pois nem mesmo os originais de E.T. Coelho e de outros autores portugueses existem já, na maioria dos casos.

Nas legendas desses painéis, houve o cuidado (que elogiamos) de referir também o nome dos respectivos desenhadores, mesmo os das histórias estrangeiras (sobretudo inglesas), que naquela época ninguém conhecia.

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2667 e 2677

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Como fizemos com o artigo alusivo à exposição de homenagem a E.T. Coelho, divulgamos seguidamente outro texto do Clube Português de Banda Desenhada, patente na mostra dedicada aos 80 anos de nascimento d’O Mosquito. Agradecemos ao CPBD (e particu- larmente a Carlos Gonçalves) a partilha destes trabalhos, que seria pena ficarem limitados a duas exposições que em breve serão encerradas para darem lugar a outros eventos, como oportunamente anunciaremos.

Lembramos, mais uma vez, a todos os interessados que até 12 de Março p.f. poderão ainda visitar estas mostras, na sede do CPBD, aberta todos os sábados, das 14h00 às 18h00 (com direito, portanto, a visitas guiadas).

Nota: o registo fotográfico da exposição “Os 80 Anos d’O Mosquito” é de Dâmaso Afonso, a quem endereçamos novamente os nossos agradecimentos.

OS 80 ANOS DA REVISTA “O MOSQUITO”

Nós, que estamos ligados à Banda Desenhada há décadas, custa-nos admitir que são já passados 80 anos sobre o primeiro dia em que a revista “ O Mosquito” seria publicada. Estávamos a 14 de Janeiro de 1936. Hoje torna-se fácil considerar que, na verdade, era uma publicação que faria História, não só como publicação infantil, mas também como um veículo privilegiado na divulgação de cultura. Tal deve-se à simbiose perfeita encontrada entre dois homens, um desenhador cheio de talento e de ideias, António Cardoso Lopes (Tiotónio), e outro repleto de amor pelo próximo, poeta, escritor e um grande homem da prosa, Raul Correia. Considerando as décadas que já passaram e o sucesso que esta revista teria ao longo dos anos em que seria publicada, teremos que admitir que estava encontrada a fórmula secreta para tal realidade. Quanto a nós e na época em que a revista é publicada, os contos tinham maior divulgação e eram tão ou mais bem aceites que a Banda Desenhada, embora esta não deixasse os seus créditos esquecidos, pois para ela também existia um público fiel. No entanto, o conto estava mais enraizado nos leitores, até por ensinamentos nas escolas, e já assim tinha sido nas revistas “ABC-zinho” e “O Senhor Doutor”, onde se revelaram grandes novelistas portugueses. No campo dos contos encontrava-se a mão de Raul Correia, que, logo a partir do número 1 da revista, inicia a publicação de um conto em episódios da sua autoria.

Evidentemente que a banda desenhada publicada possuía o seu interesse e encantava também os leitores, já que a publicação das aventuras de “Rob”, de Walter Booth e as de “Mick. Mock e Muck”, de Arturo Moreno, acabariam por alcançar uma certa aceitação ao longo dos meses. Esta última série acabaria mesmo por ser republicada em quatro pequenos volumes, mais tarde. Outras histórias seguir-se-iam, todas elas com um grafismo cuidado e onde se destacava um humor salutar, a maior parte delas de origem inglesa. Também no campo da aventura não faltavam novas séries igualmente de origem inglesa, tais como “A Flecha de Ouro”, de Reg Perrott, dois anos depois, e “O Gavião dos Mares”, de Walter Booth. É extraordinário como uma revista com 8 páginas apenas, embora num formato A4, conseguisse tal êxito… Raul Correia manteria a autoria dos textos, não só dos contos como das legendas didascálicas, como era usual na época, muitas delas criadas ao sabor da pena e poucas traduzidas dos seus textos originais ingleses. Uma nova equipa de contistas tinha-se associado à publicação com a contratação de Lúcio Cardador e Orlando Marques. O formato da publicação mantém-se no A4, até que a falta de papel no tempo da guerra obriga a uma redução de pelo menos uma folha (2 páginas) e o seu formato passa a ser o A5, com 12 páginas, a partir do seu número 318.

UM NOVO DESENHADOR SURPREENDE OS LEITORES

No entanto, estava a dar-se um facto muito importante, pois este é o período áureo desta publicação, com o aparecimento de um desenhador português, chamado Eduardo Teixeira Coelho (mais conhecido por E.T. Coelho ou ETC), que alcançaria uma carreira internacional, mais tarde, e que a partir de finais de 1942 passa a desenhar as capas da revista. E facto curioso é que as capas desenhadas por este grande artista eram essencialmente dedicadas aos contos. “O Mosquito” passará então a ser apresentado duas vezes por semana, com uma tiragem de 25.000 exemplares por número, um acontecimento deveras importante e que até aí nenhuma publicação do género alguma vez alcançara. Esta situação seria mantida por três anos, com as aventuras de “Cuto”, de Jesús Blasco, e outras histórias dos seus irmãos Adriano e Alejandro Blasco, além de dois novos desenhadores portugueses, que se tornariam igualmente famosos, Vítor Péon e Jayme Cortez, que passam a distribuir o seu talento pelos vários números da revista, até partirem para o estrangeiro, o primeiro para Inglaterra e o segundo para o Brasil, onde se tornará num caso único de popularidade junto de todos os desenhadores daquele país, tendo sido considerado um verdadeiro “Mestre”, como era muitas vezes designado pelas suas qualidades artísticas, existindo hoje um prémio naquele país com o seu nome.

“Os Guerreiros do Lago Verde” marca a estreia de Eduardo Teixeira Coelho na elaboração e execução de uma história aos quadradinhos, facto até aí inédito e onde pela primeira vez este desenhador oferece-nos extraordinárias pranchas em que retrata vários animais de uma forma arrojada, não descurando a sua aptidão para tal facto o ter passado várias horas no Jardim Zoológico a esboçar cada um dos animais que irão aparecer mais tarde, nas suas histórias (o tigre, os macacos, o rinoceronte e a sua luta contra o leão). ”O Capitão Meia-Noite” é outra das personagens de sucesso, da autoria de Walter Booth. Ainda nesta fase as histórias de “Cuto”, de Jesús Blasco, dão um salto qualitativo, que irá surpreender os leitores, tal é o realismo que este artista imprime às suas pranchas.

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OS ESCRITORES DA REVISTA

“O Mosquito” não circulava com sucesso pelos vários escaparates onde era colocado semanalmente à venda, só pela publicação das suas histórias aos quadradinhos. O seu peso literário também contava e muito na época. Era também devido ao esforço e dedicação de alguns novelistas da altura, que ofereceram os seus préstimos e os seus talentos, que esta publicação era bem aceite pela maior parte dos seus leitores. Independentemente de Raul Correia, que tinha a seu cargo alguns contos no início, a sua rubrica de “O Avozinho” e também a troca de correspondência com os leitores (respondendo na revista, mas também particularmente pelo correio), estava por detrás dos textos das novelas publicadas nas páginas da revista a mão de José Padinha (Peter Tenerife e outros pseudónimos), que nos deixou alguns contos cheios de ação, aventura e galhardia, seguidos igualmente de outros contos da autoria de Orlando Marques, qualquer um deles os mais prolíferos e destacados autores de novelas da revista. Não esquecer também os trabalhos de Fidalgo dos Santos, Roberto Ferreira (Rofer), Lúcio Cardador e António Feio. Todos eles contribuíram para que “O Mosquito” se destacasse neste campo.

MAIS UM NOVO FORMATO

A partir do seu número 681 passa para o formato anterior, o A4 de novo e com 8 páginas, embora este número se apresentasse com um suplemento de mais 16 páginas com uma história de Emilio Freixas, intitulada “Uma Estranha Aventura”. A partir deste número, o trabalho de ETC é ainda mais importante do que até aqui, pois além de executar muitas capas, desenha também mais uma história aos quadradinhos intitulada “Os Náufragos do Barco Sem Nome”, onde este artista, já na plenitude das suas qualidades artísticas, nos deslumbra com pranchas de excelente valor artístico. “A Epopeia do Forte Arizona”, de Cozzi, surge nesta fase, bem como outras histórias da sua autoria. Temos igualmente “O Caminho do Oriente”, de ETC, que se irá transformar num caso raro de popularidade e de longevidade. José Garcês inicia-se nesta fase também, com 18 anos de idade. A sua história “Intitula-se “O Inferno Verde”. Ainda que jovem, este desenhador acabará por se firmar com o seu talento e criará mais três histórias ao longo dos números da revista.

Será também nas páginas desta publicação que as aventuras do “Príncipe Valente”, de Hal Foster, aparecerão pela primeira vez em Portugal. “Tommy, o Rapaz do Circo” merece uma referência especial pela qualidade do seu traço, da autoria de John Lehti. Os enredos também não falhavam quanto à sua potencialidade literária. O desenhador de craveira que era Eduardo Teixeira Coelho, continua a oferecer-nos elevados resultados na contínua procura e concretização das suas potencialidades de desenhador e oferece-nos novas aventuras: “Sigurd, o Herói”, “A Lei da Selva”, um dos seus melhores trabalhos, “A Morte do Lidador”, “O Defunto”, “Lobo Cinzento”… Aparecem mais alguns artistas portugueses a colaborar na revista, infelizmente menos conhecidos, como são o caso de Monteiro Neves e, mais tarde, Ilberino dos Santos. Ruy Manso e Servais Tiago também já tinham colaborado na revista.

 AS HISTÓRIAS DE HUMOR

Não queremos deixar de fazer um pequeno parêntesis para lembrar as histórias de humor de uma única página que “O Mosquito” publicou ao longo da sua existência, da autoria de grandes desenhadores, a começar pelo próprio António Cardoso Lopes (Tiotónio) e acabando em Cabrero Arnal, passando por Arturo Moreno e os irmãos Adriano e Jesús Blasco. Todos eles desenhadores de sucesso, souberam imprimir aos seus trabalhos de uma página um verdadeiro manancial de alegria e divertimento para todos os leitores daquela publicação. Evidentemente que a revista dava lugar também ao humor em algumas histórias de continuidade, embora não descurasse as de aventuras, qualquer que fosse o seu género.

A partir do seu número 1201, a revista reduz de novo o seu formato para metade, apresentando mais um excelente trabalho de ETC, “Os Doze de Inglaterra”, agora recuperado e editado em álbum. Nesta fase há uma procura de novas personagens para serem publicadas, de modo a despertar e a renovar um maior interesse pela revista. Surgem assim “Lesley Shane”, de Oliver Passingham, “Jed Cooper”, de Dick Fletcher, “Rex Morgan”, de Bradley e Edington, “Garth”, de Steve Dowling, e “Terry e os Piratas”, de George Wunder. As histórias de origem inglesa com novas personagens iniciam-se neste período, talvez já com um pouco de menor qualidade. É nesta fase, e no início de 1952, que surgirá um novo desenhador português a colaborar na revista. Trata-se de José Ruy, autor de capas e também de uma nova história de Banda Desenhada, intitulada “O Reino Proibido”. Será este artista que irá lançar mais tarde uma segunda edição desta revista, da qual serão publicados 30 números, na expetativa de conquistar novos leitores. Infelizmente tal não se veio a verificar.

Um novo grafismo e um novo formato A4, virá ajudar a revista a apresentar-se com maior aspeto e melhor apresentação. Ainda que esbracejando nesta fase da sua agonia, pouco ou quase nada era possível fazer para salvar a publicação. O fim aproximava-se. As novas personagens irão manter-se e Eduardo Teixeira Coelho continuará a surpreender-nos com as suas histórias, desta vez com adaptações das obras de Eça de Queirós, “A Aia”, “O Tesouro” e “S. Cristóvão”, mas com arranjos de Raul Correia. Via-se que estes dois artistas tentavam impulsionar a revista com todas as suas potencialidades criativas. Todavia a publicação tinha chegado ao fim… mas as histórias não, pois ficariam incompletas. No entanto, e ainda que o seu papel estivesse terminado, não deixaria de ser uma caso único na História da Banda Desenhada Portuguesa, ao tornar-se um marco nesse campo e rivalizando com muitas outras publicações do género, não só pelo seu grande valor artístico como pelo didático.

O GRAFISMO DO “INSECTO” MOSQUITO

Um dos factos curiosos desta revista é a sua evolução e a sua continuidade, na procura da perfeição e no desejo de cativar os leitores durante os anos da sua publicação. Será assim com um pequeno grafismo, mas que será aquele que irá dar nome à revista e sustentá-la de uma forma digna e artística.

Tributo ETC 2

Estamos a falar da figura do mosquito, que se inicia também no nº.1 da revista, encontrando-se no canto inferior esquerdo. É da autoria de António Cardoso Lopes. No nº. 2 vamos encontrá-lo de maneira diferente, desta vez no canto superior esquerdo, depois irá alterando o local de exposição, até desaparecer a partir do nº. 30, voltando de novo, desta vez a partir do nº. 201, e assim se manterá até ao 317. No nº. 318 o seu formato é menor. A partir do nº. 360, altera de desenhador e de aspeto, a montar um cavalo de pau, pois passa a ser criado por ETC. Esta imagem irá ser a escolhida para um dos emblemas de lapela, que a revista criará para os seus leitores. O outro emblema (haverá dois) terá o mosquito a empunhar um chapéu.

Ao longo dos números a figura do simpático inseto vai mudando de grafismo. No nº. 390 surge de laço e cartola. Depois, vai de novo alterando a sua imagem, transformando-se num ardina a vender a revista, até que desaparece de novo a partir do nº. 537. Depois volta, a partir do nº. 642. No 681, devido à mudança de formato da revista para maior, o boneco sofre alterações… é um condutor de automóveis. Depois toca viola. E com várias alterações vai-se mantendo pelas capas até ao nº. 1201, com novo formato, mais uma vez reduzido para metade. No nº. 1373 temos um formato maior, que se irá manter até ao fim da publicação da revista, com mais novos grafismos no que respeita ao boneco, inclusive montado num burro, até acabar por desaparecer.

AS CONSTRUÇÕES DE ARMAR

Desde o início do século XX que algumas revistas infantis portuguesas resolveriam incluir nas suas páginas suplementos que apresentavam uma grande variedade de temas, desde jogos, passando por bonecos articulados, uniformes, figuras de animais, folhetos de propaganda, cupões de concursos, figuras para recortar, calendários, presépios, bonecos/bonecas, com os seus fatos ou vestidos, e mais tarde as Construções de Armar. Todas elas acabariam por ser um fator importante no sucesso da publicação, pois havia sempre alguns leitores que estavam à espera delas para as construírem e divertirem-se.

A primeira revista a incluir esse material nas suas páginas em Portugal seria “O Gafanhoto”, de 1903. Seguem-se o “ABC-zinho”, em 1921, o “Cócórócó”, em 1928, o “Tic-Tac”, em 1932, o “Senhor Doutor”, no ano seguinte, “O Papagaio”, em 1935, e finalmente “O Mosquito”, em 1936, e desde os seus primeiros números. Algumas construções que “O Mosquito” oferece aos seus leitores são de uma qualidade inquestionável, não só pela qualidade da sua conceção e desenho, como pela beleza e interesse. “Um Cruzador”, “Mobília de Bonecas”, “Aviões”, “Carros”, “Um Castelo”, “A Torre de Belém”, “Praça de Touros de Lisboa”, ”Presépios”, cupões de concursos, retratos de artistas de cinema, concurso de selos com artistas de cinema, “Índios e cow-boys”, etc… Seria um manancial de “brinquedos” para gáudio dos leitores da revista. As primeiras construções são impressas a uma cor, outras a preto e branco, mas mais tarde já serão coloridas, o que irá salientar o seu interesse e também a sua apresentação. Todas estas construções eram concebidas e desenhadas por pessoas igualmente ligadas às artes gráficas e arquitetura, como será o caso de Tiotónio, ETC, Vicente Ribeiro, Monteiro Neves, Rocha Vieira, Américo Taborda, A. Velez, etc.