O MOSQUITO EM 1943 – 9

Como assinalámos no post anterior desta rubrica, um dos mais notáveis acontecimentos do ano de 1943, para os leitores d’O Mosquito, ocorreu no nº 424, de 17 de Julho, com a aparição nas suas páginas de um novo desenhador, já famoso no país onde nascera: o mestre espanhol Emilio Freixas, cuja obra seria também muito apreciada e aplaudida em Portugal, graças à larga divulgação que teve n’O Mosquito e no Diabrete.

mosquito-1943-8-chicos-73“A Heróica Aventura” (tradução livre do título bastante mais sugestivo “El País de las Arenas”) foi a história que o apresentou aos leitores d’O Mosquito e também a primeira oriunda do semanário Chicos, que se publicava em San Sebastian e com o qual Cardoso Lopes e Raul Correia iriam estabelecer, a partir dessa data, um longo e frutuoso intercâmbio. Além de ser primorosamente ilustrada, embora com textos sem balões, dentro de “cartuchos” inseridos nas vinhetas — que os eruditos designam por legendas diegéticas, em oposição às didas- cálicas (isto é, fora das vinhetas) —, tinha como protagonistas dois ladinos rapazotes, Chatillo e Frederico, ambos vestidos a “rigor”, o primeiro como groom de hotel e o segundo como filiado da Frente de Juventudes espanhola, substituída, no texto que Raul Correia traduziu e adaptou, por outra organização similar: a Mocidade Portuguesa. Os seus patronos e companheiros de aventuras eram dois aviadores fascistas, mas suficientemente simpáticos e destemidos para que essa ideologia não ofuscasse as suas virtudes: o capitão Izquierdo (apelido que até soa a ironia, visto a história ter sido publicada em 1939, no final da guerra civil espanhola) e o coronel Bustamante, baptizados n’O Mosquito com os patrióticos nomes de Vilalva e Lencastre. Quanto a Chatillo, o mais jovem elemento do grupo, passou a chamar-se José Luís, por alcunha “Foguete”.

mosquito-1943-8-a-heróica-aventura-1Publicada verticalmente nas páginas centrais da revista — sem estar sujeita, como as histórias inglesas e italianas, às desmon- tagens que um formato mais pequeno implicava, o que também foi um factor de destaque —, “A Heróica Aventura”, com o aspecto original do seu grafismo e o singular carisma dos seus heróis (cujas “cores” políticas mal eram afloradas na acção do episódio), não tardou a conquistar o aplauso dos leitores, que teriam rejubilado se soubessem que “Foguete”, Frederico e os seus heróicos companheiros, o capitão Vilalva e o coronel Lencastre, tinham ainda para lhes oferecer mais duas magníficas aventuras, de duração e interesse muito superiores à primeira: “A Cidade das Três Muralhas” e “A Seita do Dragão Verde”.

Como apresentamos também a primeira página de “El País de las Arenas”, publicada em 26/7/1939, no nº 73 de Chicos, aproveitem não só para apreciar os desenhos de Freixas a cores, como para comparar as duas versões do texto… e decidam, depois, qual é a melhor.

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O MOSQUITO EM 1943 – 8

mosquito-1943-8-nc2ba422-961A partir do nº 422, o grande salto qualitativo d’O Mosquito, iniciado no ano transacto, desde o nº 360, com a primeira das espectaculares capas ilustradas por E. T. Coelho, atingiu um nível ainda maior, repercutindo-se na tiragem, na popularidade e na difusão da revista, que era lida em todos os cantos de Portugal e por miúdos de todas as origens, ricos e pobres.

Depois de tantas novidades, esse número e os seguintes ofereceram aos leitores alguns dos melhores contos e novelas de Raul Correia, como “Noite Tranquila” — que assinalou o regresso, embora breve, de Rudy Carter, um dos seus mais emblemáticos e apreciados detectives —, “A Emboscada” e “O Navio Negro” — duas aventuras de ambiente histórico, em que ao primor do estilo e à emoção do enredo se somava o fascínio dos cenários e das personagens —, como sempre magistralmente ilustrados (advérbio que já parece supérfluo) por Eduardo Teixeira Coelho, cujos versáteis dotes artísticos, em constante evolução, tinham cada vez mais admiradores, surpreendendo até os que olhavam de forma acrítica para esses trabalhos, sem saberem que o seu autor era ainda um jovem de 24 anos, pouco mais velho do que alguns deles que já andavam nos últimos anos do liceu.

Merece também referência, tanto pelos desenhos como pelo texto, o conto “Um Valente”, original de Lúcio Cardador, que seria a sua última produção literária publicada durante essa fase d’O Mosquito, por razões que mais tarde abordaremos.

mosquito-1943-8-para-ti-amigo-leitor-0031Algumas úteis secções ilustradas por E. T. Coelho continuavam também a aparecer regularmente, como “Carpintaria Aplicada”, que ensinava a fazer estantes, secretárias e outros móveis de estilo moderno (para a época). E até Tiotónio (A. Cardoso Lopes Jr.) deu um ar da sua graça ilustrando uma página assinada por “Cocabichinhos”, com instruções para os jovens campistas.

Nessa etapa que reservava ainda muitas surpresas, O Mosquito continuava a publicar com grande sucesso as façanhas do intrépido e misterioso Capitão Meia-Noite, juntamente com outra criação de Walter Booth, “Luta sem Tréguas”, que tinha como cenário o Oeste americano, às quais fazia companhia — além de algumas histórias italianas desenhadas por Giorgio Scudellari (“Ivan, o Terrrível”) e Giuseppe Cappadonia (“Os Piratas da Polinésia”) — outro vibrante western, intitulado “Falsa Acusação”, o primeiro êxito da carreira artística de Vítor Péon, que se estreara no nº 396 e teve o seu epílogo no nº 423.  

mosquito-1943-8-nc2ba423-e-424mosquito-1943-8-nc2ba425-e-4261mosquito-1943-8-nc2ba427-e-428mosquito-1943-8-nc2ba429-e-430mosquito-1943-8-noite-tranquila-1-e-21mosquito-1943-8-um-valente-1-e-21mosquito-1943-8-um-valente-3-9761mosquito-1943-8-a-emboscada-12mosquito-1943-8-a-emboscada-2-e-3mosquito-1943-8-o-navio-negro-1-e-2mosquito-1943-8-o-navio-negro-3-e-4mosquito-1943-8-o-navio-negro-5-e-61mosquito-1943-8-carpintaria-aplicada-1e-2 mosquito-1943-8-carpintaria-aplicada-31mosquito-1943-8-carpintaria-aplicada-4-e-5mosquito-1943-8-capitc3a3o-meia-noite-1-e-2mosquito-1943-8-luta-sem-trc3a9guas-1-e-2mosquito-1943-8-falsa-acusac3a7c3a3o-1-e-2mosquito-1943-8-ivan-o-terrc3advel-e-os-piratas-da-polinc3a9sia

Mas a mais sensacional novidade — que se tornou um marco de fundamental importância na história d’O Mosquito, ao abrir-lhe as portas de uma nova escola europeia recheada de grandes valores, capazes de rivalizar com E. T. Coelho (e até de lhe servirem de modelo) —, chegou no nº 424, de 17/7/1943, com a estreia de Emilio Freixas, um autor espanhol de traço elegante e estilizado, já famoso no seu país e cuja obra seria também muito apreciada e aplaudida em Portugal, graças ao Mosquito e ao Diabrete. Desse grande acontecimento falaremos com mais detalhes no próximo post desta série.

O MOSQUITO EM 1943 – 7

A partir do nº 410, publicado em 29 de Maio de 1943, os problemas com a aquisição de papel, que a guerra tornara um produto extremamente raro e cada vez mais valioso, pareciam ter-se atenuado e até a qualidade melhorou, deixando de aparecer papel de cor e tão fino que as imagens e as letras se viam à transparência.

mosquito-43-um-herc3b3i-de-17-anos-1-6422Nesta série de 10 números que hoje passamos em revista (do 412 ao 421), as capas d’O Mosquito, embora mantendo o mesmo cabeçalho, voltaram a enfeitar-se com cores garridas, que realçavam o deslumbrante e sedutor grafismo das ilustrações cada vez mais pujantes e dinâmicas de E. T. Coelho, em contraste com a monótona e insípida bicromia de alguns dos números anteriores.

 Acabada a longa novela de ambiente exótico “Sunyana, o Rebelde”, assinada por Robert Bess (Roberto Ferreira), regressaram logo a seguir os contos, não menos empolgantes, de Orlando Marques e Lúcio Cardador, secundados por mais uma história de guerra de A. S. Lopes (Augusto Simões Lopes, irmão de António Cardoso Lopes (Tiotónio), e por uma aventura africana, de autor desconhecido, todos magnificamente ilustrados por Eduardo Teixeira Coelho. O talentoso desenhador, que ainda não completara 25 anos, mosquito-43-correios-de-todo-o-mundo-680continuava a rechear O Mosquito com ilustrações de todos os géneros — abrangendo pequenos anúncios, rubricas de curiosidades e de trabalhos manuais, como já fizera no Engenhocas, outra revista das Edições O Mosquito, orientada por Tiotónio —, numa demonstração de grande versatilidade, tanto no estilo infantil e humorístico como no aventuroso e realista. Pela primeira vez, até os cabeçalhos dos contos e das novelas de aventuras, pela sua forma inspirada e inovadora, desde o desenho harmonioso das letras ao arranjo gráfico, suscitavam o interesse e a admiração dos leitores, aflorando também como trabalhos que mereciam ser valorizados no cômputo geral da revista.

mosquito-43-mosquito-106-6441Mantinham-se em publicação duas histórias aos quadradinhos inglesas, “O Capitão Meia-Noite” (cuja 1ª série se tinha estreado no nº 106, de 20/1/1938), e “Luta Sem Tréguas”, ambas do mestre Walter Booth — embora na segunda despontasse, por vezes, a intervenção de um medíocre colaborador —, enquanto que, pelo lado português, o vibrante western “Falsa Acusação”, do jovem e promissor estreante Vítor Péon, continuava a fazer-lhes honrosa companhia. No nº 417 surgiu uma nova história italiana, com o título “Ivan, o Terrível”, ilustrada sem grandes rasgos, mas com artesanal eficácia, por Giorgio Scudellari, cujo estilo já se tornara familiar aos leitores d’O Mosquito. Além disso, o episódio lia-se com interesse, destacando-se pelo seu enredo como um dos melhores dessa série.                                           

mosquito-43-separata-cary-grant-645Como já referimos, o airoso e popular bissemanário, a par das habituais folhas com construções de armar, tinha começado a inserir no nº 409 uma série de pequenas separatas de género muito diferente, com fotografias de artistas de cinema (alguns dos quais são recordados e admirados ainda hoje). Noutra rubrica, com mais informações sobre O Mosquito, satisfaremos a curiosidade dos nossos leitores cinéfilos, apresentando na íntegra essa colecção de raríssimas separatas.

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O MOSQUITO EM 1943 – 6

Entre os nºs 401 e 411, que hoje apresentamos, O Mosquito regressou à impressão a duas cores (capa e contracapa apenas), não sabemos se por razões económicas ou devido à dificuldade em encontrar papel em condições, além de outro material tipográfico, visto a guerra mundial em curso criar grandes constrangimentos à produção e importação de matérias-primas. A escassez de papel, cujas cores, no “miolo” da revista, mudavam de número para número, teve outras consequências, obrigando O Mosquito a pedir desculpa aos leitores, pelo atraso com que chegava às bancas.

mosquito-114-o-capitc3a3o-meia-noite1No entanto, apesar de todos esses problemas, as novidades continuaram a aparecer, com des- taque para uma história que se estreou no nº 403, depois de terminada, no número anterior, a longa saga de aventuras da Polícia Montada “Ao Serviço da Lei”, com magníficos desenhos de Hilda Boswell. Mas os leitores não ficaram a perder, pois a nova série, assinada por outro grande mestre da BD inglesa — nem mais nem menos do que Walter Booth, pioneiro mundial do género aventuroso em estilo realista e criador de séries inolvidáveis como “Pelo Mundo Fora” e “O Gavião dos Mares” —, assinalou o regresso, há muito esperado, de uma das suas maiores criações, “O Capitão Meia-Noite”, cujos primeiros episódios tinham aparecido cinco anos antes n’O Mosquito, com um sucesso que excedera todas as expectativas.

cap-meia-noite-2Muitos leitores se lembravam ainda da figura do galante e misterioso cavaleiro mascarado que, na melhor tradição dos heróis de capa e espada, protegia os pobres, os oprimidos, as viúvas e os órfãos, contra a arrogância e a perfídia dos poderosos, numa época em que muitos condados ingleses estavam nas mãos de uma aristocracia despótica e corrupta, que espezinhava sem escrúpulos as classes mais humildes. Mas alguém lhes fazia frente, em defesa do bem e da justiça, combatendo as suas leis e os seus actos iníquos, perseguindo-os sem tréguas pelas estradas e até no interior dos seus castelos, oferecendo protecção a todas as suas vítimas: o intrépido Capitão Meia-Noite, que montado no seu negro corcel, galopava à rédea solta em noites de luar, fazendo jus ao seu nome (em inglês, Captain Moonlight) — um furtivo e irónico justiceiro, destro no manejo da espada e das pistolas com que desafiava os seus inimigos, imune ao perigo e aos obstáculos que lhe surgiam no caminho, pois escapava, com espantosa agilidade, a todas as armadilhas, saindo sempre vencedor do confronto com os seus perseguidores.

Claro que para os leitores d’O Mosquito a sua identidade não era segredo: desde o princípio que todos sabiam que sob a mascarilha do Capitão Meia-Noite se escondia o rosto de Dick Martin, o respeitado ferreiro da aldeia de Portsea, cujo modesto e pacato ofício o afastava de qualquer suspeita. E essa dualidade entre o homem simples e o aventureiro, cuja audácia e galhardia lhe conferiam autênticos pergaminhos de nobreza (mais tarde consagrada num título de barão), nimbava este intrépido personagem com um halo ainda mais heróico, tornando-o um dos maiores ídolos da rapaziada desse tempo.

No mesmo número — em substituição de “Nas Montanhas da Índia”, concluída na edição anterior —, surgiu outra série com desenhos de Walter Booth, desta vez ambientada no Oeste americano: “Luta Sem Tréguas”. Mas, apesar da acção trepidante, era uma criação sem o fulgor artístico de que o mestre já dera sobejas provas noutras obras mais grandiosas, e que teve, aliás, na parte final, o concurso de um medíocre ajudante, cujo nome não passou à História.

mosquito-409-falsa-acusação-1Basta compará-la com “Falsa Acusação”, o primeiro western de um autor português publicado n’O Mosquito, para que as diferenças saltem à vista, com nítida vantagem para o estilo dinâmico e vigoroso de Vítor Péon e para as peripécias em que este já revelava um magistral sentido da acção cinética, da montagem rítmica (apesar das vinhetas entremeadas com legendas didascálicas) e do suspense no final de cada episódio. Sem dúvida por isso, e por outras razões, “Falsa Acusação” tornou-se um dos maiores êxitos d’O Mosquito, nesse ano memorável de 1943, abrindo ao jovem artista as portas de uma carreira coroada por uma frenética e prodigiosa actividade.

Nesta etapa do popular bissemanário dirigido por António Cardoso Lopes Jr. e Raul Correia, a longa e emocionante novela de Roberto Ferreira, “Sunyana, o Rebelde”, continuou a merecer honras de capa, ilustrada com intenso realismo anatómico por um jovem E. T. Coelho, cujo estilo, em franco progresso, alardeava equilíbrio estético, rigor e dinamismo de linhas à altura dos maiores mestres. Nos nºs 406 e 410, o destaque foi para o “Capitão Meia-Noite”, em composições menos movimentadas, que contrastam, apesar das poses heróicas, com o vigor e a emoção de “Sunyana”.

Resta assinalar ainda, embora num plano bastante inferior, duas novas histórias italianas: “Os Abutres de Kandahar” (iniciada no nº 404, com o regresso de Dinamite) e “A Rainha de Ofir” (em estreia no nº 410), cujos créditos pertencem a Vitaliano Bertea e Umberto Nova, desenhadores de modesta craveira comparativamente aos seus congéneres ingleses,mosquito-anúncio-dos-modelos-sólidos mas que se destacavam pelo uso de uma linguagem mais moderna, com o discurso directo em balões (filacteras) e legendas manuais intercaladas nas imagens.

Nos nºs 401 e 404 surgiram mais duas páginas de curiosidades, com ilustrações de E. T. Coelho, e no nº 407 (que, por erro tipográfico, ostenta, nalguns exemplares, o número e a data da edição anterior), ETC ilustrou também um pequeno anúncio de “modelos sólidos” de aviões e barcos, que eram vendidos na redacção d’O Mosquito. Mais adiante, no nº 409, os concursos “Relâmpago” regressaram, com duas perguntas que apelavam ao raciocínio dos concorrentes.

anuncio-estrelas-de-cinema457No nº 408, chamava a atenção (e aguçava a curiosidade dos leitores) o anúncio de uma nova série de separatas, dedicadas a artistas de cinema e ases desportivos… mas disso falaremos com mais detalhe no próximo artigo.

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O MOSQUITO EM 1943 – 5

No nº 393, último publicado em Março do referido ano, regressou em grande forma um dos melhores novelistas d’O Mosquito, Orlando Marques, com o conto “O Mistério do Starnight”, que abordava um dos seus temas favoritos: as aventuras de ambiente marítimo, a bordo de velhos cargueiros comandados por rijos lobos do mar. Outro regresso festejado por muitos leitores foi o de Lúcio Cardador, com uma trepidante novela de cowboys, intitulada “Leis do Oeste”. E. T. Coelho, também na sua melhor forma, ilustrou ambas com vigor e dinamismo, demonstrando novamente ter aptidão para todos os géneros e preparando-se para ainda mais altos voos ao serviço d’O Mosquito.

Os nºs 394, 395 e 396 incluíram mais separatas com temas da empolgante novela, original de Raul Correia, “Aventuras de Jim West”, que terminara no nº 392, mas cujos ecos ainda perduravam na memória dos leitores. Aqui as apresentamos, graças mais uma vez à boa vontade e ao espírito de colaboração do nosso amigo Carlos Gonçalves.

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Como curiosidade a assinalar nestes três números, temos outro decorativo (e primaveril) cabeçalho criado pela fértil imaginação de E. T. Coelho, embora, a partir do nº 398, fosse dada preferência à imagem de um “mosquito” ardina, entoando alegremente o seu pregão, que se tornou, para a posteridade, o mais vulgar e emblemático cabeçalho da revista.

Outra curiosidade é a capa do nº 395 ter sido dedicada à segunda história italiana publicada n’O Mosquito, “A Viagem do Narval”, com desenhos de Carlo Cossio, o que poucas vezes voltaria a acontecer. No número anterior, a escolha da capa recaiu sobre a longa e emocionante aventura “Ao Serviço da Lei”, ilustrada por Hilda Boswell, que desbravava agora novos cenários, levando o valente cão Storm, numa jornada imprevista, até às gélidas e solitárias paragens do círculo polar árctico.

falsa-acusação 7c3a3o-1-2441Mas a grande, a mais sensacional novidade desta nova fase d’O Mosquito, nos primeiros meses de 1943 — ano que, aliás, seria fértil em surpresas, confirmando a imparável evolução da pequena e dinâmica revista, que não dormia à sombra dos louros colhidos —, foi a estreia no nº 396 de outro jovem artista português, cujo nome não tardaria a ombrear com os dos maiores desenhadores do seu tempo… embora no cabeçalho da história apresentada nesse número e nos seguintes, com o título “Fora da Lei”, figurasse apenas um breve apelido de sonoridade espanhola, que deve ter despertado o “bichinho” da curiosidade em muitos leitores.

Foi esse o começo da carreira de Péon (de seu nome completo, Vítor Amadeu Batista Péon Mourão), depois de já ter realizado para a Colecção de Aventuras algumas ilustrações baseadas numa história de outro grande desenhador inglês, Reg Perrott, cujo estilo influenciou profundamente os seus primeiros trabalhos, com destaque para “Fora da Lei”, uma abordagem tradicional às histórias de cowboys a que não faltavam emoção, movimento, lances de vigor e heroísmo, belos cenários naturais e personagens de ambos os sexos capazes de cativar os leitores, como nos melhores filmes do género, que nessa época punham ao rubro o entusiasmo das plateias.  

Com Vítor Péon, O Mosquito ganhou (na histórica data de 10 de Março de 1943) um novo e promissor elemento artístico que iria dar um forte impulso às histórias aos quadradinhos nacionais de cunho realista, e nomeadamente ao western, até aí subordinado, na maioria das nossas publicações infanto-juvenis, a uma linha caricatural e paródica.

No nº 399, teve início outra grande novela de aventuras magistralmente ilustrada por E. T. Coelho, “Sunyana, o Rebelde” — cuja acção se desenrolava na Índia dos Rajás e dos fanáticos Tughs, ainda dominada pelo Império britânico —, assinalando o regresso de um antigo colaborador literário d’O Mosquito, Roberto Ferreira (ou Rofer), curiosidades-2-234que escondia agora a sua identidade sob um pseudónimo de raiz anglo-saxónica: Robert Bess. Caso raro, mas não único, entre os novelistas d’O Mosquito, porque o próprio Raul Correia já tinha usado um pseudónimo de origem seme- lhante: C. David Grim.

Resta assinalar, no nº 395, a con- clusão da magnífica aventura “O Ca- pitão Ciclone”, cujo desenhador, Thomas Heath Robinson, já aqui referimos várias vezes, e o início no nº 400 de mais uma história italiana, “O Assalto à Diligência”, desta vez desenhada por Giorgio Scudellari. O Avozinho voltou a dar um ar da sua graça no nº 400, com um soneto intitulado “Regresso”, em que festejava o seu jornal “quatro vezes centenário”.

O mesmo número inseria mais uma secção de curiosidades de todo o mundo e de todos os tempos ilustradas por E. T. Coelho, que revelava especial apreço por temas didácticos e divertidos; e os populares concursos “Relâmpago” também voltaram a ser notícia nos nºs 396, 397 e 399, com pitorescas e bem rimadas respostas em verso.

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O MOSQUITO EM 1943 – 4

jim-west-para-curandel1311“Aventuras de Jim West”, a longa e trepidante novela de Raul Correia que o popular bissemanário O Mosquito começou a publicar no nº 375, de 27/1/1943, era uma espécie de sinfonia do Novo Mundo, percorrida por um sopro de epopeia, com personagens que não se apagaram da memória dos leitores, ao ponto de ressuscitarem, anos depois, numa das primeiras histórias aos quadradinhos de E. T. Coelho: Jim West, um jovem e destemido pioneiro, Louise, a sua dedicada companheira, e o pitoresco Nath Pig, caçador e inimigo encarniçado dos índios.

E se a prosa de Raul Correia, de crescendo em crescendo, chegou a atingir momentos de grande vertigem, tanto na toada épica dos combates como no hino ao selvático esplendor da Natureza, o labor do seu parceiro artístico não lhe ficava atrás, confirmando o exímio domínio da forma, a versatilidade e o dinamismo do estilo, cada vez mais perto do perfeccionismo estético e da exuberância cinética. Algumas das capas e ilustrações de “Aventuras de Jim West”, como temos vindo a apresentar, figuram entre as melhores publicadas nesta fase d’O Mosquito.

Três novos e sugestivos cabeçalhos desenhados por E. T. Coelho surgiram nos nos 389, 390 e 392, mostrando que a sua fértil fantasia continuava ao serviço da renovação gráfica iniciada meses antes. É caso para perguntarmos: teria o pequeno e modesto jornal, naquela época, o mesmo impacto, o mesmo extraordinário efeito, quase mágico, sobre os leitores, sem a magnífica colaboração de E. T. Coelho, que se desdobrava em múltiplas tarefas? A resposta parece óbvia, por mais elogios que se possam fazer às histórias inglesas, a Cardoso Lopes, a Raul Correia e aos outros membros da equipa.

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Entre os nos 385 e 388, um dos principais atractivos foi a inclusão de mais separatas com uma construção desenhada por E. T. Coelho, cujo tema, relacionado também com o Oeste americano, era “Um Carro de Colonos” — aproveitando o êxito crescente das “Aventuras de Jim West” e a popularidade dos seus indómitos protagonistas.

(Temos, mais uma vez, de agradecer a Carlos Gonçalves a possibilidade que nos deu de apresentarmos algumas delas neste blogue).

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No nº 386, chegou ao fim a original aventura “O Mistério da Sala 13”, desenhada por Henry M. Brock. No número seguinte, O Mosquito interrompeu a série de capas dedicadas a Jim West, mostrando uma emotiva cena, espectacularmente recriada por E. T. Coelho, da história aos quadradinhos “Nas Montanhas da Índia”.curiosidade-4-pequenas1

Nessa mesma edição, regressou o correio, com as respostas às numerosas cartas dos leitores, e a apreciada mas irregular rubrica “Curiosidades”, a cargo, como habitualmente, de E. T. Coelho. Em complemento das histórias inglesas, podia ainda ler-se uma aventura de aspecto muito diferente, embora de menor qualidade artística, intitulada “O Gavião do Sul”, com um novo herói que apareceu em mais episódios, sobretudo na Colecção de Aventuras (publicação quase gémea d’O Mosquito), e ao qual Raul Correia deu a identidade de um aventureiro português com o nome de Pedro de Lemos e a curiosa alcunha de “Dinamite”.

Sabemos hoje que esses episódios eram de origem italiana e, em contraste com as séries inglesas, exibiam alguns recursos pouco usuais na revista, como a abundância de “balões”, ou seja, o uso generalizado do discurso directo, e textos mais curtos em legendas intercalares que costumam designar-se por “cartuchos”. Nesse aspecto, foram uma novidade absoluta para a maioria dos leitores, habituados aos textos “didascálicos”, operando durante alguns meses uma espécie de dicotomia n’O Mosquito, como que a anunciar tempos de mais profundas e duradouras transformações.

Os respectivos desenhadores — muitos deles identificados, pela primeira vez, num exaustivo estudo de Américo Coelho publicado no Boletim do CPBD nos 127 e 128 (2009) — davam pelos nomes de Vitaliano Bertea (que desenhou o citado episódio e quase todas as aventuras de “Dinamite”), Giorgio Scudellari, Umberto Nova, Carlo Cossio, Giuseppe Capadonia e António Salemme, entre outros. A seu tempo, logo que terminado “O Gavião do Sul”, mais episódios deste género surgiriam n’O Mosquito.

Como  curiosidade,  destaquem-se  ainda  as  duas  novidades  (de  quatro)  anunciadas  nos nos 387 e 388: emblemas para os assinantes e concursos “Relâmpago” semanais, com prémios monetários que iam de 20$00 a 5$00 (uma pequena fortuna, naquele tempo, para a maioria dos jovens leitores, cujas posses eram bastante reduzidas).

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“O MOSQUITO” EM 1943 – 3

Os progressos d’O Mosquito eram maiores de número para número, graças não só ao seu recheio, com destaque para as histórias aos quadradinhos — algumas das quais estavam em publicação há vários meses, como “Ao Serviço da Lei” e “O Capitão Ciclone” —, mas também ao vistoso aspecto gráfico, do qual E. T. Coelho era o principal responsável.

O mês de Fevereiro de 1943 trouxe algumas novidades, embora o maior relevo fosse para a trepidante novela “Aventuras de Jim West”, uma das mais longas saídas da fértil imaginação de Raul Correia, e para as capas que em todos os números lhe eram dedicadas — algumas curiosamente com legendas, realçando vários tópicos da acção. E. T. Coelho estava, de facto, no melhor da sua forma, a desenhar cavalos e combates com os índios, como se o Far-West fosse um dos seus temas favoritos!jim-west-ilustrac3a7c3a3o0011

Mas a extensão da novela, muito acima da média, afastou momentaneamente das páginas da revista dois dos seus principais colaboradores literários: Lúcio Cardador e Orlando Marques, cujo regresso teria de aguardar mais algumas semanas. Talvez alguns leitores lamentassem a sua ausência, mas a larga maioria não devia queixar-se, pois poucas vezes O Mosquito publicara uma novela tão em- polgante como “Aventuras de Jim West” e, ainda por cima, magistralmente ilustrada. De futuro, essa fórmula iria tornar-se mais duradoura com o advento de um novo escritor, José Padinha, dotado de original veia criativa, e o regresso de um outro que já dera provas de sobejo talento na fase anterior, de formato maior: Roberto Ferreira.

No nº 379, de 10/2/1943, era dado especial destaque a outra eloquente resposta do Avozinho ao “Poeta Vagabundo”, por causa do seu pedido de “madrinhas de guerra”, numa página ilustrada a preceito por E. T. Coelho, com um friso de gentis raparigas.

mosquito-a-propc3b3sito-de-uma-cartaNo nº 381, uma breve nota anunciava o falecimento de Sérgio Luiz, jovem desenhador cheio de talento que começara tempos antes a fazer carreira n’O Papagaio, tal como seu irmão Güy Manuel, que a morte havia de arrebatar também, seis meses depois. Pelo punho de Raul Correia (embora a nota não estivesse assinada), O Mosquito lamentava esse desaparecimento, em tom de comovida homenagem, referindo-se àquele que fora seu colaborador ocasional como “um irmão de armas, um espírito gentilíssimo (…) que continuará a viver sempre entre nós, na nossa memória e na nossa saudade, pela sua obra tão breve quanto luminosa”.

No nº 382, de 20/2/1943, chegou ao fim a curta aventura “Um Detective de 15 Anos”, ilustrada por Arthur Mansbridge, para dar lugar no número seguinte a outra história de origem inglesa, “Nas Montanhas da Índia”, de um autor desconhecido, cujo traço elegante e minucioso fazia boa figura ao lado das magníficas criações de Henry M. Brock, Hilda Boswell e Thomas Heath Robinson, que O Mosquito continuava, com grande êxito, a publicar

mosquito-379 e 380mosquito-381 e 382mosquito-383 e 384mosquito-aventuras-de-jim-west-62mosquito-aventuras-de-jim-west-7mosquito-aventuras-de-jim-west-83mosquito-aventuras-de-jim-west-91mosquito-um-detective-de-15-anos-3mosquito-nas-montanhas-da-Índia 4mosquito-capitão-ciclone 1mosquito-ao-serviço-da-leimosquito-o-mistério-da-sala-13