CANTINHO DE UM POETA – 35

Para variar do tom lírico, mostrando desta feita o jeito humorístico de Raul Correia (vulgo Avozinho), eis mais uma composição poética com fundo moralista, onde os seus atentos e fiéis leitores d’O Mosquito — e mais tarde do Jornal do Cuto (estes já mais crescidotes) — podiam colher sábios e proveitosos ensinamentos.

A ilustração tem o cunho habitual e a assinatura de José Batista (Jobat), e a rubrica — de presença obrigatória no Jornal do Cuto, reflectindo a enorme admiração que Roussado Pinto sentia pelo seu velho mestre e amigo, desde os tempos em que tinham trabalhado juntos n’O Mosquito — apareceu no nº 29, de 19/1/1972.

E. T. COELHO E A PÁSCOA

Com esta ilustração da autoria de E.T. Coelho — cujo traço é perfeitamente reconhecível, apesar de estar longe da perfeição a que habituara os leitores d’O Mosquito —, O Pimpão, efémera revista juvenil criada em 18/10/1955, assinalou a Páscoa de 1956 e a sua penúltima semana de vida, pois extinguiu-se, para não mais ressuscitar, ao fim de 18 números.

Mas teve o mérito de publicar nas suas páginas, sob a direcção de Maria D. Nascimento da Silva, histórias ilustradas por artistas europeus de excelente craveira, como Calvo (Coquin e os Seus Amigos da Floresta), Jean Cézard (Yak, Caçador de Leões), Rino Albertarelli (Traição no Alto Mar), Harry Farrugia (Memórias do Inspector James), Patrick Nicolle (Os Cavaleiros da Távola Redonda), Mike Western (John Silveira, Piloto) e outros.

Foi também n’O Pimpão que Raul Correia (sob a capa do Avozinho) regressou, por breves semanas, às lides da literatura juvenil, depois de se ter despedido dos seus fiéis leitores em Fevereiro de 1953, no último número d’O Mosquito. E só ressuscitaria pela segunda vez — para ser alvo, como E.T. Coelho, Jesús Blasco e Vítor Péon, de merecida homenagem —, quando Roussado Pinto lançou o Jornal do Cuto, 15 anos depois.

CANTINHO DE UM POETA – 34

Eis neste cantinho mais uma parábola moral de Raul Correia, com a lírica inspiração de Esopo… e do Avozinho — cujo nome era venerado pelos leitores d’O Mosquito como o de um velho mestre que os guiava, com palavras amenas e versos luminosos, pelos caminhos do bem, da verdade, do prazer, da beleza e da sabedoria.

O Jornal do Cuto publicou estes versos no nº 26, de 29/12/1971, devidamente ilustrados, como era hábito, por um dos seus melhores colaboradores: José Batista (Jobat).

O 1º ANIVERSÁRIO D’O MOSQUITO

mosquito-52-capa-289Nascido em 14 de Janeiro de 1936, com oito páginas (e apenas duas delas a cores, a capa e a contracapa), modesto no seu aspecto e quiçá nas suas ambições, O Mosquito foi, no entanto, o jornal dessa época que mais cativou os leitores infanto-juvenis, destronando toda a concorrência ao conquistar o valioso ceptro de “semanário infantil português de maior tiragem”, pois oferecia no seu sumário emoção, aventura e fantasia a rodos, pelo traço de excelentes artistas estrangeiros (como Walter Booth, Reg Perrott, José Cabrero Arnal, Arturo Moreno e outros), e pela sugestiva prosa de um talentoso escritor, o seu director literário e editor Raul Correia, cuja veia poética rivalizava com a de novelista, sob o carinhoso, lírico e enigmático heterónimo de Avozinho.

Com estes trunfos, aliados ao saber e à experiência nas artes gráficas de António Cardoso Lopes Jr. (o outro fundador e director d’O Mosquito, mais conhecido pelo seu nome artístico, Tiotónio, autor da famosa dupla Zé Pacóvio e Grilinho), o pequeno “insecto” de papel voou cada vez mais alto, acabando por perder de vista os seus competidores, que no final dessa década já estavam reduzidos a uma pequena hoste, de que faziam parte O Senhor Doutor e O Papagaio, de aspecto mais vistoso mas menos aptos a conquistar o coração dos leitores.

Em homenagem ao glorioso voo d’O Mosquito, que por “ares e ventos” chegou ao mais alto pódio da BD portuguesa, recordamos o editorial do nº 52, de 7 de Janeiro de 1937, publicado na secção de correspondência, uma das mais apreciadas pelos leitores, onde o estro literário de Raul Correia brilhava tanto como o de humorista. Foi dessa forma que O Mosquito celebrou a passagem do seu 1º ano de vida (uma semana antes da data oficial de nasci- mento), modestamente como era lema dos dois homens simples que o tinham criado.

CANTINHO DE UM POETA – 30

Mais um poema em prosa com o cunho inconfundível de Raul Correia (o saudoso Avozinho d’O Mosquito), que o Jornal do Cuto reeditou no seu último número natalício (#172, de 1/12/1977), ilustrado a preceito por Carlos Alberto Santos, principal colaborador artístico de outro grande pioneiro da BD portuguesa, Roussado Pinto, naquele que foi um dos seus últimos e mais ambiciosos projectos editoriais — onde a lira poética do Avozinho e o estro literário de Raul Correia renasceram das cinzas do passado.

CANTINHO DE UM POETA – 21

Cantinho de um poeta 21 286

Eis um dos mais sugestivos poemas de Raul Correia que já apresentámos nesta rubrica, repassado da mesma pungente saudade e melancolia, e da mesma perfeita beleza, que tornaram inesquecíveis para toda uma geração os versos do Avozinho.

A lírica inspiração, a métrica rigorosa, o domínio dos temas e das emoções, mesmo quando parecem extravasar a própria forma, o tom íntimo e lamentoso e triste, mas também expansivo e alegre noutros momentos em que deixou o humor fluir a par das rimas mais sentidas, são as principais qualidades de um poeta que já se julgava fora do seu tempo, mesmo quando fazia versos que eram lidos e decorados com autêntica devoção pelos fiéis admiradores do mítico Avozinho d‘O Mosquito.

Ilustrado como habitualmente por José Batista (Jobat), este poema apareceu no Jornal do Cuto nº 76, de 16/12/1972, onde se anunciava a saída de um livro de Raul Correia intitulado “Meus Versos… Maus Versos” (!), assim que Jobat acabasse a capa.

HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 7

Avô Raul capa

VII

Assim se passaram os quase três anos seguintes, sem mais sobressaltos, até uma manhã de sábado, dia 1 de Maio de 1984. A minha mãe estava, na altura, a fazer uma tradução para um cliente francês, juntamente com a irmã “Bijéu”, na casa dos seus sogros, que, por sinal, viviam também na Rua Carlos Mardel. Quando chegámos ao portão, a minha tia, de expressão acabrunhada, caminhou na nossa direcção… e percebi que alguma coisa se passava. Disse-nos que a avó Teresa tinha morrido de manhã, na cama. Uma veia no seu cérebro rebentara. Ainda foi levada de ambulância para o hospital, já sem vida, com o meu avô ao seu lado. Tinha morrido rapidamente, sem sofrimento.  

Fomos para casa da minha tia Adelaide e lembro-me – como num sonho – de atravessar o corredor em direcção ao seu quarto e parar à porta… O meu avô estava sentado na cama, de cabeça baixa; sentiu-me entrar e olhou para mim… Nunca tinha visto tanta tristeza na expressão de alguém. Não fui capaz de lhe dizer nada e voltei para trás… De repente, “acordei”. A minha avó tinha morrido. A primeira cara que vi foi a da minha prima “Bibi”, que chorava no corredor e, apesar da sua própria tristeza, por saber o quanto eu era ligado à nossa avó, me disse “não chores”.

A avó que eu pensava viver para sempre, que me adormecia com histórias, me ia levar e buscar à escola e me concedia todos os pedidos, já não estava por ali. E se eu me sentia assim, como se sentiria o meu avô…

Nesse dia, tudo mudou. Para mim, foi o fim da primeira “parte” da minha vida. Para o meu avô, foi tão só o começo do fim. Rasgou o seu bilhete de identidade e disse que Deus o tinha traído. Não é preciso dizer mais nada.

Dois meses antes de ter morrido – como se já soubesse –, a minha avó tinha escrito uma carta de despedida, que entregou à minha tia, pedindo-lhe que o meu avô nunca a lesse. Nessa carta, pedia-lhe também que “olhasse por mim”.

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A vida continuou, menos bem.

A primeira vez que o meu avô foi sozinho receber a pensão ao Banco, o empregado, ao vê-lo entrar sem a minha avó e depois de saber o que tinha acontecido, disse-lhe que sempre o impressionara o amor e a amizade que transpareciam entre os dois. Estou a falar de uma pessoa que os via uma vez por mês, durante uns minutos…

Lembro-me do lugar vazio à mesa e do olhar vago do meu avô. Por vezes, durante o almoço, olhava para a cadeira desocupada e chorava.

Apesar de tudo, por saber o quanto a minha avó gostava de mim, o meu avô transferiu para si a “tarefa” de olhar por mim. Uma vez, a minha mãe foi sair e eu fiquei à espera dela em casa da minha tia; quando voltou para me vir buscar, tinha o meu avô à sua espera, muito zangado, porque já era muito tarde e eu tinha de descansar! Era meia-noite e eu tinha 16 anos, mas para ele, eram cinco da manhã e eu tinha 6 anos.

Em certos momentos, poucos, parecia-me que queria ultrapassar a avassaladora realidade, mas a tristeza era esmagadora, demasiado pesada para ele. Começou lentamente a ficar curvado e ficava longos momentos em silêncio, como se já não estivesse ali. De certa forma, já não estava. Dez meses depois, com a alma completamente sangrada, desistiu de viver. No dia 13 de Março de 1985, deitou-se na cama e ali ficou três dias sem comer e beber, aguardando o momento que sabia estar a chegar. No dia 15, deixou o mundo dos vivos e reuniu-se para sempre com a sua Maria Teresa.

Obrigado a ambos por tudo o que me deram, até sempre! Gosto de pensar, que de alguma forma, continuam a olhar por mim…

Alexandre Correia Gonçalves  

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Nota: Termina assim a publicação de uma série de artigos, recheados de curiosos factos da vida familiar de Raul Correia (o inesquecível Avozinho), em homenagem à sua memória (por tudo o que legou aos seus leitores, particularmente aos d’O Mosquito), à sua personalidade de homem de letras e de cultura e à sua obra vasta e multifacetada.

Renovamos os nossos agradecimentos ao seu neto Alexandre Correia Gonçalves por nos ter generosamente facultado este precioso testemunho biográfico, com várias fotos e documentos inéditos, cuja publicação muito honra e prestigia O Voo d’O Mosquito.