ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 10

orlando-marques-2Temos o prazer de apresentar nesta rubrica um conto de Orlando Jorge B. Marques, um dos mais apreciados novelistas d’O Mosquito, onde se estreou em 1940 como colaborador da página dos leitores, alcandorando-se rapidamente a um lugar de destaque, entre autores consagrados como Raul Correia (que sempre considerou o seu grande mestre), Fidalgo dos Santos, Roberto Ferreira (Rofer), Lúcio Cardador (este oriundo também da página dos leitores, mas com alguns meses de antecedência) e, mais tarde, José Padinha. Embora de temática policial, “Bill Dempsey, o “Gangster” é um dos primeiros contos em que Orlando Marques recriou um cenário puramente natalício — como faria posteriormente em muitos outros trabalhos, dispersos por revistas juvenis em que colaborou assiduamente, como O MosquitoO PlutoO Faísca e o Mundo de Aventuras (1ª e 2ª séries).

Para os leitores que admiravam o seu estilo e apreciavam os seus enredos, tornou-se um hábito (ou mesmo uma tradição) desfrutar na quadra mais festiva do ano, entre outros presentes ansiosamente aguardados, um conto natalício de Orlando Marques. Convidamos-te, pois, leitor amigo, a “saborear” também esta pequena jóia do passado, que espelha inequivocamente o talento literário de um prolífico novelista popular e a profunda humanidade que sabia imprimir aos seus temas e às suas personagens, sobretudo quando o pano de fundo era aquela época especial que, desde a aurora do cristianismo, faz vibrar de emoção, de felicidade, de esperança e de amor ao próximo, os espíritos, iluminados pela Fé, de todos os homens de boa vontade.

Nota: este conto foi originalmente publicado n‘O Mosquito nºs 366 e 367 (26/12 e 30/12/1942), mas a versão aqui apresentada foi extraída do Jornal do Cuto nº 25 (22/12/1971). As ilustrações são de um ainda jovem E. T. Coelho, cuja carreira n’O Mosquito se iniciara pouco tempo antes.

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ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 9

O ENGANO DE WILL ARBLASTER (por F. R. Buckley)

Mosquito 887Frederick Robert Buckley, ou F. R. Buckley (1896-1976), é o nome de um escritor americano (mas natural de Inglaterra) que nada dirá à maioria dos visitantes deste blogue, embora não seja totalmente desco- nhecido dos leitores d’O Mosquito, pois foi autor de um conto de Natal traduzido por Raul Correia, no nº 887, de 24/12/1947 (com outra bela capa de E. T. Coelho).

É curioso, e talvez até um pouco insólito, associar o espírito natalício a uma história de cowboys, no sentido mais verídico e realista do tema, mas não foi caso único, pois outro escritor americano mais famoso, com o pseu- dónimo de O. Henry, fê-lo frequentemente, recorrendo ao mesmo assunto quando a inspiração assim o ditava.

The Saturday Evening Post (Christmas) aparadoNo caso de F. R. Buckley, o seu conto — que agora recuperámos das páginas d’O Mosquito, a pretexto desta quadra natalícia e como homenagem a dois nomes que têm estado sempre presentes no nosso blogue, os de Raul Correia e Eduardo Teixeira Coelho — tem ainda a curiosidade de ter sido apresentado na revista muito tempo antes da estreia da rubrica Antologia de Contos de Acção, onde foram publicadas muitas histórias do género, algumas de reputados novelistas, na sua maioria norte-americanos (como Jack London, Ernest Haycox, Johnston Mac Culley, James Warner Bellah, C. E. Mulford, Max Brand e o próprio O. Henry), que Raul Correia traduziu e adaptou com o seu habitual primor literário.

Noventa por cento desses contos eram oriundos (como já tivemos ocasião de referir num post anterior) de um popular magazine americano, The Saturday Evening Post, a que Raul Correia devia ter fácil acesso devido à sua ligação, como gerente comercial, ao Hotel Avenida Palace, frequentado por muitos estrangeiros. Daí também o seu conhecimento de vários idiomas, entre eles o inglês, que falava e escrevia correctamente.

Argosy (F.RDe qualquer modo, mesmo que a origem das suas “fontes” fosse outra, o que importa frisar é a grande quantidade e variedade de contos de aventuras que seleccionou e traduziu para essa rubrica — iniciada, ainda sem título, no nº 1032 —, e que já anteriormente tinham começado a aparecer n’O Mosquito, embora de forma dispersa, para preencher uma lacuna quando o principal novelista de “serviço”, Orlando Marques, estava ausente, como foi o caso de “O Engano de Will Arblaster”, da autoria de F. R. Buckley.

Refira-se, a título de curiosidade, que este novelista era um apaixonado pelos temas do velho Oeste, mas também abordou com frequência outros géneros, como o swashbuckling (aventuras históricas e de capa e espada), em revistas de larga tiragem como Argosy e Adventure, dois célebres pulp magazines que se publicaram, sobretudo o primeiro, durante muitas décadas. A preferência por esses temas devia-se, sem dúvida, ao seu currículo como argumentista e assistente de realização, nos tempos heróicos do cinema mudo.

Adventure - 4E. T. Coelho fez duas ilustrações para este conto, com um traço mais espesso e sombrio do que era habitual e que nos traz à memória os seus primeiros trabalhos, num vigoroso e aliciante preto e branco, para revistas tão emblemáticas como O Senhor DoutorEngenhocas e O Mosquito. Só um pouco mais tarde, fruto de uma rápida e magistral evolução, daria preferência ao uso do aparo e às linhas de contornos suaves e de textura luminosa, cujo contraste com a técnica do pincel era flagrante.

Aqui fica, pois, reproduzido directamente de um número especial d’O Mosquito, alusivo ao Natal de 1947, o emotivo conto de F. R. Buckley (cujo título original desconhecemos), que revive com mestria o cenário turbulento do Oeste americano, num tempo em que os jovens pistoleiros sem escrúpulos como Will Arblaster não ligavam muita importância ao espírito e aos festejos natalícios. Até conhecerem uma nova realidade, num final digno de O. Henry.

Para visionar melhor estas páginas, basta clicar sobre elas duas vezes, ampliando-as ao máximo. Boa leitura e até à próxima… (Atenção ao aviso no fim deste post).

AVISO IMPORTANTE: POR MOTIVOS IMPREVISTOS, QUE MUITO LAMENTAMOS, ESTE E OS OUTROS BLOGUES DA “LOJA DE PAPEL” VÃO FICAR TEMPORARIAMENTE SUSPENSOS. VOLTAREMOS AO VOSSO CONTACTO LOGO QUE NOS FOR POSSÍVEL.

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 8

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (4) – por O. Henry

Resumo: Depois de cumprir uma pena curta por roubo, Jimmy Valentine decide aparentemente regressar ao bom caminho, seguindo o conselho do director da prisão.

Mas os roubos sucedem-se, deixando vazios os cofres de alguns bancos, e as suspeitas do detective Ben Price voltam a cair sobre Jimmy — que, entretanto, ao chegar à cidade de Elmore, foi atingido certeiramente pela flecha de Cupido e está prestes a desposar a encantadora Annabel Adams, filha de um próspero banqueiro local.

 Nota: depois do texto, com tradução de Raul Correia, publicado n’O Mosquito nºs 1038 e 1039, em Junho de 1949, apresentamos as duas últimas páginas da brilhante adaptação gráfica deste conto, realizada pelo artista americano Gary Gianni e dada à estampa, em 1990, num volume da colecção Classics Illustrated (publicado também no Brasil). Os nossos leitores poderão, assim, cotejar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares), do mesmo tema.

O Henry - O destino de J Valentine   003

IV

 MR. ADAMS, ra­diante de satisfação, explicava a manobra do cofre a Mr. Ralph Spencer, que lhe prestava uma atenção superficial e não muito compreensi­va. As duas pequenitas, May e Agatha, esta­vam encantadas com o brilho dos cromados e a leveza dos fechos, que lhes pareciam brin­quedos.

Ora, enquanto o alegre grupo assim con­versava, Ben Price entrou no Banco e encostou-se a uma ombreira, olhando distraida­mente em volta. A um empregado que se lhe dirigiu, o detective respondeu que não queria nada, que estava só à espera de uma pessoa sua conhecida.

E, de repente, ouviram-se dois gritos femini­nos e houve uma comoção geral. Sem que ninguém tivesse dado por isso, May, a mais velha das duas pequenitas, tinha empurrado Agatha para dentro da casa-forte, e empur­rara as portas — tão leves quanto sólidas — e dera volta ao fecho… que uma só mão po­dia manobrar!…

O velho banqueiro, muito pálido, precipitou-se, mas não chegou a tempo! Num gesto instintivo tentou abalar as portas… Depois, num murmúrio rouco, disse:

— As… as por­tas não podem abrir-se! Não se coordenou… a… a combinação com o relógio!

A mãe de Agatha soltou um brado doloro­so e agudo. Mr. Adams aproximou-se outra vez da porta e gritou, com uma voz que tremia:

— Agatha! Agatha!… Por favor, calem-se, deixem-me ouvir! Agatha! Ouves-me?

No silêncio que se seguiu, puderam distinguir-se os ecos sumidos dos gritos de pavor da pequenita, fechada lá dentro, na escuridão da casa-forte.

A mãe soluçava. — Por Deus! Ela vai mor­rer de medo! Abram a porta! Oh! Abram essa porta! Por favor! Ninguém pode fazer nada? Oh! Por favor!

— Só… só em Little Rock é que há um ho­mem capaz de abrir isto… se for!… — disse o velho Adams, em voz rouca. — Meu Deus! Que fazer, Spencer? Não haverá tempo para ir buscar esse homem! A pequenita vai morrer sufocada ou em convulsões de medo, antes que seja possível salvá-la!

A mãe de Agatha, como doida, batia com ambas as mãos nas portas da casa-forte. Hou­ve alguém que falou em dinamite… Annabel voltou-se para Jimmy, com um brilho de angústia no olhar. Mas sentia-se que ainda tinha uma esperança… porque, para uma mu­lher que ama, nada lhe parece existir que não possa ser feito pelo homem a quem ama.

— Ralph! Não poderás fazer alguma coisa? Oh! Tenta, Ralph!

Ele olhou-a, e nos seus lábios como nos seus olhos havia uma espécie de estranho sorriso.

— Annabel… — disse ele… — Queres dar-me essa rosa que tens na tua blusa?

Annabel fitou-o com um profundo espanto, acreditando que não tinha ouvido bem. Mas desprendeu a rosa que tinha na blusa e pô-la na mão dele. Jimmy guardou a flor na algi­beira do colete, despiu o casaco, arregaçou as mangas da camisa… e, com esse gesto, Mr. Ralph D. Spencer desapareceu, para lugar a Jimmy Valentine.

— Afastem-se dessa porta, todos vocês!… — ordenou ele numa voz seca e autoritária, que não admitia réplica.

Apanhou a sua maleta, colocou-a em cima de uma secretária e abriu-a. Parecia incons­ciente da presença de toda aquela gente à sua volta. Assobiando baixinho, como sempre fazia enquanto «trabalhava», dispôs as ferramentas em ordem. Os outros olhavam-no quase sem respirar, como sob um encantamento.

Em menos de um minuto, um dos rebrilhan­tes utensílios de aço começou a «morder» a espessa e sólida chapa de metal. Em dez mi­nutos — batendo todos os seus próprios recordes «profissionais» — Jimmy Valentine deu volta aos fechos de segredo e abriu as portas da casa-forte.

Agatha, quase desmaiada mas sã e salva, foi recolhida nos braços da mãe.

Jimmy Valentine baixou as mangas da camisa, guardou as ferramentas na maleta, ves­tiu o casaco e encaminhou-se para a saída do Banco, sem olhar para ninguém. Pareceu-lhe ouvir uma voz trémula, uma voz que bem co­nhecia, chamar: — Ralph!… Mas não se vol­tou nem afrouxou o passo.

À porta, o vulto de um homem alto e forte obstruía a passagem.

— Hello, Ben!… — disse Valentine, ainda com o seu estranho sorriso. — Por fim, sem­pre cá chegou, hein? Bom, vamos andando! Agora o caso não tem a mais pequena importância para mim!…

— Creio que está enganado, Mr. Spencer! Não me lembro de o ter encontrado antes, em parte nenhuma! Parece-me que tem o seu car­ro à espera, Mr. Spencer! Não é? Pois muito boa viagem!…

E Ben Price, voltando-se, afastou-se em passo largo ao longo da rua…

F I M

A Regeneração - 8 e 9

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 7

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (3) – por O. Henry

Resumo: Depois de sair da prisão, onde cumpriu uma pena curta por roubo, Jimmy Valentine, cuja habilidade como arrombador de cofres faz dele o suspeito nº 1 do detective Ben Price, decide aparentemente regressar ao bom caminho, dedicando-se a outras actividades.

Mas os roubos sucedem-se, deixando vazios os cofres de vários bancos, e as suspeitas de Ben Price voltam a recair sobre Jimmy — que, entretanto, ao chegar à cidade de Elmore, foi alvejado certeiramente pela flecha de Cupido…

Nota: Além do texto, com tradução de Raul Correia, publicado n’O Mosquito nºs 1037 e 1038, em Junho de 1949, apresentamos mais três páginas da brilhante adaptação gráfica deste conto, realizada pelo artista norte-americano Gary Gianni (a sua obra de estreia na BD) e dada à estampa, em 1990, num volume da colecção Classics Illustrated. Os nossos leitores poderão, assim, cotejar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares), do mesmo tema.

O Henry - O destino de J Valentine   003

III

JIMMY DIRIGIU-SE ao Planter’s Hotel, pediu um quarto e deu o nome de Ralph D. Spen­cer. Encostado ao balcão, conversou com o empregado, contando-lhe a sua história. Declarou que era um comerciante e industrial, farto da vida das grandes cidades, e que vie­ra a Elmore em busca de uma oportunidade para instalar um negócio. Tinha pensado numa sapataria… Que tal era o movimento comercial em Elmore? Haveria probabilida­des para o negócio de calçado?

Impressionado pela elegância e boas manei­ras de Jimmy, o empregado do Hotel pôs-se inteiramente à sua disposição. Ele próprio era uma espécie de árbitro de elegâncias den­tro do pequeno âmbito da cidadezita, mas à vista de Valentine compreendeu imediata­mente as suas insuficiências. E, enquanto analisava com imensa atenção o perfeito nó de gravata do hóspede, abriu-se em informações detalhadas.

Sem dúvida, na sua opinião, o negócio de calçado podia oferecer perspectivas muito boas. Não havia nenhum estabelecimento da especialidade em Elmore. Eram os armazéns gerais e os fanqueiros que vendiam sapatos à população… De resto, todo o movimento comercial da cidade prometia um futuro interessante. Esperava que Mr. Spencer gostasse da terra e ali se estabelecesse. Elmore era uma cidade agradável para se viver, e a população muito hospitaleira e so­ciável.

Mr. Spencer declarou que ficaria ali por alguns dias, pelo menos, para observar a si­tuação. Não, não era preciso chamar o rapaz para levar a mala. Ele mesmo a levaria.

— É um bocado pesada, sabe? Não se in­comode!…

Mr. Ralph Spencer — a fénix que surgira das cinzas de Jimmy Valentine, cinzas deixadas por uma súbita e violenta labareda de amor à primeira vista — fixou-se em Elmore e prosperou. Alguns meses depois da sua che­gada à cidade, a loja de calçado fazia um mo­vimento dos mais interessantes, e tinha tanta clientela quanta poderia desejar-se.

Do ponto de vista social, Mr. Spencer tam­bém conseguira um êxito completo. Contava apenas amigos. E o desejo do seu coração ti­nha sido realizado, porque fora apresentado a miss Annabel Adams e sentia-se cada vez mais enfeitiçado pelos seus encantos.

Regeneração 5Ao cabo de um ano, a posição de Mr. Ralph Spencer era a seguinte: tinha conquistado a estima e o respeito da comunidade, a sua loja era a mais próspera de Elmo­re, e ele e miss Annabel haviam combinado o casamento para daí a duas semanas. Mr. Adams, um simples, franco e característico banqueiro de cidade provinciana, aprovava plenamente a escolha feita por sua filha. Miss Annabel tinha pelo noivo um orgulho que qua­se igualava o afecto que lhe dedicava. E Mr. Spencer estava em casa dos Adams, ou em casa da irmã de Annabel, que era casada, tão à vontade como em sua própria casa. To­dos o consideravam como se ele já pertencesse, de facto, à família. Ora uma tarde, fechado no seu quarto, Jimmy sentou-se em frente da secretária e escreveu a seguinte carta, que endereçou para a morada de um velho amigo, em St. Louis:

«Caro camarada, preciso que venhas à locanda do Sullivan, em Little Rock, na próxima quarta- -feira, às nove horas. Quero pedir-te para te encarregares de umas coisas do meu interesse. Ao mesmo tempo, tenho um presente para ti, que é a minha colecção de ferramentas. Sei que gostarás de ficar com ela, e nem por um milhar de dólares poderias arranjar outra igual.

Bem vês, eu retirei-me dos velhos negócios há um ano. Tenho uma loja, estou resolvido a fazer a vida de um homem honesto, e daqui a duas semanas vou casar com a rapariga mais bonita e decente que há neste mundo. Não há vida melhor do que esta, uma vida às direitas. Agora não seria capaz de tocar num cêntimo que não fosse meu, nem por um milhão de dólares. Depois de casar, vendo a loja e vou para o Oeste, onde não haja tanto risco de ver o meu passado cair-me, de repente, em cima.

Digo-to eu, Billy, ela é um verdadeiro anjo. Tem confiança em mim e por nada deste mundo eu deixaria de merecer essa confiança. Não deixes de estar no Sullivan’s, quarta-feira, porque preciso muito de falar contigo. Nessa altura, levo as ferramentas.

Teu velho camarada, Jimmy»

Na segunda-feira da semana seguinte ao dia em que Jimmy escreveu esta carta, Ben Price chegou discretamente a Elmore, num carro puxado por cavalos. Circulou pela cidade sem dar nas vistas, à sua maneira, e obteve todas as informações que queria obter. Através da montra de um Bar que havia em frente da loja de calçado, ele pôde observar Mr. Ralph Spen­cer à sua vontade.

— Com que então o Jimmy vai casar com a filha do banqueiro da terra!… — disse Ben Price para os seus botões. — Hum! Não é coisa muito certa, esse casamento!…

Na manhã de terça-feira, Jimmy almoçou em casa dos Adams. Ia partir para Little Rock antes da tarde, para tratar do seu fato de ca­samento e também para comprar uma prenda bonita para Annabel. Era a primeira vez que saía da cidade, depois da sua chegada a Elmore. Tinha decorrido mais de um ano sobre a sua última proeza «profissional», e ele pensava que não haveria grande risco na viagem.

Depois do almoço, foi um alegre grupo fa­miliar que saiu para a rua: Mr. Adams, Annabel, Jimmy e a irmã casada de Annabel, com as suas duas filhinhas, uma de cinco anos e outra de nove. Passaram pelo Hotel, onde Jimmy estava ainda instalado, e ele su­biu ao quarto para ir buscar a sua maleta. Daí foram ao Banco, perto do qual estava a caleche e o cocheiro que haviam de transportar Jimmy à estação de caminho-de-ferro.

Era cedo ainda e entraram no Banco. Jim­my também, como era natural, tanto mais que o futuro genro de Mr. Adams era bem-vindo em toda a parte. Os empregados do Banco apreciavam a companhia e a conversa do elegante e simpático rapaz que ia casar com a filha do patrão. Jimmy pousou a ma­leta no chão, enquanto esperavam.

Então, Annabel, que tinha a alegria e a vivacidade das pessoas que se sentem comple­tamente felizes, pôs o chapéu de Jimmy na cabeça e pegou na maleta.

— Não é verdade que pareço mesmo um homem de negócios?… Oh! Como a tua maleta é pesada, Ralph! Parece que está cheia de barras de ouro!…

— Uma porção de formas de metal que vou devolver — explicou Jimmy, tranquilamente. — Aproveito a viagem e poupo dinheiro no transporte! Estou a tornar-me económico a valer!…

O Banco de Elmore tinha justamente insta­lado, dias antes, um novo cofre e uma casa-forte. Mr. Adams, que se sentia orgulhoso daqueles melhoramentos, insistiu para que todos fossem ver. A casa-forte era pequena, mas tinha uma fechadura que se fechava por um processo moderno e patenteado. Um sim­ples fecho, que se podia manobrar com uma só mão, cerrava simultaneamente três fecha­duras de aço. Tudo aquilo era de uma leveza e, ao mesmo tempo, de uma solidez absolutas. Bastava conhecer o mecanismo e preparar a manobra do «segredo», o que se fazia coorde­nando uma espécie de movimento de relógio com a combinação dos fechos.                                                                                   (continua)Regeneração 6 e 7

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 6

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (2) por O. Henry

Resumo: Depois de sair da prisão, onde passou apenas alguns meses, Jimmy Valentine, um notório ladrão de bancos, que a polícia tinha debaixo de olho por causa da sua extrema facilidade em arrombar qualquer tipo de cofres, regressa ao seu quartel-general para reaver as “ferramentas” do ofício escondidas numa maleta.

Apesar dos conselhos do director da penitenciária, Jimmy está disposto a retomar sem demora a sua lucrativa profissão. Mas o destino vai trocar-lhe as voltas… e as intenções de Mr. Valentine tomarão repentinamente um rumo mais honesto.

O Henry - O destino de J Valentine   003

II

UMA SEMANA depois da libertação de Valentine, deu-se um caso de ar­rombamento de cofre em Richmond, Estado de Indiana, sem que fos­se possível encontrar a mais pequena pista quanto ao autor da proeza. Desaparece­ram uns simples oitocentos dólares. Duas se­manas mais tarde, foi a vez da cidade de Logansport, onde um cofre à prova de fogo, de roubo, de inundações e de outras coisas ainda, foi aberto como se não passasse de uma vulgar melancia. Sumiram-se mil e qui­nhentos dólares em notas. Documentos e jóias ficaram onde estavam. Nesta altura, o caso co­meçou a interessar vivamente a polícia. En­tão, um outro cofre, num Banco em Jefferson City, entrou em actividade e expulsou das en­tranhas uma pequena avalanche de notas: cinco mil dólares foi o total apurado.

As perdas começavam a ser bastante gran­des para que o assunto entrasse na esfera de acção do detective-chefe Ben Price. Compa­rando apontamentos, notou-se uma flagrante semelhança de métodos entre os vários rou­bos. Ben Price procedeu a investigações nos próprios locais, e houve quem o ouvisse di­zer:

— Isto tem a assinatura de Jimmy Valen­tine! Portanto, ele voltou ao ofício! Só ele se­ria capaz de abrir um cofre desta maneira! Nunca faz mais do que um orifício nas cha­pas… Um artista! Bem, parece-me que tenho de me pôr outra vez em busca do elegante Valentine… e quando o apanhar há-de cum­prir a pena por inteiro, sem tolices de comu­tações e maroteiras desse género! Um artista perigoso, é o que é! Os cofres mais compli­cados não passam de caixas de charutos para ele!… Um artista!…

Ben Price conhecia os hábitos de Jimmy Valentine, porque os tinha estudado quando se ocupara do caso de Springfield. Operava em lugares distantes uns dos outros, desapa­recia como fumo, não tinha nunca cúmplices e gostava de se relacionar com gente impor­tante — uma das razões porque era difícil apanhá-lo ou segurá-lo na cadeia por muito tempo.

Quando correu a notícia de que Ben Price se ocupava do caso, os outros possuidores de cofres-fortes começaram a respirar mais à vontade.

Ora, uma tarde, Jimmy Valentine e a sua maleta desceram da malaposta do correio em El­more, uma pequena cidade a cinco milhas do mais próximo caminho-de-ferro, perdida na região central do Estado de Arkansas. Jimmy, com o aspecto desportivo de um atleta universitário, atravessou a rua e encaminhou-se para o Hotel.

Uma rapariga elegantemente vestida cruzou-se com ele no caminho e entrou num edi­fício em cuja fachada se lia o nome de «Banco de Elmore». Jimmy Valentine olhou para ela, viu num relance o brilho de uns olhos gran­des e risonhos… e a partir daquele instante esqueceu-se de quem era. Tornou-se, de repente, um outro homem. Ela reparou nele e corou ligeiramente. Os rapazes com o aspecto e a elegância de Jimmy Valentine não abun­davam em Elmore…

Jimmy parou e chamou um garoto que es­tava sentado à porta do Banco como se fosse um dos accionistas. Deu-lhe uma moeda e começou a fazer-lhe perguntas sobre a cidade, e mais isto e mais aquilo… Passou um bo­cado, e eis que a rapariga sai… e finge que não repara em Jimmy, e segue o seu cami­nho.

— Oh!… — exclamou Valentine. — Ia jurar que é miss Polly Simpson!

— Nada disso!… — logo explicou o garo­to. — É miss Annabel Adams, filha do dono deste Banco! O senhor o que é que vem fazer cá para a terra? Olhe lá, a sua corrente de relógio é mesmo de oiro? Sabe? Vou ter um bulldog pequenino, que me dá o Bill! É ca­tita! Não tem aí mais moedas?

Jimmy dirigiu-se ao Planter’s Hotel, pediu um quarto e deu o nome de Ralph D. Spen­cer. Encostado ao balcão, conversou com o empregado, contando-lhe a sua história. Declarou que era um comerciante e industrial, farto da vida das grandes cidades, e que vie­ra a Elmore em busca de uma oportunidade para instalar um negócio. Tinha pensado numa sapataria… Que tal era o movimento comercial, em Elmore? Haveria probabilida­des para o negócio de calçado?

Impressionado pela elegância e boas manei­ras de Jimmy, o empregado do Hotel pôs-se inteiramente à sua disposição. Ele próprio era uma espécie de árbitro de elegâncias den­tro do pequeno âmbito da cidadezita, mas à vista de Valentine compreendeu imediata­mente as suas insuficiências. E, enquanto analisava com imensa atenção o perfeito nó de gravata do hóspede, abriu-se em informações detalhadas.

Sem dúvida, na sua opinião, o negócio de calçado podia oferecer perspectivas muito in­teressantes. Não havia nenhum estabeleci­mento da especialidade, em Elmore. Eram os armazéns gerais e os fanqueiros que vendiam sapatos à população… De resto, todo o mo­vimento comercial da cidade prometia um futuro interessante. Esperava que Mr. Spencer gostasse da terra e ali se estabelecesse. Elmore era uma cidade agradável para se viver, e a população muito hospitaleira e so­ciável.

Mr. Spencer declarou que ficaria ali por alguns dias, pelo menos, para observar a si­tuação. Não, não era preciso chamar o ra­paz para levar a mala. Ele mesmo a levaria.

— É um bocado pesada, sabe? Não se in­comode!…

                                                                                                                          (Continua)

Nota: Apresentamos seguidamente mais duas páginas (correspondentes ao texto) da brilhante adaptação gráfica deste conto, realizada pelo artista americano Gary Gianni e publicada em 1990 num volume da colecção Classics Illustrated. Os nossos leitores poderão, assim, cotejar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares), do mesmo tema.

O' Henry - A regeneração 3 e 4

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (1) por O. Henry

O. Henry (foto)Apresentamos hoje nesta rubrica a 1ª parte de um conto do famoso jornalista e escritor norte-americano O. Henry (1862-1910), que se notabilizou num género que os anglo-saxónicos designam por short stories, isto é, contos e novelas curtos. Muito popular nos meios literários, graças sobretudo à colaboração em revistas como The Rolling Stone (que ele próprio dirigiu e editou, com grandes prejuizos), The Cosmopolitan e New York World Sunday Magazine (onde escreveu febrilmente um conto por semana, durante dois anos e meio), O. Henry — aliás, William Sidney Porter, seu nome de baptismo —, teve uma vida movimentada, fértil em peripécias aventurosas e em empregos de toda a ordem, casou-se duas vezes e foi parar à prisão, acusado de desfalque, quando era caixa de um banco em Austin (Texas).

Cabbages and kingsDiz-se que o hábito de escrever sempre com um pseudónimo (que acabaria por se tornar célebre) foi uma forma de esconder do público e dos editores os seus problemas com a justiça. Durante o período de maior actividade literária, produziu centenas de contos, reunidos posteriormente em volumes como Cabbages and Kings (1904), Heart of the West (1907), The Voice of the City (1908), Roads of Destiny (1909), The Four Million (1909), The Trimmed Lamp (1910), Strictly Business (1910), Six and Sevens (1911) e meia dúzia de outros.

O estilo dúctil, apoiado numa eficaz síntese narrativa, a esfuziante imaginação, o dom de observador dos ambientes citadinos — em particular, da metrópole que mais amou, Nova Iorque, tema central da antologia Four Milions — e, sobretudo, os desconcertantes e irónicos finais com que surpreendia os leitores, granjearam-lhe enorme renome em todo o país… mas pouca segurança económica. Morreu pobre, em Junho de 1910, vítima do álcool com que procurava combater as suas depressões, agravadas pela morte da primeira mulher e pelo divórcio da segunda.O. Henry Full House

Algumas das suas histórias mais famosas foram adaptadas ao cinema, no filme em episódios O. Henry’s Full House (1952), um dos quais interpretado por Charles Laughton e Marilyn Monroe. A Banda Dese- nhada também não as desprezou, destacando-se, entre todas as versões que conhecemos, o magnífico trabalho do artista Gary Gianni, dado à estampa num volume da colecção Classics Illustrated (1990), editado pela Berkley/First Publishing e em português pela Abril Jovem. O conto “O destino de Jimmy Valentine” (título original: Classic Ilustrated - O Henry 475A Retrieved Reforma- tion) foi publicado n’O Mosquito nºs 1036 a 1039 (1949), com tradução de Raul Correia e um cabeçalho desenhado por E. T. Coelho, e significou para muitos jovens o primeiro contacto com a obra do escritor americano (embora só mais tarde o soubessem, pois, por lamentável lacuna, o seu nome não figurava no cabeçalho).

Mais uma vez, a singularidade e objectividade do seu estilo — como se as palavras que punha no papel se transformassem em lentes de uma Kodak, captando as personagens e o cenário num quadro realista, autêntico retrato de uma época desaparecida —, e o desfecho inesperado de uma intriga que se lê com crescente interesse, justificam o título de grande narrador e mestre do conto que ainda hoje consagra mundialmente o nome de O. Henry.

E aqui têm a 1ª parte do conto anunciado, um dos mais célebres da sua vasta obra.
O Henry - O destino de J Valentine 003

Um guarda entrou na oficina de sapataria da penitenciária, onde Jimmy Valentine estava ocupado atentamente em colocar as últimas «capas» de sola nuns tacões. Durante uns segundos, o guarda ficou a olhar o trabalho do preso. Depois, num tom de voz alegre disse:

— Jimmy! O Director chama-te!

Escoltou Jimmy até ao gabinete do Director e entrou também, ficando ao lado dele. Com um sorriso, o Director entregou a Jimmy a nota da comutação de pena, que o Governador tinha assinado naquela mesma manhã. Jimmy pegou no papel com um ar aborrecido e fatigado. Estava preso havia quase dez meses, e a condenação era por quatro anos. Mas ele nunca esperara que a sua demora na penitenciária fosse além de dois ou três meses. Quando um homem com amigos, tal como Jimmy Valentine, entra numa prisão, quase não vale a pena cortar-lhe o cabelo.

— E agora, Valentine — disse o Director —, você passa a ser um homem livre, a partir de amanhã pela manhã! Emende-se e faça-se um homem honesto! Você, no fundo, não é má pessoa… Abandone esses maus costumes de arrombar cofres e viva direito, como uma pessoa decente!

— Eu?… — perguntou Valentine, com um ar de profunda admiração. — Eu nunca arrombei um cofre em toda a minha vida!

— Está claro que não!… — exclamou o Director, com uma gargalhada. — Pois claro que não!… Como foi isso de você ser apanhado naquele caso de Springfield? Talvez você não quisesse provar o seu «alibi»… para não comprometer alguma duquesa! Seria? Ou foi tudo uma injustiça, por causa de um júri incompetente que embirrou consigo? Com vocês, as vítimas «inocentes», acontece sempre uma destas duas coisas!…

— Eu?… — voltou a perguntar Valentine, com uma virtuosa indignação. — Eu? Eu nunca estive em Springfield, em toda a minha vida!

O Director sorriu: — Cronin, leve-o de volta! Dê-lhe um fato e o resto da roupa para sair! Traga-o aqui amanhã, às sete horas! E você, Valentine, siga o meu conselho!…

Às sete horas e um quarto, na manhã seguinte, Jimmy estava outra vez no gabinete do Director. Trazia um daqueles fatos-feitos, que tão mal assentam num cabide como numa pessoa, e calçava um par dos pavorosos sapatos que ajudara a fabricar durante meses, e que o Estado fornece aos seus «hóspedes» forçados, quando se desinteressa deles.

Um funcionário da prisão entregou-lhe um bilhete de caminho de ferro e uma nota de cinco dólares, com a qual o Estado contava que ele se pusesse a caminho da honestidade e da fortuna. Valentine, o presidiário n.° 9.762, ficou arquivado com a menção: «Perdoado pelo Governador»… E Mr. James Valentine saiu para a liberdade.

Completamente desinteressado do canto dos passarinhos, da verdura das árvores e do perfume das flores, Jimmy dirigiu-se em linha recta para um restaurante. As primeiras alegrias da liberdade tomaram para ele o aspecto de um frango assado e de uma garrafa de vinho branco, seguidos por um charuto. Dali, Jimmy encaminhou-se para a estação de caminho-de-ferro, deu uma moeda de dez cêntimos a um cego que estava à porta e instalou-se no comboio. Três horas mais tarde descia noutra estação, que pertencia a uma pequena cidade perto da fronteira do Esta­do. Fez rumo ao café de um tal Mike Dolan, entrou e apertou a mão do citado Mike, que estava só por detrás do balcão do «bar».

— Desculpa que não tivéssemos conseguido a coisa mais cedo! — disse Mike. — Mas os homens de Springfield protestaram e foi pre­ciso dar um jeito! O Governador estava indeciso… Tudo fixe?

— Fixe!… — respondeu Jimmy. — Tens a minha chave?

Recebeu a chave e, transposta uma porta nas traseiras do café, subiu uma escada e entrou no seu quarto. Tudo estava exacta­mente como quando ele tinha dali saído. No chão ainda se via um botão da camisa do detective Ben Price, botão esse que o aban­donara quando ele e uma porção de colegas tinham dominado Jimmy para prendê-lo.

Afastando o divã-cama, Jimmy fez deslizar um painel disfarçado na parede e, da cavida­de deixada a descoberto, tirou uma pequena mala coberta de pó. Abriu-a e olhou, com um sentimento de orgulho profissional, para a mais perfeita e sólida colecção de ferramentas «especiais» que havia em todo o Leste. Era uma dúzia de instrumentos feitos de um aço de têmpera especialíssimo, todos os clássicos utensílios de um arrombador de cofres, e ainda uns quantos que eram da invenção de Jimmy… e dos quais ele se sentia profissionalmente vaidoso. A colecção tinha-lhe custado mais de novecentos dólares em… num sítio onde se fabricavam daquelas coisas.

Meia hora mais tarde, Jimmy descia a escada e atravessava o café. Envergava agora um fato e uns sapatos do melhor gosto e trazia na mão a maleta, perfeitamente limpa de pó.

— Algum «trabalho» em perspectiva?… — perguntou Mike, risonhamente.

— Como?… — volveu Jimmy, num ar de fundo espanto. — Não compreendo! Eu sou o agente de vendas da fábrica de bola­chas e biscoitos «Segurança e Confiança», com sede em Nova Iorque!

A declaração, feita com o ar mais sério e natural deste mundo, fez rir tanto o alegre Mike, que ele ofereceu a Jimmy, por conta da casa, um copo de leite gelado. Jimmy nun­ca aceitava bebidas alcoólicas…

                                                                                                                             (Continua)

Nota: A título de curiosidade, publicamos também as duas primeiras páginas da adaptação realizada por Gary Gianni, correspondentes ao texto incluído nesta 1ª parte — procedimento que repetiremos nos próximos capítulos. Os nossos leitores poderão, assim, comparar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares) do mesmo tema.  

O Henry - a regeneraçao 1 e 2

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO

A NOITE DO ANO NOVO – 4  (por Johnston McCulley)

Como prometido, aqui têm a conclusão do conto de Johnston McCulley publicado em 1949 n’O Mosquito nºs 1051 a 1054, com tradução de Raul Correia e um sugestivo cabeçalho desenhado por E. T. Coelho. Como muitos outros que figuraram na rubrica “Antologia de Contos de Acção”, este conto era oriundo da célebre revista americana The Saturday Evening Post, à qual já fizemos referência num artigo anterior.

Resumo: O Ranger Pat Malloy chega a Copper City, nas vésperas do Ano Novo, para visitar a sua noiva, e é informado pelo pai desta que a cidade poderá tornar-se um inferno quando começarem os festejos, à meia-noite, devido à presença de dois bandos rivais, um deles chefiado pelo desordeiro Bart French, que planeia vingar-se de Malloy (por este o ter prendido, em tempos) e de Ed Catlin, gerente da Companhia Mineira.

À meia-noite em ponto, estalam as primeiras salvas de tiros, celebrando a passagem do ano, mas Bart aproveita a oportunidade para alvejar traiçoeiramente Ed Catlin. Forçado a intervir, Malloy derruba French com uma coronhada, enquanto os seus cúmplices se refugiam no saloon onde tinham passado a noite a beber.

A noite do Ano novo - 4

IV

Uma bala arrancou o chapéu da cabeça do Ranger, mas o tiroteio esmorecia rapidamente. Sentia-se prestes a explodir o perigo que Pat Malloy mais receava… e que era uma luta entre os minei­ros e os brush-poppers. Uma voz rouca praguejou e um grito encheu a rua:

— Atirem nos brush-poppers! Mataram o Catlin! Fogo neles!…

Malloy encaminhou-se para a porta aberta do saloon de Pedro Lopez e olhou para dentro. Os brush-poppers estavam ali quase todos reunidos, falando em tumulto e carregando as armas. Bart French tinha sido encostado à parede e um homem dava-lhe a beber uns goles de whisky. Bart rouquejava ordens.

De repente, estalou uma detonação e Malloy sentiu uma pancada no braço esquerdo. Voltando-se no mesmo instante, disparou sobre um homem que tentava esconder-se com o ângulo do barracão. Os mineiros, do outro lado da rua, tinham-se jun­tado em grande número à porta do armazém. Um deles gritou:

— Aí vamos, Ranger!

— Fiquem onde estão, rapazes! Vigiem Catlin! Ele está vivo?

— O médico diz que sim!

— Deixem o resto comigo!

Pat tinha falado sem se voltar, sem deixar de ter sob a ameaça das armas os homens que estavam dentro do saloon. Começava a sentir o sangue escorrer-lhe sob a manga, ao longo do braço esquerdo, mas a mão que segurava o colt não tremia. E foi em voz tranquila que ordenou:

— Saiam daqui, todos vocês! Bart French fica! Eu vi-o disparar sobre Ed Catlin! Comecem a sair já… ou eu começo a disparar!

Os brush-poppers olhavam-no com espanto. French levantou-se com dificuldade.

— Ouviram? Saiam todos!

Junto do balcão, um homem fez fogo. Os revólveres do Ranger trovejaram e o homem caiu. O chapéu de um outro foi levado por uma bala no momento em que ele se preparava para atirar. Então, empurrando-se e disparando ao acaso, os brush-poppers precipitaram-se para a porta do saloon.

Malloy sentiu uma espécie de chicotada na perna direita e compreendeu que tinha sido ferido outra vez. De novo os dois colts dispararam. Um dos companheiros de French ficou estendido, enquanto o resto do grupo se lançava para a rua. Através da fumarada, Pat Malloy ouviu os brados de raiva dos mineiros. Estalou um inferno de tiros… mas os brush-  -poppers fugiam. Pat ouviu o tropel dos cavalos…

Foi então que sentiu a perna ferida ceder sob ele. Escorregou ao longo da parede e sentou-se no chão, em frente de Bart French. Estavam sós. Os dois homens olharam-se durante uma fracção de segundo e ambos ergueram as armas e dispararam, quase ao mesmo tempo. A bala de French cravou-se na parede, a dois ou três centímetros da cabeça de Pat. Mas a bala do Ranger tinha atravessado o pulso do adversário e French deixou cair o colt e tombou para diante, desmaiado.

Quando Lopez e um grupo de mineiros entraram no saloon, Malloy bradou:

— Não toquem em French! Isto está arrumado! Que se passou lá fora?

— Os brush-poppers fugiram, mas deixaram três deles estendidos na rua! O médico diz que o Catlin escapa desta! Você está ferido, Ranger?

— Num braço e numa perna, mas não é coisa de importância! Quando o médico estiver disponível, peçam-lhe para vir cá! O French tem de ser tratado… porque a cadeia está à espera dele!

Alguns dos mineiros voltaram a sair. Pedro Lopez foi encher um copo de whisky e aproximou-se de Malloy, que bebeu um trago. Jim Wheeler entrou nessa altura.

— Isto não é nada! — disse Pat. — O médico trata de mim num instante! Vou ter uns dias de descanso, Mr. Wheeler, e gostava de passá-los perto de Lola! Podia arranjar-me um colchão no seu armazém? Se me estender um bocado… amanhã já poderei jantar consigo e com Lola para festejar o Ano Novo!

Jim Wheeler perguntou: — E French?

— Vou nomear Lopez e um ou dois homens mais, como meus ajudantes! Eles tratarão de levar o Bart para a cadeia e vigiá-lo-ão até que venha o sheriff! Telegrafe-lhe, Mr. Wheeler, e conte o que se passou! E essa gente aí na rua?

 — Nenhum morto! Estão feridos e ficam na cadeia também até vir o sheriff! Vou telegrafar!

Pat Malloy encostou a cabeça para trás e come­çou a enrolar lentamente um cigarro. O caso estava arrumado. E, através das espirais de fumo do ci­garro, o Ranger começou a pensar que Wheeler tinha razão: aquela vida não era certamente a que mais convinha a um homem que queria casar!…

— Pat!

— Lola! Nada de apoquentações, querida! Isto não tem importância! Estava aqui a pensar que vou realmente pedir a demissão e…

— Oh, Pat! Estou tão contente!

Pedro Lopez, que olhava melancolicamente as dezenas de garrafas que juncavam o saloon, olhou para eles e sorriu…

FIM