UMA REVISTA BEM PORTUGUESA COM O NOME DE “CAMARADA”

EXPOSIÇÃO SOBRE O “CAMARADA” (1ª SÉRIE) NA BIBLIOTECA NACIONAL

Nota: esta mostra está patente na Biblioteca Nacional desde o passado dia 28 de Novembro e será encerrada em 30 de Dezembro, podendo, portanto, ser ainda visitada durante a próxima semana.

Vem a propósito lembrar que o Camarada (1947-1951) foi lançado há 70 anos, em 1 de Dezembro de 1947, mas em moldes muito diferentes da restante imprensa infanto- -juvenil, encabeçada pel’O MosquitoO Papagaio e o Diabrete, pois enquanto que nestes títulos a colaboração estrangeira era maioritária, o Camarada — editado pela Mocidade Portuguesa e destinado quase em exclusivo aos centros escolares onde esta organização do Estado Novo estava presente — fazia gala de uma plêiade de autores portugueses, tanto literários como artísticos.

Embora de início tivesse dado pouco destaque à banda desenhada, o Camarada conseguiu conquistar gradualmente a afeição do público juvenil, chegando, com altos e baixos, ao nº 133, na 1ª série. Entre os seus valiosos elementos artísticos contam-se alguns dos mais genuínos representantes de uma nova geração da BD portuguesa, cujo vanguardismo começava a aflorar, assimilando o de outras criações europeias: Júlio Gil, Marcello de Morais, António Vaz Pereira, Bastos Coelho, Carlos Alberto, Nuno San-Payo, José Leal, todos ainda muito jovens e em início de carreira.

Mas no Camarada também se destacaram dois desenhadores de nomes já consagrados, Vítor Péon e José Garcês, oriundos d’O Mosquito, a principal publicação da concorrência, assim como um jovem e talentoso Artur Correia, que se estreara pouco tempo antes n’O Papagaio e se tornaria um dos maiores mestres da BD humorística portuguesa.

Portanto, esta exposição, comissariada por João Mimoso e Carlos Gonçalves, membros do Clube Português de Banda Desenhada **, merece a visita de quem se interessa pelas revistas infanto-juvenis — expoentes de uma cultura popular que ajudou a formar gerações — e pelas diferentes “escolas” que as marcaram em meados do século XX, com relevo para a que nasceu nas páginas do Camarada, dando oportunidade a um grupo de novos desenhadores (na sua maioria estudantes de Arquitectura, carreira que alguns deles optariam por seguir) de se afirmarem indelevelmente no panorama das histórias aos quadradinhos e das artes gráficas em geral. 

Aqui ficam, para memória futura, as quatro páginas que constituem a “FOLHA DE SALA” desta notável exposição (onde podem ser apreciados vários originais e outras peças raras), com texto de João Mimoso e Carlos Gonçalves.

** Na sede do CPBD (Amadora) está patente, desde o passado sábado, 16 de Dezembro, outra exposição sobre o Camarada, que engloba as suas duas séries.

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“TERRY E OS PIRATAS” – 11º VOLUME (NOVEMBRO 2017)

Acalentado pelo êxito deste fanzine, com os primeiros episódios de uma emblemática série clássica, a maioria dos quais inéditos, durante décadas, em Portugal, José Pires continua a divulgar mensalmente, com infalível regularidade, as trepidantes e exóticas peripécias de Terry e os Piratas, vividas por um adolescente de espírito aventureiro e pelos seus fieis amigos nas longínquas regiões da China onde imperam ainda os “senhores da guerra” e a majestosa Dragon Lady — outra inesquecível personagem criada por Milton Caniff — dita também as suas leis.

Recorde-se que quando George Wunder tomou conta da série, substituindo Caniff (que partira para outras aventuras), os leitores d’O Mosquito puderam também travar conhecimento com a Dragon Lady, cuja presença ao lado de Terry (já mais crescido), e de outros comparsas, era incontornável.

A série está planeada para 25 volumes (todo o período escrito e desenhado por Caniff), com número uniforme de páginas, ao preço de 15 euros, que serão publicados até Janeiro de 2019, mantendo sempre a cadência mensal, como é firme propósito de José Pires. As encomendas podem ser-lhe feitas directamente, através do e-mail gussy.pires@sapo.pt

TERRY E OS PIRATAS (9º E 10º VOLUMES)

Continuando a manter uma regularidade sem pausas, José Pires lançou em Setembro/Outubro mais seis edições dos seus fanzines, com destaque para Terry e os Piratas, a obra-prima de Milton Caniff, cuja reedição integral, quase totalmente inédita entre nós, abrangerá 25 volumes do FandClassics, cada um deles com mais de 70 páginas. O preço, no entanto, não varia, fixando-se nos 15 euros. 

Uma tarefa quase homérica, com a duração prevista de dois anos (!), mas que o incansável José Pires (experiente nestas lides) encara sem preocupações, pois a colecção, de cadência mensal, já vai no 10º volume e o número de assinantes não tem parado de aumentar, proporcionando-lhe a indispensável garantia financeira para um projecto de tão grande vulto.

Recordamos que esta famosa série se estreou em Portugal n’O Mosquito, em 1952/53, mas já na fase em que era desenhada por George Wunder, cujo estilo procurava ser fiel ao de Caniff. Com o fim d’O Mosquito, a sua publicação prosseguiu no Titã e no Mundo de Aventuras, onde passou quase despercebida. As tiras originais com o 1º episódio (1934) só surgiriam na 2ª série do MA, em 1975.

Estes fanzines podem ser encomendados directamente a José Pires, bastando contactá-lo pelo e-mail gussy.pires@sapo.pt

“TERRY E OS PIRATAS” – 8º VOLUME (AGOSTO 2017)

Com exemplar pontualidade, José Pires continua a editar no seu fanzine FandClassics a famosa série Terry e os Piratas, que já vai no 8º volume, cada um deles com cerca de 70 páginas em formato à “italiana”, reproduzindo integralmente os episódios criados desde 22/10/1934 pelo génio ficcional e artístico do mestre Milton Caniff.

Trata-se, aliás, na sua grande maioria, de material ainda inédito no nosso país, apesar desta série ter sido divulgada em revistas juvenis muito populares na sua época como O Mosquito, o Titã e o Mundo de Aventuras, mas com episódios de uma fase bastante posterior, a cargo de George Wunder, que já pouco tem a ver com a de Caniff.

Por esse motivo, tem sido cada vez maior o acolhimento dispensado a esta edição de José Pires, cujo trabalho não se cinge apenas à tradução e legendação das tiras e páginas dominicais, visando também, com especial cuidado, o aspecto gráfico destas últimas, para evitar a sistemática repetição de logótipos, “substituídos por imagens do próprio Caniff, resgatadas, combinadas e arranjadas para preencher o espaço”. 

“Além disso, há as mais de 4.380 pequenas tarjas com as legendas dos direitos de publicação, que, embora diminutas e colocadas em sítios estratégicos, acabavam prejudicando o aspecto geral e que foram  também removidas, para já não falar de alguns milhares de redes ratadas ou entupidas que também foram melhoradas”.

Um trabalho ambicioso, digno de aplausos, que torna esta colecção uma das melhores e mais completas realizadas até hoje, embora sem o carácter comercial de outras edições, pois se destina a um pequeno círculo de assinantes, não ultrapassando os respectivos pedidos de reserva. Estes fanzines podem ser encomendados directamente a José Pires, bastando contactá-lo pelo e-mail gussy.pires@sapo.pt

“TERRY E OS PIRATAS” – 7º VOLUME (JULHO 2017)

Entre as muito boas edições de BD que continuam a aparecer nas bancas, este mês de Julho ficou também assinalado, na área dos fanzines (edições mais modestas e de pequena tiragem, mas igualmente dignas de louvor), pela saída de mais um número do FandClassics dedicado à série Terry e os Piratas, a famosa criação de Milton Caniff, praticamente inédita em Portugal — a não ser a sua sequela, pelo traço de George Wunder, estreada n’O Mosquito, em 1952, e publicada também posteriormente no Titã e no Mundo de Aventuras.

Como já referimos diversas vezes, o esforçado faneditor José Pires está apostado em apresentar esta série na íntegra, escalonada por 25 volumes, com mais de 70 páginas cada. Uma tarefa quase homérica, mas de que o nosso bom amigo e camarada (experimentado nestas lides) se tem saído a contento, com infalível regularidade, pois a colecção (de cadência mensal) já vai no 7º volume e o número de leitores não pára de aumentar.

Estes fanzines (de tiragem limitada) podem ser encomendados directamente a José Pires, bastando escrever para o e-mail gussy.pires@sapo.pt

“TERRY E OS PIRATAS” – 6º VOLUME (JUNHO 2017)

Com periodicidade mensal, de uma regularidade sem falhas, para não defraudar os seus fiéis leitores, cujo número tem aumentado paulatinamente, o FandClassics, editado por José Pires, continua a recuperar a famosa série “Terry e os Piratas”, de Milton Caniff, praticamente desconhecida em Portugal, a não ser alguns dos primeiros episódios publicados, há muitos anos, no Mundo de Aventuras (2ª série) e no jornal Público — além dos que se estrearam n’O Mosquito, em 1952-53, e no Titã, em 1955, mas esses já desenhados por George Wunder, o continuador da série.

A propósito desta magnífica criação de Milton Caniff, cuja origem remonta a 1934, José Pires enviou-nos um comentário sobre as dificuldades que tem encontrado na sua reedição, feita a partir de material (tiras diárias e páginas dominicais) nem sempre impresso nas melhores condições e com sistemática repetição de logótipos.

A todos os fãs do FandClassics e de “Terry e os Piratas”, recomendamos a leitura desse comentário de José Pires, inserido depois das imagens que se seguem.

Texto de José Pires:

«A série Terry e os Piratas é considerada um dos clássicos dos clássicos, ombreando com o Principe Valente, o Flash Gordon, o Rip Kirby, e por aí fora. Mas a história das páginas dominicais complicou tudo, estou convencido, e deve estar na base do Milton Caniff ter abandonado a série em 1946, depois de 12 anos consecutivos de publicação. E, de facto, a série continuou, depois, pela mão de George Wunder, mas este já não entrou no esquema das páginas dominicais, que acabaram por tornar a série apenas parcialmente conhecida, como em Portugal, por exemplo, onde muito poucos a leram.

Este berbicacho (páginas dominicais) impedia outros jornais de outras latitudes (como o Público, por exemplo) de a publicarem, pois deparavam com uma coisa que era de maior formato, com quatro tiras, duas a duas, a quatro cores, o que causava transtornos de paginação e ocupava muito do espaço destinado à publicidade (aquilo que torna os jornais a preço mais acessível). E as editoras que se aventuravam a publicar a série transformavam essas páginas dominicais em tiras a preto e branco (mais curtas e mais altas), mas a gigantesca dimensão da série, 25 volumes, não permitia às editoras tempo necessário a uma mais competente retirada dessas cores, e como os gráficos não dispunham de meios informáticos, na altura, o trabalho era muito demorado, deficiente e até muito tosco mesmo.

Acresce que essas mesmas páginas dominicais, logo na primeira vinheta, apresentavam um enorme logótipo da série, que na publicação semanal até se compreendia, mas numa edição em álbum se transformava num verdadeiro pesadelo, aparecendo sistematicamente, de oito em oito tiras, quebrando a uniformidade que se exige a uma publicação em álbum.

Ora, esta minha ambiciosa edição consegue tornear o problema à custa de uma tarefa de meter medo ao susto. Reparem: a série durou 12 anos. Ora, como cada ano tem 52 semanas, teremos 52 x 12 = 624 retiradas de logótipos substituídos por imagens do próprio Caniff, resgatadas, combinadas e arranjadas para preencher o espaço. Além disso, há as mais de 4.380 pequenas tarjas com as legendas dos direitos de publicação que, embora diminutas e colocadas em sítios estratégicos, acabavam prejudicando o aspecto geral, e que foram  também removidas, para já não falar de alguns milhares de redes ratadas ou entupidas que foram substituídas.

E eram estes importantes detalhes que eu gostaria de ver realçados nos diferentes blogues que falam dos meus fanzines e que, até agora (por incúria minha, decerto), o não fizeram. Aí têm as minhas razões».

JAYME CORTEZ HOMENAGEADO NUM “PROZINE” PORTUGUÊS (DE HÁ 30 ANOS)

Texto de Geraldes Lino

Jayme Cortez (Jaime Cortez Martins) nasceu português, em Lisboa, a 8 de Setembro de 1926, mas quando faleceu, a 4 de Julho de 1987, em São Paulo, já era brasileiro, porque, além de ter passado a viver no Brasil, adoptara em 1957 a nacionalidade do país que o acolhera e onde era admirado.

Inicialmente influenciado pelo mestre (1) Eduardo Teixeira Coelho, Jayme Cortez muito cedo foi criando o seu próprio estilo, o que se tornou bem evidente na sua produção de banda desenhada brasileira, iniciada com a adaptação às histórias em quadrinhos, em tiras diárias, de “O Guarani”, da obra clássica do autor brasileiro José de Alencar, para o jornal Diário da Noite.

A última banda desenhada de Jayme Cortez publicada em Portugal foi a que teve por título “Os Espíritos Assassinos”, impressa na revista infanto-juvenil O Mosquito, entre Janeiro e Abril de 1947. Foi esse conto curto gráfico (27 pranchas), imaginado e desenhado por Cortez que Jorge Magalhães escolheu para o prozine (2) Cadernos de Banda Desenhada, editado há trinta anos.

A nota “A obra-prima de Jayme Cortez” incluída na capa, refere-se naturalmente à produção portuguesa do autor, visto que, na sua bibliografia brasileira há obras de BD de elevadíssimo nível ficcional e estilístico, designadamente “O Retrato do Mal”, “Sérgio do Amazonas” e “Zodíaco”.

(1) Sou contra o uso (e abuso)  indiscriminado do título de Mestre que por vezes é usado em relação a vários autores portugueses de BD. Considero que E.T. Coelho é o único a assim poder ser classificado, por ter tido vários seguidores estilísticos, ou discípulos, caso singular da BD em Portugal.

(2) Já o escrevi várias vezes: um prozine é um zine editado por um pro dessa área. Consequentemente, é o caso de um zine de banda desenhada editado por um profissional de BD, e tanto Jorge Magalhães como Catherine Labey, responsáveis pela edição do zine, sempre estiveram ligados profissionalmente à BD.

Ficha técnica:

Cadernos de Banda Desenhada
Director: A.A. de Castro (*)
Editor e proprietário: 
Catherine Labey
Redacção e Administração:
R. Joaquim Ereira, 2693
Torre, 2750 Cascais
Tiragem [inicial]: 4000 exemplares
Preço: 125$00

(*) Pseudónimo de Jorge Magalhães

(Texto e imagens reproduzidos, com a devida vénia, do blogue Sítio dos Fanzines, orientado por Geraldes Lino. Ler também a nota de Jorge Magalhães, depois das páginas que se seguem).

Nota de J. M. — A ideia de publicar esta história de Jayme Cortez nos Cadernos de Banda Desenhada (revista cujo projecto já estava em elaboração, depois de um número experimental, também impresso em tipografia, saído algum tempo antes), começou a germinar quando eu soube que Jayme Cortez passaria por Portugal, ao regressar do Festival Internacional de Lucca, onde foi homenageado em finais desse ano (1986), por ter cumprido 50 anos de prestigiosa carreira e ser autor de obras marcantes, como Zodíaco, a que a crítica internacional, sobretudo a italiana, tecera rasgados elogios.

De facto, Cortez veio a Lisboa e foi festivamente recebido por um numeroso grupo de admiradores e amigos, que se reuniram, em sua honra, num restaurante do Parque Mayer. Foi lá que o conheci e lhe falei no meu projecto, mostrando muito interesse em reeditar «Os Espíritos Assassinos», a sua última obra publicada n’O Mosquito, pouco tempo antes de partir como emigrante para o Brasil, em busca de melhores condições de trabalho.

Jayme Cortez aderiu imediatamente à minha ideia, autorizando a publicação dessa história sem quaisquer encargos autorais para os editores — como, aliás, também aconteceu com José Ruy, autor da obra que seria publicada no 1º número, as magníficas «Lendas Japonesas», reproduzidas da 2ª série  d’O Papagaio.

Como já não havia originais, «Os Espíritos Assassinos» teve também de ser recuperada por processos fotográficos, a partir das páginas d’O Mosquito — tarefa que não saiu barata e exigiu à Catherine muitas horas de trabalho a retocar os fotolitos, porque nesse tempo, em que ainda não se utilizavam computadores, era tudo feito à base da fotografia e do offset. Mas Jayme Cortez ficou imensamente satisfeito quando viu a revista, não nos regateando elogios por a sua história ter ficado tão bem impressa a preto e branco, sem as manchas de cor e as redes que tinha n’O Mosquito.

E em sinal de agradecimento até me enviou uma das suas últimas edições, recheada de amostras dos seus trabalhos, ilustrando o extraordinário percurso da sua carreira no Brasil. Intitula-se «A Arte de Jayme Cortez» e é duplamente preciosa para mim por ter uma dedicatória do grande mestre luso-brasileiro… que, infelizmente, pouco tempo depois, disse adeus a este mundo, apenas com 60 anos de idade.