NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 5

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Com data do dia de Natal de 1948, apareceu nas bancas o garrido número especial de uma nova revista de pequeno formato — idêntico ao que O Mosquito adoptara anos antes —, e que era dirigida por um experiente profissional das artes gráficas e da imprensa infanto- -juvenil: António Cardoso Lopes (Tiotónio).

Na ficha técnica, o seu nome aparecia igualmente como editor, sob o patrocínio das Edições O Mosquito, localizadas na mesma sede, à Travessa de S. Pedro – 9, em Lisboa, de que ele continuava a ser proprietário. Este facto insólito e incompreensível para muitos leitores desse tempo devia-se à brusca cisão entre os dois directores d’O Mosquito, a qual impelira Raul Correia, com armas e bagagens (isto é, com a revista “debaixo do braço”), a dizer adeus ao seu sócio e a assumir com outros apoios a continuidade da mais antiga publicação infanto-juvenil portuguesa.

Tendo ficado sem o título que mais êxito e prestígio dera à sua editora, mas dono de uma oficina com equipamento do melhor que havia na época, Cardoso Lopes não perdeu tempo a congeminar novos projectos e assim nasceu O Gafanhoto, em 11/12/1948, criado à imagem d’O Mosquito, na fase que durara entre 1942 e 1945, embora com outro conteúdo, em que ainda se sentia a mão de Tiotónio no plano gráfico e artístico, mas sem um elemento primordial e que fazia toda a diferença: o talento literário de Raul Correia.

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Curiosamente, neste número de Natal (com uma capa desenhada por Cardoso Lopes, em que o bonacheirão velhote de fartas barbas brancas exibia algumas preciosidades saídas da “fábrica de sonhos” das Edições O Mosquito), um dos principais temas alusivos à quadra era uma poesia de Raul Correia, com o título “Noite de Natal”, publicada em tempos idos, com o cognome de Avozinho, no jornal que ainda lhe pertencia. A única novidade natalícia foi o Presépio apresentado em separata, modesto e simples, à semelhança do próprio “insecto” recém-nascido, ainda a exercitar timidamente as suas patas, na esperança de poder saltar maiores distâncias.

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Embora não tivesse tido vida longa (por razões que nunca foram completamente do domínio público), O Gafanhoto conseguiu granjear o entusiasmo de um vasto grupo de simpatizantes, graças não só ao seu preço e à sua periodicidade concorrenciais com os d’O Mosquito e do Diabrete, mas também a algumas excelentes histórias que apresentou nas suas páginas, nomeadamente a que tinha por título “As Aventuras de Gafanhoto” — adaptação livre (para “encher o olho” ao leitor) de uma série americana bem conhecida, com um simpático chinês que apreciava tiradas filosóficas, chamado Ming Foo, e que era desenhada por Nicholas Afonsky.

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Na última página deste número, sob o título Necas, Tonecas & C.ª, surgiam outros célebres personagens oriundos das mesmas fontes, que também já tinham feito as delícias dos leitores d’O Mosquito. Cardoso Lopes, cujos trunfos como editor de uma nova revista eram ainda poucos, soube apostar numa das séries cómicas mundialmente mais famosas, desenhada, nesse período, por Harold Knerr, mas cujo nome original — Katzenjammer Kids — continuava a ser desconhecido da maioria dos jovens portugueses.

As tropelias dos dois garotos endiabrados, cujo maior divertimento era pregar partidas ao façanhudo Capitão Barbaças, sem receio das reprimendas nem dos castigos dos adultos, provocaram muitas gargalhadas e foram um dos principais factores de êxito d’O Gafanhoto, nessa primeira etapa da sua existência.

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NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 4

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Este número especial d’O Pluto, comemorativo do Natal de 1945, é bem nutrido de páginas (trinta e duas) e de ilustrações de Vítor Péon, que o recheiam de uma ponta à outra.

Diga-se de passagem, para quem não souber, que este prolífico artista, então com 22 anos — cuja carreira na imprensa infanto-juvenil começara pouco tempo antes, e logo na revista mais famosa desse tempo, O Mosquito —, era a “mais valia” d’O Pluto e do seu director artístico e editor, o também jovem e dinâmico José Augusto Roussado Pinto, que apesar dos seus “verdes” 18 anos, acalentava o homérico projecto de fazer concorrência ao Mosquito e talvez, se os deuses e a sorte o ajudassem, superar até o seu êxito.

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Para isso, contou com a ajuda dos tipógrafos e de outros trabalhadores gráficos da Imprensa Barreiro, sita em Lisboa (a quem O Pluto prestava uma homenagem fotográfica nas páginas centrais desse número), mas sobretudo de Vítor Péon, que foi o autor de mais de 80% das histórias aos quadradinhos publicadas na revista e de quase todas as ilustrações que guarneciam as suas páginas, desde as capas aos textos e às rubricas mais variadas. Exceptuando o primeiro número, que contou com uma capa e um conto ilustrados por António Barata, todos os créditos artísticos no que respeita à produção nacional pertencem exclusivamente a Vítor Péon e ao seu prodigioso e rotineiro esforço criativo (sem quebra notória de qualidade), que já nessa altura começava a pedir meças aos talentos de E.T. Coelho e de outros grandes desenhadores da época, mesmo com estilos muito diferentes do seu, como era o caso de Fernando Bento.

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Só para dar uma ideia da volumosa produção de Péon, contabilizam-se neste número de Natal as seguintes histórias em episódios com a sua assinatura, abordando os mais distintos temas: de âmbito aventuroso, “Dick, Terry e Tom no Reino Selvagem”, “Roubo e Crime”, “Três Balas”; e em estilo cómico (género que ele também muito apreciava), “Furacão e o Seu Cavalo Trovão”, “Fitas Sonoras”, “Felizardo, o Rei do Azar” e “As Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota”. Por opção editorial, a fim de dar mais uniformidade à revista — e talvez, também, para imitar O Mosquito —, todas tinham legendas didascálicas.

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Além desta proeza, num total de onze páginas, Péon conseguiu ainda tempo para ilustrar outros assuntos, incluindo três novelas assinadas por Jomar (pseudónimo de Orlando Jorge B. Marques, outro prolífico colaborador que Roussado Pinto foi “roubar” ao Mosquito),  com os títulos “Os Planos H.P. 202”, “O Crime do Lucky Night” e “Hoje não, Joe!”, esta última de tema natalício. Até a página de abertura — com a tocante epígrafe “Mãezinha que estás no Céu!…” (capaz de derreter o coração dos leitores de mais tenra idade), em que, sob o “disfarce” de Velho Augusto, o jovem Roussado Pinto pretendia imitar o Avôzinho Raul Correia — foi também ilustrada a preceito por Péon, como seguidamente mostramos.

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A fértil criatividade destes dois activos e talentosos colaboradores, cujo entusiasmo e dedicação à “causa” transparecem em todos os números d’O Pluto, não teve paralelo em nenhuma revista infanto-juvenil dessa época, mesmo destacando o papel de Fernando Bento e E.T. Coelho nos quadros artísticos d’O Mosquito e do Diabrete, os dois grandes rivais com que O Pluto garbosamente se batia.

O valoroso despique não teve desfecho feliz para Roussado Pinto, que viu os seus sonhos esfumarem-se ao cabo de 25 números; mas esse “fracasso” inicial não o impediu de voltar à liça pouco tempo depois, primeiro aliando-se a Cardoso Lopes e a Raul Correia n’O Mosquito — onde criou concursos e conseguiu introduzir as primeiras HQ’s de origem americana —, depois passando para as fileiras do recém-chegado Mundo de Aventuras, na companhia do seu inseparável amigo e “braço direito” Vítor Péon.

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A capa deste número d’O Pluto, com o tema do Presépio (que Péon voltaria a retratar noutras imagens natalícias) serviu de mote à magnífica separata em folha dupla que a revista ofereceu como brinde aos seus leitores — como se já não bastassem todas as outras atracções por um preço quase simbólico de 1$50 escudos —,  num ano em que O Mosquito se engalanou também com (mais) um Presépio de E.T. Coelho.

Nos nºs 7 e 8 d’O Pluto vinham inseridas as restantes folhas deste Presépio de Vítor Péon, que temos o privilégio de reproduzir integralmente no nosso blogue, 70 anos depois da sua publicação naquela raríssima e apreciável revista.

E, como já estamos a poucos dias do Natal, aproveitamos este ensejo para endereçar, em nome d’O Voo do Mosquito — um blogue dedicado à mais emblemática revista da BD portuguesa —, os melhores votos de BOAS FESTAS a todos os nossos leitores e amigos.

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NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 3

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Eis a capa de outra famosa revista infantil, contemporânea d’O Mosquito: O Papagaio nº 506, de 21/12/1944, com uma magnífica ilustração de Méco, nome com que ficou conhecido para a posteridade António Serra Alves Mendes, um dos maiores artistas no seu género, pai de outro grande vulto da BD e das artes gráficas portuguesas do nosso tempo: Zé Manel.

Este número estava recheado de contos natalícios ilustrados por Méco, que era, desde há muito, um dos colaboradores mais em foco na revista, onde deixou sobejas marcas do seu talento, sobretudo numa longa série de capas, mas também em alegres histórias aos quadradinhos, como as célebres “Aventuras da Família Patelhicas”.

Um neófito colega artístico deu também um “ar da sua graça” neste número, cabendo-lhe a honra de ilustrar as páginas centrais com uma alegoria dedicada ao Natal. Apesar de ser ainda menino e moço, com 14 anos evoluídos, a mão já afeita ao traço desempenhava-se bem dessas tarefas, preparando-o intensamente para uma longa e triunfante carreira que lhe abriria, em breve, as páginas d’O Mosquito e de muitas outras revistas infanto-juvenis, e as portas de grandes editoras. O seu nome (e assinatura): José Ruy Pinto.

Ainda hoje em actividade, com o mesmo vigor, o mesmo entusiasmo e a mesma dedicação de outrora, José Ruy está prestes, assim, a festejar 71 anos da mais longa carreira ao serviço da BD portuguesa. Um recorde mundial digno do Guiness! Parabéns, Mestre!!!

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Uma nota curiosa para os admiradores de Tim Tim, que nesta edição d’O Papagaio (onde era, por todos os motivos, a figura principal) vivia mais uma das suas empolgantes aventuras: “A Estrela Misteriosa”. Na última página, o jovem e intrépido repórter, à data ao serviço do diário Le Soir, dirigiu uma mensagem natalícia a todos os leitores do semanário que fora o primeiro, em Portugal, a publicar as suas proezas… e ainda por cima a cores.

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NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 2

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Esta foi a primeira capa de Natal que Eduardo Teixeira Coelho (ETC) realizou para o bissemanário O Mosquito, pouco tempo depois de ter feito a sua estreia nas páginas da revista, em cujo quadro de colaboradores nacionais pontificara, até então, o traço simples e a veia humorística de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), salvo nas ilustrações inglesas com que, à falta de outras, se guarneciam os contos e as novelas de aventuras.

natal-poema-do-avozinho309Com a chegada de E.T. Coelho — depois de ter passado pel’O Senhor Doutor e pelo Engenhocas e Coisas Práticas, outra revista concebida e editada por Cardoso Lopes —, o aspecto gráfico d’O Mosquito (que adoptara novo formato a partir do nº 318) sofreu uma reviravolta total, começando pelos sugestivos e alegres cabeçalhos, renovados com frequência (depois da “normalização” seguida por Tiotónio), e pelas capas cheias de acção e movimento, quase sempre inspiradas nas histórias de texto que constituíam parte substancial do sumário — além dos respectivos títulos, das rubricas mais variadas, com curiosidades e passatempos, e dos poemas do Avôzinho (leia-se Raul Correia), ilustrados com poético e decorativo encanto, como o soneto que figurava neste número, a par da secção do correio.

Pode mesmo dizer-se que, sem as magníficas ilustrações de E.T. Coelho, o nº 366, comemorativo do Natal de 1942, seria mais um igual aos outros, embora recheado de excelentes séries inglesas, como O Capitão Ciclone e Ao Serviço da Lei, em que refulgia o talento de dois grandes ilustradores dessa velha escola, à época ainda anónimos: T. Heath Robinson e Hilda Boswell.Capitão Ciclone + Ao Serviço da Lei - Mosquito 366

Mas a “prenda” mais valiosa desta edição de Natal, a primeira de várias com capas de ETC alusivas à festiva quadra, foi, sem dúvida, o Presépio criado também pelo inspirado artista, cuja primeira folha se publicava neste número, inaugurando uma série de construções de armar em que se destacavam a beleza e a perfeição de todas as figuras animadas pelo seu traço, em contraste com o estilo caricatural de Tiotónio ou com o rigor geométrico de Calvet de Magalhães, ambos autores também de várias (e apreciadas) construções.

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Nos números seguintes, saíram as restantes folhas deste Presépio, sem dúvida um magnífico exemplo da versatilidade gráfica do jovem Eduardo Coelho (seu primeiro nome artístico), que nessa fase inicial da sua carreira dava ainda primazia, nas manchas e no contorno bem delineado das figuras, ao uso intensivo e vigoroso do pincel.

Os leitores d’O Mosquito seriam brindados nos Natais de 1943 e 1944 com outros preciosos Presépios (um deles numa folha de grandes dimensões) concebidos pelo genial “poeta da linha”, cujo fulgor artístico não tardaria a guindá-lo a um lugar de honra entre os principais colaboradores do semanário infanto-juvenil português de maior tiragem.  

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NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 1

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Durante esta quadra festiva, iremos apresentar uma curta série de números de Natal que fizeram as delícias dos leitores d’O Mosquito e de outras publicações infanto-juvenis suas contemporâneas — e com ele, por razões diferentes, directamente relacionadas.

Como foi o caso do Tic-Tac, fundado em 1932 por António Cardoso Lopes (Tiotónio) e João Vicente Sampaio, o primeiro dos quais foi uma das figuras mais proeminentes do jornalismo infanto-juvenil português e um dos pioneiros da BD humorística dos anos 20 e 30 do século XX, autor de inúmeras e patuscas personagens cujas rábulas ficaram célebres, nomeadamente o Zé Pacóvio, uma criação memorável surgida nas páginas do ABC-zinho, d’O Bébé (2ª série), do Có-Có-Ró-Có, do Tic-Tac e d’O Mosquito. No início de 1936, Tiotónio (ou Tio-Tónio) abalançou-se a projecto ainda de maior vulto, criando — com Raul Correia — uma das mais emblemáticas revistas da história da BD portuguesa: O Mosquito.

Pois aqui têm a capa do 1º número de Natal do Tic-Tac, 2ª série (24-12-1933), assinada por Raquel [Roque Gameiro], uma das maiores ilustradoras portuguesas de todos os tempos, com obra extensa e singular, de rara sensibilidade artística, em publicações infantis, mas que também se notabilizou nas artes plásticas, como seu pai Alfredo Roque Gameiro.

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Neste número do Tic-Tac, com 16 páginas, a duas e quatro cores, em que os temas natalícios têm a primazia, destaque para o conto de Ana de Castro Osório, “Uma História do Natal”, com ilustrações de Pinto de Magalhães (Filho), e a narrativa humorística “O Testamento do Peru”, original de Luíz Ferreira (Tio Luíz) e ilustrada por Tiotónio, que, além de dar o nome a uma curiosa secção de “engenhocas larocas”, também fez as honras da contracapa, com novas e azaradas peripécias do seu “compadre” Zé Pacóvio… por causa de um velho peru recheado que fez o saloio espertalhão ver a lua e as estrelas!

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Curiosamente, esta página foi inspirada numa historieta de outro grande desenhador humorístico, o mestre espanhol José Cabrero Arnal, publicada pouco tempo antes na revista Pocholo nº 109, copiosa fonte à qual O Mosquito foi beber muitas criações de alguns excelentes artistas do país vizinho, como Moreno, Arnal e Jesús Blasco.

Agradecemos ao nosso amigo Leonardo De Sá — e por seu intermédio a Jordi Artigas, que fez a pesquisa no Pocholo — pela oportunidade que nos proporcionaram de dar a conhecer aos nossos leitores duas versões da mesma história, feitas por autores diferentes, ambos com uma notável carreira artística que prestigiou a BD dos seus países.

Depois de as cotejarmos, leva vantagem a do Tiotónio, por ser a cores e ter como prota- gonista um “herói” de aspecto castiço — como os saloios da Malveira da Serra — que, apesar de não servir de exemplo, fazia rir a miudagem a bandeiras despregadas!

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Em resumo, um número de Natal também bem recheado de nomes célebres e de amenas propostas de leitura, entre as quais as rubricas Caçadas e Aventuras, De Tudo um Pouco (por Tiotónio), Para Moer o Juízo (secção charadística) e História dos Portugueses (por Eduardo de Noronha, com ilustrações de Rocha Vieira) — além de um novo episódio da mais empolgante série de aventuras dessa época, Pelo Mundo Fora (Rob the Rover), com desenhos de um grande pioneiro da BD inglesa (Walter Booth) e um herói que viria a tornar-se, tempos depois, uma das figuras mais populares do novel jornal juvenil concebido também por António Cardoso Lopes: o nosso imorredoiro O Mosquito!

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ÁLBUNS DE NATAL E PRESÉPIOS D’O MOSQUITO – 2

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Com esta capa, O Mosquito celebrou o seu segundo número natalício, em 16/12/1937. A imagem do Pai Natal e dos seus minúsculos companheiros era baseada numa ilustração do humorista espanhol Arturo Moreno, publicada na revista infantil Pocholo (Natal de 1936).

2013-12-05-22-29-482O arranjo gráfico devia-se a António Cardoso Lopes Jr., o célebre Tiotónio, director artístico d’O Mosquito e criador das impagáveis figuras do Zé Pacóvio e Grilinho, dois “saloios” na tradição dos tipos populares de Raphael Bordallo Pinheiro. Na capa, vêem-se outros heróis da revista, como o Cão Top, de Cabrero Arnal, outro magnífico desenhador espanhol (ao qual também já fizemos referência), D. Triquetraque, caçador de feras, de A. Moreno, e o Capitão Bill, junto da sua equipagem, personagens de origem inglesa criados pelo mestre Roy Wilson (e aqui retocados pelo traço de Tiotónio).

Recorde-se que o segundo director e fundador d’O Mosquito era Raul Correia, prolífico autor de novelas de aventuras (e tradutor de todas as legendas das histórias aos quadradinhos), que assinava também, com o pseudónimo de Avôzinho, uma poética coluna, em prosa e em verso, que lhe granjeou o afecto e a admiração de milhares de leitores fiéis (muitos dos quais nunca descobriram a identidade desse bondoso avô imaginário).

No presente número de Natal, o seu estro poético brilhava com especial fulgor em dois trabalhos alusivos à quadra, como impunha a tradição, nesses tempos em que o texto ainda tinha primazia sobre a imagem: o belo poema “Noite de Natal” e o conto “A Oração das Lágrimas”, que deve ter deixado muitos garotos — pelo menos aqueles que já sabiam ler — com os olhos repassados (de lágrimas) de emoção.

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Na contracapa desse número, bem recheado de histórias inglesas, como Pelo Mundo Fora (de Walter Booth), O Capitão Bill, o Grumete Bell e o Cozinheiro Ball (de Roy Wilson) e Beric, o Bretão, O Mosquito anunciava o seu “presente” de Natal: um belo álbum a cores com a história completa, desenhada por Arturo Moreno, “Ponto Negro, Cavaleiro Andante” (Punto Negro en el País del Juego), oriunda também do Pocholo — obra-prima do surrealismo poético em quadradinhos, plena de inventiva, humor e fantasia, que tinha como protagonista um borrão de tinta transformado em destemido herói de papel. A sua figura surgia também na capa d’O Mosquito, em jeito de reclamo (outra boa ideia do Tiotónio).

Foi uma das muitas personagens — tanto na BD como no cinema animado — que consagraram Arturo Moreno Salvador (1909-1993) como um dos mais criativos e prolíficos autores humorísticos espanhóis da sua geração.

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Outro presente que encantou todos os leitores, sobretudo os mais entusiastas das construções de armar — que nessa época, à falta de outros entreténs, eram o regalo da miudagem, sempre ávida de novidades e passatempos, mesmo os de papel —, foi a separata inserida neste número, com as três partes (ou planos) de um pitoresco Presépio desenhado por Rocha Vieira, colaborador eventual d’O Mosquito, mas copioso ilustrador no Tic-Tac e noutras revistas infanto-juvenis, onde deixou obra de vulto.

Aqui têm também essa rara separata colorida, graças aos bons préstimos do nosso amigo Carlos Gonçalves, a quem agradecemos, uma vez mais, a sua preciosa colaboração.

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ÁLBUNS DE NATAL E PRESÉPIOS D’O MOSQUITO – 1

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O primeiro número extraordinário d’O Mosquito foi o do Natal de 1936, mas o que nele chamava a atenção, à primeira vista, não eram os motivos natalícios estampados na capa (na verdade, limitados a um patusco boneco de neve e ao decorativo friso de brinquedos que ladeavam uma página humorística com desenhos de C. Arnal). Para os olhares ávidos da rapaziada, o seu principal atractivo era o número recorde de páginas, nada mais nada menos do que 20, numa edição sem acréscimo de preço — assinalável triunfo que só foi possível graças ao célere aumento da tiragem, de 5.000 para 10.000 exemplares, durante o ano em que o atraente semanário veio, pela primeira vez, ao mundo. E esse número não pararia de crescer… apesar dos sistemáticos atrasos na distribuição provocados por uma tipografia que já não chegava para as encomendas!

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Natal Mosquito, anúncioBem recheadas de contos, novelas, curiosidades, engenhocas (ensinando a fazer um copiógrafo) e histórias aos quadradinhos (na sua maioria de origem inglesa, como as trepidantes séries Pelo Mundo Fora, de Walter Booth, e Jovens Heróis, de Reg Perrott), sem esquecer as tradicionais rubricas do correio e da coluna do Avozinho (que dedicava aos seus pupilos dois belos poemas de Natal), essas 20 páginas “enfeitavam-se” também com uma mão-cheia de anúncios comerciais (que O Mosquito fazia questão de recomendar “pessoalmente” aos seus leitores) — prova insofismável de que o retumbante sucesso alcançado junto do público infanto- -juvenil era também reconhecido por muitas firmas dos mais diversos ramos, todas curiosamente localizadas em Lisboa… onde, por razões óbvias, devia ser mais fácil angariar publicidade do que no resto do país.
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Guerra no país dos insectos - 1Numa dessas páginas, o entusiasmo da miudagem atingiu o rubro ao ler o anúncio de outra grande novidade com que O Mosquito decidira comemorar o seu primeiro ano de existência: Guerra no Pais dos Insectos, “o livro mais engraçado que jamais se viu”, com 24 páginas a duas cores e capa em cartolina, pelo módico preço de 2$50… um autêntico brinde de Natal, mais apetecível do que todas as guloseimas da festa da Consoada!

A feliz iniciativa de António Cardoso Lopes (Tiotónio) e Raul Correia (Avozinho), os dois criadores e directores d’O Mosquito, foi um dos maiores êxitos dessa temporada natalícia, pois o belo álbum em formato A4 — outra obra-prima de Cabrero Arnal, um dos maiores mestres da BD humorística espanhola desse tempo — esgotou-se num ápice… com natural regozijo dos editores, que animados por esse novo triunfo, repetiriam a experiência nos anos seguintes, lançando mais álbuns com a assinatura de C. Arnal e de outro excelente desenhador espanhol, Arturo Moreno.

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Natal mosquito 50 - 7Mas não é tudo… Além desta sensacional novidade — que até ostentava na contracapa um diploma régio, assinado por Sua Majestade D. Mosquito I, conferindo prerrogativas e favores especiais aos seus compradores —, brilhavam outras “luzes” nos frondosos ramos natalícios d’O Mosquito nº 50, com data de 24/12/1936 (mas que só saiu dias depois… mais uma vez por culpa da tipografia). O seu ecléctico sumário tinha o condão de educar, moralizar e emocionar, mas também de divertir, através das criações humorísticas que recheavam as suas páginas, em especial aquela que fazia as honras da contracapa: mais um episódio das Formidáveis Aventuras do Grumete Mick, do Velho Mock e do Cão Muck, mirabolante série aventurosa que transportava também os leitores para paragens exóticas… mas num estilo bem diferente das criações inglesas, espelhando o talento e a originalidade de Moreno, outro ídolo da rapaziada que em muito contribuiu, nesses primeiros tempos, para o avassalador êxito d’O Mosquito.

Anos depois, esta pitoresca aventura (oriunda da revista infantil espanhola Pocholo) seria também publicada em quatro álbuns de pequenas dimensões (21 X 14,5 cms), que ainda hoje constituem uma preciosa (e cobiçada) raridade… tal como a Guerra no Pais dos Insectos, de C. Arnal, também reeditada no mesmo formato.

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