TOMMY, O RAPAZ DO CIRCO – 14

Tommy 1,2  e 3      194

Acompanhado apenas por Harrison “Molho de Carne” e miss Larue, Tommy prossegue as buscas em “território inimigo” — isto é, no circo do infame Carney Calson — para encontrar a sua amiga Sue, misteriosamente desaparecida duas noites antes. Os cúmplices de Carney estão a postos e não perdem os intrusos de vista, mas “Molho de Carne”, que sabe usar a força quando é preciso, vai-os “despachando” um a um…

Leiam mais um episódio desta magnífica série criada por John Lehti, cujas tiras, correspondentes à publicação na imprensa diária, entre 25 de Março e 3 de Abril de 1947, surgiram n’O Mosquito nº 924, de 1 de Maio de 1948.

Nota: a título de curiosidade, decidimos apresentar mais algumas tiras de Tommy of the Big Top na versão extraída dos jornais, começando exactamente pelas primeiras, para que os nossos leitores possam apreciar o texto em inglês e, ao mesmo tempo, cotejar essas tiras com que as que foram publicadas n’O Mosquito, pois o tamanho, por vezes, é diferente. Saberemos porquê, em breve, quando Tommy regressar ao nosso convívio…

Tommy 128 a 136

RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 1

O autor “bicéfalo” que escrevia “O Mosquito”

Raul Correia (1094-1985)Com uma prosa inimitável, duma sonoridade quase cristalina, aliada a uma fluência de água corrente e a uma singeleza sem artifícios, capaz de fazer inveja a muitos escritores de maior nomeada, Raul Correia — fundador e director dO Mosquito, juntamente com António Cardoso Lopes (Tiotónio) — escreveu novelas de todos os géneros, com destaque para as de temática policial, em que criou diversos detectives de primeiro plano (James Donald, Rudy Carter, Ronald Campbell e outros), embora as suas preferências se inclinassem para as aventuras de ambiente histórico, como demonstrou mais tarde, ao tornar-se argumentista, fazendo dupla com o grande ilustrador Eduardo Teixeira Coelho.

Rudy CarterSão poucos os dados biográficos sobre aquele que ficou também conhecido pelo heterónimo de Avozinho — autor de poemas (em prosa e em verso) de lírica sensibilidade, que encantavam e educavam moral- mente a miudagem, a qual (salvo raras excepções) nunca soube o seu verdadeiro nome —, mas o que me interessa sobretudo analisar é o seu estilo novelístico, à luz da minha própria experiência como leitor, desde tenra idade, dO Mosquito.

Deixo para Alexandre Correia, neto do grande novelista e que herdou também a sua veia literária, a grata tarefa de escrever um texto biográfico sobre o avô, cuja companhia partilhou intimamente durante muitos anos. Texto esse que em breve aparecerá, com o devido destaque, n’O Voo d’O Mosquito, recheado de factos curiosos que darão a conhecer algumas facetas mais pessoais daquele que muitos recordam apenas pelo nome de Avozinho.

Mosquito 28 - 1 e 2

mosquito-379-Se a influência do Avozinho foi enorme, embora restringida por longos períodos de ausência, a do escritor Raul Correia, sempre presente em todas as fases dO Mosquito, do primeiro ao último número, mesmo quando não assinava a sua cola- boração, essa foi ainda mais importante. O título que dei a este primeiro artigo (de uma série de onze) reflecte assim, creio que simbolicamente, esse binómio que todos os leitores d’O Mosquito festejavam, sem conhecer a sua raiz comum.

Raul Correia parecia cultivar a famosa máxima de Hemingway: “Uma risca a menos não altera a pele do tigre, mas uma palavra a mais mata qualquer história”. Algumas das principais características do seu estilo, a fluência narrativa, o poder descritivo e a icástica simplicidade do verbo, livre de quaisquer redundâncias estéticas (como hoje parece estar na moda), resultam, além disso, da síntese homogénea entre a forma literária e uma linguagem cinética.

Amanaque o mosquito e a formiga   191Em tudo o que escreveu — mas particularmente nos seus contos e novelas — o ritmo flui dinâmica e harmoniosamente e a acção progride numa sincro- nia absoluta de planos, como os destinatários da sua prosa, ou seja, o público infanto-juvenil, estavam habituados a ver no cinema. Foi esse ritmo cinematográfico que Raul Correia transpôs para o seu estilo novelístico, aliando como poucos a sobriedade da forma à intensidade da emoção.

Um bom exemplo do apurado domínio dessa técnica narrativa — que utilizava também, com outros fins, nos poemas em prosa do Avozinho — é o conto Jim Daddy (Jim Papá, numa tradução à letra), publicado pela 1ª vez no Almanaque O Mosquito e A Formiga, em finais de 1944, quando O Mosquito já ia no seu 8º ano de publicação — e Raul Correia no 10º ano da sua carreira de novelista —, e reeditado, quase quatro décadas mais tarde, no Mundo de Aventuras nº 429 (2ª série), de 31 de Dezembro de 1981, com ilustrações de Augusto Trigo.

Jim Daddy - cabeçalho trigo188

Refira-se, a propósito, que a primeira versão desse conto foi ilustrada por um dos mais talentosos colaboradores artísticos d’O Mosquito, Vítor Péon, que entrou ao serviço do popular bissemanário em Abril de 1943, pouco tempo depois de E.T. Coelho — a quem coube a tarefa de ilustrar, substituindo com as suas pujantes imagens as de anónimos desenhadores ingleses, alguns dos melhores originais de Raul Correia, com destaque para a longa novela “Aventuras de Jim West”, recebida pelos leitores com grande entusiasmo.

Quanto a Jim Daddy é talvez o conto de acção em que, de forma mais emotiva, perpassa a “sombra” do Avozinho — numa dualidade que, às vezes, transparece, como por acaso, noutras obras de Raul Correia.

Aqui têm, pois, uma pequena “jóia” do conto policial, como exemplo dessa transfusão de estilos, que aos leitores mais argutos d’O Mosquito deu certamente razões para pensarem na verdadeira identidade do Avozinho.

Jim Daddy - 1 & 2

O MOSQUITO E A MÚSICA

The Doors & The Mosquito

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Quem diria que o nome de um insecto tão popular como o nosso Mosquito até aparece com destaque em letras de canções?!… Pois aqui têm a prova, neste pitoresco tema da célebre banda de rock The Doors, criada em 1965 por Jim Morrison e Ray Manzarek, dois estu- dantes da escola de cinema de Los Angeles, que também gostavam de música.

A banda, composta por mais dois elementos, Robby Krieger e John Densmore, somou êxitos após êxitos, como Waiting for the Sun, Light my Fire, Love Her Madly, People Are Strange, Break on Through, Touch Me, Riders on the Storm, Moonlight Drive, Roadhouse Blues, Strange Days, L.A. Woman e muitos outros, editados em discos que venderam milhões de cópias.

Jim Morrison - The Doors

Jim The Doors (cartaz do filme)Morrison morreu em 1971, supostamente por causa de uma overdose, e a banda desfez-se pouco tempo depois, mas a sua aura no panorama da música rock persiste ainda hoje, graças à polémica herança artística de Morrison e às homenagens que lhe foram prestadas em diversos medias, nomeadamente no filme reali- zado por Oliver Stone, em 1991, com o actor Val Kilmer no papel do célebre cantor e compositor, e num recente documentário sobre a banda: When You’re Strange, narrado por Johnny Depp.

«Morrison era um poeta», afirmou, certa vez, Ray Manzarek, também já falecido, «e um poeta anseia que as suas palavras sejam ouvidas».

Pois, caros amigos, nesta canção dos The Doors, incluída no álbum Full Circle — último lançado pela banda, depois da morte de Jim Morrison —, qual é a palavra que dá o mote, o nome que fica a bailar no ouvido? Até apetece repeti-lo muitas vezes… E ouçam como mosquito em espanhol rima bem com burrito, duas palavras com sonoridades musicais.

Só temos pena de não vos poder mostrar a banda ao vivo… mas em contrapartida, noutro vídeo que vale a pena ver e ouvir, surge uma conhecida personagem que “interpreta”, à sua (irresistível) maneira, o tema da canção. Divirtam-se com ela e com a animada música de uma das mais célebres bandas de rock de todos os tempos… que acabaria, com um dos seus êxitos, por ficar também ligada ao nosso Mosquito!

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 7

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (3) – por O. Henry

Resumo: Depois de sair da prisão, onde cumpriu uma pena curta por roubo, Jimmy Valentine, cuja habilidade como arrombador de cofres faz dele o suspeito nº 1 do detective Ben Price, decide aparentemente regressar ao bom caminho, dedicando-se a outras actividades.

Mas os roubos sucedem-se, deixando vazios os cofres de vários bancos, e as suspeitas de Ben Price voltam a recair sobre Jimmy — que, entretanto, ao chegar à cidade de Elmore, foi alvejado certeiramente pela flecha de Cupido…

Nota: Além do texto, com tradução de Raul Correia, publicado n’O Mosquito nºs 1037 e 1038, em Junho de 1949, apresentamos mais três páginas da brilhante adaptação gráfica deste conto, realizada pelo artista norte-americano Gary Gianni (a sua obra de estreia na BD) e dada à estampa, em 1990, num volume da colecção Classics Illustrated. Os nossos leitores poderão, assim, cotejar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares), do mesmo tema.

O Henry - O destino de J Valentine   003

III

JIMMY DIRIGIU-SE ao Planter’s Hotel, pediu um quarto e deu o nome de Ralph D. Spen­cer. Encostado ao balcão, conversou com o empregado, contando-lhe a sua história. Declarou que era um comerciante e industrial, farto da vida das grandes cidades, e que vie­ra a Elmore em busca de uma oportunidade para instalar um negócio. Tinha pensado numa sapataria… Que tal era o movimento comercial em Elmore? Haveria probabilida­des para o negócio de calçado?

Impressionado pela elegância e boas manei­ras de Jimmy, o empregado do Hotel pôs-se inteiramente à sua disposição. Ele próprio era uma espécie de árbitro de elegâncias den­tro do pequeno âmbito da cidadezita, mas à vista de Valentine compreendeu imediata­mente as suas insuficiências. E, enquanto analisava com imensa atenção o perfeito nó de gravata do hóspede, abriu-se em informações detalhadas.

Sem dúvida, na sua opinião, o negócio de calçado podia oferecer perspectivas muito boas. Não havia nenhum estabelecimento da especialidade em Elmore. Eram os armazéns gerais e os fanqueiros que vendiam sapatos à população… De resto, todo o movimento comercial da cidade prometia um futuro interessante. Esperava que Mr. Spencer gostasse da terra e ali se estabelecesse. Elmore era uma cidade agradável para se viver, e a população muito hospitaleira e so­ciável.

Mr. Spencer declarou que ficaria ali por alguns dias, pelo menos, para observar a si­tuação. Não, não era preciso chamar o rapaz para levar a mala. Ele mesmo a levaria.

— É um bocado pesada, sabe? Não se in­comode!…

Mr. Ralph Spencer — a fénix que surgira das cinzas de Jimmy Valentine, cinzas deixadas por uma súbita e violenta labareda de amor à primeira vista — fixou-se em Elmore e prosperou. Alguns meses depois da sua che­gada à cidade, a loja de calçado fazia um mo­vimento dos mais interessantes, e tinha tanta clientela quanta poderia desejar-se.

Do ponto de vista social, Mr. Spencer tam­bém conseguira um êxito completo. Contava apenas amigos. E o desejo do seu coração ti­nha sido realizado, porque fora apresentado a miss Annabel Adams e sentia-se cada vez mais enfeitiçado pelos seus encantos.

Regeneração 5Ao cabo de um ano, a posição de Mr. Ralph Spencer era a seguinte: tinha conquistado a estima e o respeito da comunidade, a sua loja era a mais próspera de Elmo­re, e ele e miss Annabel haviam combinado o casamento para daí a duas semanas. Mr. Adams, um simples, franco e característico banqueiro de cidade provinciana, aprovava plenamente a escolha feita por sua filha. Miss Annabel tinha pelo noivo um orgulho que qua­se igualava o afecto que lhe dedicava. E Mr. Spencer estava em casa dos Adams, ou em casa da irmã de Annabel, que era casada, tão à vontade como em sua própria casa. To­dos o consideravam como se ele já pertencesse, de facto, à família. Ora uma tarde, fechado no seu quarto, Jimmy sentou-se em frente da secretária e escreveu a seguinte carta, que endereçou para a morada de um velho amigo, em St. Louis:

«Caro camarada, preciso que venhas à locanda do Sullivan, em Little Rock, na próxima quarta- -feira, às nove horas. Quero pedir-te para te encarregares de umas coisas do meu interesse. Ao mesmo tempo, tenho um presente para ti, que é a minha colecção de ferramentas. Sei que gostarás de ficar com ela, e nem por um milhar de dólares poderias arranjar outra igual.

Bem vês, eu retirei-me dos velhos negócios há um ano. Tenho uma loja, estou resolvido a fazer a vida de um homem honesto, e daqui a duas semanas vou casar com a rapariga mais bonita e decente que há neste mundo. Não há vida melhor do que esta, uma vida às direitas. Agora não seria capaz de tocar num cêntimo que não fosse meu, nem por um milhão de dólares. Depois de casar, vendo a loja e vou para o Oeste, onde não haja tanto risco de ver o meu passado cair-me, de repente, em cima.

Digo-to eu, Billy, ela é um verdadeiro anjo. Tem confiança em mim e por nada deste mundo eu deixaria de merecer essa confiança. Não deixes de estar no Sullivan’s, quarta-feira, porque preciso muito de falar contigo. Nessa altura, levo as ferramentas.

Teu velho camarada, Jimmy»

Na segunda-feira da semana seguinte ao dia em que Jimmy escreveu esta carta, Ben Price chegou discretamente a Elmore, num carro puxado por cavalos. Circulou pela cidade sem dar nas vistas, à sua maneira, e obteve todas as informações que queria obter. Através da montra de um Bar que havia em frente da loja de calçado, ele pôde observar Mr. Ralph Spen­cer à sua vontade.

— Com que então o Jimmy vai casar com a filha do banqueiro da terra!… — disse Ben Price para os seus botões. — Hum! Não é coisa muito certa, esse casamento!…

Na manhã de terça-feira, Jimmy almoçou em casa dos Adams. Ia partir para Little Rock antes da tarde, para tratar do seu fato de ca­samento e também para comprar uma prenda bonita para Annabel. Era a primeira vez que saía da cidade, depois da sua chegada a Elmore. Tinha decorrido mais de um ano sobre a sua última proeza «profissional», e ele pensava que não haveria grande risco na viagem.

Depois do almoço, foi um alegre grupo fa­miliar que saiu para a rua: Mr. Adams, Annabel, Jimmy e a irmã casada de Annabel, com as suas duas filhinhas, uma de cinco anos e outra de nove. Passaram pelo Hotel, onde Jimmy estava ainda instalado, e ele su­biu ao quarto para ir buscar a sua maleta. Daí foram ao Banco, perto do qual estava a caleche e o cocheiro que haviam de transportar Jimmy à estação de caminho-de-ferro.

Era cedo ainda e entraram no Banco. Jim­my também, como era natural, tanto mais que o futuro genro de Mr. Adams era bem-vindo em toda a parte. Os empregados do Banco apreciavam a companhia e a conversa do elegante e simpático rapaz que ia casar com a filha do patrão. Jimmy pousou a ma­leta no chão, enquanto esperavam.

Então, Annabel, que tinha a alegria e a vivacidade das pessoas que se sentem comple­tamente felizes, pôs o chapéu de Jimmy na cabeça e pegou na maleta.

— Não é verdade que pareço mesmo um homem de negócios?… Oh! Como a tua maleta é pesada, Ralph! Parece que está cheia de barras de ouro!…

— Uma porção de formas de metal que vou devolver — explicou Jimmy, tranquilamente. — Aproveito a viagem e poupo dinheiro no transporte! Estou a tornar-me económico a valer!…

O Banco de Elmore tinha justamente insta­lado, dias antes, um novo cofre e uma casa-forte. Mr. Adams, que se sentia orgulhoso daqueles melhoramentos, insistiu para que todos fossem ver. A casa-forte era pequena, mas tinha uma fechadura que se fechava por um processo moderno e patenteado. Um sim­ples fecho, que se podia manobrar com uma só mão, cerrava simultaneamente três fecha­duras de aço. Tudo aquilo era de uma leveza e, ao mesmo tempo, de uma solidez absolutas. Bastava conhecer o mecanismo e preparar a manobra do «segredo», o que se fazia coorde­nando uma espécie de movimento de relógio com a combinação dos fechos.                                                                                   (continua)Regeneração 6 e 7

CANTINHO DE UM POETA – 9

Cantinho de um poeta - 9

Eis mais um poema de Raul Correia, ilustrado por José Baptista (Jobat), que reproduzimos do Jornal do Cuto nº 72, de 18/11/1972. Foi nesta revista, fundada e dirigida por Roussado Pinto, que muitas obras de Raul Correia, tanto em prosa como em verso, foram resgatadas, pela primeira vez, das páginas d’O Mosquito e de outras publicações congéneres para chegarem ao conhecimento de uma nova geração de leitores.

TOMMY, O RAPAZ DO CIRCO – 13

Tommy of the Big Top - pág. 14

As suspeitas de Tommy e dos seus amigos confirmam-se graças ao estratagema usado por Sue, que foi raptada por engano e está prisioneira no circo de Carney Calson. Agora é preciso agir com rapidez para libertar a rapariga e entregar Carney e os seus cúmplices às autoridades. Mas a tarefa não parece fácil…

Leiam mais um episódio desta excelente série americana, escrita e desenhada por John Lehti, cujas tiras, correspondentes à publicação original de 14 a 24 de Março de 1947, saíram n’O Mosquito nº 923, de 28 de Abril de 1948.

Tommy 119 a 127 P&B

O MOSQUITO EM 1943 – 9

Como assinalámos no post anterior desta rubrica, um dos mais notáveis acontecimentos do ano de 1943, para os leitores d’O Mosquito, ocorreu no nº 424, de 17 de Julho, com a aparição nas suas páginas de um novo desenhador, já famoso no país onde nascera: o mestre espanhol Emilio Freixas, cuja obra seria também muito apreciada e aplaudida em Portugal, graças à larga divulgação que teve n’O Mosquito e no Diabrete.

mosquito-1943-8-chicos-73“A Heróica Aventura” (tradução livre do título bastante mais sugestivo “El País de las Arenas”) foi a história que o apresentou aos leitores d’O Mosquito e também a primeira oriunda do semanário Chicos, que se publicava em San Sebastian e com o qual Cardoso Lopes e Raul Correia iriam estabelecer, a partir dessa data, um longo e frutuoso intercâmbio. Além de ser primorosamente ilustrada, embora com textos sem balões, dentro de “cartuchos” inseridos nas vinhetas — que os eruditos designam por legendas diegéticas, em oposição às didas- cálicas (isto é, fora das vinhetas) —, tinha como protagonistas dois ladinos rapazotes, Chatillo e Frederico, ambos vestidos a “rigor”, o primeiro como groom de hotel e o segundo como filiado da Frente de Juventudes espanhola, substituída, no texto que Raul Correia traduziu e adaptou, por outra organização similar: a Mocidade Portuguesa. Os seus patronos e companheiros de aventuras eram dois aviadores fascistas, mas suficientemente simpáticos e destemidos para que essa ideologia não ofuscasse as suas virtudes: o capitão Izquierdo (apelido que até soa a ironia, visto a história ter sido publicada em 1939, no final da guerra civil espanhola) e o coronel Bustamante, baptizados n’O Mosquito com os patrióticos nomes de Vilalva e Lencastre. Quanto a Chatillo, o mais jovem elemento do grupo, passou a chamar-se José Luís, por alcunha “Foguete”.

mosquito-1943-8-a-heróica-aventura-1Publicada verticalmente nas páginas centrais da revista — sem estar sujeita, como as histórias inglesas e italianas, às desmon- tagens que um formato mais pequeno implicava, o que também foi um factor de destaque —, “A Heróica Aventura”, com o aspecto original do seu grafismo e o singular carisma dos seus heróis (cujas “cores” políticas mal eram afloradas na acção do episódio), não tardou a conquistar o aplauso dos leitores, que teriam rejubilado se soubessem que “Foguete”, Frederico e os seus heróicos companheiros, o capitão Vilalva e o coronel Lencastre, tinham ainda para lhes oferecer mais duas magníficas aventuras, de duração e interesse muito superiores à primeira: “A Cidade das Três Muralhas” e “A Seita do Dragão Verde”.

Como apresentamos também a primeira página de “El País de las Arenas”, publicada em 26/7/1939, no nº 73 de Chicos, aproveitem não só para apreciar os desenhos de Freixas a cores, como para comparar as duas versões do texto… e decidam, depois, qual é a melhor.

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