JOSÉ GARCÊS – UM DESENHADOR COMPLETO

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Como foi largamente noticiado, inclusive neste blogue e n’O Gato Alfarrabista, José Garcês, um dos maiores mestres das artes figurativas portuguesas, foi alvo de uma oportuna homenagem na Biblioteca Nacional pelos seus 70 anos de carreira, iniciada em 1946 nas páginas d’O Mosquito. Homenagem que ainda decorre, depois de um colóquio realizado pelo Clube Português de Banda Desenhada em 30 de Março p.p., com uma exposição que está patente naquela instituição cultural até ao próximo dia 16 de Abril.

Organizada pelo CPBD e pela Biblioteca Nacional, essa exposição reúne várias amostras da fértil actividade artística de José Garcês, mostrando exemplares de revistas que fizeram história como O Mosquito, Camarada, LusitasFagulha, Joaninha Cavaleiro Andante, mas também álbuns de BD, originais, livros ilustrados, separatas e preciosas peças arquitectónicas como o Mosteiro da Batalha, habilmente reconstituído, até aos mínimos detalhes, por José Garcês, numa das numerosas construções de armar com que encantou, divertiu e instruiu os seus jovens admiradores (e não só).

Como é de uso nos eventos da Biblioteca Nacional, foi editada uma “folha de sala” com um artigo alusivo à extensa obra do homenageado, escrito por Carlos Gonçalves, um dos comissários da exposição. Por obséquio do Clube Português de Banda Desenhada, reproduzimos seguidamente o texto integral desse artigo (e respectivas ilustrações), que na folha da BN ficou muito resumido.

A Carlos Gonçalves e ao CPBD os nossos agradecimentos.

JOSÉ GARCÊS, UM DESENHADOR COMPLETO 

De todos os desenhadores portugueses, José Garcês é talvez um dos pouco que poderemos considerar como completo na sua arte. Isto porque na sua incontornável obra, além de se encontrar todos os ingredientes que qualquer História aos Quadradinhos deverá ter, emoção, aventura, suspense e um bom argumento, tem igualmente erotismo. Esta é talvez a componente mais importante ou, pelo menos, uma das mais importantes nos trabalhos deste desenhador. Várias são as suas obras e em quase todas elas a mulher acaba por desempenhar um papel de relevo no desenrolar da história. Cada uma das suas personagens femininas são dinâmicas, inteligentes e participam activamente na acção. Não esperam que o “herói” as salve, quando se encontram em perigo. Elas destacam-se e actuam, com risco da própria vida, contra qualquer vicissitude. Evidentemente que para atingir um palmarés invejável de produção e, inclusive, conseguir alcançar um patamar de qualidade na sua obra, tal só seria possível com o trabalho de muitas horas.

O EROTISMO NAS SUAS OBRAS

O Melro + O inferno verde

José dos Santos Garcês nasceu a 23 de Julho de 1928. O seu itinerário como desenhador começa quando ainda era muito novo, ao criar o fanzine O Melro, datado de finais de 1944. Seria uma publicação de exemplar único, destinado a ser alugado entre os colegas. Publicaria, assim, 21 números da 1ª série e mais três da segunda, até finais de 1945. Esta última teria já direito a mais exemplares por número, que passariam a ser vendidos. Os seus primeiros passos nas artes gráficas dão-se ao trabalhar para a revista O Pluto, editada por Roussado Pinto, onde se ocuparia de retoques e adaptações de algumas histórias estrangeiras, que de outro modo não seriam impressas nas páginas dessa publicação. Quase em finais de 1946, precisamente a partir do nº 762 (12/10/46), já o encontramos a colaborar na revista O Mosquito, com a sua história “O Inferno Verde”, onde se nota a sua apetência pelos animais, demonstrando já habilidade criativa no planeamento das pranchas e o conhecimento da anatomia humana.

A partir daqui, a sua carreira é veloz em acontecimentos e nos trabalhos que lhe são pedidos. Aparece na revista Camarada com uma história de capa e espada. Segue-se “Rumo ao Oriente”, onde pela primeira vez a mulher passa a dominar a acção. Aqui “José Raio”, o nosso “herói” aventureiro, irá encontrar nas suas aventuras uma mulher misteriosa, talvez demasiado bela, mas de cara coberta com um véu, que não deixava distinguir as suas feições. Mas o nosso desenhador rapidamente nos oferece uma mulher em toda a sua pujança chamada “Myrian”, de belos e longos cabelos negros, de olhos aveludados e nariz fino, uma boca pequena e suave, de figura esbelta e elegante. Ela irá desempenhar um papel importante na acção, acabando por ser raptada pelo vilão como convém, mas também chegará a alterar os planos do bandido, através da sua iniciativa.

Em “A Princesa e o Mágico”, também publicada na revista Camarada, Garcês oferece-nos outra figura feminina apaixonante com “Yalla”, uma princesa etérea, cujos pés parecem nem pisar o chão… Será mais uma figura feminina a fixar. Depois de alguns trabalhos que executou para a Joaninha, suplemento da revista feminina Modas e Bordados, aparece-nos uma nova personagem de nome “Hermengarda”, silhueta frágil, de longos cabelos louros e feições de grande beleza, em “Eurico, O Presbítero” de Alexandre Herculano. Desta vez, a história seria publicada nas páginas da própria revista (nºs 2274 a 2315, de 7/9/55 a 20/6/56), sendo mais tarde recolhida e lançada em álbum pela Editorial Futura. Em “As Três Princesas Cristãs”, publicada também no suplemento Joaninha, todas elas retratadas de uma forma audaz e ainda que as mesmas não se apresentassem em trajes menores ou mais ousados, eram cativantes e sensuais.

As Princesas Cristãs + Eurico, o presbítero

Poucos foram os desenhadores portugueses que destacaram e engrandeceram a mulher de tal forma nos seus trabalhos, pois não era só a sua beleza que contava. A sua participação no enredo e muitas vezes a sua personalidade, era demonstrada nos seus actos no decorrer da história. Antes de focarmos aqui os trabalhos que José Garcês executaria ao longo da sua carreira, lembramos ainda neste campo a personagem “Fathma”, que foi apresentada na revista Lusitas. É a pujança total, o ponto alto da carreira deste desenhador e onde a sua arte está mais patente aos olhos dos leitores.

UMA CARREIRA DE SUCESSO NAS REVISTAS

Enumerar neste pequeno espaço tudo o que José Garcês criou, seria quase completamente impossível, pelo que, de uma forma sucinta, vamos dar a conhecer os trabalhos de José Garcês, todos eles de uma maneira geral bastante importantes para a História da Banda Desenhada portuguesa. E lembramos que muitos dos seus trabalhos são precisamente sobre a História do nosso país e das suas figuras mais importantes, além de outras individualidades estrangeiras, navegadores, adaptações de romances célebres e até uma História de Portugal em Banda Desenhada. Depois das suas histórias publicadas em O Mosquito – 1ª série, publica uma aventura em O Papagaio, seguindo-se mais três no Camarada, de 1948/1950. A revista Lusitas será a oportunidade a escolher e para onde irá dar aso à sua imaginação com uma série de obras, entre 1950 e 1956.

Entre estas produções, irá dedicar também algum do seu talento à revista Cavaleiro Andante. São já obras de grande fôlego e de grande aceitação por parte dos leitores desta publicação. O tema histórico não será esquecido e a sua produção conta-se pela criação de mais de uma dezena de histórias, destacando-se entre estas “Viriato” e “O Falcão”. Esta última seria mais tarde recuperada pelos Cadernos de Banda Desenhada e nela se destaca mais uma figura feminina, na personagem de “Dona Leonor de Monforte”. Titã e Joaninha são dois espaços a aproveitar para neles surgirem mais trabalhos do nosso desenhador, mas infelizmente, no primeiro caso, serão unicamente duas histórias, já que a revista entretanto acaba. Estamos em 1955/56. Nos quatro anos seguintes, as suas obras serão publicadas nas revistas Cavaleiro AndanteCamarada, nos anos de 1957/60. Enquanto na primeira os temas escolhidos serão as aventuras, na segunda a sua imaginação e produção estão mais ligadas a vários trabalhos dedicados a figuras históricas, como se impunha, já que a publicação era uma edição da Mocidade Portuguesa.

viriato + falcão 1 e 2

Mas será nesta altura e a partir de 1958, que a produção de José Garcês consegue manter um ritmo extraordinário, ao publicar na revista Fagulha e até 1973, cerca de 30 obras. Mas, em paralelo, a produção não pára e o Zorro recebe dois trabalhos seus em 1964. Em 1968, trabalha para o Pisca-Pisca e nos anos seguintes tem ligações a algumas revistas com reedições, como é o caso do Mundo de Aventuras, embora para esta ainda crie “Os Cavaleiros de Almourol”, em 1981, e para o Tintin “A Dama Pé de Cabra”, de Alexandre Herculano, e “O Santuário de Dudwa”, no mesmo ano. Em 1971, era o responsável pela parte gráfica da revista Jacto. Também tinha prestado pequenos trabalhos de ilustração no Zorro e no Foguetão, em 1964. Girassol, com “Vagô, o Tigre”, e o Fungágá da Bicharada, com algumas histórias infantis, quase finalizam a sua ligação às revistas de Banda Desenhada, mas na verdade também já não havia quase edições do género, com histórias de continuação. Em 1985, temos O Mosquito – 5ª série, onde José Garcês também colaborou.

AS SUAS PRODUÇÕES EM ÁLBUNS

Mas se as revistas de banda desenhada já tinham sido quase extintas, era a altura de se debruçar sobre outro modo de dar a conhecer, também, o entusiasmo e a vontade de criar novos trabalhos do género, para outras gerações. Começam, então, a surgir os álbuns, uma nova iniciativa de algumas editoras que, desta forma, colmatavam uma falha e procuravam igualmente novas formas de incentivar outros leitores a debruçarem-se sobre as Histórias aos Quadradinhos, mas desta vez com enredos completos, sem ter que esperar de semana para semana pelo desfecho da história. Tal prática já se tinha iniciado em finais dos anos 60 com a editora Ibis, mas só a Meribérica se atreverá numa aposta grande nesse campo, chegando a publicar algum material de origem portuguesa, mas muito pouco. A Editorial Futura apostaria mais forte, com a sua colecção Antologia da Banda Desenhada Portuguesa, onde será publicada a obra “Eurico, O Presbítero”, de José Garcês.

Será mais tarde a Asa a pronunciar-se também, com maior acuidade, nesse campo, levando para o mercado a “História de Portugal em BD”, da autoria de José Garcês, com quatro magníficos álbuns, entre 1987/88. Depois de uma grande produção no campo das ilustrações para a colecção História Júnior, começa de novo a produção deste artista, com a criação de uma série de obras que passamos a destacar: “Bartolomeu Dias” (1988), “O Tambor” (1990), “Cristóvão Colombo” (1992/1993), “D. João V” (1994), “História do Jardim Zoológico” (1997), “História da Guarda” (1999), “O Lobo de Lorena” (2000),  “História do Porto” (2001), “História de Oliveira do Hospital” (2001), “História de Ourém” (2002), “História de Portugal” (2003) (reedição e impressão num só volume), “História de Pinhel” (2004), “História de Faro” (2005), “História de Olhão” (2005),  “O Lince Ibérico” (2011),”História de Silves” (2016) e, ainda sem editor, “História de Santo António de Lisboa”. Todas estas obras não seriam possíveis sem a ajuda preciosa dos argumentos de Carmo Reis, Mascarenhas Barreto, Jorge Magalhães, Luís Miguel Duarte e Bruno Pinto.

Cristvão Colombo+ Eurico+ História de Faro

AS SUAS CRIAÇÕES NO CAMPO DAS CONSTRUÇÕES DE ARMAR

Antes de falarmos nas contribuições de José Garcês para outras actividades diferentes da Banda Desenhada, vamos abordar algumas das suas obras nas construções de armar, tarefa de que se ocuparia igualmente com grande sucesso, pois não só se dedicou a essa actividade para as revistas de Banda Desenhada, como criaria separadamente algumas construções destinadas ao grande público e vendidas separadamente numa edição da Asa, como foi o caso do “Mosteiro da Batalha”, “Torre de Belém” e “Mosteiro dos Jerónimos”, em grande formato, além de uma série de “Casas Portuguesas”. Criou igualmente a “Sé da Guarda” e a “Lancha Poveira do Alto”, como construções mais recentes.

Produções deste género já tinham sido por ele elaboradas para o jornal O Século, nos anos 60, ao apresentar a “Ponte Sobre o Tejo”. Seguem-se dois modelos de aviões “Boeing” e o hidroavião “Lusitânia” de Gago Coutinho, para a TAP, e ainda “Um Acampamento Índio” para revista O Pardal. Mas a sua maior produção vamos encontrá-la na revista Camarada – 2ª série, a partir de 1959 e até 1964, com uma panóplia de iniciativas a salientar: “Padrão dos Descobrimentos”, “A Conquista de Lisboa”, “Um Torneio Medieval”, “A Primeira Missa no Brasil” e “D. Filipa de Vilhena Armando Cavaleiros Seus Filhos”. Ainda para o Camarada criou igualmente quatro folhas preenchidas com uma série de animais de todos os tipos. Desenhou 96 cromos históricos, que seriam oferecidos aos leitores da revista em folhas, e ocupou-se de um presépio, baseado nas figuras do Presépio de Barros Laborão e outros.

Conhecedor e especializado em uniformes portugueses, criou também para esta revista 16 folhas que seriam vendidas igualmente em cartolina, como aliás aconteceria com o Presépio. Estas folhas de “Uniformes Portugueses” seriam oferecidas, de novo, nas páginas do suplemento de domingo do jornal Correio da Manhã, anos mais tarde. São também da sua autoria os três primeiros números da “Enciclopédia em Cromos”, editados pela Scire, em Dezembro 1975/Outubro 1976. Poucos serão os desenhadores, independentemente da sua nacionalidade, que se tenham ocupado de um campo artístico tão vasto como José Garcês. As marcas da sua vasta obra encontram-se em todo o lado, pois não acaba aqui a sua versatilidade e o seu empenhamento na criação, ilustração e publicação de tudo o que possa fazer parte do seu mundo da arte.

SÉ DE GUARDA+ boletim+ ilustração

ACTIVIDADES PARALELAS DE JOSÉ GARCÊS

Depois que se inicia na Banda Desenhada e apesar de ter trabalhado durante 36 anos no Serviço Nacional de Meteorologia, José Garcês nunca mais parou com outras iniciativas, nomeadamente ilustrações para livros escolares e infantis. Uma das suas facetas bastante importantes serão as suas criações para o jornal O Século nos concursos “Lendas de Portugal”, “Heróis de Portugal”, “Mulheres de Portugal”, “Concurso dos Namorados” e “Grandes de Portugal”. Não escaparam à sua veia criativa revistas de turismo, alguns jornais regionais, o Jornal do Exército e o da Força Aérea. De 1959 a 1965, irá ocupar-se da criação de postais, abordando o tema de animais em vias de extinção.

Conhecedor profundo dos uniformes militares portugueses, viria a ser solicitado para criar uma monografia sobre o assunto para o Ministério da Defesa Nacional, em 1960. Para os CTT criou postais sobre o mesmo tema, seguindo-se uma colecção de fósforos. Para o Mosteiro da Batalha esteve ligado às exposições “O Alabastro Medieval Inglês em Portugal” (1981), “Música do Século XV”, um ano depois, e “Ao Tempo de D. João I”, em 1983. Depois é um nunca mais acabar de criações. É autor de uma colecção de cromos sobre o tema “História de Portugal”. Desenhou e pintou os painéis para a “XVII Exposição do Conselho da Europa”, na Torre de Belém, em 1983, criou um álbum de desenhos sobre a “História de Portugal”, destinado ao ensino de jovens portugueses emigrados, e participou no álbum bilingue “Oito Séculos de História de Portugal”, em 1984.

A parte didáctica e o ensinamento da Banda Desenhada também não foram esquecidos, através das suas deslocações a várias escolas para colóquios e cursos sobre o tema. Nos anos 80, foi presidente do Clube Português de Banda Desenhada, lugar que ocuparia por mais de uma década. Um dos números do “Boletim” do CPBD teve a honra de apresentar uma capa de José Garcês, onde se destaca a sua veia erótica, ou o mesmo não fosse sobre o tema “A Mulher na Banda Desenhada”.

Esteve também presente em vários Festivais Internacionais de BD, em Lucca e nalgumas cidades do nosso país onde os mesmos se têm realizado. Foi homenageado pela editora Asa no “VI Festival de BD – Lisboa 87”, realizado no Fórum Picoas, onde recebeu o prémio “O Mosquito – Uma Vida Dedicada à BD”, do CPBD; em 1988, o Centro Nacional de Cultura deu-lhe o 1º Prémio pelo álbum “Bartolomeu Dias” e, em 1991, recebeu a ”Medalha Municipal de Mérito e Dedicação”, oferecida pela Câmara Municipal da Amadora.

Provavelmente já ninguém se lembrará que o primeiro emprego de José Garcês foi num atelier duma fábrica de bonecos de madeira (os famosos bonecos de Piló), ao lado de Meco (pai do artista Zé Manel). Nessa altura, e só com 19 anos de idade,  já chefiava a secção de pintura da fábrica, onde trabalhavam mais de 20 moças e mulheres, que se ocupavam da pintura dos bonecos, de acordo com as cores que o nosso artista na altura escolhia.

 O CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA

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