QUATRO HOMENAGENS A RAUL CORREIA – 1

Quando fui coordenador da 2ª série do Mundo de Aventuras, entre 1974 e 1987 (do nº 33 até ao nº 589 e último), consegui realizar alguns sonhos de juventude, entre eles o de travar conhecimento e amizade com muitos dos autores da BD portuguesa que mais admirava — como Vítor Péon, Orlando Marques, Roussado Pinto, José Garcês, Artur Correia, Artur Varatojo, António Barata, Fernando Bento, Adolfo Simões Müller —, cujas histórias, em prosa e em desenhos, tinha lido com entusiasmo nas páginas das minhas revistas preferidas: O Mosquito, Diabrete, Mundo de Aventuras, Cavaleiro Andante, Titã, Jornal do Cuto e outras.

O único que conheci nos meus tempos de juventude — além de Baptista Mendes, meu colega de turma no Liceu Gil Vicente, e de Carlos Roque, meu vizinho de bairro — foi José Ruy, que aceitou publicar na sua edição d’O Mosquito (2ª série) um conto de aventuras onde “luziam” as minhas modestas primícias literárias. E não só o publicou como o ilustrou…. em conjunto com outro desenhador que eu também muito apreciava, mas que só vim a conhecer mais de uma década depois: José Garcês.

Todos estes talentosos e ilustres autores me deram a honra de colaborar na 2ª série do Mundo de Aventuras, alguns com trabalhos inéditos, desde capas, contos, artigos e ilustrações até histórias aos quadradinhos.

Entre os homens de letras, cuja colaboração nessa série foi também das mais valiosas — a começar por Roussado Pinto, na altura ainda em plenas funções como director do Jornal do Cuto e de outras revistas da sua editora Portugal Press —, é forçoso destacar o nome e os méritos de Raul Correia, um dos carismáticos fundadores e directores d’O Mosquito, que ficou conhecido, para a posteridade, como o “Avozinho” de saudosa memória que escrevia líricos poemas lidos fervorosamente pela juventude — e mais tarde colaborador também do Jornal do Cuto.

Depois de Orlando Marques e Lúcio Cardador, foi ele o terceiro novelista d’O Mosquito a aparecer nas páginas do Mundo de Aventuras, onde decidi fazer-lhe uma pequena homenagem, com a colaboração de dois dos seus maiores admiradores (e ex-discípulos), Roussado Pinto e Orlando Marques, e também de dois distintos articulistas que, tal como eu, acalentavam ainda no espírito a inefável emoção com que tinham lido, noutros tempos, os seus contos, poemas e novelas de aventuras.

Aproveitando a reedição de alguns desses contos no Mundo de Aventuras, com magníficas ilustrações de Augusto Trigo, pedi aos meus quatro colaboradores — Roussado Pinto, Orlando Marques, A. J. Ferreira e A. Dias de Deus — que expressassem o seu parecer crítico sobre as obras e o estilo literário de Raul Correia, cuja fundamental importância como director literário e editor d’O Mosquito era por todos unanimemente reconhecida.

Resgatado das páginas do Mundo de Aventuras nº 429 (31/12/1981), eis o primeiro desses artigos, pela pena de Roussado Pinto, bem como um conto policial de Raul Correia, “Jim Daddy”, publicado no mesmo número (e já apresentado nesta rubrica, mas na sua versão original, com ilustrações de Vítor Péon).

Escuso de realçar, à distância de 36 anos, o valor histórico que ainda hoje possui esse depoimento de Roussado Pinto, em que transparece emotivamente uma análise mais sentimental do que crítica, ditada pela amizade e admiração sem limites que nutria por Raul Correia, desde o tempo em que o conhecera na redacção d’O Mosquito — onde também trabalhou, durante alguns meses, depois da sua efémera experiência como editor d’O Pluto.

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RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 3

Das novelas para as legendas, o mesmo método narrativo

Raoul Correia e Cardoso LopesComo novelista em publicações juvenis, Raul Correia foi realmente um precursor, não só ao criar um estilo apreciado por todos os leitores (em que, na harmonia da forma e na icástica simplicidade do verbo, transparecia a influência de Eça de Queirós, o seu romancista favorito), mas, sobretudo, abrindo múltiplos caminhos a uma geração de novos escritores, também exímios no género de aventuras, que apadrinhou e acarinhou como um verdadeiro mestre. Graças ao seu exemplo e ao seu espírito de abertura (secundado por Cardoso Lopes), é que a produção de novelas n’O Mosquito foi muito superior à de histórias aos quadradinhos de autores nacionais, mesmo tendo em conta que entre estes figuravam E. T. Coelho, Vítor Péon, Jayme Cortez, José Garcês e José Ruy, que se estrearam quase todos nas mesmas páginas.

pelo-mundo-fora-mosq-124-902Com a chegada de Lúcio Cardador, Orlando Marques e José Padinha, a presença de Raul Correia como novelista tornou-se mais discreta, no propósito deliberado de dar lugar aos novos. Colaborou também n’A Formiga, suplemento para as meninas dirigido por Tia Nita (Mariana Cardoso Lopes), e noutras publicações das Edições O Mosquito, como Filmagem (onde assinou algumas crónicas com o curioso pseudónimo de João da Lua) e Mosquito Magazine. O cariz diferente desses trabalhos — bem como as impagáveis legendas que escreveu para Serafim e Malacueco e muitas outras séries cómicas inglesas — dão bem a ideia do seu talento e da sua versatilidade.

Também traduziu e adaptou muitas séries de aventuras que ficaram célebres, como Pelo Mundo Fora, O Gavião dos Mares, O Capitão Meia-Noite, O Voo da Águia, Na Pista de Fu-Chong, Os Companheiros de Londres, Ao Serviço da Lei, O Capitão Ciclone, Cuto, O Planeta Misterioso, Pepe Carter e Coco, etc, e colaborou, em estreita união, com E. T. Coelho nalgumas das melhores criações do genial desenhador, nomeadamente Os Guerreiros do Lago Verde, O Grande Rifle Branco, Os Náufragos do Barco Sem Nome, Falcão Negro, o Filho de Jim West, Sigurd, o Herói, O Caminho do Oriente, A Moura e A Fonte, A Moura e o Dragão, A Lei da Selva, Lobo Cinzento, cujas legendas escreveu com inexcedível mestria, numa prosa elegante, emotiva e vigorosa que não ficava aquém da beleza formal e da energia cinética que irradiavam das imagens.

mosquito-253-gaviao-dos-mares904É verdade que não se lhe pode legitimamente atribuir a co-autoria dessas histórias, mas seria lamentável e injusto não reconhecer que sem a sua prosa elas ficariam desfalcadas de um importante elemento, na relação verbo-icónica.

Outro dos seus melhores trabalhos como autor de legendas, que escrevia baseado apenas nos desenhos, sem outro suporte narrativo — no caso das HQ’s nacionais —, está patente em A Casa da Azenha, magistral criação de Vítor Péon, inspirada nos clássicos da “novela negra” americana. Não sabemos se foi Péon (cuja carreira artística muito ficou, também, a dever ao impulso que lhe deu O Mosquito) quem teve a ideia de narrar a história na 1ª pessoa, mas o certo é que esse método típico da literatura policial, sobretudo de autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler, tornou ainda mais vernácula a prosa de Raul Correia, que para entrar no âmago de uma história, mesmo inventada por outrem, precisava apenas de apelar à sua imaginação.

Há quem o acuse apressadamente de ser demasiado redundante nas legendas que escrevia, mas esses detractores recentes esquecem-se de que as histórias com textos didascálicos tinham dois níveis diferentes (e autónomos) de leitura. Os desenhos, mesmo expressivos como os dos autores ingleses que rechearam os primeiros anos d’O Mosquito, não podiam contar tudo, pois faltava-lhes o discurso directo, parte integrante, hoje em dia, de qualquer história aos quadradinhos.

Como novelista e autor de legendas, Raul Correia procurava acima de tudo descrever fluentemente (e coerentemente) o desen- rolar da acção, sem se preocupar com o excesso de prosa, pondo mesmo em risco, por vezes, a integridade das vinhetas, isto é, dos desenhos. Não era um escritor de meias palavras… para mal dos tipógrafos, mas benefício dos leitores! E isso era qualidade mais do que suficiente para que estes seguissem com tanta atenção e interesse a sequência narrativa como a sequência desenhada.

Foi graças à expressividade do seu verbo e ao vigor do seu estilo que os heróis das histórias “mudas” inglesas ganharam vida, parecendo ultrapassar o limite das vinhetas, de formato geralmente uniforme, como se a acção extravasasse para um espaço mais vasto: o do imaginário narrativo.

Aliás, Raul Correia teve bons discípulos, como Roussado Pinto, Orlando Marques e outros, que também se distinguiram como prolixos narradores, dando primazia, nas HQ’s que criaram, ao texto didascálico ou no interior das vinhetas. Escola de raízes literárias que, durante muito tempo, dos anos 20 até quase aos 80, foi predominante na BD portuguesa do século passado (mas isso será tema para outro trabalho), essa forma narrativa estava intimamente associada à influência do romance (sobretudo o de características mais juvenis) e dos fascículos populares (a chamada literatura de cordel), que antecedeu a influência do cinema e do cartoon na evolução orgânica da Banda Desenhada.

Para Raul Correia, novelista, tradutor e autor de legendas, que abominava os “balões”, o texto descritivo foi sempre a sua linguagem narrativa peculiar.

RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 2

Um ritmo vertiginoso, como nos filmes policiais

Raul Correia (1094-1985)Raul Correia, cuja carreira literária iniciada no Tic-Tac, em 1934, abriu novos horizontes ao panorama da imprensa infanto-juvenil portuguesa — em perfeita sintonia com o cinema, a literatura de aventuras e as histórias aos quadradinhos, ou seja, com o gosto popular da época —, foi o escritor de estilo inimitável, o “farol” que iluminou com o radioso clarão da aventura e da poesia milhares de corações juvenis, que não lobrigavam em nenhum outro jornal da especialidade competidores, isto é, novelistas à sua altura.

mosquito-1943-8-nc2ba422-961Algumas das suas criações, com relevo para as de temática policial, perduraram no tempo e na memória dos leitores. Foi o caso de James Donald, Ronald Campbell, Eduardo Silveira e, em especial, Rudy Carter (outro personagem a quem emprestou as iniciais do seu nome), que surgiu na novela “Rudy Carter (G-Man)”, combatendo o crime ao lado dos intrépidos agentes do FBI. Além disso, a fim de aumentar o impacto e o realismo da acção, Rudy (abreviatura de Rudolph) Carter era perito em boxe, jiu-jitsu, tiro com armas de fogo, e praticante exímio de vários desportos. A sua imagem definitiva (e autêntica, pelos padrões do autor) foi magni- ficamente retratada por E.T. Coelho nas novelas “Oito Horas de Vida” e “Noite Tranquila”, de que apresentamos a seguir algumas páginas.Oito horas de vida 1  378

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O sete de espadasNovelista e detective de origem norte-americana, à semelhança de Ronald Campbell, Rudy Carter foi protagonista de uma longa série de aventuras que o tornaram imensamente popular entre os leitores d’O Mosquito, desde a primeira novela, dada à estampa em 1937, e da seguinte, com o título “O Sete de Espadas” (publicada também em livro em 1975), até ao seu último caso, “O Livro de Apontamentos”, vivido 12 anos depois do primeiro, numa fase em que a revista mudou de orientação, devido à saída de Cardoso Lopes. A tenta- tiva (provável) de ressuscitar Rudy Carter, uma espécie de alter-ego de Raul Correia, não teve, no entanto, consequências… porque este, único responsável, à data, pelo futuro do jornal, já estava no fim da sua carreira de novelista. Mas isso é outra história…

O relógio parado  - vinheta    380Entre as narrativas mais curtas em que intervém Rudy Carter, abrangendo o período de 1937 a 1942, destaca-se “O Relógio Parado”, cuja acção já é posterior à sua saída do FBI. Ao regressar à vida normal, Rudy sente necessidade de voltar a escrever e procura o necessário isolamento num hotel de Chicago, cidade conhecida como “a capital do crime”. E, de facto, o local foi bem escolhido, porque o crime não tardou muito a vir ao seu encontro, num trepidante episódio de cariz cinematográfico, em que as imagens desfilam num ritmo vertiginoso, como uma sucessão de fotogramas projectados numa tela, pontuadas por frases curtas, que martelam em cadência o desenrolar da acção.

Publicado n’O Mosquito nºs 117 e 118, de 7 e 14/4/1938, com gravuras inglesas, este conto foi reeditado por Roussado Pinto na colecção Pantera Negra, e ilustrado de forma magnífica por Carlos Alberto Santos, artista que domina tão bem a cor como o preto e branco. Aqui têm, pois, “O Relógio Parado”, como exemplo de um dos melhores contos policiais de Raul Correia, na versão integral extraída da revista Pantera Negra nº 6 (1/11/1977).

O relógio parado  - 1 e 2

RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 1

O autor “bicéfalo” que escrevia “O Mosquito”

Raul Correia (1094-1985)Com uma prosa inimitável, duma sonoridade quase cristalina, aliada a uma fluência de água corrente e a uma singeleza sem artifícios, capaz de fazer inveja a muitos escritores de maior nomeada, Raul Correia — fundador e director dO Mosquito, juntamente com António Cardoso Lopes (Tiotónio) — escreveu novelas de todos os géneros, com destaque para as de temática policial, em que criou diversos detectives de primeiro plano (James Donald, Rudy Carter, Ronald Campbell e outros), embora as suas preferências se inclinassem para as aventuras de ambiente histórico, como demonstrou mais tarde, ao tornar-se argumentista, fazendo dupla com o grande ilustrador Eduardo Teixeira Coelho.

Rudy CarterSão poucos os dados biográficos sobre aquele que ficou também conhecido pelo heterónimo de Avozinho — autor de poemas (em prosa e em verso) de lírica sensibilidade, que encantavam e educavam moral- mente a miudagem, a qual (salvo raras excepções) nunca soube o seu verdadeiro nome —, mas o que me interessa sobretudo analisar é o seu estilo novelístico, à luz da minha própria experiência como leitor, desde tenra idade, dO Mosquito.

Deixo para Alexandre Correia, neto do grande novelista e que herdou também a sua veia literária, a grata tarefa de escrever um texto biográfico sobre o avô, cuja companhia partilhou intimamente durante muitos anos. Texto esse que em breve aparecerá, com o devido destaque, n’O Voo d’O Mosquito, recheado de factos curiosos que darão a conhecer algumas facetas mais pessoais daquele que muitos recordam apenas pelo nome de Avozinho.

Mosquito 28 - 1 e 2

mosquito-379-Se a influência do Avozinho foi enorme, embora restringida por longos períodos de ausência, a do escritor Raul Correia, sempre presente em todas as fases dO Mosquito, do primeiro ao último número, mesmo quando não assinava a sua cola- boração, essa foi ainda mais importante. O título que dei a este primeiro artigo (de uma série de onze) reflecte assim, creio que simbolicamente, esse binómio que todos os leitores d’O Mosquito festejavam, sem conhecer a sua raiz comum.

Raul Correia parecia cultivar a famosa máxima de Hemingway: “Uma risca a menos não altera a pele do tigre, mas uma palavra a mais mata qualquer história”. Algumas das principais características do seu estilo, a fluência narrativa, o poder descritivo e a icástica simplicidade do verbo, livre de quaisquer redundâncias estéticas (como hoje parece estar na moda), resultam, além disso, da síntese homogénea entre a forma literária e uma linguagem cinética.

Amanaque o mosquito e a formiga   191Em tudo o que escreveu — mas particularmente nos seus contos e novelas — o ritmo flui dinâmica e harmoniosamente e a acção progride numa sincro- nia absoluta de planos, como os destinatários da sua prosa, ou seja, o público infanto-juvenil, estavam habituados a ver no cinema. Foi esse ritmo cinematográfico que Raul Correia transpôs para o seu estilo novelístico, aliando como poucos a sobriedade da forma à intensidade da emoção.

Um bom exemplo do apurado domínio dessa técnica narrativa — que utilizava também, com outros fins, nos poemas em prosa do Avozinho — é o conto Jim Daddy (Jim Papá, numa tradução à letra), publicado pela 1ª vez no Almanaque O Mosquito e A Formiga, em finais de 1944, quando O Mosquito já ia no seu 8º ano de publicação — e Raul Correia no 10º ano da sua carreira de novelista —, e reeditado, quase quatro décadas mais tarde, no Mundo de Aventuras nº 429 (2ª série), de 31 de Dezembro de 1981, com ilustrações de Augusto Trigo.

Jim Daddy - cabeçalho trigo188

Refira-se, a propósito, que a primeira versão desse conto foi ilustrada por um dos mais talentosos colaboradores artísticos d’O Mosquito, Vítor Péon, que entrou ao serviço do popular bissemanário em Abril de 1943, pouco tempo depois de E.T. Coelho — a quem coube a tarefa de ilustrar, substituindo com as suas pujantes imagens as de anónimos desenhadores ingleses, alguns dos melhores originais de Raul Correia, com destaque para a longa novela “Aventuras de Jim West”, recebida pelos leitores com grande entusiasmo.

Quanto a Jim Daddy é talvez o conto de acção em que, de forma mais emotiva, perpassa a “sombra” do Avozinho — numa dualidade que, às vezes, transparece, como por acaso, noutras obras de Raul Correia.

Aqui têm, pois, uma pequena “jóia” do conto policial, como exemplo dessa transfusão de estilos, que aos leitores mais argutos d’O Mosquito deu certamente razões para pensarem na verdadeira identidade do Avozinho.

Jim Daddy - 1 & 2

NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA – 1

Roussado Pinto 1Sob esta epígrafe, surgiu no Jornal do Cuto, a partir do nº 110, de 10/9/1975 — primeiro de uma nova fase, depois de um longo interregno, em que a revista voltou à periodicidade semanal, com renovado aspecto gráfico —, uma rubrica assinada por Roussado Pinto, nome mítico da BD portuguesa, que, num assomo de nostalgia ditado pela sua longa experiência e pelo seu seguro instinto jornalístico, resolveu abrir os seus “dossiers”, desfiando muitas recordações da vida profissional que o ligara, durante várias décadas, a alguns dos títulos mais emblemáticos da nossa imprensa juvenil, desde O Pluto, O Papagaio, O Mosquito e o Mundo de Aventuras ao Titã, ao Flecha, ao Valente, a maioria dos quais dirigiu e editou por sua conta e risco, com notável persistência, mas sempre com avultados prejuízos económicos.

Jornal Cuto 12   033Nessa apreciada secção memorialista da sua última e épica aventura editorial — quando lançou o Jornal do Cuto e muitas outras publicações, depois de ter criado uma nova editora, a Portugal Press —, Roussado Pinto não fez segredo do seu passado, evocando pitorescamente, com grande minúcia e perfeita lembrança dos factos, as peripécias que vivera nas redacções desses jornais, os colaboradores com quem partilhara os seus sonhos, os seus êxitos e os seus desaires… as figuras que conhecera e de quem se tornara próximo, num meio recheado de talentosos artistas, como Jesús, Alejandro e Adriano Blasco, Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, José Ruy, Stuart Carvalhais, António Barata os mestres que lhe tinham dado a mão, no início da sua carreira, como A. Cardoso Lopes e Raul Correia, e a quem ficara ligado por profunda e duradoura amizade.

Mosquito 363    034Quis o acaso que, ao folhear alguns números do Jornal do Cuto onde se insere esta rubrica — com um cabeçalho desenhado pelo saudoso José Baptista (Jobat) —, nos saltasse à vista um texto dedicado aos colaboradores literários d’O Mosquito, precisamente um dos temas que encetámos muito recentemente neste blogue. Com o seu estilo vivaz e colorido, apoiado numa memória prodigiosa, Roussado Pinto traça, no seu artigo, um breve perfil do grupo heteróclito de jovens novelistas que animou a redacção d’O Mosquito, nos anos 40, sob a tutela quase “paternalista” de um mentor literário cuja modéstia como poeta se encobria com o pseudónimo de “Avozinho”.

Graças a Raul Correia, o mestre que os apadrinhou e aconselhou desde o primeiro instante, abrindo-lhes sem reservas as páginas da revista, estimulando-os e inspirando-os com a sua Mosquito 400   035excepcional veia narrativa, floresceu n’O Mosquito uma nova geração de novelistas que iria deixar uma marca indelével na imprensa juvenil portuguesa dessa época, não só porque tinham talento, mas também porque muitas das suas obras foram ilustradas por um artista de excepcional craveira chamado E.T. Coelho.

A nota de Roussado Pinto que seguidamente transcrevemos (reproduzindo-a directamente do Jornal do Cuto nº 125, de 24/12/1975), tem, pois, um interesse muito especial para os nossos leitores, como fidedigno e oportuno aditamento ao tema que continuaremos brevemente a abordar neste blogue.

Notas 30 anos de BD 1  037

As referências a O Mosquito preenchem muitas destas notas que Roussado Pinto retirou dos seus apontamentos, recheadas de episódios curiosos de que ele próprio foi testemunha nos bastidores da redacção, onde trabalhou como assistente de Cardoso Lopes, depois do sonho d’O Pluto, empresa a que meteu ombros durante os meses de Novembro de 1945 a Maio de 1946, ter sido bruscamente interrompido.

Por esse motivo, tencionamos continuar a apresentá-las no Voo d’O Mosquito, como preito de homenagem à memória e à obra pioneira de Roussado Pinto, assim como à revista que com tanto zelo e entusiasmo editou nos últimos anos da sua vida… e que foi também, em muitos aspectos, um prolongamento d’O Mosquito.

 

NOVELISTAS D’O MOSQUITO – 1

EM JEITO DE INTRODUÇÃO

ABczinho 165      006Corriam os anos 20 e 30 do século passado quando as novelas de aventuras de estilo moderno se estrearam no ABC-zinho e n’O Senhor Doutor; mas foi no Tic-Tac e depois n’O Mosquito, com o seu excelente lote de colaboradores, que este género evoluiu para uma escola mais dinâmica e realista, atingindo a plenitude entre 1936 e 1946 — aquela que podemos intitular «a década gloriosa da novela de aventuras em Portugal».

Até então, os textos, embora tivessem predominância sobre as imagens nas publicações infanto-juvenis, não eram genuínos (à parte os de teor humorístico), isto é, limitavam-se, salvo raras excepções, a copiar servil- mente os modelos vindos de fora, sobretudo de França e Inglaterra, países em cuja produção os directores de algumas dessas revistas, como Cottinelli Telmo, Carlos Ribeiro, Luís Ferreira (Tio Luís), José de Oliveira Cosme e Carlos Cascais, colhiam boa parte das histórias que publicavam nas suas páginas. Tic Tac 163      007Na sua maioria, tratava-se de traduções (ou adaptações) de novelas de autores anónimos. As obras originais de índole aventurosa eram raras, destacando-se, entre os seus autores, os nomes de Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X, António Feio e Henrique Samorano, um jovem talentoso que a morte arrebatou prematuramente.

Até meados dos anos 30, o género nunca teve grandes cultores entre as figuras mais distintas da nossa imprensa infantil, algumas delas oriundas do nobre campo das Belas Letras, que à elegância e ao primor da escrita aliavam um cunho didáctico e moralista, bem distante do conceito moderno de aventuras à maneira inglesa e americana.

Coube a um pequeno mas dinâmico “insecto”, concebido em moldes artísticos e comerciais inovadores, modificar de uma assentada esses parâmetros, não só devido à variedade nunca antes vista de histórias aos quadradinhos sugestivamente ilustradas (sobretudo inglesas e espanholas), como ao estilo vigoroso e emocionante das novelas de aventuras, escritas exclusivamente por autores nacionais. Numa primeira época, entre 1936 e 1939, os que mais se distinguiram foram Fidalgo dos Santos, Pedro de Sagunto, Roberto Ferreira (com o acrónimo de Rofer), e sobretudo Raul Correia.

Mosquito 11Lembro-me de que, no alvor da minha mocidade, quando lia avidamente O Mosquito — revista pela qual sentia um carinho especial, apesar de não ter sido a primeira que me veio parar às mãos —, as histórias de texto tinham o condão de me despertar tanto entusiasmo como as histórias ilustradas. Aliás, quer neste jornal quer nos seus concorrentes mais directos (O Senhor Doutor, O Papagaio e o Diabrete), a prosa preenchia ainda boa parte do sumário, atestando o que hoje se perdeu entre a maioria dos jovens: o gosto pela leitura.

Mas n’O Mosquito e no seu companheiro de jornada (durante dois anos) Colecção de Aventuras, até as legendas das histórias aos quadradinhos — que eram como que um prolongamento das histórias de texto, pois primavam pela ausência de filacteras (isto é, de balões) — se liam com interesse, graças ao cunho inconfundível da prosa de Raul Correia, a quem cabia a tarefa de as traduzir e adaptar. O director literário d’O Mosquito e autor também dos poemas do Avozinho, escrevia com rara elegância, ora num tom ameno e risonho, ora vibrante e emotivo, equilibrando as duas facetas com notável mestria.

colecção Aventuras 114Alguns desses predicados influenciaram naturalmente os seus colaboradores mais jovens, como Orlando Marques e Lúcio Cardador (que se juntaram à equipa em 1940), embora estes, apesar do seu inegável talento, nunca tenham atingido a craveira do mestre.

Todos os temas clássicos da novela de aventuras, desde as histórias policiais e de cowboys às de fundo histórico ou exótico, figuram na vasta obra de Raul Correia, como se a sua pena prolífica quisesse transmitir ao papel o colorido caleidoscópio de imagens captadas pelos seus olhos e pela sua mente, no convívio assíduo com os livros e com o cinema. Sem um novelista da sua envergadura, é possível que dois amigos inseparáveis, que viviam, então, na Amadora — e já tinham trabalhado juntos no Tic-Tac —, nunca tivessem acalentado o sonho de criar um jornal como O Mosquito; e, nesse caso, todos os novelistas formados na sua escola poderiam, também, nunca ter tido a oportunidade de sair do anonimato.

 A seguir: Raul Correia – A importância de um estilo