O MOSQUITO RESSUSCITADO… PELA 4ª VEZ (2)

Mosquito futura nº1vinheta manus kelly

Mosquito Futura - nº 1 Tarzan EstrompaNos números seguintes desta 5ª série da mítica revista O Mosquito, “ressuscitada” em Abril de 1984 pela Editorial Futura (ver o primeiro post sobre este título), a participação de artistas nacionais, depois de Augusto Trigo e Estrompa, alargou-se a José Garcês, José Abrantes, Fernando Relvas, Victor Mesquita, Carlos Roque, António Barata, Carlos Alberto, Renato Abreu, Arlindo Fagundes — e a uma jovem dupla de novos talentos, Luís Louro e Tozé Simões, que n’O Mosquito apresentaram a sua criação mais famosa: Jim del Monaco.

Mas a colaboração da “prata da casa” não ficou por aí, contemplando também o género literário, uma das mais emblemáticas tradições do primogénito O Mosquito, com contos de Orlando Marques e Lúcio Cardador — novelistas de larga currículo que, sob as suas “asas”, tinham ensaiado os primeiros “voos” —, e de A. J. Ferreira, nome mais conhecido como profundo estudioso de literatura popular e banda desenhada.

Além disso, esta série contou ainda com algumas rubricas informativas e artigos de análise histórica, assinados pelos mais valiosos colaboradores nessa área, como António Dias de Deus, António J. Ferreira, Luiz Beira, António Alfaiate, Luís Mesquitela e Geraldes Lino (que teve também a seu cargo a secção do correio, desde o nº 4, assumindo a identidade do próprio O Mosquito, como Raul Correia na 1ª série).

Mosquito FUTURA - ENTREVISTA R CORREIA 1 e 2

Nos três primeiros números, merece, aliás, destaque a entrevista feita por Dias de Deus a um dos “pais” e fundadores d’O Mosquito, então já à beira dos 80 anos. E no nº 6 foi publicada a última entrevista de outro grande nome da BD, nem mais nem menos do que o popular criador de Tintin, Georges Rémi (Hergé), falecido em Março de 1983.

O autor dessa “cacha” — como se diz em gíria jornalística — foi Luiz Beira, que manteve uma longa amizade com Hergé, depois de ter sido o primeiro repórter e bedéfilo português a entrevistá-lo para a revista Plateia.

Mosquito futura nº1 rostoNo primeiro número deste ambicioso O Mosquito dos anos 80 — que a crítica e os leitores (da “velha e da nova guarda”) receberam com um misto de aplauso e de expectativa, deixando no ar algumas propostas e algumas dúvidas, como era de esperar, pois os rumos da revista não pareciam ainda solidamente definidos —, outro motivo de destaque é a nota de abertura assinada por Raul Correia, sob a epígrafe “Reviver outros tempos… e continuar”, em que o inesquecível “Avozinho” d’O Mosquito, ainda na plena posse do seu génio literário, afirmava em tom emotivo, a propósito da nova série que vira imprevistamente nascer:

“(…) Para mim, é todo um passado de mais de 50 anos que revive. Outros tempos? Sim, com certeza, mas espero bem que, mercê de Deus, sejam também o tempo de agora, ligado ao passado, olhando o futuro que lhe desejo longo e próspero” (ler na imagem o texto completo).

Raul Correia foi também amplamente citado num belo artigo de A. J. Ferreira, com o título “História de El-Rei O Mosquito I”, que traçava minuciosamente o percurso da 1ª série, descrevendo as suas diversas fases, acompanhadas por ciclos de crescimento e de crise, e passando em revista as publicações paralelas (álbuns e almanaque) das Edições O Mosquito, assim como as recidivas que, alguns anos depois, começaram a surgir pelo caminho (ver também o post anterior aqui).

Mosquito futura nº1 el rei o mosquito 1 e 2

Outro articulista, António Alfaiate, encarregou-se da apresentação de uma das principais séries estreadas na revista: “Ás de Espadas”, criação de Ricardo Barreiro (argumento) e Juan Gimenez, dois excelentes autores sul-americanos cuja obra começava a ganhar notoriedade nos fóruns da BD europeia e aos quais O Mosquito iria também dar lugar de destaque entre os seus colaboradores estrangeiros.

Mosquito futura nº1 ás de espadas 1 e 2

Mosquito Futura - Ás de Espadas 3 e 4

O segundo número d’O Mosquito, recheado de novidades — entre elas, uma das mais afamadas séries da “nova vaga” espanhola: Torpedo 1936 —, só iria aparecer nas bancas dois meses depois, isto é, em Junho de 1984. Mas, em Maio, a equipa que o criara, formada pelo seu director, o seu coordenador/tradutor e a sua maquetista (além de legendadora) Catherine Labey, acompanhados por alguns dos seus mais próximos colaboradores, encetou outra aventura, rumando ao Salón del Comic de Barcelona. Mas isso é uma história diferente (e com peripécias divertidas, por sinal)… que ficará, talvez, para outro dia.

Mosquito futura nº1anúncio

TOMMY, O RAPAZ DO CIRCO – 15

Tommy 4 a 6

Resumo: Depois de libertarem Sue, que estava prisioneira no circo de Carney Calson, Tommy e os seus amigos põem-se em fuga, perseguidos pelos cúmplices de Carney, dispostos a tudo para impedir que eles os denunciem à polícia.

Leiam mais um episódio desta excelente série, criada por John Lehti em 28/10/1946, cujas tiras, correspondentes à publicação original de 4 a 15 de Abril de 1947, saíram n’O Mosquito nº 925, de 4 de Maio de 1948.

Nota: A título de curiosidade, decidimos apresentar mais algumas tiras de Tommy of the Big Top na versão extraída dos jornais norte-americanos, começando exactamente pelas primeiras, para que os nossos leitores possam apreciar o texto original e, ao mesmo tempo, cotejar essas tiras com que as que foram publicadas n’O Mosquito e neste blogue, pois o tamanho, por vezes, é diferente.

Como devem ter reparado, algumas tiras têm menos superfície em altura, por causa dos cortes na parte inferior, que resultaram da falta de espaço nos jornais. Como na mesma página coabitavam, geralmente, várias daily strips com diferentes personagens, as tiras de imprensa eram produzidas em dois formatos, condicionados pela altura máxima (formato standard) e mínima; mas acontecia também que os editores dos periódicos, espalhados por todas as regiões dos Estados Unidos, as cortavam indiscriminadamente, consoante as suas restrições de espaço, pelo que nalgumas delas não aparece o copyright do King Features Syndicate, nem a assinatura de John Lehti.

Tommy 137 a 146

 

O MOSQUITO E O FUTEBOL

Thiago da Silva (Mosquito)Mosquito também é nome (melhor dizendo, alcunha) de jogador de futebol. Este “cara” na foto aqui ao lado é, aliás, um dos mais famosos craques brasileiros do momento e joga no Vasco da Gama, clube carioca de nobres tradições desportivas, fundado por imigrantes portugueses em 21 de Agosto de 1898 (ano comemorativo do 4º centenário da viagem de Vasco da Gama à Índia), e um marco da luta contra o racismo no futebol do Brasil, pois foi o primeiro clube a integrar jogadores negros e luso-descendentes, que lhe deram a vitória no campeonato carioca de 1923. O caso, aliás, gerou grande polémica na época. Mas isso é outra longa (e interessantíssima) história… que os amantes do futebol gostarão certamente de conhecer.

Club de Regatas Vasco da GamaAvançado-centro de fulminante remate, os ídolos de Mosquito são os seus patrícios Neymar e Ronaldinho, e Messi do Barcelona, por ter “muito toque de bola”. Cristiano Ronaldo, desta vez, ficou a perder!

De seu nome baptismal Thiago Rodrigues da Silva, Mosquito, com 19 anos, é um caso sério como jogador de futebol, pois ajudou o Brasil a conquistar a Copa Sul-Americana de juvenis, em 2011, prova em que marcou 11 golos (cinco numa única partida), superando o recorde de outro brasileiro, Lucas Piazón, na mesma competição (2009). Eleito o melhor jogador desse torneio internacional, chegou até a ser cobiçado por dois grandes clubes europeus, o Chelsea e o Manchester United, que lhe chamaram “the samba star!”.

Como vêem, Mosquito é um nome que rima bem com tudo… até com futebol!

ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO – 8

O DESTINO DE JIMMY VALENTINE (4) – por O. Henry

Resumo: Depois de cumprir uma pena curta por roubo, Jimmy Valentine decide aparentemente regressar ao bom caminho, seguindo o conselho do director da prisão.

Mas os roubos sucedem-se, deixando vazios os cofres de alguns bancos, e as suspeitas do detective Ben Price voltam a cair sobre Jimmy — que, entretanto, ao chegar à cidade de Elmore, foi atingido certeiramente pela flecha de Cupido e está prestes a desposar a encantadora Annabel Adams, filha de um próspero banqueiro local.

 Nota: depois do texto, com tradução de Raul Correia, publicado n’O Mosquito nºs 1038 e 1039, em Junho de 1949, apresentamos as duas últimas páginas da brilhante adaptação gráfica deste conto, realizada pelo artista americano Gary Gianni e dada à estampa, em 1990, num volume da colecção Classics Illustrated (publicado também no Brasil). Os nossos leitores poderão, assim, cotejar a forma gráfica com a literária, duas abordagens distintas, mas paralelas (e complementares), do mesmo tema.

O Henry - O destino de J Valentine   003

IV

 MR. ADAMS, ra­diante de satisfação, explicava a manobra do cofre a Mr. Ralph Spencer, que lhe prestava uma atenção superficial e não muito compreensi­va. As duas pequenitas, May e Agatha, esta­vam encantadas com o brilho dos cromados e a leveza dos fechos, que lhes pareciam brin­quedos.

Ora, enquanto o alegre grupo assim con­versava, Ben Price entrou no Banco e encostou-se a uma ombreira, olhando distraida­mente em volta. A um empregado que se lhe dirigiu, o detective respondeu que não queria nada, que estava só à espera de uma pessoa sua conhecida.

E, de repente, ouviram-se dois gritos femini­nos e houve uma comoção geral. Sem que ninguém tivesse dado por isso, May, a mais velha das duas pequenitas, tinha empurrado Agatha para dentro da casa-forte, e empur­rara as portas — tão leves quanto sólidas — e dera volta ao fecho… que uma só mão po­dia manobrar!…

O velho banqueiro, muito pálido, precipitou-se, mas não chegou a tempo! Num gesto instintivo tentou abalar as portas… Depois, num murmúrio rouco, disse:

— As… as por­tas não podem abrir-se! Não se coordenou… a… a combinação com o relógio!

A mãe de Agatha soltou um brado doloro­so e agudo. Mr. Adams aproximou-se outra vez da porta e gritou, com uma voz que tremia:

— Agatha! Agatha!… Por favor, calem-se, deixem-me ouvir! Agatha! Ouves-me?

No silêncio que se seguiu, puderam distinguir-se os ecos sumidos dos gritos de pavor da pequenita, fechada lá dentro, na escuridão da casa-forte.

A mãe soluçava. — Por Deus! Ela vai mor­rer de medo! Abram a porta! Oh! Abram essa porta! Por favor! Ninguém pode fazer nada? Oh! Por favor!

— Só… só em Little Rock é que há um ho­mem capaz de abrir isto… se for!… — disse o velho Adams, em voz rouca. — Meu Deus! Que fazer, Spencer? Não haverá tempo para ir buscar esse homem! A pequenita vai morrer sufocada ou em convulsões de medo, antes que seja possível salvá-la!

A mãe de Agatha, como doida, batia com ambas as mãos nas portas da casa-forte. Hou­ve alguém que falou em dinamite… Annabel voltou-se para Jimmy, com um brilho de angústia no olhar. Mas sentia-se que ainda tinha uma esperança… porque, para uma mu­lher que ama, nada lhe parece existir que não possa ser feito pelo homem a quem ama.

— Ralph! Não poderás fazer alguma coisa? Oh! Tenta, Ralph!

Ele olhou-a, e nos seus lábios como nos seus olhos havia uma espécie de estranho sorriso.

— Annabel… — disse ele… — Queres dar-me essa rosa que tens na tua blusa?

Annabel fitou-o com um profundo espanto, acreditando que não tinha ouvido bem. Mas desprendeu a rosa que tinha na blusa e pô-la na mão dele. Jimmy guardou a flor na algi­beira do colete, despiu o casaco, arregaçou as mangas da camisa… e, com esse gesto, Mr. Ralph D. Spencer desapareceu, para lugar a Jimmy Valentine.

— Afastem-se dessa porta, todos vocês!… — ordenou ele numa voz seca e autoritária, que não admitia réplica.

Apanhou a sua maleta, colocou-a em cima de uma secretária e abriu-a. Parecia incons­ciente da presença de toda aquela gente à sua volta. Assobiando baixinho, como sempre fazia enquanto «trabalhava», dispôs as ferramentas em ordem. Os outros olhavam-no quase sem respirar, como sob um encantamento.

Em menos de um minuto, um dos rebrilhan­tes utensílios de aço começou a «morder» a espessa e sólida chapa de metal. Em dez mi­nutos — batendo todos os seus próprios recordes «profissionais» — Jimmy Valentine deu volta aos fechos de segredo e abriu as portas da casa-forte.

Agatha, quase desmaiada mas sã e salva, foi recolhida nos braços da mãe.

Jimmy Valentine baixou as mangas da camisa, guardou as ferramentas na maleta, ves­tiu o casaco e encaminhou-se para a saída do Banco, sem olhar para ninguém. Pareceu-lhe ouvir uma voz trémula, uma voz que bem co­nhecia, chamar: — Ralph!… Mas não se vol­tou nem afrouxou o passo.

À porta, o vulto de um homem alto e forte obstruía a passagem.

— Hello, Ben!… — disse Valentine, ainda com o seu estranho sorriso. — Por fim, sem­pre cá chegou, hein? Bom, vamos andando! Agora o caso não tem a mais pequena importância para mim!…

— Creio que está enganado, Mr. Spencer! Não me lembro de o ter encontrado antes, em parte nenhuma! Parece-me que tem o seu car­ro à espera, Mr. Spencer! Não é? Pois muito boa viagem!…

E Ben Price, voltando-se, afastou-se em passo largo ao longo da rua…

F I M

A Regeneração - 8 e 9

CANTINHO DE UM POETA – 10

Cantinho de um poeta 10      205

Eis mais um poema de Raul Correia, ilustrado por José Baptista (Jobat), que reproduzimos do Jornal do Cuto nº 11, de 15/9/1971.

Como os nossos leitores devem estar lembrados, Raul Correia tinha especial preferência por estes versos, que serviram de epígrafe a um texto com memórias d’O Mosquito, publicado também no Jornal do Cuto, entre os nºs 20 a 24 (17/11 a 15/12/1971), e que já tivemos o prazer de apresentar nesta rubrica.