FANZINES DE JOSÉ PIRES: “TERRY E OS PIRATAS”

Com um ritmo imparável, de impressionante regularidade, para quem publica três fanzines mensais — FandClassics, Fandaventuras e Fandwestern —, José Pires continua a editar a magnífica série clássica “Terry e os Piratas”, de Milton Caniff, da qual somente os primeiros episódios eram conhecidos em versões portuguesas, graças ao Mundo de Aventuras (5ª série) e ao jornal Público.

Ou seja, a totalidade da série é agora, pela primeira vez, posta à disposição dos bedéfilos portugueses, em álbuns de formato à italiana, com cerca de 70 páginas cada, impressos em papel de boa gramagem. Uma edição que os fanáticos desta série — e sabemos que são ainda muitos em Portugal — não devem logicamente perder! 

Recordamos, mais uma vez, que esta série fez a sua estreia n’O Mosquito, em 1952, quando já era desenhada por George Wunder, substituto de Milton Caniff, que procurou imitar sem grande sucesso o estilo do seu ilustre mentor (mas diga-se de passagem que o período apresentado n’O Mosquito, até Fevereiro de 1953, é um dos mais abonatórios do trabalho de Wunder, que também tem os seus méritos).

Em 1946, Milton Caniff decidiu pôr “Terry e os Piratas” de lado para se dedicar à sua nova série de aviação, com um herói chamado Steve Canyon (baptizado em Portugal com o bizarro nome de Luís Ciclone), que se tornou ainda mais popular do que a primogénita, apesar do seu conteúdo fortemente bélico e apologista da política externa dos Estados Unidos, mormente nas guerras da Coreia e do Vietname.

Quanto a “Terry e os Piratas” prosseguiu a sua carreira, nas mãos de George Wunder, até 1973, tendo transitado, durante breves períodos, por outras revistas portuguesas, como o Titã e o Mundo de Aventuras. Nesta última até mudou de nome para “Trovão e os Piratas”, como era hábito nessa época, em que a censura pressionava sem tréguas os editores para nacionalizarem todos os personagens estrangeiros.

Outro nome bizarro (pobre Terry!), embora Trovão Ciclone tenham a mesma raiz “meteorológica”… Uma mania que parecia perseguir os editores do Mundo de Aventuras, se nos lembrarmos também de João Tempestade (Johnny Hazard)!

Nota: os fanzines aqui apresentados são respeitantes aos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro últimos. Em Março sairá, portanto, o 15º volume desta colecção, que terá 25 fascículos, com todos os episódios da série.

Os pedidos, incluindo os de números atrasados, podem ser feitos directamente ao faneditor, através do e-mail  gussy.pires@sapo.pt

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CANTINHO DE UM POETA – 40

Este poema de Raul Correia (o mítico Avozinho d’O Mosquito), em que transparece a bucólica beleza das tardes e dos poentes outonais — que ainda nos fazem sonhar com o regresso a um tempo mais ameno, depois do rigoroso inverno, e com a magia das cores primaveris que hão-de (como a paleta do poeta) rejuvenescer a Natureza —, foi publicado no Jornal do Cuto nº 165, de 15/5/1977… mas desta vez com uma ilustração de Carlos Alberto, outro magnífico artista que, na ausência de Jobat, foi o melhor colaborador da revista onde renasceu, nos anos 1970, o culto d’O Mosquito.

TORPEDO, O POLICIAL “NEGRO” DE SÁNCHEZ ABULÍ E JORDI BERNET QUE DEIXOU SAUDADES

Uma das melhores séries espanholas dos anos 80, criada pela imaginação de dois talentosos autores, Enrique Sánchez Abulí e Jordi Bernet, Torpedo 1936 regressou agora, sob o selo da Levoir, na primeira edição integral em língua portuguesa. Seis volumes com muitos episódios inéditos, incluindo a última versão, realizada por Eduardo Risso, cuja história se passa em 1972. Para os leitores de há 20, 30 anos, e para os de hoje, menos familiarizados com um dos anti-heróis mais populares da BD mundial, este regresso “em beleza” é, sem dúvida, além de merecida homenagem, o primeiro grande acontecimento editorial do ano de 2018. Absolutamente a não perder!

Torpedo 1936 estreou-se em Portugal no nº 2 d’O Mosquito (5ª série), que publicou nove episódios até ao nº 12 (e último), todos no preto-e-branco original. Após o fim da revista, em Janeiro de 1986, a Editorial Futura continuou a divulgar a criação de Abuli e Bernet numa colecção de álbuns de que saíram seis volumes, rapidamente esgotados. Torpedo só voltou ao contacto com os leitores portugueses dez anos depois, nas páginas da Selecções BD (2ª série), onde surgiram, pela primeira vez, alguns episódios a cores.

Curiosamente, a data que figura no título de Torpedo — assinalando a época em que decorrem as suas “façanhas” de pistoleiro a soldo — remonta ao mesmo ano em que nasceu a mais emblemática revista da BD portuguesa: O Mosquito (1ª série).

RICHARD CORBEN – VENCEDOR DO GRANDE PRÉMIO NO FESTIVAL DE ANGOULÊME 2018

O mestre do horror Richard Corben é o novo Grand Prix de Angoulême

Na véspera da abertura da 45ª edição do festival, o cartoonista americano de 77 anos foi recompensado por todo o seu trabalho.

Richard Corben é o quinto americano a vencer o Grande Prémio de Angoulême. Tem sido comum que a ficção científica e a fantasia apareçam pouco no panteão do Festival de Angoulême. A nomeação, na quarta-feira 24 de Janeiro, de Richard Corben para o Grande Prémio, é um evento a saudar pelos leitores de um dos principais géneros dos quadradinhos contemporâneos: o  horror.

Escolhido pelos profissionais do sector, em detrimento do seu compatriota Chris Ware e do francês Emmanuel Guibert, que tinham assumido com ele a liderança na primeira volta da votação, Corben recebeu essa distinção depois dos seus compatriotas Will Eisner (1975), Robert Crumb (1999), Art Spiegelman (2011) e Bill Watterson (2014).

Uma estética única

A sua vitória no Grand Prix de Angoulême celebra um excelente estilista e um mestre do horror, mas também um escrupuloso adaptador de Howard Phillips Lovecraft e Edgar Alan Poe, duas das suas principais influências.

O trabalho de Richard Corben pode ser resumido no elenco e no bestiário que povoam as dezenas de álbuns que publicou em mais de 45 anos de carreira: uma multidão de mutantes, zombies, criaturas dos pântanos, bruxas, ladrões de túmulos, gladiadores, monstros, guerreiros tribais, espectros com jaquetas esfarrapadas, mulheres delirantes, animais diabólicos e bárbaros de todos os tipos.

Pilar das edições Warren Publishing, como colaborador assíduo das revistas de terror Creepy, Eerie e Vampirella, Corben desenvolveu uma estética única que provém tanto da cultura “pulp” quanto da literatura fantástica. O seu trabalho também deve muito a Robert E. Howard, o fundador da fantasia heróica com as aventuras de Conan, o Bárbaro, de que ele desenhou várias histórias.

Nascido em Anderson (Missouri), em 1940, Richard Corben é conhecido desde há muito na França. A revista Actuel foi a primeira a publicá-lo, em 1972. Três anos depois, Métal Hurlant hospedou nas suas páginas a série Den, contando as aventuras erótico- -fantásticas de um jovem geek que se transformou num guerreiro culturista.

A sua técnica de aerógrafo — uma arma de pintura em miniatura — grangeou-lhe uma enorme admiração de leitores “adultos” a quem, finalmente, os quadradinhos foram revelados. Corben tornou-se um autor de “culto”, embora sem nunca alcançar uma grande audiência no seu próprio país ou na Europa, apesar de algumas colaborações famosas, como no Hellboy de Mike Mignola.

Permanecendo fiel ao seu universo particular, o residente de Kansas City, a cidade onde recebeu o seu treino artístico, é “o arquétipo do autor independente“, de acordo com Laurent Lerner, fundador da pequena editora francesa Delirium, que tem publicado as suas criações na França nos últimos anos: “Ele é independente de tudo: do mercado, do marketing, dos média, dos leitores, das editoras… A sua abordagem artística nunca se desviou da direcção que assumiu na início da sua carreira. Tinha altos e baixos, e mesmo grandes momentos de solidão“.

Numa entrevista que concedeu no final de Ragemoor (Delirium, 2014), uma fantástica narrativa feita com o argumentista Jan Strnad, Richard Corben explica por que é que ele, o mestre das cores, optou por um tratamento a preto e branco: “Quando da concepção deste projecto, não sabia se encontraria um lugar na Dark Horse ou noutro editor de grande dimensão. Pensei que teria de apresentá-lo a editores menores, que não podiam dar-se ao luxo de publicá-lo a cores“.

O desenhador também fez um balanço da “longa carreira” e das pesquisas apesar da sua considerável idade: “Eu sempre adorei as possibilidades oferecidas pelos quadradinhos, como um meio de expressão, para contar as histórias que quero fazer e não apenas aquelas que vendem bem. Ainda tenho objectivos para serem alcançados e, por isso, provavelmente nunca me aposentarei. Continuarei a desenhar quadradinhos até morrer!“.

(Texto extraído, com a devida vénia, do blogue Largo dos Correios)

Nota pessoal (J.M.): A minha grande admiração por este autor americano, muito pouco publicado em Portugal, levou-me a incluí-lo na revista O Mosquito (5ª série), da Editorial Futura, de que fui coordenador, dedicando-lhe a capa do nº 5 (Janeiro 1985) e escolhendo uma das suas melhores histórias a preto e branco, realizada em 1970: “O Crepúsculo dos Cães”, com 10 páginas, também publicada nesse número. Anteriormente, só outro trabalho de Richard Corben fora apresentado aos leitores portugueses, na revista Zakarella nº 8, da Portugal Press, dirigida por Roussado Pinto.

Por ter sido O Mosquito (5ª série) a divulgar de novo Corben, mostrando as suas potencialidades gráficas e narrativas, num registo mais realista, achei que essa edição devia ser recordada por este blogue numa altura em que o Festival de Angoulême lhe prestou também, finalmente, homenagem, como um dos maiores autores ainda vivos da BD norte-americana e com uma obra que o tempo decerto não apagará da memória dos seus inúmeros admiradores. Aqui ficam, pois, a capa d’O Mosquito nº 5 (5ª série) e a primeira página da referida história de Richard Corben.