BOLETIM – O FANZINE DO CPBD

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RELENDO UM NÚMERO DO BOLETIM,

O FANZINE PORTUGUÊS

HÁ MAIS TEMPO EM PUBLICAÇÃO

Embora tenha passado por Boletim do clube801 muitas e atribuladas fases, o CPBD (Clube Português de Banda Desenhada) ainda mantém o seu espírito associativo, continuando a promover reuniões entre um grupo de sócios mais assíduos e a publicar um fanzine com o título Boletim do CPBD, que em cada número aborda geralmente temas diferentes. Por vezes, o desenvolvimento desses temas obriga a estender a sua publicação por dois ou três números, como é o caso da edição #135, datada de Janeiro de 2013, com um sumário aliciante e ilustrado a preceito.

A coordenação e o arranjo gráfico, como habitualmente, são de Paulo Duarte e a responsabilidade e escolha dos textos coube a Américo Coelho, que tem sido, nos últimos números, um dos mais regulares colaboradores do Boletim, com longos e exaustivos trabalhos de investigação que suscitam sempre o interesse dos leitores pelo meticuloso esforço de pesquisa, informação e análise.

Neste número, Américo Coelho debruça-se sobre um dos temas que mais o apaixonam, ou seja, o vasto e rico historial da revista O Mosquito, nas suas diversas fases e séries, enquadrado num panorama comemorativo dos 77 anos do seu nascimento.

Chegado às bancas em 14 de Janeiro de 1936, O Mosquito foi lido e apreciado por milhares de leitores de palmo e meio — que encontraram nas suas páginas um espírito lúdico e formativo, uma fonte de divertimento e emoção —, tornando-se um caso ímpar de popularidade e prestígio nos anais da imprensa infanto-juvenil portuguesa, a tal ponto que a sua memória ainda hoje permanece viva, conseguindo criar entre antigos leitores e novos simpatizantes laços de amizade e camaradagem que aproximam gerações e esbatem, como no passado, diferenças sociais e culturais.

Mosquito do Ruy n 1Foram esse espírito e essa memória, frutos da acção exemplar e do saber profissional de dois homens verdadeiramente apaixonados pelo seu ofício, António Cardoso Lopes Jr. e Raul Correia, que contagiaram José Ruy (aliás, ele próprio ligado desde muito novo a O Mosquito e ao jornalismo infanto-juvenil), impelindo-o a lançar em 16/11/1960, de parceria com o jornalista Ezequiel Carradinha, uma nova série em que — a par da nostálgica evocação do seu ilustre antepassado, expressa numa fidelidade quase total aos modelos que este propagara engenhosamente  entre a juventude — vibrava o desejo de recuperar algumas réstias da aura mítica associada ao seu triunfal percurso durante o período de maior expansão. 

E assim, reeditando ou revivendo heróis que não tinham caído no esquecimento, como Rob the Rover, Capitão Meia-Noite, Zé Pacóvio e Grilinho, Rudy Carter, James Donald e outros, a 2ª série d’O Mosquito começou a fazer o seu caminho. Mas os tempos tinham mudado, afectando o desenvolvimento social e econó- mico, encarecendo o custo de muitos bens de consumo, provocando desemprego.

A própria guerra do Ultramar, que se desencadeou nessa altura, contribuiu (com o alistamento de muitos jovens) para o fracasso comercial do projecto, mesmo depois da entrada de Roussado Pinto, profissional experiente e amigo de longa data de José Ruy, para o lugar de coordenador, quando Carradinha abandonou a revista.

Mosquito  n 11É essa 2ª série, composta por 30 números — cuja raridade, hoje em dia, os torna ainda mais valiosos para os coleccionadores —, que Américo Coelho analisa metodicamente no seu trabalho, recordando o papel dos dois directores e fundadores d’O Mosquito, mas também de José Ruy, na evolução do jorna- lismo infanto-juvenil, ao qual todos dedicaram muitos anos da sua vida.

O Voo d’O Mosquito recomenda vivamente aos seus amigos a leitura deste número do Boletim, com a primeira parte do exaustivo dossier de Américo Coelho dedicado a um dos principais herdeiros d’O Mosquito, a emble- mática revista cujo nome resistiu à passagem do tempo, enraizando-se solidamente no ima- ginário colectivo de várias gerações.

A fechar a edição, com 76 páginas, pode ler-se ainda um episódio integral da série inglesa “Capitão Fantasma, o Homem dos Mil Disfarces” (Captain Phantom, the World War II Master Spy), desenhado por Mike Western, e que ficou incompleto n’O Mosquito (2ª série).

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ANTOLOGIA DE CONTOS DE ACÇÃO

A NOITE DO ANO NOVO – 1

por Johnston McCulley (autor de “O Sinal do Zorro”)

Com o título supra, foi publicada n’O Mosquito, a partir do nº 1100, uma excelente rubrica de contos traduzidos e adaptados, na sua maioria, por Raul Correia. O êxito dessa antologia foi tal que se prolongou praticamente até ao final da revista, tendo surgido ainda no nº 1408, a poucas semanas do seu brusco, mas já previsível desaparecimento.

McCulley e Guy WilliamsEm homenagem a Raul Correia e a outros grandes novelistas d’O Mosquito, passaremos a inserir no nosso blogue uma rubrica semelhante, com o mesmo título, onde apresentaremos alguns dos autores nacionais e estrangeiros que desfilaram pelas suas páginas. Muitos desses contos foram ilustrados, a partir de 1942, pelo melhor artista da “casa” (referimo-nos, claro, a Eduardo Teixeira Coelho), mas na série presente, à base de contos traduzidos do inglês, a sua participação artística foi mais ligeira… como adiante veremos.

Encetamos esta rubrica com um original de Johnston McCulley, novelista americano que se celebrizou por ter criado a figura de um exótico justiceiro mascarado em “O Sinal do Zorro” (The Mark of Zorro), obra que correu mundo e foi várias vezes adaptada ao cinema, à televisão e à BD. Este conto, com um cabeçalho desenhado por E. T. Coelho, começou no nº 1051 d’O Mosquito, terminando no nº 1054, de 30/7/1949. Como é demasiado longo para o publicarmos de uma só vez, decidimos seguir o mesmo esquema, dividindo-o em quatro partes.

Fazemos votos para que todos apreciem o vibrante estilo de narrador de Johnston McCulley, que Raul Correia soube manter e até valorizar na sua tradução.

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I

QUANDO alcançou o ponto onde a trilha seguia ao lado dos rails do caminho de ferro, quase tão lisa e fácil como se fosse uma estrada, Patrick Malloy ajeitou-se mais confor­tavelmente na sela e deixou ir o cavalo à vontade, na direcção do poente.

Desde a madrugada que ele vinha a caminho, com pequenas paragens para deixar respirar a mon­tada. Mais de metade da trilha que levava a Copper Citty — que era também conhecida por «O Inferno da Fronteira » — era tão rude que exigia uma forte mão de rédea, além de uns rins sólidos e pouco sensíveis. O último dia do ano, naquela latitude, ao longo da fronteira, era quente e pesado. Malloy limpou o suor da cara com o seu lenço de seda. Enrolou um cigarro e acendeu-o. Semicerrando os olhos, ele podia ver o brilho dos rails sob a luz do poente e as filas de postes que ladeavam a linha. O caminho-de-ferro havia sido construído para servir a região de Copper City, que a descoberta de minas de cobre enriquecera súbita e perigosamente. Tão perigosamente que, em comparação com Copper City, as outras cidades da fronteira e os outros centros mineiros poderiam passar por jardins-de-infância. A maior parte dos trabalhadores das minas era composta por gente de raças diferentes… que parecia considerar impossível qualquer espécie de acordo ou entendimento pacífico. Muitos eram fugitivos — criminosos que passavam de um para outro lado da fronteira conforme eram mais activamente procurados pela justiça de um lado ou do outro.

Pat Malloy pertencia aos Rangers e o seu inte­resse profissional por Copper Ciry vinha do facto de ali ter sido enviado várias vezes, para impedir distúrbios ou evitar destruições de propriedades. O seu interesse pessoal pelo «Inferno da Fronteira» era consequência da sua primeira visita à estranha ci­dade… desde que encontrara pela primeira vez Lola Wheeler, a filha de Jim Wheeler, que era o chefe da estação do caminho de ferro.

Pat e Lola viam-se uma vez por mês, quando a rotina das patrulhas levava o Ranger para aqueles lados. Mas, às vezes, como no último Natal, as exigências do serviço levavam Pat para longe. Tinha prometido que estaria em Copper City na noite de Ano Novo… e ia a caminho. Jim Wheeler havia declarado abertamente que não consentiria no casamento enquanto Pat pertencesse aos Rangers.

— Não quero que a minha filha fique viúva ao fim de uma semana de casada… ou ainda menos!… — tinha ele dito. E assim Pat decidira demitir-se e estabelecer-se. Ed Catlin, o gerente da Companhia Mineira, tinha um lugar reservado para ele.

Seria uma noite de Ano Novo um tanto espe­cial. Pat não o ignorava. Os saloons estariam abertos toda a noite. Segundo o costume, a meia-noite seria saudada com uma formidável salva de tiros de revólver — Pedro Lopez, o dono do maior saloon, daria o sinal para isso — e muitos homens excitados pela bebida teriam os seus colts nos cin­turões. Pat ia pensando que seria bom que não tivesse de intervir em nada… mas considerava essa hipótese bem pouco provável…

A porta abriu-se no momento em que Pat des­montava e Lola veio a correr de dentro de casa.

— Oh, Pat! Estou tão contente por teres podido vir!

— Tenho pena de não ter cá estado na noite de Natal, querida!

— De qualquer modo… estás cá hoje e eu estou bem contente!

Lola apertou com ternura o braço do noivo.

— Preparei uma ceia catita para esta noite!

Entraram pela porta que dava directamente para a cozinha e, enquanto bebia uma chávena de café quente, Pat notou que Lola parecia preocupada. Jim Wheeler, espreitando pela porta que comuni­cava com o seu pequeno escritório, acenou amigavel­mente para o Ranger.

— Posso guardar o meu cavalo no seu alpendre, Mr. Wheeler?

— Eu vou consigo! — respondeu o pai de Lola. — Minha filha, presta atenção ao telégrafo! A porta fica aberta!

Seguiram ao lado um do outro até ao alpendre, falando disto e daquilo. Bruscamente, Pat voltou-se para o companheiro:

— O que é que o preocupa, Mr. Wheeler?

A face de Jim Wheeler tomou uma expressão de aborrecimento.

— Temos sempre preocupações, amigo! Bart French tem andado por aí!…

— Fez alguma das dele?

— Tem dado à língua… e ele é um inventor de complicações! Foi por isso que Ed Catlin o pôs na rua! Diz-se que se juntou a um bando de contra­bandistas!

— Tenho de ver isso!

— E anda para aí a ameaçar o Catlin! Diz que tem gente para o ajudar, se for preciso!

— Essa gente da fronteira anda por aí? Falo dos brush-poppers

— Desde ontem à noite que começaram a entrar na cidade! Devem vir corridos do outro lado! Talvez seja só para passar a noite de Ano Novo!

— Bem… — disse Malloy — tenho de dar uma volta pelos saloons, para ver!

— Mas há mais, Pat! Quando Bart começou a resmungar ameaças contra Catlin, houve alguém que lhe disse que você estaria na cidade hoje… E Bart afirmou que isso o alegrava muito, porque tinha contas a ajustar! Você fez com que ele fosse preso, há dois anos!…

— Bom, então é um caso pessoal! Hei-de falar com Bart French!

— Cuidado, Pat! Os mineiros e os brush-poppers não se podem ver! Deve haver sarilho… e podem armar-lhe alguma emboscada!

— Um Ranger tem de estar preparado para tudo, amigo! Obrigado!

(continua)

NÚMEROS “PRIMUS” – 1

QUANDO “O MOSQUITO” COMEÇOU A VOAR…

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Em 14 de Janeiro de 2014 celebrou-se mais um aniversário (o 78º) da mítica revista infanto-juvenil O Mosquito, que ainda continua a ter muitos admiradores em várias faixas etárias que atravessam gerações, conferindo-lhe um estatuto raro, entre as suas congéneres, de caso emblemático de longevidade na memória colectiva e fenómeno sócio-cultural na sua época.

Como habitualmente, a data foi festejada num almoço-convívio marcado para sábado, dia 18, num restaurante lisboeta. Nesse mesmo dia, pelas 17 horas, teve lugar na Livraria Barata (Avenida de Roma, 11) uma palestra de José Ruy, em que este ilustre autor de BD evocou o percurso d’O Mosquito, nos seus 17 anos de publicação ininterrupta, explicando alguns dos processos tipográficos utilizados na sua confecção.

Raoul Correia e Cardoso LopesRecordamos que o primeiro número dO Mosquito — hoje como ontem, uma raridade vendida quase a “peso de ouro”, apesar de ter sido reeditado em fac-simile, nos anos 70, pelo Jornal do Cuto — apareceu nas bancas com oito páginas, quatro delas a uma cor, ao preço de 50 centavos (cinco tostões), tornando-se logo, entre o público infanto-juvenil, um caso sério de popularidade e tiragem, graças ao saber e competência dos seus dois fundadores, António Cardoso Lopes (Tiotónio) e Raul Correia, cada um figura incontornável na vertente respectiva: a gráfica e a literária.

Mosquito nº 1 página 2  476Além de uma novela de aventuras, “O Enigma de Nelson Street”, escrita por Raul Correia, esse primeiro número contava ainda com uma poética rubrica assinada pelo Avozinho (pseudónimo do seu director literário, ciosamente mantido em segredo, durante muitos anos), que se tornaria a figura mais tutelar e estimada da revista. Nas páginas seguintes incluíam-se três magníficas histórias ilustradas por notáveis artistas: “Pelo Mundo Fora”, série inglesa já famosa, com desenhos de Walter Booth, oriunda do Tic-Tac, revista fundada também por Cardoso Lopes, mas que este deixou para trás ao lançar-se numa empresa de maior envergadura, com a aposta nO Mosquito; “Pedro e Paulo, Marinheiros, e o Almirante Calheiros”, outra série inglesa, com o traço hilariante de Roy Wilson; e “Formidáveis Aventuras do Grumete Mick, do Velho Mock e do Cão Muck”, movimentada série, cheia de exóticas peripécias, criada pelo humorista espanhol Arturo Moreno, que foi, nessa primeira fase, um dos maiores êxitos do “semanário da rapaziada”. E havia ainda uma rubrica especial, o Correio da Tia Irene, dedicada às meninas, anunciando-se para o número seguinte uma página de engenhocas do Tiotónio, a cujo peculiar grafismo se deviam a cara alegre do petiz e a imagem do “mosquito” estampadas na capa.

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Por uns modestos cinco tostões, ao alcance de muitas bolsas (embora a pobreza ainda alastrasse por todo o país), e com um sumário bem doseado, onde o texto não prevalecia sobre as imagens (como noutros jornais pouco ilustrados), não admira que a rapaziada desse tempo tenha embandeirado em arco, sentindo uma empatia irresistível com o simpático “insecto” que tão atraente e prazenteiro se mostrava, no seu jeitoso formato.

Ao longo dos meses seguintes, a tiragem d’O Mosquito — que era, então, impresso em litografia, numa pequena máquina sujeita a frequentes avarias —, não parou de aumentar, apesar de todos os percalços, consolidando o seu êxito entre milhares de miúdos de boina e calção (alguns de pé descalço) que frequentavam, na sua maioria, as escolas primárias de todo o país, e inaugurando uma nova etapa no progresso da imprensa infanto-juvenil portuguesa — que ficou conhecida como “época de ouro” e se perpetuou, de forma simbólica, na memória nostálgica de várias gerações.

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78º ANIVERSÁRIO DE «O MOSQUITO»

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Embora, por motivos de força maior, não nos tenha sido possível comparecer, este ano, a mais uma reunião festiva de antigos leitores e simpatizantes d’O Mosquito, próximo da data em que se celebrou o seu aniversário (14 de Janeiro), quisemos associar-nos também a esse evento — organizado actualmente por Leonardo De Sá e Américo Coelho e que se repete já há várias décadas —, publicando n’O Gato Alfarrabista, como em 2013, uma reportagem fotográfica realizada pelo nosso amigo Dâmaso Afonso, a quem agradecemos a amável e preciosa colaboração que nos tem prestado.IMG_1930

O almoço-convívio realizou-se, como habitualmente, numa espaçosa sala do restaurante lisboeta Pessoa, desta vez em 18 de Janeiro, por ser sábado, e contou com numerosos participantes (alguns vindos de longe), entre os quais familiares de António Cardoso Lopes (Tiotónio) e Eduardo Teixeira Coelho, que com a sua ligação pessoal a estas figuras míticas d’O Mosquito muito têm contribuído para manter viva a tradição, honrando com a sua presença na tertúlia a memória dos seus ilustres parentes.

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Outra presença sempre animada, e imprescindível, é a de Mestre José Ruy, um dos mais prestigiosos colaboradores d’O Mosquito, onde viveu uma das etapas mais importantes da sua aprendizagem como artista gráfico e autor de BD, e que hoje, mais de 60 anos depois, ainda mantém uma assombrosa actividade criativa.

IMG_1934 copyProva disso, a juntar a tantas outras, foi a palestra sobre O Mosquito que por sua iniciativa se realizou, nesse mesmo sábado, às 17 horas, noutro local de Lisboa, a popular Livraria Barata, ponto de encontro de muita gente afecta aos livros e à cultura, onde, com o seu habitual poder de comunicação e os seus vastos conhecimentos sobre técnicas gráficas e outros temas relacionados com a imprensa infanto-juvenil, prendeu a atenção da assistência durante quase duas horas.

Nota: as imagens que a seguir apresentamos foram também captadas pela objectiva de Dâmaso Afonso, sempre presente na cobertura dos principais eventos bedéfilos; excepto as duas primeiras, obtidas por José Rodrigues, da Livraria Barata.

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“O MOSQUITO” EM 1943 – 2

Uma das particularidades que distinguiam as aventuras d’O Mosquito (e que os leitores de hoje poderão até achar rebarbativa) eram os copiosos textos “didascálicos”, isto é, alinhados debaixo das vinhetas, numa sucessão monótona e uniforme que a ausência de balões tornava ainda mais semelhante a uma narrativa ilustrada. Diga-se de passagem que esses textos eram traduzidos, ou melhor, adaptados (e de que maneira!), por Raul Correia, um dos fundadores do jornal, juntamente com António Cardoso Lopes (Tiotónio), e seu director literário desde o primeiro número. Raul Correia e a fluidez e expressividade do seu estilo foram responsáveis pelo entusiasmo com que a maioria dos leitores acompanhava essas aventuras, deixando-se empolgar tanto pela magia dos desenhos como pela emoção que o texto transmitia às imagens (e vice-versa).

Nesta nova etapa da sua existência, como bissemanário, já não se publicavam n’O Mosquito aventuras do calibre de “O Gavião dos Mares” ou “O Capitão Meia-Noite”, magistralmente ilustradas por um dos grandes mestres da BD inglesa do século XX: Walter Booth. capitc3a3o-ciclone-grandeMas à falta desses verdadeiros clássicos (o segundo dos quais não tardaria a regressar), o público juvenil deleitava-se com as proezas, iniciadas no nº 360, de outro personagem histórico, o “Capitão Ciclone” (aliás, capitão Firebrand), galante e destemido corsário no reinado de Isabel I, época cheia de tradições, fielmente retratada por outro notável artista inglês que trabalhava no anonimato, embora pertencente a uma família de ilustradores e pintores que ficou célebre nos anais artísticos do Reino Unido: Thomas Heath Robinson.

As restantes histórias aos quadradinhos, também de origem inglesa, “O Mistério da Sala 13”, “Ao Serviço da Lei” e “A Torre do Sino”, eram continuação dos números anteriores. Na capa do nº 374, dava-se grande destaque à separata com uma espectacular construção de armar, representando uma aldeia de índios “peles-vermelhas” desenhada por E. T. Coelho (que até nessa modalidade revelava a sua mestria). O êxito foi tal que o versátil artista, seduzido pelo ambiente do Far West, não se ficou por aí, realizando outras do mesmo género.

Graças à gentileza do amigo Carlos Gonçalves, grande especialista destes temas, a quem expressamos o nosso reconhecimento, podemos apresentar seguidamente quatro folhas da referida construção, que teve um total de dez, inseridas nos nºs 371 ao 380.

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Note-se que as separatas com construções (incluindo presépios), jogos e figuras para recortar, eram um dos principais motivos de atracção d’O Mosquito, publicando-se com regularidade desde os seus primeiros números.

O nº 374 incluía ainda uma página de curiosidades, primorosamente ilustrada, e o vigoroso conto “A Lei da Campina”, da autoria de Nuno de Vasconcelos (Príncipe de Haraba), que deu o mote a outra magnífica ilustração de E. T. Coelho, com pleno domínio da forma e dos sombreados, e a mais um sugestivo cabeçalho. Dois números depois, era a vez de uma página em que o Avozinho, num tom de carinhosa emoção, se dirigia a um dos seus mais fiéis admiradores, com o lírico pseudónimo de “O Poeta Vagabundo”.

coisas-e-loisas-21Nos nºs 377 e 378, E. T. Coelho brindou os leitores com mais curiosidades, mas a ru- brica mudou de nome: Coisas… e Loisas.

No nº 375, estreou-se “Um Detective de 15 Anos”, outra aventura do género policial — um dos mais populares entre a rapaziada desse tempo —, cujos desenhos, de singular dinamismo e com acentuados contrastes de branco e negro, pareciam operar uma singular metamorfose no tradicional estilo inglês, aproximando-se da escola expressionista de alguns mestres norte-americanos, em particular Noel Sickles, Alex Raymond e Milton Caniff, cuja influência começava a ser enorme.

Criador de séries de ambiente urbano e índole melodramática que alcançaram grande sucesso n’O Mosquito — como “Maria Ninguém” e “João Sem Rumo”, das quais a seu tempo falaremos —. este desenhador, Arthur Mansbridge de seu nome, foi também um dos mais prolíficos colaboradores dos comics ingleses, na primeira metade do século passado, e pai de Norman Mansbridge, artista que granjeou ainda maior reputação.

louisaEntre os novelistas d’O Mosquito, um dos mais assíduos continuava a ser Orlando Marques, que escrevia num estilo límpido e fluente, imprimindo às suas histórias um raro poder emotivo. No nº 375, assistiu-se ao regresso de Raul Correia — cuja actividade como novelista abrandara para dar lugar aos mais novos —, com uma longa e empolgante novela ambientada no Oeste americano, durante os primórdios da colonização (1813).

“Aventuras de Jim West” foi a primeira história em que o nome de Eduardo Coelho fazia as honras do cabeçalho, aparecendo já como ilustrador. No número seguinte, estreou-se o nome com que ficaria conhecido para a posteridade: E. T. Coelho.

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77º ANIVERSÁRIO DO MOSQUITO – 2

Ainda a propósito deste animado evento, que se realizou no dia 19 de Janeiro de 2013, no restaurante lisboeta Pessoa, com grande afluência de simpatizantes da revista infanto- -juvenil portuguesa mais carismática de todos os tempos, divulgamos outras fotos que nos foram enviadas pelo nosso amigo Leonardo De Sá, com um panorama muito abrangente dos convivas e da espaçosa e agradável sala onde decorreu o almoço.

Os créditos destas fotos pertencem a Catarina Lima (filha de Joel Lima) e a Jorge Silva (coordenador do blogue Almanaque Silva). A todos o nosso muito obrigado.

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O MOSQUITO EM 1943 – 1

o-mosquito-360-11Em 1933 ainda não existia O Mosquito… mas há 71 anos, em 1943, o mais carismático título da BD portuguesa já ia no sétimo ano de publicação e no primeiro como bissemanário. Notáveis e impor- tantes transformações tinham ocorrido no ano anterior, em que optara por um formato mais pequeno, aumentando o número de páginas para doze (eram oito até ao nº 317) e apresentando regularmente capas em tricromia e quadricromia, magnificamente ilustradas, a partir do nº 360, de 3 de Dezembro de 1942, por um novo e talentoso colaborador, que não tardou a distinguir-se com o nome de E.T. Coelho (e as iniciais ETC, com que assinou a maioria dos seus trabalhos).

O preço mantivera-se, até então, nuns módicos cinco tostões (um escudo por semana), graças à estabilidade e segurança proporcionadas pelo usufruto de sede própria, onde funcionavam a redacção, a administração e as oficinas, e por um número sempre crescente de assinantes e leitores fiéis. Dentro de pouco tempo, a tiragem alcançaria a soma astronómica para a época (e ainda hoje) de 60.000 exemplares semanais!

No sumário dos primeiros cinco números de 1943 (368, de 2 de Janeiro, a 372, de 16 de Janeiro) continuavam a figurar contos da autoria de prolíficos novelistas, como Orlando Marques e Lúcio Cardador, ilustrados também pelo traço dinâmico de E.T. Coelho (que ainda não começara a assinar os seus trabalhos e preferia o pincel ao aparo).

Além da ilustração de contos, capas e cabeçalhos, E.T. Coelho exibia os seus dotes gráficos na rubrica Curiosidades, que desfiava assuntos didácticos em tom ameno, e nas graciosas vinhetas decorativas de dois poemas do Avozinho — ou seja, Raul Correia —, dedicados ao Ano Novo e ao 7º aniversário d’O Mosquito, celebrado em 14 de Janeiro.

No tocante às histórias aos quadradinhos, publicava-se um punhado de excelentes séries inglesas, cujos autores, nessa época, eram totalmente desconhecidos do público infanto- -juvenil, mesmo os que já tinham carreiras brilhantes noutras actividades artísticas:

o-mosquito-bi-semanc3a1rio“Ao Serviço da Lei”, aventuras do sargento Fred Bolt, da Polícia Montada, e do seu valente cão Storm, dese- nhadas por Hilda Boswell, uma das poucas mãos femininas que deram vida aos heróis de papel, na história dos comics britânicos, antes da proliferação de revistas para raparigas na década de 60 (além de ter sido uma aguarelista de mérito, dedicada à literatura infantil e particularmente às obras de Enid Blyton); “O Mistério da Sala 13”, história policial e de mistério, num ambiente estudantil, pelo traço de outro exímio artista: Henry Matthew Brock, ilustrador do Punch magazine e de novelas de Charles Dickens, Jane Austen e Conan Doyle; “Capitão Ciclone”, uma trepidante história de corsários”; e três curtas aventuras do detective James Donald (“O Pescador Desaparecido”, “Um Roubo no Circo” e “A Torre do Sino”), personagem bastante popular, porque já fora protagonista de algumas novelas de Raul Correia, nos primeiros números d’O Mosquito, e do empolgante serial, também de origem inglesa, “Na Pista de Fu-Chong”, cujo êxito o Jornal do Cuto reviveu nos anos 70.

No nº 368, concluiu-se outra história de género policial: “O Enigma de Wrecker’s Rock”, num traço bem urdido, provavelmente do mesmo desenhador de James Donald — cujo nome, como o de tantos outros, ainda permanece no anonimato.

Continuaremos, com a regularidade possível, a acompanhar a trajectória d’O Mosquito num ano que, como o de 1942, foi pródigo em novidades.

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