DUAS NOVAS E INTERESSANTES EXPOSIÇÕES NO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA – 1

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Como anunciámos em devido tempo, foram inauguradas, no passado dia 30 de Abril, duas novas exposições na sede do Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), alusivas ao tema Eça de Queirós e Alexandre Herculano na Banda Desenhada, com a presença dos seus dois comissários, Carlos Rico e Luiz Beira, de directores e de vários sócios, simpatizantes e colaboradores do Clube. Como oradores intervieram Carlos Rico, Luiz Beira e Pedro Mota, presidente da direcção recentemente eleita.

Estas exposições são fruto de uma parceria entre o CPBD, o Município de Moura (que foi o seu primeiro organizador) e o GICAV (Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu), que tomou também a iniciativa de levá-las ao público da sua cidade. Montadas em grandes painéis e divididas por autores que adaptaram de forma criativa algumas obras dos dois grandes vultos da literatura portuguesa do século XIX, as mostras abrangem várias épocas e várias publicações carismáticas, desde O MosquitoModas & Bordados, O FalcãoMundo de Aventuras e Cavaleiro Andante ao Tintin (português e belga) e até revistas brasileiras, sem olvidar as versões que foram publicadas em álbuns ou que permanecem ainda inéditas.

Apresentamos seguidamente uma breve reportagem dessa informal cerimónia, graças aos préstimos do nosso amigo Dâmaso Afonso, diligente repórter fotográfico a quem, uma vez mais, agradecemos a amável e valiosa colaboração.

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SAUDADES DO VERÃO… E DAS FÉRIAS!

Santo Amaro praia

Oeiras postal 1   e 2Não só as férias, há 60 anos, eram maiores, como muitos jovens desse tempo preferiam geralmente a leitura a outras amenas distracções. Lembro-me bem de levar sempre um livro e algumas revistas — como O Mosquito, o Mundo de Aventuras e O Século Ilustrado — quando ia para a praia de Santo Amaro de Oeiras, a minha preferida.

Situada na linha de Cascais, entre Paço de Arcos e Carcavelos, hoje já não goza da reputação que tinha noutros tempos. Era apreciada, sobretudo, pelos seus bons ares, pela água límpida e calma, sem grandes ondas, e pela extensão do areal (embora menor que o da praia vizinha). Além disso, tinha (e ainda tem), do lado poente, a esplanada do Inatel, fronteira ao mar, muito frequentada, nessa época, por estrangeiros, e o Forte de São Julião da Barra; e do outro lado da Estrada Marginal um vasto e frondoso parque, atravessado pela Ribeira da Lage, onde não faltavam diversões durante os meses de Verão — mas hoje tristemente reduzido a uma pálida sombra do seu esplendor natural e da sua utilidade turística, que tantos veraneantes atraía à ridente localidade de Oeiras.  

Oeiras - ribeira da LageA minha família chegou mesmo, em anos seguidos, a passar lá um mês inteiro, numa casa alugada, perto da igreja. Então, eu ia abastecer-me regularmente a um quiosque onde não faltavam as revistas de BD que saíam todas as semanas… incluindo o Diabrete, que em Agosto de 1951 ainda se publicava, mas não tardaria a chegar ao fim da sua carreira, para dar lugar ao Cavaleiro Andante, outra revista que eu não dispensava nas férias grandes (e no resto do ano).

Se os dias de lazer eram passados na praia, a dar mergulhos, a jogar à bola, a dormitar, a ler e a cuidar do bronzeado (inocente sinal de vaidade juvenil), as noites eram dedicadas ao convívio com os amigos, pois juntara-se um grupo de jovens veraneantes, em Oeiras, que à noite se encontravam sempre no mesmo sítio, para fumar, beber umas cervejas e conversar (a praia, o desporto e o cinema eram os principais tópicos… o liceu ficava esquecido), e atirar piropos às garotas que passeavam pelo parque. Belos tempos!

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Foi também na praia de Santo Amaro de Oeiras, mas noutro ardente Verão, que me deliciei a ler os primeiros episódios de uma nova aventura de Cuto, “A Ilha dos Homens Mortos”, e de “O Defunto”, um conto de Eça de Queirós, magistralmente ilustrado por E. T. Coelho, que O Mosquito começou a publicar no nº 1157, em 26 de Julho de 1950. Lembro-me desse dia tão bem como se fosse hoje! Como o tempo voa!…

E para rematar este saudosista apontamento estival — em plena Primavera, com dias ainda frios, cinzentos e chuvosos!… —, aqui ficam, dedicados especialmente aos admiradores de E. T. Coelho e de Jesús Blasco (que ainda são muitos), a primeira página de “O Defunto” (com o texto original de Eça de Queirós) e dois episódios de Cuto, extraídos dos nºs 1157 e 1158 d’O Mosquito. Qualquer dia o nosso blogue tem de recuperar estas histórias de dois grandes mestres da BD mundial, infelizmente já desaparecidos…

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O “MOSQUITO” À BEIRA DO FIM – 2

mosquito-1379-jed-cooperComo referi no “número” anterior (retomando um hábito dos bons velhos tempos), o novo figurino d’O Mosquito foi uma espécie de “formato de guerra” para fazer face à concorrência, depois de Raul Correia se ter apercebido de que a fórmula em que insistira durante ano e meio já passara à história. O facto é que nessa nova fase, com séries e heróis da estirpe de Garth, Buck Ryan, Lesley Shane, Jed Cooper, Rex Morgan, Terry e os Piratas (os três primeiros de origem inglesa), algumas séries francesas de bons autores como Paul Gillon, com o seu célebre herói da selva Lince (“O Leão de Neve”, “A Vingança dos Macacos-Aranhas”), Pierre Leguen (“A Ilha Misteriosa”, “A Fuga do Cachalote”, “O Enigma do Oceano”), Lucien Nortier (“A Febre da Selva”, “Estrela da Manhã”) e outros — mais o “Cantinho dos Leitores”, secção de grande êxito destinada às produções artísticas e literárias dos jovens talentos, e o regresso de velhos conhecidos como Serafim e Malacueco, os reis da comicidade pura, cujas mirabolantes facécias tinham divertido várias gerações —, O Mosquito parecia apto a superar as dificuldades e a continuar a luta contra os seus rivais, mesmo em condições mais desfavoráveis, pois não tinha o apoio de grandes editoras nem recursos publicitários que lhe permitissem enveredar também pela senda dos concursos e sorteios com prémios valiosos.

mosquito-1402-terry-e-os-piratasDisso se queixava com azedume Raul Correia, nas respostas às cartas dos leitores, mas sem baixar os braços nem perder as ilusões, pois acreditava firmemente que bastava uma boa selecção de material, incluindo a prosa do Eça, e a colaboração de E. T. Coelho e de outro velho amigo, o novelista Orlando Marques — que voltara também, de livre e espontânea vontade, a oferecer-lhe os seus préstimos —, para continuar a jornada sem desfa- lecimentos durante mais algum tempo.

O prazo seria, infelizmente, mais curto do que ele esperava, pois no dia 24 de Fevereiro de 1953 — ao cabo de 40 números publicados nessa última fase, a 5ª durante a sua existência —, O Mosquito chegou ao fim do caminho… apesar de ter deixado há algum tempo (desde o nº 1399) de ser bissemanário para se tornar semanário, como todos os concorrentes. Para assinalar (no nº 1412) o brusco remate da odisseia, apenas uma breve nota no rodapé de uma página, procurando acalentar ainda as ilusões dos leitores mais estóicos, aqueles que tinham permanecido sempre fiéis ao “velho camaradão”, ao “jornal mais bonito” de outros tempos, prometendo-lhes um regresso próximo, com aliciantes novidades… até no preço!

No meu caso, essa promessa não me convenceu e senti uma grande frustração por quase todas as histórias terem ficado incompletas, incluindomosquito-1412-s-cristovc3a3o-9271 o “S. Cristóvam”, de Eça de Queirós, ilustrado por E.T. Coelho.

Tinha acabado uma lenda do jornalismo infanto- -juvenil — e com ela a própria carreira de E. T. Coelho, em Portugal, e de Raul Correia como editor e novelista —, embora algumas tentativas de “ressurreição” fossem feitas nos anos seguintes, sem grande êxito, aliás, pois o modelo original não podia ser copiado e a sua fórmula já não se adaptava integralmente aos novos tempos. Ciente disso, José Ruy, director e editor da 2ª série, procurou aliar nessa recidiva alguns vestígios do passado a heróis e assuntos mais modernos.

Restam as memórias de uma revista que foi, de facto, o símbolo de uma era em que as histórias aos quadradinhos recheavam de fantasias o imaginário de todos os rapazes (e de algumas raparigas), tanto dos mais abastados como dos mais pobres, dos que já andavam na escola primária ou no liceu e dos que ainda não sabiam ler…

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“O MOSQUITO” À BEIRA DO FIM – 1

mosquito-n-1373 Já decorreram 62 anos… mas parece que foi ontem que tive nas mãos o último número d’O Mosquito, acabado de comprar numa tabacaria do bairro da Graça, em Lisboa, perto do qual a minha família então residia. Esse mês de Fevereiro de 1953 foi decisivo e fatal para O Mosquito. Dez anos antes era quase impossível prever esse desfecho, porque a revista, como já assinalei, estava numa curva ascendente que a conduziria ao pico da fama e do êxito comercial. Como sempre acontece, essa curva começou a declinar num momento crítico, em 1948, quando os dois sócios fundadores se malquistaram e separaram, ficando António Cardoso Lopes Jr. com as oficinas gráficas e Raul Correia com a propriedade do título.

Confrontado com a forte concorrência do Mundo de Aventuras e de um novo e ambicioso rival, o Cavaleiro Andante, que surgiu nas bancas em Janeiro de 1952, Raul Correia — agora sozinho ao leme da nau administrativa — teve de forçar a barra e procurar novos rumos. As escolhas não foram fáceis… numa altura em que as tiragens diminuíam a olhos vistos e o dinheiro começava a faltar para pagar a tempo e horas aos colaboradores, às oficinas, aos fornecedores de papel e de material para publicação. Um bico de obra que deve ter tirado muitas horas de sono a Raul Correia, embora se tivesse associado a António Homem Christo, mosquito-n-13871o homem forte da Editorial Organizações, empresa com sólidas raízes no mercado e que já há muitos anos era distribuidora d’O Mosquito.

Em tempo de “vacas magras”, como agora, fazem-se contas à vida e corta-se no que se pode cortar (às vezes, até no mais essencial). No caso d’O Mosquito foi o contrário… A revista, que regressara ao tamanho pequeno no nº 1201, de 27/12/1950, voltou a aumentar de formato e reduziu o número de páginas de 16 para 12 — mas, na verdade, quase o duplicou, atendendo às novas medidas —, a partir do nº 1373, de 20/8/1952, cujo renovado aspecto gráfico parecia augurar um futuro mais auspicioso. Entre outras razões para não desiludir as expectativas dos leitores fiéis, havia o regresso de E.T. Coelho, cujo esplêndido traço criou um novo e sugestivo cabeçalho e se esmerou na adaptação de mais alguns contosmosquito-n-1396 de Eça de Queirós: “O Tesouro”, “A Aia” e “S. Cristóvam”.

O reforço era precioso, depois de uma longa ausência, e os leitores embandeiraram em arco. Continuando a ser bissemanário, o que talvez tivesse sido a opção mais errada, O Mosquito apresentava ainda uma boa selecção de histórias inglesas e americanas, que destoavam largamente, pela sua temática, das que publicara em tempos idos. Eram histórias para adultos (como, aliás, as do Mundo de Aventuras), destinadas aos jornais diários e não às revistas juvenis, mas a sua estrutura narrativa, em moldes muito mais modernos, impôs-se rapidamente aos leitores, cuja consciência crítica e maturidade selectiva talvez não fossem tão ligeiras como alguns pensariam. Aliás, comparativamente à década anterior, O Mosquito já não era lido em larga percentagem por crianças da 4ª classe, mas por adolescentes que andavam no liceu ou na escola comercial e alguns, até, na faculdade.

Mas para não alongar demasiado este texto, deixo o resto da história para o próximo “número”, como se dizia e escrevia noutros (belos) tempos…

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A ÁGUIA VERMELHA E A TORRE ARRUINADA

Torre de D Ramires 1Já aqui fizemos referência a um notável trabalho do Professor António Martinó de Azevedo Coutinho sobre a espe- cificidade e singularidade das histórias aos quadradinhos como forma narrativa e meio de comunicação verbo-icónico que utiliza simultaneamente o texto e a imagem, adicionando-lhes um conjunto de regras teóricas — trabalho esse publicado em várias partes no seu ecléctico blogue Largo dos Correios, sob o título genérico “O ABC da BD” (podem ver o último post desta rubrica no link http://largodoscorreios.wordpress.com/2014/11/18/o-a-b-c-da-b-d-12-fim/).

Continuando a analisar de forma rigorosa, eloquente e objectiva os processos criativos que participam da génese da chamada 9ª Arte, o Professor Martinó deu-nos outra brilhante lição num anterior artigo desta série, inti- tulado “As Monstruosidades Vulgares”, em que abordou os atentados estéticos, morfológicos e sintácticos de que a BD também é vítima, usando como exemplo uma versão retalhada (e apócrifa) de “A Torre de D. Ramires”, narrativa histórica de Eça de Queirós magistralmente ilustrada por Eduardo Teixeira Coelho, em 1950, nas páginas d’O Mosquito e que, mais tarde, sofreu autênticos vandalismos nas mãos de outros editores — sobretudo nessa versão deturpada, que surgiu na 2ª série d’O Falcão, com o título “O Cavaleiro da Águia Vermelha”.

Como o assunto tem para nós significativa importância — na qualidade de coordenadores deste blogue, dedicado à mais emblemática revista infanto-juvenil portuguesa, e de incondicionais admiradores da arte de E. T. Coelho —. não resistimos ao impulso óbvio de reproduzir, com a devida vénia, mais um magnífico texto crítico e analítico do Professor Martinó, precedendo esse post de algumas notas alusivas ao exemplo citado, que modestamente complementam os seus esclarecidos e pertinentes comentários.

Told in pictures capa 174Nota prévia: O episódio a que o Largo dos Correios faz referência, publicado n’O Falcão nº 365, num formato mais reduzido que o da versão original (respeitada, até certo ponto, no Jornal do Cuto), foi extraído de uma publicação inglesa, tal como a maioria das aventuras que O Falcão apresentou na sua 2ª série. Essa revista inglesa, com 64 páginas e também de pequeno formato (quase idêntico ao d’O Falcão), chamava-se Thriller Picture Libray e já tinha apresentado alguns episódios da série Robin Hood desenhados por E. T. Coelho (assim como por Vítor Péon).

Curiosamente, tanto um como outro iniciaram os seus trabalhos para os editores ingleses com esta caris- mática série, que passou pelas mãos de muitos desenhadores das mais variadas origens, incluindo italianos, franceses e espanhóis. E. T. Coelho chegou mesmo a ter lugar de honra no almanaque Robin Hood de 1957, em que ilustrou um bom número de páginas.

Torre D Tamires 6Na versão estropiada de “A Torre de D. Ramires” (com o título inglês “Knight of the Red Eagle”), onde o texto do Eça foi suprimido e até os nomes das personagens foram alterados, para que toda a acção pudesse decorrer em Inglaterra, verifica-se, além da remontagem das vinhetas e da inserção de numerosos balões, o aditamento de algumas imagens inéditas, cujo traço tem inegáveis seme- lhanças com o de E. T. Coelho (como demonstram amplamente os exemplos anexos).

O que prova que esta história só poderia ter sido publicada em Inglaterra com o seu acordo e que foi ele próprio quem realizou uma série de novas vinhetas, destinadas a preencher alguns “vazios” criados pelos cortes que o episódio sofreu, bem como pela adaptação a um novo formato (de duas/três vinhetas, em média, por página). A drástica redução de tamanho implicou necessariamente o sacrifício de muitas páginas publicadas n’O Mosquito — como a que mais acima reproduzimos, extraída do nº 1115, em que só foi aproveitada a 1ª tira, com um extenso corte lateral.

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O autor da adaptação inglesa procurou ter êxito numa missão impossível: restaurar a unidade e o ritmo da história, depois de tantos cortes, embora tivesse alterado também algumas passagens e o próprio final, em que a agonia de Sweyn (ou o Bastardo) perdeu toda a carga dramática da versão primitiva, na prosa ímpar de Eça de Queirós.

Antologia da BD Portuguesa 21Mas, pelo menos, E. T. Coelho não deixou que os editores ingleses retalhassem os originais de “A Torre de D. Ramires”, pois foi a partir deles que se fez a excelente reedição da Editorial Futura na Antologia da BD Portuguesa nº 21 (em que foi utilizada também a capa d’O Mosquito, com cores de Catherine Labey), mais de quinze anos depois da sua publicação no Jornal do Cuto. E esses originais, completos, tinham ainda anotações em inglês, escritas obviamente pelos responsáveis da referida (des)montagem.

Portanto, O Falcão não cometeu, como era suposto, um crime de lesa-arte, pois limitou-se a reproduzir a versão que apareceu no Thriller P. L. nº 172, de 7/5/1957. Torre D Tamires Falcão capaTudo leva a crer que Mário do Rosário, editor d’O Falcão nos anos 60/70, não sabia que essa história era desenhada por E. T. Coelho e que se baseava numa obra de Eça de Queirós, publicada anos antes n’O Mosquito. Quanto aos leitores d’O Falcão, na sua maioria nascidos noutra época, esses não sabiam, de certeza.

A capa deste número foi ilustrada por José Garcês. Julgo que terá sido um dos poucos a aperceber-se de tamanha “monstruosidade”… como lhe chamou, com toda a justiça, o Professor Martinó!

Esta história foi reeditada n’O Falcão nº 976, com um título mais abreviado, “A Águia Vermelha”, e uma nova capa de Garcês (cujo nome já aparece na ficha técnica). Mas os de E. T. Coelho e Eça de Queirós continuavam ausentes… como na versão do Thriller Picture Library, que procurou apenas “vender gato por lebre”!

Layout 1Nos anos 60 e 70, tais práticas eram comuns por parte dos editores e toleradas pelos próprios autores, cujos nomes, sobretudo na BD inglesa, ficavam sempre na sombra. Só recentemente, há cerca de quatro anos, graças ao apreciável trabalho de uma editora, a Book Palace, e de dois eminentes especialistas dos comics ingleses, David Ashford e Steve Holland, surgiu uma obra (literalmente) de peso, com quase 300 páginas, dedicada ao Thriller e a outras publicações similares, em que pela pri- meira vez foram revelados os nomes de todos os seus colaboradores artísticos e literários.

No episódio em questão, “Knight of the Red Eagle”, com uma sugestiva capa de James McConnell, a sua autoria é atribuída a Eduardo Coelho e a um desconhecido R. Perrins (que reescreveu o argumento, como se a história se passasse em solo inglês, durante a Idade Média). Que comentário teria saído da pena irónica e contundente de Eça de Queirós se este plágio mal disfarçado tivesse acontecido no seu tempo?

Segue-se o post do Largo dos Correios, com algumas vinhetas extraídas do Jornal do Cuto e d’O Falcão, propiciando aos mais interessados uma concludente análise comparativa.

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o A.B.C. da B.D. – X

ABC da BD

Toda e qualquer narrativa servida pelos suportes verbo-icónicos, audiovisuais e multimédia implica a montagem. Esta traduz-se nas operações pelas quais se define e concretiza a maneira de articular espaços e tempos significativos para assim conferir à narração da história o ritmo e efeitos pretendidos.

Se no cinema (vídeo ou DVD) e na informática (powerpoint, por exemplo) estas operações se exercem a posteriori sobre o material já colhido (ou construído), se na televisão (em directo) decorrem em simultâneo com a captação das imagens e do som, pode dizer-se que na banda desenhada a montagem é globalmente concebida a priori, no próprio acto complexo da criação da história.

Portanto, os esquemas morfológico e sintáctico da linguagem BD englobam planos/ângulos/enquadramentos e equilíbrios articulados, paralelamente, entre esta participação icónica e a componente verbal/sonora/simbólica traduzida em legendas, balões ou onomatopeias. Estes elementos participam tanto da organização interna de cada vinheta (morfologia) quanto da articulação entre as vinhetas consecutivas (sintaxe), à semelhança do que acontece com as imagens do cinema e da televisão. Por outras palavras, pode dizer-se que funcionam simultaneamente como sistema (significante) e como natureza (significado).

A organização interna de cada vinheta, a sua articulação na página e, finalmente, na história completa, normalmente em função do álbum a que dará origem, todo esse processo exige uma lógica baseada na integralidade.

Por isso, as posteriores intervenções soltas não previstas originariamente podem desarticular todo o processo, ou, no mínimo, prejudicar o seu equilíbrio.

 AS MONSTRUOSIDADES VULGARES

Parafraseando José Régio, poder-se-á afirmar que o universo dos quadradinhos também apresenta as suas monstruosidades vulgares, pequenas “transgressões” à normalidade criativa e gráfica que constitui, felizmente, a regra geral.

Escolhemos hoje um exemplo, talvez extremo, de uma espécie de “atentado” não muito vulgar, o de estropiar a obra alheia, em cópias (!?) de mau gosto estético, literário e, sobretudo, ético.

Num período já tardio de O Mosquito, pelos anos 50, surgiram nas suas páginas algumas adaptações de obras literárias clássicas de autores nacionais de nomeada, como Alexandre Herculano e Eça de Queirós, devidas à criatividade de um dos maiores desenhadores portugueses de sempre, Eduardo Teixeira Coelho.

Foi o caso de A Torre de D. Ramires, conto de Eça incluído na sua obra A Ilustre Casa de Ramires. Quase um quarto de século mais tarde, o Jornal do Cuto reeditou muitas dessas histórias, entre as quais a referida. Ainda depois, uma outra revista infanto-juvenil de BD, O Falcão, recuperaria a banda desenhada em causa, ainda que disfarçada com outras “roupagens”.

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Atente-se, desde já, às capas que respectivamente assinalam as distintas publicações, com a do Jornal do Cuto respeitando a ilustração original e apenas lhe alterando o colorido, enquanto a de O Falcão consiste numa sua versão livre, “anarquia” plenamente confirmada no próprio título…

Sem comentários, por supérfluos, aqui se deixam cinco pares de vinhetas, respectivamente seleccionadas do Jornal do Cuto (C) e de O Falcão (F), a fim de que possam ser apreciadas as tropelias de toda a ordem cometidas sobre os textos e as imagens, até na “invenção” dos balões que Eduardo Teixeira Coelho nunca usou nas adaptações da obra literária de Eça de Queirós…

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