A ÁGUIA VERMELHA E A TORRE ARRUINADA

Torre de D Ramires 1Já aqui fizemos referência a um notável trabalho do Professor António Martinó de Azevedo Coutinho sobre a espe- cificidade e singularidade das histórias aos quadradinhos como forma narrativa e meio de comunicação verbo-icónico que utiliza simultaneamente o texto e a imagem, adicionando-lhes um conjunto de regras teóricas — trabalho esse publicado em várias partes no seu ecléctico blogue Largo dos Correios, sob o título genérico “O ABC da BD” (podem ver o último post desta rubrica no link http://largodoscorreios.wordpress.com/2014/11/18/o-a-b-c-da-b-d-12-fim/).

Continuando a analisar de forma rigorosa, eloquente e objectiva os processos criativos que participam da génese da chamada 9ª Arte, o Professor Martinó deu-nos outra brilhante lição num anterior artigo desta série, inti- tulado “As Monstruosidades Vulgares”, em que abordou os atentados estéticos, morfológicos e sintácticos de que a BD também é vítima, usando como exemplo uma versão retalhada (e apócrifa) de “A Torre de D. Ramires”, narrativa histórica de Eça de Queirós magistralmente ilustrada por Eduardo Teixeira Coelho, em 1950, nas páginas d’O Mosquito e que, mais tarde, sofreu autênticos vandalismos nas mãos de outros editores — sobretudo nessa versão deturpada, que surgiu na 2ª série d’O Falcão, com o título “O Cavaleiro da Águia Vermelha”.

Como o assunto tem para nós significativa importância — na qualidade de coordenadores deste blogue, dedicado à mais emblemática revista infanto-juvenil portuguesa, e de incondicionais admiradores da arte de E. T. Coelho —. não resistimos ao impulso óbvio de reproduzir, com a devida vénia, mais um magnífico texto crítico e analítico do Professor Martinó, precedendo esse post de algumas notas alusivas ao exemplo citado, que modestamente complementam os seus esclarecidos e pertinentes comentários.

Told in pictures capa 174Nota prévia: O episódio a que o Largo dos Correios faz referência, publicado n’O Falcão nº 365, num formato mais reduzido que o da versão original (respeitada, até certo ponto, no Jornal do Cuto), foi extraído de uma publicação inglesa, tal como a maioria das aventuras que O Falcão apresentou na sua 2ª série. Essa revista inglesa, com 64 páginas e também de pequeno formato (quase idêntico ao d’O Falcão), chamava-se Thriller Picture Libray e já tinha apresentado alguns episódios da série Robin Hood desenhados por E. T. Coelho (assim como por Vítor Péon).

Curiosamente, tanto um como outro iniciaram os seus trabalhos para os editores ingleses com esta caris- mática série, que passou pelas mãos de muitos desenhadores das mais variadas origens, incluindo italianos, franceses e espanhóis. E. T. Coelho chegou mesmo a ter lugar de honra no almanaque Robin Hood de 1957, em que ilustrou um bom número de páginas.

Torre D Tamires 6Na versão estropiada de “A Torre de D. Ramires” (com o título inglês “Knight of the Red Eagle”), onde o texto do Eça foi suprimido e até os nomes das personagens foram alterados, para que toda a acção pudesse decorrer em Inglaterra, verifica-se, além da remontagem das vinhetas e da inserção de numerosos balões, o aditamento de algumas imagens inéditas, cujo traço tem inegáveis seme- lhanças com o de E. T. Coelho (como demonstram amplamente os exemplos anexos).

O que prova que esta história só poderia ter sido publicada em Inglaterra com o seu acordo e que foi ele próprio quem realizou uma série de novas vinhetas, destinadas a preencher alguns “vazios” criados pelos cortes que o episódio sofreu, bem como pela adaptação a um novo formato (de duas/três vinhetas, em média, por página). A drástica redução de tamanho implicou necessariamente o sacrifício de muitas páginas publicadas n’O Mosquito — como a que mais acima reproduzimos, extraída do nº 1115, em que só foi aproveitada a 1ª tira, com um extenso corte lateral.

Torre D Tamires 4 & 5

O autor da adaptação inglesa procurou ter êxito numa missão impossível: restaurar a unidade e o ritmo da história, depois de tantos cortes, embora tivesse alterado também algumas passagens e o próprio final, em que a agonia de Sweyn (ou o Bastardo) perdeu toda a carga dramática da versão primitiva, na prosa ímpar de Eça de Queirós.

Antologia da BD Portuguesa 21Mas, pelo menos, E. T. Coelho não deixou que os editores ingleses retalhassem os originais de “A Torre de D. Ramires”, pois foi a partir deles que se fez a excelente reedição da Editorial Futura na Antologia da BD Portuguesa nº 21 (em que foi utilizada também a capa d’O Mosquito, com cores de Catherine Labey), mais de quinze anos depois da sua publicação no Jornal do Cuto. E esses originais, completos, tinham ainda anotações em inglês, escritas obviamente pelos responsáveis da referida (des)montagem.

Portanto, O Falcão não cometeu, como era suposto, um crime de lesa-arte, pois limitou-se a reproduzir a versão que apareceu no Thriller P. L. nº 172, de 7/5/1957. Torre D Tamires Falcão capaTudo leva a crer que Mário do Rosário, editor d’O Falcão nos anos 60/70, não sabia que essa história era desenhada por E. T. Coelho e que se baseava numa obra de Eça de Queirós, publicada anos antes n’O Mosquito. Quanto aos leitores d’O Falcão, na sua maioria nascidos noutra época, esses não sabiam, de certeza.

A capa deste número foi ilustrada por José Garcês. Julgo que terá sido um dos poucos a aperceber-se de tamanha “monstruosidade”… como lhe chamou, com toda a justiça, o Professor Martinó!

Esta história foi reeditada n’O Falcão nº 976, com um título mais abreviado, “A Águia Vermelha”, e uma nova capa de Garcês (cujo nome já aparece na ficha técnica). Mas os de E. T. Coelho e Eça de Queirós continuavam ausentes… como na versão do Thriller Picture Library, que procurou apenas “vender gato por lebre”!

Layout 1Nos anos 60 e 70, tais práticas eram comuns por parte dos editores e toleradas pelos próprios autores, cujos nomes, sobretudo na BD inglesa, ficavam sempre na sombra. Só recentemente, há cerca de quatro anos, graças ao apreciável trabalho de uma editora, a Book Palace, e de dois eminentes especialistas dos comics ingleses, David Ashford e Steve Holland, surgiu uma obra (literalmente) de peso, com quase 300 páginas, dedicada ao Thriller e a outras publicações similares, em que pela pri- meira vez foram revelados os nomes de todos os seus colaboradores artísticos e literários.

No episódio em questão, “Knight of the Red Eagle”, com uma sugestiva capa de James McConnell, a sua autoria é atribuída a Eduardo Coelho e a um desconhecido R. Perrins (que reescreveu o argumento, como se a história se passasse em solo inglês, durante a Idade Média). Que comentário teria saído da pena irónica e contundente de Eça de Queirós se este plágio mal disfarçado tivesse acontecido no seu tempo?

Segue-se o post do Largo dos Correios, com algumas vinhetas extraídas do Jornal do Cuto e d’O Falcão, propiciando aos mais interessados uma concludente análise comparativa.

Torre D Tamires 2 E 3


o A.B.C. da B.D. – X

ABC da BD

Toda e qualquer narrativa servida pelos suportes verbo-icónicos, audiovisuais e multimédia implica a montagem. Esta traduz-se nas operações pelas quais se define e concretiza a maneira de articular espaços e tempos significativos para assim conferir à narração da história o ritmo e efeitos pretendidos.

Se no cinema (vídeo ou DVD) e na informática (powerpoint, por exemplo) estas operações se exercem a posteriori sobre o material já colhido (ou construído), se na televisão (em directo) decorrem em simultâneo com a captação das imagens e do som, pode dizer-se que na banda desenhada a montagem é globalmente concebida a priori, no próprio acto complexo da criação da história.

Portanto, os esquemas morfológico e sintáctico da linguagem BD englobam planos/ângulos/enquadramentos e equilíbrios articulados, paralelamente, entre esta participação icónica e a componente verbal/sonora/simbólica traduzida em legendas, balões ou onomatopeias. Estes elementos participam tanto da organização interna de cada vinheta (morfologia) quanto da articulação entre as vinhetas consecutivas (sintaxe), à semelhança do que acontece com as imagens do cinema e da televisão. Por outras palavras, pode dizer-se que funcionam simultaneamente como sistema (significante) e como natureza (significado).

A organização interna de cada vinheta, a sua articulação na página e, finalmente, na história completa, normalmente em função do álbum a que dará origem, todo esse processo exige uma lógica baseada na integralidade.

Por isso, as posteriores intervenções soltas não previstas originariamente podem desarticular todo o processo, ou, no mínimo, prejudicar o seu equilíbrio.

 AS MONSTRUOSIDADES VULGARES

Parafraseando José Régio, poder-se-á afirmar que o universo dos quadradinhos também apresenta as suas monstruosidades vulgares, pequenas “transgressões” à normalidade criativa e gráfica que constitui, felizmente, a regra geral.

Escolhemos hoje um exemplo, talvez extremo, de uma espécie de “atentado” não muito vulgar, o de estropiar a obra alheia, em cópias (!?) de mau gosto estético, literário e, sobretudo, ético.

Num período já tardio de O Mosquito, pelos anos 50, surgiram nas suas páginas algumas adaptações de obras literárias clássicas de autores nacionais de nomeada, como Alexandre Herculano e Eça de Queirós, devidas à criatividade de um dos maiores desenhadores portugueses de sempre, Eduardo Teixeira Coelho.

Foi o caso de A Torre de D. Ramires, conto de Eça incluído na sua obra A Ilustre Casa de Ramires. Quase um quarto de século mais tarde, o Jornal do Cuto reeditou muitas dessas histórias, entre as quais a referida. Ainda depois, uma outra revista infanto-juvenil de BD, O Falcão, recuperaria a banda desenhada em causa, ainda que disfarçada com outras “roupagens”.

10 a

Atente-se, desde já, às capas que respectivamente assinalam as distintas publicações, com a do Jornal do Cuto respeitando a ilustração original e apenas lhe alterando o colorido, enquanto a de O Falcão consiste numa sua versão livre, “anarquia” plenamente confirmada no próprio título…

Sem comentários, por supérfluos, aqui se deixam cinco pares de vinhetas, respectivamente seleccionadas do Jornal do Cuto (C) e de O Falcão (F), a fim de que possam ser apreciadas as tropelias de toda a ordem cometidas sobre os textos e as imagens, até na “invenção” dos balões que Eduardo Teixeira Coelho nunca usou nas adaptações da obra literária de Eça de Queirós…

10 b 10 c 10 d 10 e 10 f


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