MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 5

Com a técnica de utilizar modelos vivos para as personagens das histórias em quadrinhos, que o Eduardo Teixeira Coelho me incutiu, utilizava os colegas da secção de Rotogravura e Offset do Diário de Notícias, onde trabalhava. Quase todos manifestavam o desejo de entrar nas histórias.

Na vida de «Guntenberg» que desenhei para um Número Especial do Cavaleiro Andante, além do Rodrigo, que mostrei no artigo anterior, o Fernando Amorim, transportador-gravador de Rotogravura, serviu para uma personagem.

O seu papel foi o de um rico financiador de Gutenberg. A adaptação à época, século XV, fez-me acrescentar-lhe cabelo. E os voluntários começaram a afluir. Também o transportador de Offset, Fernando Lança, personalizou uma figura.

A este amigo coube-lhe o papel de um dos colaboradores de Gutenberg, que tiveram de fugir para França, por causa da guerra, quando a oficina do mestre foi destruída pelos canhões, arma inventada também nessa época.

Claro que tive de fazer algumas alterações: eliminei os óculos e acrescentei uma barba rala, e com o cabelo num corte diferente.

Continuei a colaborar nos Números Especiais [do Cavaleiro Andante], com algumas histórias que se completavam numa página.

Passados 22 anos, em 1976, o meu amigo Jorge Magalhães (que coordenava a revista Mundo de Aventuras) republicou esta história [na edição mensal, em formato A4]. Mas como então eu passara a compreender a vantagem de incluir balões com legendas, para uma melhor dinamização da narrativa, alterei o aspecto das páginas.

Nova versão de “Gutenberg”, com balões, publicada no Mundo de Aventuras Especial nº 13 (Dezembro de 1976)

Passei a escrever as legendas manualmente, o que também prefiro, para que o texto tenha uma maior ligação com o desenho. O Mundo de Aventuras era impresso em Offset, por isso não mantive os esbatidos da Rotogravura.

Mas só em 1956, dois anos depois da publicação da história de Gutenberg, comecei a colaborar na revista semanal Cavaleiro Andante, sem interrupção, até meados de 1959.

Foi com a adaptação do romance «Ubirajara», da autoria do autor brasileiro José de Alencar. Há a assinalar aqui uma curiosidade, que vos conto de seguida.

Esta é a capa do Cavaleiro Andante nº 220, a anunciar a história que se desenrolava no seu interior, publicada em 1956, e ao lado o original, que na altura desaparecera na oficina. Era comum não ligarmos aos desenhos originais das histórias, pois não pensávamos poder utilizá- -los uma segunda vez. E o insólito vem a seguir:

Este original apareceu recentemente, num anúncio de uma galeria de Paris, à venda por 400 €. Foi o meu amigo Leonardo De Sá quem descobriu.

Servia-me de modelo para as figuras musculadas, e portanto utilizei, para esta personagem de índio sul-americano, um vendedor de leite, que nessa época ia porta a porta, com as bilhas de zinco, fornecer diariamente meio litro ou metade de meio litro desse alimento.

À noite ia ao atelié montado em minha casa, servir-me de modelo. Pagava-lhe 4$00 à hora, o que na altura era compensador. A revista pagava 250$00 por cada página ou capa.

Muitos anos mais tarde, em 1982, e também pela mão do Jorge Magalhães, a Editorial Futura republicou esta história em livro e realizei uma pintura para a nova capa, mas mantendo a composição da que saíra no Cavaleiro Andante, embora com mais dinamismo, com a experiência entretanto adquirida nos 32 anos que mediaram a publicação.

Mas, enquanto na primeira versão a pontaria de «Ubirajara» para ferir o crocodilo foi num olho e numa axila, as partes mais vulneráveis deste animal, na segunda, por uma questão de sensibilidade, para não chocar os leitores, escolhi um intervalo na carapaça, entre espáduas, embora com menor probabilidade de êxito para ferir mortalmente o sáurio. 

A editora iniciou com esta história a colecção «Antologia da BD Portuguesa» [neste álbum, com 64 páginas, foram reeditadas também «A Vida de Gutenberg» e duas outras histórias de José Ruy publicadas no Cavaleiro Andante: «A Mensagem» e «Na Pista dos Elefantes»].

No próximo artigo: «A Mensagem» e outras histórias que fiz para o Cavaleiro Andante.

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MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 4

A minha adaptação ao novo processo de Rotogravura no Diário de Notícias, foi rápida. Fiquei com a categoria de oficial montador e retocador de Offset e Rotogravura.

Aproveitava todos os intervalos, entre o terminar de um trabalho e o início do seguinte, para desenhar colegas e máquinas.

Este, que vemos a trabalhar, era o impressor tipográfico da nossa secção, a tirar provas do texto em chumbo num prelo, sobre papel celofane, que eram depois montadas nas paginações das revistas destinadas a serem impressas na Rotogravura. Chamava-se Cara de Anjo, nome que eu, ao princípio, julgava ser alcunha; só quando tive de me dirigir a ele, e para não o tratar como toda a gente pela alcunha, o que me pareceu desagradável, lhe perguntei o nome verdadeiro, me respondeu que era mesmo esse. Nunca tinha antes ouvido tal nome próprio. O Rodrigo entrou no Diário de Notícias como meu aprendiz, pois a intenção da gerência era formar pessoal para essa especialidade gráfica.

Acabámos por nos tornar bons companheiros de trabalho.

Naturalmente que o utilizei como personagem das Histórias em Quadrinhos.

Os croquis eram feitos com muita rapidez, para apanhar a frescura da posição e o movimento. Desse modo, não prejudicava o trabalho que tínhamos em curso.

Nessa altura, em 1954, iniciei a minha colaboração com histórias em quadrinhos num Número Especial d’O Cavaleiro Andante, com a vida de «Gutenberg». O Rodrigo personalizou essa personagem, quando jovem.

O plano era impresso nos cadernos a duas cores numa face, e a uma cor no verso. Esta página mostra a impressão só a verde, em que o traço ficou como se fosse a negro e as meias-tintas aparentam como se fossem de uma segunda impressão.

O Rodrigo, quando viu a última vinheta [página seguinte], com o cavaleiro do século XV, sugeriu-me que fizesse uma história com as aventuras de um «cavaleiro andante».

Realmente fazia todo o sentido, seria um herói a corresponder ao título da revista. Mas pensei que isso seria tarefa para o Fernando Bento. No entanto, na redacção nunca deram seguimento a essa ideia, e o Bento limitou-se a fazer só algumas capas com a figura alusiva ao título, para comemorar alguma data festiva.

No próximo artigo: «Os colegas que queriam ser desenhados» e «O começo da colaboração na revista semanal».

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 1

Iniciamos hoje, com o maior prazer, a publicação de uma série de artigos assinados por um dos nomes mais prestigiosos da BD portuguesa, cuja longa carreira recheada de êxitos já abarca mais de sete décadas.

José Ruy é, de facto, um caso espantoso de longevidade e amor à arte da ilustração, com obra dispersa por inúmeros jornais, livros, revistas e álbuns. Ainda hoje a sua actividade se espraia por vários domínios, incluindo o de autor memorialista, em homenagem, sobretudo, à época de ouro da BD portuguesa, durante a qual aprofundou os seus conhecimentos e o seu virtuosismo artístico, cimentando as relações profissionais e os laços de amizade com outros nomes ilustres da 9ª Arte portuguesa, como E. T. Coelho, António Cardoso Lopes Jr., Raul Correia, Roussado Pinto, Adolfo Simões Müller e muitos outros.

Um dos seus maiores títulos de glória é, sem dúvida, o de ser presentemente o único autor de BD (ou histórias em quadrinhos) dessa época que se mantém ainda em actividade, com uma produção vasta e assinalável, mesmo nos últimos anos.

A José Ruy, que muito nos honra com esta valiosa colaboração, os melhores agradecimentos d’O Voo do Mosquito, um blogue dedicado à emblemática revista onde colaboraram alguns dos maiores mestres da BD portuguesa e onde José Ruy foi também presença marcante, como minuciosamente nos elucida, com a sua prodigiosa memória, nestes primeiros artigos, enriquecidos também com algumas imagens inéditas.

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (1)

Por José Ruy

No início da década de 1950, partilhava um atelier com o Eduardo Teixeira Coelho, na Calçada do Sacramento, ao Carmo, em Lisboa. Por essa altura, colaborámos na exposição de Histórias em Quadrinhos, no Palácio da Independência, a primeira feita em Portugal, e eu esboçara uma prancha, como exemplo do desenrolar do processo de trabalho, para estar exposta [que mostramos a seguir].

Repare-se que as primeiras vinhetas estão ainda em esboço, enquanto a última tem já o acabamento a tinta-da-china. A razão disso é para evitar arrastar o lápis, com a mão, sobre as vinhetas inferiores, enquanto trabalho as de cima. Costumo começar o desenho por baixo, da direita para a esquerda, e quando este está coberto a Nankim (tinta da china), sigo para os outros, da última vinheta para a primeira.

Em cada vinheta, esboço ligeiramente a lápis as figuras nas posições que pretendo, e depois utilizo o modelo vivo. Na vinheta 5, só uma das personagens já está desenhada em definitivo. Esta história ficara sem seguimento, pois tratava-se apenas de um exemplo para a exposição.

Mas o tema era o da minha preferência, os animais, e o melhor ambiente para os localizar tinha naturalmente de ser o continente africano. Comecei a desenvolvê-la, com a intenção de a publicar n’«O Mosquito».

Dei-lhe o título de «O Reino Proibido», e a trama do argumento andava à volta de uma tribo da região de África que se opunha à passagem de um caçador pelo seu território, criando uma série de problemas.

Surgira entretanto, havia pouco tempo, a revista «Cavaleiro Andante» e o Coelho, que tinha entre mãos uns trabalhos de publicidade e fizera uma interrupção na colaboração n’«O Mosquito», aconselhou-me a tentar antes publicar a história nessa nova revista, pois como pertencia ao «Diário de Notícias» pagavam melhor a colaboração. Além disso, no «Cavaleiro Andante» fora publicado um pedido da Direcção para que jovens autores levassem histórias desenhadas, de modo a poderem ser publicadas.

Hesitei, mas ele encorajou-me em face do nível já alcançado. Enrolei três pranchas e levei-as à redacção do «Cavaleiro Andante», que era no próprio edifício do «Diário de Notícias», e deixei-as à secretária do Adolfo Simões Müller, o director, para apreciação.

Passadas duas semanas, como não recebesse resposta, resolvi lá voltar, pois pensei que podiam ter perdido o meu contacto. Reparei que o rolo estava no mesmo sítio em que o deixara. Achei estranho que em duas semanas não tivessem a curiosidade de ver o que eu levara. Delicadamente, disse que pretendia acrescentar algo nos originais e se podia levá-los, o que me pareceu ser um «alívio» para a secretária. Trouxe comigo a história, sem vontade de lá voltar.

Também o E.T. Coelho achou estranho esse desinteresse e o destino da história foi mesmo «O Mosquito» [a partir do nº 1335, de 9 de Abril de 1952].

Página de «O Reino Proibido» publicada n’«O Mosquito» nº 1336, de 12/4/1952.

O Raul Correia [director d’«O Mosquito»] ficou satisfeito e, além dessa narrativa ilustrada, fiquei também a fazer capas sobre outras histórias que o jornal publicava, de origem estrangeira. O Coelho nessa altura, como referi, estava ocupado a fazer publicidade, capas de livros e desenhos para o jornal «O Século». Deixara um vazio no velho «O Mosquito» [depois da publicação de «Os Doze de Inglaterra]. O meu papel foi, modestamente, preencher essa lacuna com as minhas parcas possibilidades.

Algumas capas de José Ruy, com destaque para a história «O Reino Proibido». O cabeçalho d’«O Mosquito» também foi desenhado por ele.

OS CONCORRENTES D’O MOSQUITO: UM “MUNDO” RECHEADO DE AVENTURAS

Celebra-se hoje, 18 de Agosto, uma das datas mais importantes da BD portuguesa, o nascimento há 68 anos d’O Mundo de Aventuras — “a primeira e única revista juvenil portuguesa em moldes essencialmente americanos, com as mais modernas e trepidantes aventuras, de palpitante interesse e dinamismo, escritas e desenhadas pelos nomes mais famosos da literatura [sic] do género, no novo continente” (como se podia ler na capa do seu nº 5, datado de 15 de Setembro de 1949). Curiosamente, o termo literatura era, nessa época, aplicado também às histórias aos quadradinhos.

O Mundo de Aventuras foi (e continuará a ser) uma das mais famosas publicações da nossa imprensa juvenil, que teve de competir com dois concor- rentes de peso, o Diabrete e O Mosquito, na altura do seu lançamento, e mais tarde com o Cavaleiro Andante, acabando por dominar o mercado, nos anos 1950/60, graças à pujança editorial da empresa a que pertencia, a Agência Portuguesa de Revistas. No início da década seguinte, pouco tempo antes da Revolução de Abril, passou por novas transformações, voltando ao nº 1 para encetar uma 2ª série (erradamente designada, à partida, como 5ª série), que durou até ao estertor desse grande império editorial, em finais dos anos 1980.

Sorteou valiosos brin- des, publicou separatas com ídolos do desporto e da canção (e até Presidentes da República), e pelos seus diversos figurinos (incluindo uma edição especial com 32 números, dois almanaques e um número extra dedicado à figura épica de Camões) desfilaram, semanalmente, os mais célebres heróis de linhagem norte-americana, oriun- dos das tiras diárias publicadas nos jornais — que se moldaram ao formato revista e se enraizaram também no imaginário dos jovens lusitanos, destronando os seus mais directos concorrentes europeus (como Cuto Tintin, que eram as mais-valias d’O Mosquito e do Diabrete).

Seguidamente, para fazer face à concorrência do Cavaleiro Andante, surgiram muitas outras personagens, criadas por autores de várias procedências, italianos, franceses, ingleses, holandeses, espanhóis, mas sobretudo franco-belgas, na última série (talvez a mais ecléctica). E o próprio Cuto ressurgiu em novos episódios, a partir de 1953.

Mas o maior património do Mundo de Aventuras são alguns dos nomes mais ilustres da BD portuguesa, como José de Oliveira Cosme, Roussado Pinto, Vítor Péon, Carlos Alberto, José Antunes, José Manuel Soares, José Baptista, Vítor Mesquita, António Barata, Orlando Marques, Raul Correia, Lúcio Cardador, E. T. Coelho, José Garcês, José Ruy, Fernando Bento, Catherine Labey, Baptista Mendes, Augusto Trigo, José Pires e outros. Na 2ª série, o MA abriu também as suas páginas, com a rubrica “Novos da BD Portuguesa”, a muitos autores jovens, alguns dos quais viriam a ter notoriedade artística, como Luís Louro, Tozé Simões, Fernando Jorge Costa, José Projecto e Luís Nunes

Depois de passar a sair quinzenalmente, na última e atribulada etapa da sua existência — de que fui testemunha “privilegiada”, no pior sentido do termo, como coordenador —, o fim chegou em 15 de Janeiro de 1987, com o nº 589 (aliás, 1841, no somatório das duas séries), preenchido por uma história policial de origem inglesa, em vários episódios, ilustrada por Vítor Péon — um dos mais carismáticos colaboradores do MA na sua 1ª série, criador (juntamente com Roussado Pinto) do famoso cowboy, com um nome índio, Tomahawk Tom —, o que parece um final quase simbólico!

30 anos depois, o título e a assombrosa carreira do Mundo de Aventuras (quase quatro décadas de publicação!) merecem ainda ser recordados pela sua imensa legião de leitores e pelos bedéfilos das novas gerações.

EXPOSIÇÃO SOBRE O “CAVALEIRO ANDANTE” NO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA

Prosseguindo uma intensa actividade, com ciclos temáticos que englobam exposições, colóquios e outros eventos realizados na sua nova sede, o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) inaugura no próximo sábado, dia 18 de Março, uma mostra dedicada à emblemática revista Cavaleiro Andante, que na década de 1950 rivalizou com o Mundo de Aventuras e outras publicações juvenis, distinguindo-se por oferecer aos seus leitores as melhores obras da moderna BD europeia, nomeadamente de origem italiana e franco-belga.

A exposição comemora os 65 anos de nascimento do Cavaleiro Andante, cuja existência decorreu de 5 de Janeiro de 1952 até 25 de Agosto de 1962 (556 números), sempre sob a direcção de Adolfo Simões Müller e contando com Maria Amélia Bárcia como redactora e Fernando Bento como principal colaborador artístico.

No Cavaleiro Andante colaboraram também José Garcês, José Ruy, E.T. Coelho e Vítor Péon, desenhadores indelevelmente ligados à carreira d’O Mosquito.

OS CONCORRENTES D’O MOSQUITO – 1

CAVALEIRO ANDANTE – UMA REVISTA PARA TODOS OS GOSTOS

Nota prévia: O aparecimento do Cavaleiro Andante desferiu mais um rude golpe nas esperanças de sobrevivência d’O Mosquito, já a debater-se com muitas dificuldades graças à concorrência do Mundo de Aventuras, desde meados de 1949. E a verdade é que a mais antiga revista juvenil dessa época apenas logrou resistir aos seus dois poderosos rivais durante alguns meses, mesmo depois de ter mudado novamente de formato, aumentando o preço e voltando à periodicidade semanal, já perto do fim.

cavaleiro-andante-no-157-261O Cavaleiro Andante, nascido em 5 de Janeiro de 1952, foi uma das mais emblemáticas revistas da história da BD portuguesa, em cujas páginas desfilaram, durante 556 números, histórias e heróis inesquecíveis, criados por autores portugueses, espanhóis, franceses, belgas, ingleses, americanos, italianos e holandeses, com destaque para grandes séries como Capitão Audaz (Kapitein Rob), Sexton Blake, Tintin, Blake e Mortimer, Lucky Luke, Astérix, Jerry Spring, Chevalier Blanc, Buck Danny, Dan Cooper, Michel Vaillant, Modeste et Pompon e outras, que consagraram entre nós a popularidade da moderna escola franco-belga, encabeçada por Hergé, Morris, Jacobs, Jijé, Uderzo, Franquin, Macherot, Graton, Tibet, Funcken, Weinberg, Hubinon, Craenhals, e revelaram outros excelentes autores como Pieter Khun (Capitão Audaz), Roland Davies (Sexton Blake), Christian Mathelot (Alarme no Planeta), Dutertre (O Aliado de Sitting Bull), Le Rallic (Capitão Flamberge) e Noël Gloesner (Perdida na Tempestade)

viriato-cavaleiro-andante-26Entre os desenhadores portugueses, a participação mais maciça coube a Fernando Bento, José Garcês, José Ruy, Artur Correia, Fernandes Silva, José Félix e José Manuel Soares. Mas também marcaram presença E. T. Coelho, Vítor Péon, Baptista Mendes e José Pires; e no suplemento O Pajem, publicado a partir do nº 27, ressuscitaram dois heróis de ilustre estirpe, o Quim e o Manecas, que o traço inimitável e o humor fagueiro de Stuart trouxeram de novo à ribalta.

Embora sem heróis recorrentes, a escola italiana do Il Vittorioso surgiu em grande destaque, com magníficas criações de Caprioli (O Elefante Sagrado), Caesar (Dois Amigos e um Aeroplano), Bellavitis (A Grande Reportagem), Albertarelli (Punhos de Aço), Polese (O Segredo da Fábrica nº 2), Ferrari (O Rebelde do Ulster), Boscarato (Na Corte do Rei Sol), Chiletto (A Cidade das Cúpulas de Oiro), Giovannini (O Nome Escrito na Água), De Luca (A Esfinge Negra), Bagnoli (Os Filhos de Brama), D’Antonio (A Mocidade do Rei Artur) e outros, tendo feito aguerrida concorrência às séries belgas, que só começaram a aumentar de  importância quando o Cavaleiro cavaleiro-andante-no-171-262Andante iniciou uma nova fase (e mudança de formato) a partir do nº 327. Até então, apenas Tintin, Blake e Mortimer, Cavaleiro Branco, Bessy, Jerry Spring e Dan Cooper (Hélder Pedralva) figuravam entre as grandes vedetas da revista.

Embora em menor número, as histórias de origem americana também despertaram vivo interesse, em especial quatro grandes séries clássicas: Tarzan, Os Sobrinhos do Capitão (The Katzenjammer Kids), Lance e Buzz Sawyer (que no Cavaleiro Andante se trans- formou no aviador luso-americano Fred de Sousa), criadas respectivamente por Bob Lubbers, Rudolph Dirks, Warren Tufts e Roy Crane.

O êxito crescente da edição semanal, dirigida por Adolfo Simões Muller, conduziu a breve trecho ao nascimento de outras publicações de banda desenhada, mas em moldes diferentes, como os Álbuns do Cavaleiro Andante, os Números Especiais (cujo 1º número ostenta uma magnífica capa de E. T. Coelho), a Colecção Oásis, a Colecção Alvo, as Obras-Primas Ilustradas, a revista infantil João Ratão, de periodicidade mensal ou semanal, que publicavam apenas histórias completas.

cavaleiro-andante-especial-no-1-264Sucessor do Diabrete (dirigido também por Adolfo Simões Müller), que se publicou entre Janeiro de 1941 e Dezembro de 1951, o Cavaleiro Andante teve praticamente a mesma duração de dez anos, terminando ingloriamente a sua carreira em 25 de Agosto de 1962… para dar lugar ao Zorro, poucas semanas depois, e à Nau Catrineta (suplemento do Diário de Notícias), onde a BD franco-belga continuou a ocupar lugar de destaque. Mas a ausência mais notada foi a de BD portuguesa, sobretudo no Zorro, que continuou a apostar (embora sem grande sucesso) em heróis como TintinAstérixRic HochetJerry Spring e Lucky Luke, e nalguma BD francesa, inglesa e italiana.

Concorrente do Mundo de Aventuras, que lhe sobreviveu ainda durante muitos anos, o Cavaleiro Andante publicou também separatas com jogos e construções de armar, teve suplementos como O Pajem, Andorinha, Bip-Bip e Desportos, e ofereceu valiosos brindes aos seus leitores, através de sorteios semanais, organizou concursos (dando automóveis como prémio), fomentou a criação de clubes de fãs e disputou com o seu maior rival animadas partidas de futebol, cavaleiro-andante-no-100-260em campos pelados mas com jovens jogadores equipados a rigor, cujas habilidades no dribla e remata operavam, para gáudio da nume- rosa assistência, um nítido equilíbrio de forças.

Como se no terreno do jogo o brio desportivo procurasse igualar os êxitos e triunfos averbados por cada um dos rivais no campo editorial, onde o duelo prosseguia, renhido de parte a parte, com os olhos sempre postos nos progressos e nas tácticas “ofensivas” do adversário. Acabou por vencer, não o melhor, mas o que soube adaptar-se mais rapida- mente às exigências dos seus leitores, aos novos padrões de jogo… isto é, as histórias completas.

Nas imagens (de alto a baixo): página central do folheto-anúncio do Cavaleiro Andante; capa do nº 157 (1955), ilustrada por Fernando Bento; capa do nº 26 (1952), ilustrada por José Garcês; capa do nº 171 (1955), com desenhos de Gianni de Luca; capa do Número Especial de Junho (1953), ilustrada por E. T. Coelho; capa do nº 100 (1953), ilustrada por Artur Correia.

E.T. COELHO NA REVISTA ESPANHOLA “CHICOS” – 1

“EL HECHICERO DE LOS MATABELES”

c-andante-137-822Após o desaparecimento d’O Mosquito, em Fevereiro de 1953, a revista onde Eduardo Teixeira Coelho espraiou o seu talento durante onze anos, tornando-se o principal colaborador artístico do mais popular bissemanário infanto-juvenil português, as suas perspectivas de trabalho ficaram drasticamente reduzidas.

É certo que encontrou logo lugar no Cavaleiro Andante, para o qual realizou algumas capas e uma nova aventura do Falcão Negro, mas esta revista, cujo êxito apressara a queda d’O Mosquito, já contava com uma numerosa equipa de autores nacionais, de que faziam parte Fernando Bento, José Garcês, Stuart, Fernandes Silva, José Félix, José Manuel Soares e Artur Correia. Tanta concorrência não deve ter agradado a E.T. Coelho. Além disso, Adolfo Simões Müller, o director do Cavaleiro Andante, não costumava abrir os cordões à bolsa… dizendo-se que pagava pior do que os seus colegas.

chicos-327-1823Pouco depois de ter averbado os primeiros êxitos n’O Mosquito como ilustrador, E.T. Coelho publicou duas histórias aos quadradinhos no semanário espanhol Chicos, editado em San Sebastian mas com larga difusão em toda a Espanha, e cujo material de primeira qualidade chegava também a Portugal, onde era avidamente disputado pelos dois grandes rivais dessa época na área da imprensa infanto-juvenil: O Mosquito e o Diabrete. Foi a estreia de E.T. Coelho como autor de BD, um ano antes de aparecer n’O Mosquito outra história sua de temática africana, cujo estilo não era muito diferente: “Os Guerreiros do Lago Verde”.

Não deixa de parecer um pormenor assaz curioso que E.T. Coelho, numa espécie de intercâmbio entre o Chicos e O Mosquito, realizasse também ilustrações inéditas para a revista espanhola, destinadas a contos e capas… rivalizando com artistas do calibre de Jesús Blasco e Emilio Freixas (que, aliás, não lhe regatearam elogios). Segundo a directora do Chicos, Consuelo Gil, que fazia muitas visitas a Portugal para vender o material da revista, os trabalhos de E.T. Coelho eram bastante apreciados, também, pelos leitores espanhóis, que desconheciam ainda a nacionalidade do seu autor.

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A estreia de E.T. Coelho no campo das histórias aos quadradinhos ocorreu, pois, em Espanha e esse providencial contacto, fruto da projecção cada vez maior do seu excepcional talento artístico, permitiu-lhe enfrentar as novas contingências, sobretudo económicas, durante algum tempo, quando o doloroso fim d’O Mosquito, incapaz de continuar a resistir à concorrência, quase lhe fechou as portas do futuro em Portugal. 

mosquito-707-826Um futuro que acabaria por ser mais bem auspicioso noutras paragens europeias, começando por Espanha, França e Inglaterra, onde o seu trajecto profissional e artístico descreveu, nos anos cinquenta, uma gloriosa curva ascendente.

Aqui têm, caros leitores e admiradores da obra de E.T. Coelho, algumas das ilustrações que ele fez para o Chicos, até hoje inéditas, salvo raras excepções, em Portugal, e a reprodução da curta história “El Hechicero de los Matabeles”, publicada em 1944, nos nºs 287 a 293 daquele semanário espanhol. Tempos depois, em 1946, O Mosquito, já com um novo e maior formato, publicou-a também, sem qualquer comentário, nos nºs 704 a 713, dando-lhe um título mais novelesco, “O Feitiço do Homem Branco” (com textos de Raul Correia). Não se trata, portanto, de uma história inédita, mas a sua versão original (a preto e branco e com legendas mais reduzidas) merece também ser conhecida entre nós.

Repare-se noutra pitoresca diferença entre as duas histórias: o protagonista — um caçador branco a quem o régulo dos Matabeles pede que mate um corpulento leão que devora o seu gado —, chama-se Diego Artola, na primeira versão; n’O Mosquito, mudou naturalmente de nome e de nacionalidade, passando a chamar-se João Amaral. O exímio caçador cumpriu tão bem a sua tarefa que a família de leões foi completamente dizimada…

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