GRANDES AUTORES – 2

ARTURO MORENO: O WALT DISNEY ESPANHOL

Moreno - 2

Moreno (KKO)Arturo Moreno Salvador (1909-1993) foi uma das maiores revelações da “historieta” na época em que iniciou a sua carreira, encabeçando um ilustre grupo de humoristas que fez escola nas revistas Pulgarcito, TBO, Mickey, Pocholo, KKO, Chicos e outras, e que rapidamente ultrapassou fronteiras. Entre nós, o seu estilo caricatural, moderno (já nos anos 30) e burlesco, roçando, por vezes, o non-sense sem parecer adulto, e as suas histórias recheadas de fantasiosas peripé- cias, tornaram-no também uma referência, fazendo as delícias dos leitores d’O Mosquito, Tic-Tac, O Senhor Doutor, Diabrete e de outras publicações infanto-juvenis.

Esteve presente n’O Mosquito desde o 1º número, com as “formidáveis” e exóticas aventuras de Mick, Mock e Muck (Formidables Trapisondas del Grumete Mick, el Viejo Mock y el Perro Muck), um valoroso trio constituído por um velho taberneiro, um rapaz e um cão, cuja popularidade se manteve durante largos anos — dando origem, em 1947, a quatro pequenos e vistosos álbuns saídos das oficinas gráficas d’O Mosquito com a reedição das suas movimentadas aventuras.

moreno-punto-negro-1No Natal de 1937, Moreno brindou os seus admiradores com outro bizarro personagem chamado Ponto Negro, um borrão de tinta que ganhou vida num dos primeiros álbuns de BD editados em Portugal: Ponto Negro, Cavaleiro Andante (Punto Negro en el País del Juego).

Arturo Moreno apareceu também, de forma mais esporádica, no Diabrete com as suas inimitáveis historietas de uma página, que mesmo sem heróis fixos (salvo raras excepções) divertiam e encantavam os leitores. Muitas delas foram reeditadas, mais tarde, nas revistas O Mosquito (2ª série) e Escaravelho Azul — e também n’A Formiga, suplemento do Jornal do Cuto, criado por Roussado Pinto em homenagem  à Anita Pequenita, outra célebre personagem de Jesús Blasco.

Como exemplo do talento e do singular grafismo de um grande humorista espanhol, apresentaremos brevemente, na rubrica “Os Reis do Riso”, várias páginas publicadas n’O Mosquito durante a década que assinalou o seu período de maior êxito como ilustrador de tebeos, antes de se dedicar ao cinema de animação — género em que deixou também a sua marca como realizador de Garbancito de la Mancha (1945), o primeiro filme europeu de desenhos animados de longa metragem, totalmente produzido em Espanha e que obteve um enorme êxito, valendo-lhe o cognome de Walt Disney castelhano.

moreno-tboA partir dessa data, Moreno dedicou-se a tempo inteiro ao cinema publicitário e de animação, tanto em Espanha como na América do Sul (Venezuela), para onde emigrou em 1948, pouco tempo depois de ter realizado os seus primeiros filmes. Mas a precariedade dos projectos cinematográficos levou-o, várias vezes, a interromper esse percurso, regressando aos tebeos, em revistas como Tricolor e TBO, onde o seu traço continuou a ser sinónimo de humor burlesco e de surrealista inspiração.

Morreu em Espanha, já octogenário, depois de longa carreira, sempre coroada de sucesso, como prova a colaboração que prestou, nos últimos anos de criatividade, à revista Chito, divulgada oportuna- mente em Portugal nas páginas do Jornal do Cuto.

Apesar da indiferença ou da pesporrência crítica com que hoje se encara o passado, em muitos sectores artísticos e culturais, inclusive nos da 7ª e 9ª Artes, a memória da obra e do talento multifacetado de Arturo Moreno continua a suscitar calorosas e significativas homenagens entre os seus compatriotas, numa redescoberta e valorização permanentes dos melhores trabalhos que legou aos fãs do humor (e aos jovens de espírito).

Moreno (álbum-de-cromos)

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HÁ 80 ANOS NASCIA “O MOSQUITO”…

mosquito-um jornal juvenil

Passam hoje oito décadas sobre a data festiva em que um novo jornal de histórias aos quadradinhos surgiu pela primeira vez nas bancas portuguesas, recebido com entusiasmo por todos os garotos, ricos ou de modestas posses, pois era o único do seu género que custava apenas 50 centavos (cinco tostões).

Um conjunto de factores, sabiamente doseados por dois experientes artesãos do mesmo ofício, com nomes familiares e afectuosos — Raul Correia (o Avozinho) e António Cardoso Lopes Jr. (o Tiotónio) —, contribuiu de forma decisiva para a triunfal arrancada do impante semanário, cuja tiragem não tardou a atingir cifras astronómicas, não parando de crescer nos anos seguintes, sobretudo durante a sua “época de ouro”, assim chamada por ter passado a publicar-se duas vezes por semana, com a colaboração de novos e talentosos artistas, como E.T. Coelho, Vítor Péon, Emilio Freixas, Jesús e Alejandro Blasco, Jayme Cortez, Puigmiquel, Carlos Roca, José Garcês e muitos outros.

o-mosquito-360-11O Mosquito tinha, nessa época dourada (1942-1947), uma tiragem semanal de 60.000 exemplares e chegava a todos os recantos do país, graças aos diligentes correios que se afadigavam para dis- tribui-lo a tempo e horas e aos inúmeros pontos de venda onde era exibido entre os títulos de maior expansão da imprensa portuguesa.

Esse êxito incontestável, que ainda hoje causa admiração e espanto a todos quantos se debruçam sobre as pitorescas crónicas das histórias aos quadradinhos nacionais, conheceu um funesto período de crise quando os dois fundadores e principais animadores do jornal se desentenderam, cortando abruptamente (por razões que ainda hoje mal se conhecem) os laços de amizade e de saudável cooperação que tinham mantido durante mais de uma década, tanto n’O Mosquito como no Tic-Tac, outra revista onde o infatigável Tiotónio demonstrou o seu saber como especialista das lides gráficas e humorísticas, para gáudio do público infanto-juvenil.

mosquito-1412-s-cristovc3a3o-9271O Mosquito durou pouco mais, com Raul Correia solitário, mas firme ao leme, num mar encapelado onde surgiam escolhos difíceis de contornar, por falta de apoios comerciais e de meios publicitários, embora o seu espírito de resistência continuasse à tona, contagiando um pequeno mas aguerrido grupo de leitores fiéis, que o apoiaram — tal como E.T. Coelho — até ao fim, contra os poderosos concorrentes e as fatais procelas do mercado editorial, altamente competitivo, dos anos 50.

Esse mesmo espírito combativo, nimbado por um sentimento de devoção e de profunda nostalgia cuja origem é quase impossível definir, fez com que a memória e a aura d’O Mosquito atravessassem, triunfantes, os umbrais do tempo, ao longo de vários decénios, acalentadas por uma espécie de transcendente ritual que de ano para ano ganha ainda maior significado e amplitude, celebrando-se sem pompa e circunstância, mas com a viva emoção de um passado radioso que se reflecte nítida e perenemente no futuro.

Mosquito canta copyPor isso, no próximo dia 16, dois dias depois da data oficial do nascimento d’O Mosquito, os seus velhos e fiéis admiradores — alguns já com a mesma idade — e muitos outros membros de uma confraria onde não existem barreiras nem conflitos de gerações, pois todos comungam, atavicamente, os mesmos lemas e o mesmo ideal, reunir- -se-ão, uma vez mais, num restaurante da baixa lisboeta, para festejar os 80 anos de um pequeno e modesto jornal infanto-juvenil em cujas páginas palpitava uma estranha e inexplicável sedução, um forte apelo à aventura, à audácia e à fantasia, mesclado com o raro dom de educar divertindo, por meio de palavras e imagens tão fortes e fascinantes que nunca mais se apagaram do espírito dos seus alegres e devotos discípulos.

NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 1

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Durante esta quadra festiva, iremos apresentar uma curta série de números de Natal que fizeram as delícias dos leitores d’O Mosquito e de outras publicações infanto-juvenis suas contemporâneas — e com ele, por razões diferentes, directamente relacionadas.

Como foi o caso do Tic-Tac, fundado em 1932 por António Cardoso Lopes (Tiotónio) e João Vicente Sampaio, o primeiro dos quais foi uma das figuras mais proeminentes do jornalismo infanto-juvenil português e um dos pioneiros da BD humorística dos anos 20 e 30 do século XX, autor de inúmeras e patuscas personagens cujas rábulas ficaram célebres, nomeadamente o Zé Pacóvio, uma criação memorável surgida nas páginas do ABC-zinho, d’O Bébé (2ª série), do Có-Có-Ró-Có, do Tic-Tac e d’O Mosquito. No início de 1936, Tiotónio (ou Tio-Tónio) abalançou-se a projecto ainda de maior vulto, criando — com Raul Correia — uma das mais emblemáticas revistas da história da BD portuguesa: O Mosquito.

Pois aqui têm a capa do 1º número de Natal do Tic-Tac, 2ª série (24-12-1933), assinada por Raquel [Roque Gameiro], uma das maiores ilustradoras portuguesas de todos os tempos, com obra extensa e singular, de rara sensibilidade artística, em publicações infantis, mas que também se notabilizou nas artes plásticas, como seu pai Alfredo Roque Gameiro.

Tic-Tac pág 3 870

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Neste número do Tic-Tac, com 16 páginas, a duas e quatro cores, em que os temas natalícios têm a primazia, destaque para o conto de Ana de Castro Osório, “Uma História do Natal”, com ilustrações de Pinto de Magalhães (Filho), e a narrativa humorística “O Testamento do Peru”, original de Luíz Ferreira (Tio Luíz) e ilustrada por Tiotónio, que, além de dar o nome a uma curiosa secção de “engenhocas larocas”, também fez as honras da contracapa, com novas e azaradas peripécias do seu “compadre” Zé Pacóvio… por causa de um velho peru recheado que fez o saloio espertalhão ver a lua e as estrelas!

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Curiosamente, esta página foi inspirada numa historieta de outro grande desenhador humorístico, o mestre espanhol José Cabrero Arnal, publicada pouco tempo antes na revista Pocholo nº 109, copiosa fonte à qual O Mosquito foi beber muitas criações de alguns excelentes artistas do país vizinho, como Moreno, Arnal e Jesús Blasco.

Agradecemos ao nosso amigo Leonardo De Sá — e por seu intermédio a Jordi Artigas, que fez a pesquisa no Pocholo — pela oportunidade que nos proporcionaram de dar a conhecer aos nossos leitores duas versões da mesma história, feitas por autores diferentes, ambos com uma notável carreira artística que prestigiou a BD dos seus países.

Depois de as cotejarmos, leva vantagem a do Tiotónio, por ser a cores e ter como prota- gonista um “herói” de aspecto castiço — como os saloios da Malveira da Serra — que, apesar de não servir de exemplo, fazia rir a miudagem a bandeiras despregadas!

Pocholo 109 C

Em resumo, um número de Natal também bem recheado de nomes célebres e de amenas propostas de leitura, entre as quais as rubricas Caçadas e Aventuras, De Tudo um Pouco (por Tiotónio), Para Moer o Juízo (secção charadística) e História dos Portugueses (por Eduardo de Noronha, com ilustrações de Rocha Vieira) — além de um novo episódio da mais empolgante série de aventuras dessa época, Pelo Mundo Fora (Rob the Rover), com desenhos de um grande pioneiro da BD inglesa (Walter Booth) e um herói que viria a tornar-se, tempos depois, uma das figuras mais populares do novel jornal juvenil concebido também por António Cardoso Lopes: o nosso imorredoiro O Mosquito!

Tic-Tac pelo mundo fora 872

 

O MÍTICO NÚMERO 100 (TIC-TAC) – 1

O pato TictacRecheado de simbolismo e de inexplicável atracção, o número 100 é, por natureza, um número “mágico”, quase cabalístico, que parece representar, no imaginário colectivo, um marco difícil de atingir, uma barreira que só é ultrapassada por aqueles que se esforçam em obter a vitória, ou seja, os mais lutadores, os mais persistentes e melhor preparados no exercício do seu mister, qualquer que ele seja.

Tictac numero 100 capaNa própria existência humana há uma meta que a todos atrai, mas que poucos conseguem alcançar: os 100 anos de idade, um século de vida! Claro que, por vezes, a importância que se dá ao número 100 é exagerada, mas na vida de uma revista periódica, mormente as do género infanto-juvenil — que são as mais precárias, pois dependem exclusivamente do frágil poder de compra de um público que ainda não trabalha nem tem rendimentos, a não ser os que provêm da gene- rosidade e das posses dos seus familiares —, ele tem um valor mais do que simbólico, pois coroa uma lenta caminhada de semanas, meses (ou até anos), ao serviço de uma causa que só interessa, geral- mente, aos seus promotores e aos seus jovens beneficiários.

Quase todas as publicações portuguesas de maior longevidade, destinadas a esse público juvenil, festejaram condignamente o seu número 100, não deixando de sublinhar as etapas percorridas e os êxitos averbados durante o percurso — sinal de vida mais longa e próspera, nem sempre confirmada pelos acontecimentos posteriores.

Iniciando esta rubrica, aqui vos apresentamos a capa centenária da revista Tic-Tac (2ª série), que deu especial destaque ao mítico número 100, dedicando-lhe uma sugestiva ilustração, realizada por um dos seus mais talentosos e experientes colaboradores: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), que tempos depois (Janeiro de 1936) viria a tornar-se co-fundador e director artístico do novel semanário O Mosquito.

Na terceira página desse número, datado de 11 de Novembro de 1934, um extenso editorial assinalava a centenária proeza, que o Tic-Tac (cujo nome era o de um pato!) voltaria a repetir, anos volvidos, pois chegou a atingir o nº 263.

Tictac numero 100 pag 2 e 3 J

Entre outras matérias de interesse, o nº 100 publicava histórias aos quadradinhos cómicas e realistas, como Diabruras do Zeca e Toi (com texto de Tio Luiz e desenhos de José Félix), Kid, a Águia Humana e Pelo Mundo Fora (célebre série inglesa magistralmente ilustrada por Walter Booth), uma novela policial de empolgante enredo, da autoria de Raul Correia, com o título A Vida Aventurosa de António de Lencastre, um concurso cinematográfico, uma secção charadística sugestivamente intitulada Para Moer o Juízo, versos de Aníbal Nazaré e, para rematar este sumário bem recheado, a rubrica  Histórias dos Portugueses, assinada por dois nomes ilustres: o escritor Eduardo de Noronha e o ilustrador Rocha Vieira. Quase tudo “prata da casa”, como era norma na maioria das publicações infanto-juvenis dessa época.

Tictac numero 100 pag 5 e 7 J

Tictac numero 100 pag 8 e 9 J

Fazia também parte desse número uma separata com a “caraça” de um famoso actor cómico, o Estica (Oliver Hardy), Os pequenos leitores eram convidados a apresentar-se com ela, como se brincassem ao Carnaval, durante a emissão do programa infantil da Rádio- -Graça, o que lhes valeria uma recompensa.

Apesar da sua idade centenária, o patinho Tic-Tac apresentava-se em excelente forma… prometendo continuar, por mais alguns anos, a ser um dos amigos predilectos da juventude portuguesa.

RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 2

Um ritmo vertiginoso, como nos filmes policiais

Raul Correia (1094-1985)Raul Correia, cuja carreira literária iniciada no Tic-Tac, em 1934, abriu novos horizontes ao panorama da imprensa infanto-juvenil portuguesa — em perfeita sintonia com o cinema, a literatura de aventuras e as histórias aos quadradinhos, ou seja, com o gosto popular da época —, foi o escritor de estilo inimitável, o “farol” que iluminou com o radioso clarão da aventura e da poesia milhares de corações juvenis, que não lobrigavam em nenhum outro jornal da especialidade competidores, isto é, novelistas à sua altura.

mosquito-1943-8-nc2ba422-961Algumas das suas criações, com relevo para as de temática policial, perduraram no tempo e na memória dos leitores. Foi o caso de James Donald, Ronald Campbell, Eduardo Silveira e, em especial, Rudy Carter (outro personagem a quem emprestou as iniciais do seu nome), que surgiu na novela “Rudy Carter (G-Man)”, combatendo o crime ao lado dos intrépidos agentes do FBI. Além disso, a fim de aumentar o impacto e o realismo da acção, Rudy (abreviatura de Rudolph) Carter era perito em boxe, jiu-jitsu, tiro com armas de fogo, e praticante exímio de vários desportos. A sua imagem definitiva (e autêntica, pelos padrões do autor) foi magni- ficamente retratada por E.T. Coelho nas novelas “Oito Horas de Vida” e “Noite Tranquila”, de que apresentamos a seguir algumas páginas.Oito horas de vida 1  378

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O sete de espadasNovelista e detective de origem norte-americana, à semelhança de Ronald Campbell, Rudy Carter foi protagonista de uma longa série de aventuras que o tornaram imensamente popular entre os leitores d’O Mosquito, desde a primeira novela, dada à estampa em 1937, e da seguinte, com o título “O Sete de Espadas” (publicada também em livro em 1975), até ao seu último caso, “O Livro de Apontamentos”, vivido 12 anos depois do primeiro, numa fase em que a revista mudou de orientação, devido à saída de Cardoso Lopes. A tenta- tiva (provável) de ressuscitar Rudy Carter, uma espécie de alter-ego de Raul Correia, não teve, no entanto, consequências… porque este, único responsável, à data, pelo futuro do jornal, já estava no fim da sua carreira de novelista. Mas isso é outra história…

O relógio parado  - vinheta    380Entre as narrativas mais curtas em que intervém Rudy Carter, abrangendo o período de 1937 a 1942, destaca-se “O Relógio Parado”, cuja acção já é posterior à sua saída do FBI. Ao regressar à vida normal, Rudy sente necessidade de voltar a escrever e procura o necessário isolamento num hotel de Chicago, cidade conhecida como “a capital do crime”. E, de facto, o local foi bem escolhido, porque o crime não tardou muito a vir ao seu encontro, num trepidante episódio de cariz cinematográfico, em que as imagens desfilam num ritmo vertiginoso, como uma sucessão de fotogramas projectados numa tela, pontuadas por frases curtas, que martelam em cadência o desenrolar da acção.

Publicado n’O Mosquito nºs 117 e 118, de 7 e 14/4/1938, com gravuras inglesas, este conto foi reeditado por Roussado Pinto na colecção Pantera Negra, e ilustrado de forma magnífica por Carlos Alberto Santos, artista que domina tão bem a cor como o preto e branco. Aqui têm, pois, “O Relógio Parado”, como exemplo de um dos melhores contos policiais de Raul Correia, na versão integral extraída da revista Pantera Negra nº 6 (1/11/1977).

O relógio parado  - 1 e 2

NOVELISTAS D’O MOSQUITO – 1

EM JEITO DE INTRODUÇÃO

ABczinho 165      006Corriam os anos 20 e 30 do século passado quando as novelas de aventuras de estilo moderno se estrearam no ABC-zinho e n’O Senhor Doutor; mas foi no Tic-Tac e depois n’O Mosquito, com o seu excelente lote de colaboradores, que este género evoluiu para uma escola mais dinâmica e realista, atingindo a plenitude entre 1936 e 1946 — aquela que podemos intitular «a década gloriosa da novela de aventuras em Portugal».

Até então, os textos, embora tivessem predominância sobre as imagens nas publicações infanto-juvenis, não eram genuínos (à parte os de teor humorístico), isto é, limitavam-se, salvo raras excepções, a copiar servil- mente os modelos vindos de fora, sobretudo de França e Inglaterra, países em cuja produção os directores de algumas dessas revistas, como Cottinelli Telmo, Carlos Ribeiro, Luís Ferreira (Tio Luís), José de Oliveira Cosme e Carlos Cascais, colhiam boa parte das histórias que publicavam nas suas páginas. Tic Tac 163      007Na sua maioria, tratava-se de traduções (ou adaptações) de novelas de autores anónimos. As obras originais de índole aventurosa eram raras, destacando-se, entre os seus autores, os nomes de Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X, António Feio e Henrique Samorano, um jovem talentoso que a morte arrebatou prematuramente.

Até meados dos anos 30, o género nunca teve grandes cultores entre as figuras mais distintas da nossa imprensa infantil, algumas delas oriundas do nobre campo das Belas Letras, que à elegância e ao primor da escrita aliavam um cunho didáctico e moralista, bem distante do conceito moderno de aventuras à maneira inglesa e americana.

Coube a um pequeno mas dinâmico “insecto”, concebido em moldes artísticos e comerciais inovadores, modificar de uma assentada esses parâmetros, não só devido à variedade nunca antes vista de histórias aos quadradinhos sugestivamente ilustradas (sobretudo inglesas e espanholas), como ao estilo vigoroso e emocionante das novelas de aventuras, escritas exclusivamente por autores nacionais. Numa primeira época, entre 1936 e 1939, os que mais se distinguiram foram Fidalgo dos Santos, Pedro de Sagunto, Roberto Ferreira (com o acrónimo de Rofer), e sobretudo Raul Correia.

Mosquito 11Lembro-me de que, no alvor da minha mocidade, quando lia avidamente O Mosquito — revista pela qual sentia um carinho especial, apesar de não ter sido a primeira que me veio parar às mãos —, as histórias de texto tinham o condão de me despertar tanto entusiasmo como as histórias ilustradas. Aliás, quer neste jornal quer nos seus concorrentes mais directos (O Senhor Doutor, O Papagaio e o Diabrete), a prosa preenchia ainda boa parte do sumário, atestando o que hoje se perdeu entre a maioria dos jovens: o gosto pela leitura.

Mas n’O Mosquito e no seu companheiro de jornada (durante dois anos) Colecção de Aventuras, até as legendas das histórias aos quadradinhos — que eram como que um prolongamento das histórias de texto, pois primavam pela ausência de filacteras (isto é, de balões) — se liam com interesse, graças ao cunho inconfundível da prosa de Raul Correia, a quem cabia a tarefa de as traduzir e adaptar. O director literário d’O Mosquito e autor também dos poemas do Avozinho, escrevia com rara elegância, ora num tom ameno e risonho, ora vibrante e emotivo, equilibrando as duas facetas com notável mestria.

colecção Aventuras 114Alguns desses predicados influenciaram naturalmente os seus colaboradores mais jovens, como Orlando Marques e Lúcio Cardador (que se juntaram à equipa em 1940), embora estes, apesar do seu inegável talento, nunca tenham atingido a craveira do mestre.

Todos os temas clássicos da novela de aventuras, desde as histórias policiais e de cowboys às de fundo histórico ou exótico, figuram na vasta obra de Raul Correia, como se a sua pena prolífica quisesse transmitir ao papel o colorido caleidoscópio de imagens captadas pelos seus olhos e pela sua mente, no convívio assíduo com os livros e com o cinema. Sem um novelista da sua envergadura, é possível que dois amigos inseparáveis, que viviam, então, na Amadora — e já tinham trabalhado juntos no Tic-Tac —, nunca tivessem acalentado o sonho de criar um jornal como O Mosquito; e, nesse caso, todos os novelistas formados na sua escola poderiam, também, nunca ter tido a oportunidade de sair do anonimato.

 A seguir: Raul Correia – A importância de um estilo

NÚMEROS “PRIMUS” – 1

QUANDO “O MOSQUITO” COMEÇOU A VOAR…

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Em 14 de Janeiro de 2014 celebrou-se mais um aniversário (o 78º) da mítica revista infanto-juvenil O Mosquito, que ainda continua a ter muitos admiradores em várias faixas etárias que atravessam gerações, conferindo-lhe um estatuto raro, entre as suas congéneres, de caso emblemático de longevidade na memória colectiva e fenómeno sócio-cultural na sua época.

Como habitualmente, a data foi festejada num almoço-convívio marcado para sábado, dia 18, num restaurante lisboeta. Nesse mesmo dia, pelas 17 horas, teve lugar na Livraria Barata (Avenida de Roma, 11) uma palestra de José Ruy, em que este ilustre autor de BD evocou o percurso d’O Mosquito, nos seus 17 anos de publicação ininterrupta, explicando alguns dos processos tipográficos utilizados na sua confecção.

Raoul Correia e Cardoso LopesRecordamos que o primeiro número dO Mosquito — hoje como ontem, uma raridade vendida quase a “peso de ouro”, apesar de ter sido reeditado em fac-simile, nos anos 70, pelo Jornal do Cuto — apareceu nas bancas com oito páginas, quatro delas a uma cor, ao preço de 50 centavos (cinco tostões), tornando-se logo, entre o público infanto-juvenil, um caso sério de popularidade e tiragem, graças ao saber e competência dos seus dois fundadores, António Cardoso Lopes (Tiotónio) e Raul Correia, cada um figura incontornável na vertente respectiva: a gráfica e a literária.

Mosquito nº 1 página 2  476Além de uma novela de aventuras, “O Enigma de Nelson Street”, escrita por Raul Correia, esse primeiro número contava ainda com uma poética rubrica assinada pelo Avozinho (pseudónimo do seu director literário, ciosamente mantido em segredo, durante muitos anos), que se tornaria a figura mais tutelar e estimada da revista. Nas páginas seguintes incluíam-se três magníficas histórias ilustradas por notáveis artistas: “Pelo Mundo Fora”, série inglesa já famosa, com desenhos de Walter Booth, oriunda do Tic-Tac, revista fundada também por Cardoso Lopes, mas que este deixou para trás ao lançar-se numa empresa de maior envergadura, com a aposta nO Mosquito; “Pedro e Paulo, Marinheiros, e o Almirante Calheiros”, outra série inglesa, com o traço hilariante de Roy Wilson; e “Formidáveis Aventuras do Grumete Mick, do Velho Mock e do Cão Muck”, movimentada série, cheia de exóticas peripécias, criada pelo humorista espanhol Arturo Moreno, que foi, nessa primeira fase, um dos maiores êxitos do “semanário da rapaziada”. E havia ainda uma rubrica especial, o Correio da Tia Irene, dedicada às meninas, anunciando-se para o número seguinte uma página de engenhocas do Tiotónio, a cujo peculiar grafismo se deviam a cara alegre do petiz e a imagem do “mosquito” estampadas na capa.

Mosquito nº 1 Pág centralMosquito nº 1 pelo mundo fora   474

Por uns modestos cinco tostões, ao alcance de muitas bolsas (embora a pobreza ainda alastrasse por todo o país), e com um sumário bem doseado, onde o texto não prevalecia sobre as imagens (como noutros jornais pouco ilustrados), não admira que a rapaziada desse tempo tenha embandeirado em arco, sentindo uma empatia irresistível com o simpático “insecto” que tão atraente e prazenteiro se mostrava, no seu jeitoso formato.

Ao longo dos meses seguintes, a tiragem d’O Mosquito — que era, então, impresso em litografia, numa pequena máquina sujeita a frequentes avarias —, não parou de aumentar, apesar de todos os percalços, consolidando o seu êxito entre milhares de miúdos de boina e calção (alguns de pé descalço) que frequentavam, na sua maioria, as escolas primárias de todo o país, e inaugurando uma nova etapa no progresso da imprensa infanto-juvenil portuguesa — que ficou conhecida como “época de ouro” e se perpetuou, de forma simbólica, na memória nostálgica de várias gerações.

Mosquito nº 1 Mick mock e Muck