JOSÉ PIRES: UM AUTOR E FANEDITOR APAIXONADO PELA BD DE OUTROS TEMPOS

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Por cortesia de José Pires, nosso amigo de longa data, companheiro de muitas tertúlias desde os tempos heróicos em que lançámos o Fandaventuras e o Fandwestern (dois fanzines que ainda estão em publicação, graças ao incansável labor deste apaixonado pela BD clássica, que os edita mensalmente, com infalível pontualidade), apresentamos as edições distribuídas em Fevereiro, com novos episódios de duas séries carismáticas (Matt Marriott Terry e os Piratas) e a reedição da primeira história desenhada pelo saudoso artista português Vítor Péon para O Mosquito, na sua estreia, em 1943, como autor de banda desenhada.

Neste número, cuja capa e duas páginas podem ver já a seguir, figura também uma história curta de Péon, com o título “Traidor em Fuga”, realizada em 1946 para O Pluto, revista em que Péon foi o principal colaborador artístico, ilustrando-a de uma ponta à outra, num alarde de talento, versatilidade e energia criativa.

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Recorde-se que Terry e os Piratas foi apresentada também n’O Mosquito (1952-53), quando era desenhada por George Wunder, sucessor de Milton Caniff. Quanto a Matt Marriott é uma série inglesa, também em tiras diárias, desenhada por Tony Weare e escrita por James Edgar, que aborda com extraordinário realismo a colonização do Oeste americano em finais do século XIX, distanciando-se dos westerns da série B, nomeadamente os de feição mais juvenil.

Muitos dos seus episódios foram publicados no Mundo de Aventuras (1ª série), como o que deu o título a este número do Fandwestern.

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Em Janeiro, o Fandwestern reeditou duas outras histórias de Vítor Péon: “O  Juramento de Dick Storm“, publicada também n’O Mosquito, pouco tempo depois de Falsa Acusação”, e Três Balas”, cuja acção trepidante, baseada numa novela de Orlando Marques, se desenrola igualmente no cenário mítico do Oeste americano. Oriunda d’O Pluto, revista editada por Roussado Pinto, em 1945-46, e que durou apenas 25 números, Três Balas” ficou incompleta, mas surgiu em nova versão (remontada parcialmente e com vinhetas coloridas) numa das primeiras colecções de cromos do género, editada pela fábrica de rebuçados “A Oriental”.

Estes fanzines encontram-se à venda na Loja de José Manuel Vilela, Calçada do Duque, 19-A, 1200-155, Lisboa, mas podem também ser encomendados ao editor, por quem não mora na capital, bastando escrever para o e-mail gussy.pires@sapo.pt.

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NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 4

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Este número especial d’O Pluto, comemorativo do Natal de 1945, é bem nutrido de páginas (trinta e duas) e de ilustrações de Vítor Péon, que o recheiam de uma ponta à outra.

Diga-se de passagem, para quem não souber, que este prolífico artista, então com 22 anos — cuja carreira na imprensa infanto-juvenil começara pouco tempo antes, e logo na revista mais famosa desse tempo, O Mosquito —, era a “mais valia” d’O Pluto e do seu director artístico e editor, o também jovem e dinâmico José Augusto Roussado Pinto, que apesar dos seus “verdes” 18 anos, acalentava o homérico projecto de fazer concorrência ao Mosquito e talvez, se os deuses e a sorte o ajudassem, superar até o seu êxito.

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Para isso, contou com a ajuda dos tipógrafos e de outros trabalhadores gráficos da Imprensa Barreiro, sita em Lisboa (a quem O Pluto prestava uma homenagem fotográfica nas páginas centrais desse número), mas sobretudo de Vítor Péon, que foi o autor de mais de 80% das histórias aos quadradinhos publicadas na revista e de quase todas as ilustrações que guarneciam as suas páginas, desde as capas aos textos e às rubricas mais variadas. Exceptuando o primeiro número, que contou com uma capa e um conto ilustrados por António Barata, todos os créditos artísticos no que respeita à produção nacional pertencem exclusivamente a Vítor Péon e ao seu prodigioso e rotineiro esforço criativo (sem quebra notória de qualidade), que já nessa altura começava a pedir meças aos talentos de E.T. Coelho e de outros grandes desenhadores da época, mesmo com estilos muito diferentes do seu, como era o caso de Fernando Bento.

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Só para dar uma ideia da volumosa produção de Péon, contabilizam-se neste número de Natal as seguintes histórias em episódios com a sua assinatura, abordando os mais distintos temas: de âmbito aventuroso, “Dick, Terry e Tom no Reino Selvagem”, “Roubo e Crime”, “Três Balas”; e em estilo cómico (género que ele também muito apreciava), “Furacão e o Seu Cavalo Trovão”, “Fitas Sonoras”, “Felizardo, o Rei do Azar” e “As Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota”. Por opção editorial, a fim de dar mais uniformidade à revista — e talvez, também, para imitar O Mosquito —, todas tinham legendas didascálicas.

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Além desta proeza, num total de onze páginas, Péon conseguiu ainda tempo para ilustrar outros assuntos, incluindo três novelas assinadas por Jomar (pseudónimo de Orlando Jorge B. Marques, outro prolífico colaborador que Roussado Pinto foi “roubar” ao Mosquito),  com os títulos “Os Planos H.P. 202”, “O Crime do Lucky Night” e “Hoje não, Joe!”, esta última de tema natalício. Até a página de abertura — com a tocante epígrafe “Mãezinha que estás no Céu!…” (capaz de derreter o coração dos leitores de mais tenra idade), em que, sob o “disfarce” de Velho Augusto, o jovem Roussado Pinto pretendia imitar o Avôzinho Raul Correia — foi também ilustrada a preceito por Péon, como seguidamente mostramos.

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A fértil criatividade destes dois activos e talentosos colaboradores, cujo entusiasmo e dedicação à “causa” transparecem em todos os números d’O Pluto, não teve paralelo em nenhuma revista infanto-juvenil dessa época, mesmo destacando o papel de Fernando Bento e E.T. Coelho nos quadros artísticos d’O Mosquito e do Diabrete, os dois grandes rivais com que O Pluto garbosamente se batia.

O valoroso despique não teve desfecho feliz para Roussado Pinto, que viu os seus sonhos esfumarem-se ao cabo de 25 números; mas esse “fracasso” inicial não o impediu de voltar à liça pouco tempo depois, primeiro aliando-se a Cardoso Lopes e a Raul Correia n’O Mosquito — onde criou concursos e conseguiu introduzir as primeiras HQ’s de origem americana —, depois passando para as fileiras do recém-chegado Mundo de Aventuras, na companhia do seu inseparável amigo e “braço direito” Vítor Péon.

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A capa deste número d’O Pluto, com o tema do Presépio (que Péon voltaria a retratar noutras imagens natalícias) serviu de mote à magnífica separata em folha dupla que a revista ofereceu como brinde aos seus leitores — como se já não bastassem todas as outras atracções por um preço quase simbólico de 1$50 escudos —,  num ano em que O Mosquito se engalanou também com (mais) um Presépio de E.T. Coelho.

Nos nºs 7 e 8 d’O Pluto vinham inseridas as restantes folhas deste Presépio de Vítor Péon, que temos o privilégio de reproduzir integralmente no nosso blogue, 70 anos depois da sua publicação naquela raríssima e apreciável revista.

E, como já estamos a poucos dias do Natal, aproveitamos este ensejo para endereçar, em nome d’O Voo do Mosquito — um blogue dedicado à mais emblemática revista da BD portuguesa —, os melhores votos de BOAS FESTAS a todos os nossos leitores e amigos.

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NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA – 3

roussado-pinto-foto-aNa rubrica com este mesmo nome, iniciada no Jornal do Cuto nº 110, de 10/9/1975, quando a revista — depois de uma curta fase, interrompida no mês de Julho do ano anterior, em que saía mensalmente para amortizar os custos de distribuição — regressou às bancas, com periodicidade semanal, Roussado Pinto descreveu muitos factos curiosos (alguns até picarescos) da sua passagem pela redacção d’O Mosquito e de outras publicações onde espraiou o seu fértil talento de jornalista, redactor, coordenador e editor.

Pluto, 3 BalasDotado de uma memória infalível, aliada a uma linguagem vívida e pitoresca que todos os leitores apreciavam, fruto da sua experiência jornalística, Roussado Pinto tinha também o hábito de coligir as suas recordações de forma ordenada e meticulosa, numa espécie de diário íntimo em que se basearam muitas das notas que escreveu para o Jornal do Cuto, a sua derradeira e mais marcante experiência no campo da Banda Desenhada.

A relação profissional e de amizade que manteve, desde muito jovem, com Raul Correia, Cardoso Lopes, E.T. Coelho, Vítor Péon, Orlando Marques, José Ruy e outros elementos da equipa d’O Mosquito, perpassa espirituosamente nesses apon- tamentos memorialistas, que ainda hoje são uma valiosa achega para o conhecimento, nos bastidores de títulos míticos como O Mosquito e o Mundo de Aventuras, de uma das épocas mais florescentes da BD portuguesa e da carreira e personalidade de algumas das suas principais figuras.

Na nota que a seguir reproduzimos, extraída do Jornal do Cuto nº 115, de 15/10/1975, Roussado Pinto refere-se também a um dos seus projectos editoriais, O Pluto, que acabou precocemente, mas ainda hoje é uma das revistas mais cobiçadas (tanto pela sua raridade como pelo seu interesse) do panorama bedéfilo português.

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NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA – 2

Roussado Pinto 1Como já tivemos ocasião de evocar neste blogue, as referências à mítica revista O Mosquito preenchem muitas das notas publicadas no Jornal do Cuto que Roussado Pinto retirou dos seus apontamentos, recheando-as de curiosos episódios de que ele próprio foi testemunha (ou protagonista) nos bastidores da redacção — onde trabalhou como assistente e conselheiro de António Cardoso Lopes, depois do sonho d’O Pluto, empresa a que meteu ombros durante os meses de Novembro de 1945 a Maio de 1946, ter redundado num desaire comercial de largas dezenas de contos (o que era muito dinheiro nessa época).

O Pluto pretendia ser, em tudo, o equivalente d’O Mosquito, ainda que mais centrado na produção nacional (sobretudo, aventamos nós, porque os direitos autoraisO pluto nº 1 de muito material estrangeiro não estavam ao alcance de uma revista recém-nascida, com naturais dificuldades em impor-se num mercado fortemente concorrencial, dominado pela popularidade d’O Mosquito e do Diabrete, seguidos de perto pel’O Papagaio).

Para assegurar essa produção nacional, que considerava o seu maior trunfo, não só em termos económicos como artísticos, Roussado Pinto, ainda jovem e inexperiente, mas esfusiante de energia e entusiasmo, convidou dois desenhadores quase da sua idade, António Barata e Vítor Péon, já com vasto e popular currículo em revistas desaparecidas, como O Senhor Doutor e O Faísca, ou mesmo n’O Mosquito, como era o caso de Péon, então com 22 anos.

O pluto nº 11Acabou por ser este último a garantir a “parte de leão” das aventuras ilustradas d’O Pluto, chegando mesmo a cometer a proeza de ilustrá-lo de ponta a ponta, durante grande parte da sua efémera existência. António Barata, artista menos dinâmico e, até, pouco atraído pela Banda Desenhada (arte que abraçou somente no início da sua carreira, enveredando depois pela publicidade, sector muito mais lucrativo, onde foi bafejado pelo êxito), teve apenas participação no primeiro número, ilustrando a capa e um conto de Orlando Marques, outro prolífico e talentoso colaborador que ajudou O Pluto a trilhar o seu difícil caminho, à sombra dos dois titãs da imprensa infanto-juvenil dessa época.

Na nota que a seguir reproduzimos, publicada no Jornal do Cuto nº 111, de 17 de Setembro de 1975, Roussado Pinto conta um pitoresco episódio comprovativo da rivalidade que, no início, existiu de facto entre O Pluto e O Mosquito, ainda que a relação de forças, destemidamente encarada pelo ardoroso principiante, fosse comparável à de um combate entre um pugilista da categoria de “leves” e um “peso pesado”.

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