IMAGENS DO PASSADO – EXCURSÃO A BARCELONA (1)

Foto do “Grupo de Lisboa”, com alguns dos visitantes portugueses que se deslocaram ao 4º Salón del Comic de Barcelona (Maio 1984). A comitiva foi recebida pelo autor de tebeos Juan Espallardo (ainda hoje muito activo, na terra onde vive, como professor de Desenho Artístico), que também figura na imagem, segurando um exemplar do novo Almanaque O Mosquito (Editorial Futura).

Da esquerda para a direita: 1º plano, Eugénio Silva (de cócoras); 2º plano, Chaves Ferreira (director da Editorial Futura), Juan Espallardo, Catherine Labey, José Ruy, Jorge Magalhães e António Alfaiate.

Na mala do Dr. Chaves Ferreira ia também o 1º número da 5ª série d’O Mosquito, lançada em Abril desse mesmo ano, que seria oferecido a Jesús Blasco e a outros artistas espanhóis que já eram colaboradores da Editorial Futura ou que viriam, em breve, a sê-lo. O nosso grupo — de que também faziam parte o Luís Diferr e o Geraldes Lino — viajou de autocarro até Barcelona (com excepção do Lino, que preferiu a via aérea), onde permaneceu três dias, regressando no domingo, dia 20 de Maio, pelo mesmo transporte.

Nesse domingo, de manhã, fizemos uma visita obrigatória às ramblas e ao mercado onde se realiza a maior feira de alfarrabistas de Barcelona, dedicada somente a livros, revistas, discos, cartazes e algum outro material de colecção, com grande incidência nas publicações de tebeos, isto é, de banda desenhada. Na foto que se segue, é manifesto o interesse e a curiosidade com que eu e o Geraldes Lino vivemos esses momentos, deixando-nos atrair por alguns dos artigos expostos nas bancas… mas sem perder a cabeça, abrindo os cordões à bolsa! (Por que estariam aqueles dois “maraus” com um ar de tanto gozo? Confesso que não me lembro…)

Falta ainda recordar um pitoresco episódio que quase ia comprome- tendo o desfecho da viagem, pelo menos para um de nós. Na festa de encerramento do Salón, que acabou animadamente numa espécie de restaurante/discoteca — com a presença de ilustres autores do país vizinho (naturais e residentes), como Jesús Blasco, Puigmiquel, Garcia Iranzo, Juan Gimenez, José Ortiz, Manfred Sommer e Alberto Breccia —, o Eugénio Silva quis mostrar a sua “costela” espanhola, armando-se em dançarino, mas teve azar, deu um passo em falso e partiu um pé. Felizmente, depois de assistido no hospital, pôde regressar a casa com os companheiros de viagem e não perdeu o bom humor, continuando a ser o “rei da paródia”, apesar do pé engessado, das muletas e do frio que rapámos todos ao atravessar, de noite, a Serra de Guadarrama.

É que no autocarro não havia mantas para os passageiros se agasalharem e o aquecimento não funcionava! Resultado: ninguém conseguiu pregar olho e a noite foi passada na chalaça uns com os outros, com grande arrelia de um casalinho sentado ao pé de nós… que se esforçava em vão por dormir no meio dessa algazarra! Mas, assim, a viagem de regresso até nos pareceu mais curta.

Jorge Magalhães

Jorge Magalhães, Catherine Labey e Dr. Chaves Ferreira, a equipa da Editorial Futura responsável pela 5ª série d’O Mosquito, defronte do recinto onde teve lugar o 4º Salón del Comic de Barcelona, horas antes do seu regresso a Portugal

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CONVERSA(S) SOBRE BANDA DESENHADA (COM JORGE MAGALHÃES E CATHERINE LABEY) – 3

JORGE MAGALHÃES (1)

Jorge Magalhães nasceu no Porto em 22 de Março de 1938. Entre 1959 e 1961, iniciou transitoriamente a sua carreira na Banda Desenhada, escrevendo contos para o Mundo de Aventuras e para O Mosquito (2ª série), editado por José Ruy e Ezequiel Carradinha. Anos depois (1970), publicou também um conto no último número de Pisca-Pisca, revista da MP dirigida por Álvaro Parreira.

Em Maio de 1974, dez meses após regressar de Angola, onde era funcionário público — tendo continuado, em simultâneo, a dedicar-se à escrita, como colaborador, entre 1967 e 1972, de vários jornais e revistas: A Província de Angola, TrópicoABC e O Comércio —, concretizou um sonho de juventude ao ingressar na Agência Portuguesa de Revistas, onde assumiu a coordenação do Mundo de Aventuras (2ª série), MA Especial e Selecções do MA, entre outros títulos de menor importância, permanecendo naquela empresa durante 13 anos, até ao seu encerramento em finais de 1987.

Em 1976, estreou-se como argumentista no Mundo de Aventuras com uma história desenhada por Baptista Mendes, “A Lenda de Gaia”, tendo depois assinado numerosos argumentos para revistas e álbuns (individuais e colectivos), ilustrados por alguns dos principais desenhadores portugueses, como Augusto Trigo, Carlos Alberto, Carlos Roque, Catherine Labey, Eugénio Silva, Fernando Bento, João Amaral, José Abrantes, José Carlos Fernandes, José Garcês, José Pires, José Ruy, Pedro Massano, Rui Lacas, Vítor Péon e outros. Também colaborou com jovens desenhadores que trocaram a BD por outras carreiras, como Irene Trigo, João Mendonça, José Projecto, Ricardo Cabrita e Zenetto. 

Foi fundador e membro directivo do Clube Português de Banda Desenhada, criado em 1976, e coordenou outras revistas de BD como TV Júnior, Intrépido, AventureiroHeróis da Marvel, O Mosquito (5ª série), Almanaque O Mosquito, Heróis Inesquecíveis, etc. Também editou e dirigiu fanzines como os Cadernos de Banda Desenhada (com três séries) e a Colecção Audácia. Traduziu muitas histórias de BD, escreveu artigos de investigação e análise crítica para vários livros, revistas, catálogos, fanzines e suplementos de jornais, e durante os anos 1980 dirigiu colecções da Editorial Futura, como Antologia da BD Portuguesa, Antologia da BD Clássica, Colecção Aventuras, Tarzan, Torpedo, Nova BD, Gente Pequena, etc.

(continua)

CONVERSA(S) SOBRE BANDA DESENHADA

Sábado, 8 de Julho, às 16h00, na Bedeteca José de Matos-Cruz (Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana), mais uma sessão do ciclo Conversa(s) sobre Banda Desenhada, desta vez com Jorge Magalhães & Catherina Labey, autores que estiveram estreitamente ligados à 5ª série d’O Mosquito, da Editorial Futura (1983-1986).  

NOVO COLÓQUIO NA BNP SOBRE A HISTÓRIA DO CROMO COLECCIONÁVEL EM PORTUGAL

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Nesta quinta-feira, dia 2 de Março, às 17h30, o Clube Português de Banda Desenhada, representado por Carlos Gonçalves e João Manuel Mimoso, realiza nova palestra no âmbito da exposição que se encontra patente na Biblioteca Nacional até ao dia 29 de Abril de 2017 — para recordar uma grande editora (não só na publicação de Revistas de Banda Desenhada como de Cadernetas de Cromos) e prestar também merecida homenagem a Carlos Alberto Santos, um notável desenhador, pintor, ilustrador e criador de magníficas colecções de cromos, que nos deixou recentemente.

Carlos Alberto, cujos trabalhos de ilustração estão dispersos por inúmeras revistas, sobretudo de Banda Desenhada, foi também colaborador d’O Mosquito (5ª série), editado em 1984/86 pela Futura.

Seguidamente podem ler, na Folha de Sala da BNP, um excelente artigo de João Manuel Mimoso sobre o tema desta exposição.

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EXPOSIÇÃO “100 ANOS DO CROMO EM PORTUGAL”

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Colóquio inaugural da exposição “100 Anos do Cromo em Portugal”, no dia 1 de Fevereiro de 2017, às 17h45. Apresentação de Carlos Gonçalves, do Clube Português de Banda Desenhada, e intervenção de João Manuel Mimoso, historiando a origem e a evolução das colecções de cromos dos rebuçados e caramelos em Portugal e de alguns dos seus fabricantes, desde a década de 1920 até à de 1960.

Um colóquio posterior, a realizar em 2 de Março, abordará os “cromos-surpresa” lançados pela Agência Portuguesa de Revistas, em 1952, e prestará homenagem ao grande artista e ilustrador, recentemente falecido, Carlos Alberto Santos.

A exposição será inaugurada às 19h00, após o encerramento do colóquio, ficando patente ao público até ao próximo dia 29 de Abril.

Nota: Carlos Alberto Santos, pintor e ilustrador de raro talento e autor de algumas das mais belas coleções de cromos que já se fizeram em Portugal, colaborou em inúmeras publicações de BD, incluindo O Mosquito” (5ª série), da Editorial Futura, motivo por que o nosso blogue se associa à justíssima homenagem que em Março lhe irá ser prestada pelo Clube Português de Banda Desenhada, no âmbito desta exposição.

ALMOÇO-CONVÍVIO DOS 81 ANOS D’O MOSQUITO

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Cartaz da exposição dedicada ao 80º aniversário d’O Mosquito (Biblioteca Nacional, 2016).

Organizado como habitualmente, nos últimos anos, por Leonardo De Sá, realiza-se no próximo sábado, dia 14 de Janeiro, num restaurante lisboeta, o já tradicional almoço comemorativo do aniversário d’O Mosquito, o mais emblemático título da BD portuguesa, cujos leitores e admiradores continuam a ser numerosos e unidos pelo mesmo espírito de camaradagem que levou à formação da primeira tertúlia de “mosquiteiros”, em Janeiro de 1986 (como noticiou, com destaque, a imprensa da época), não perdendo, por isso, a ocasião de festejar este aniversário simbólico de uma revista cuja 1ª série se extinguiu há mais de seis décadas.
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Notícia publicada no vespertino Diário Popular, em 15/1/1986.

Por feliz coincidência, este almoço-convívio decorrerá, como há 31 anos, no mesmo dia que assinala a data oficial de nascimento d’O Mosquito: 14 de Janeiro de 1936.

IN MEMORIAM: CARLOS ALBERTO FERREIRA DOS SANTOS (1933-2016)

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A Banda Desenhada, a Cultura e as Artes Plásticas portuguesas acabam de ficar mais pobres, pois perderam um dos seus maiores valores das últimas décadas…

Com 83 anos, faleceu na madrugada de 1 de Novembro, no Hospital Egas Moniz, onde estava internado há vários dias, devido ao súbito agravamento do seu estado de saúde, o pintor e ilustrador Carlos Alberto Santos, nascido em 18 de Julho de 1933, em Lisboa, e cuja carreira artística começou bem cedo, depois de ter entrado como aprendiz para a Bertrand & Irmãos, apenas com 10 anos de idade. Consolidando essa iniciação nas artes gráficas, trabalhou também na Fotogravura Nacional e no atelier de publicidade de José David. 

O seu enorme talento começou a notabilizar-se noutra empresa de grandes dimensões, a Aguiar & Dias (vulgo APR ou Agência Portuguesa de Revistas), onde colaborou assiduamente desde o 1º número do Mundo de Aventuras, integrando pouco tempo depois o seu quadro de desenhadores privativos.  Embora relativamente escassa no campo da Banda Desenhada, a sua produção como ilustrador é vasta e diversificada, com destaque para a “História de Portugal” em cromos, um grande sucesso editorial, e outras valiosas colecções do mesmo género, assim como para o álbum “Camões – Sua Vida Aventurosa”, editado pela APR em 1972 e anos depois reeditado, a cores, pela ASA.

Foi também autor das mais eróticas ilustrações da BD portuguesa, para a revista Zakarella da Portugal Press, dirigida por Roussado Pinto.
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Mais vasta e rica ainda é a sua obra como pintor, consagrada à divulgação dos grandes heróis e dos feitos mais relevantes da nossa História Pátria. Com efeito, foi a pintura (e só ela) que lhe permitiu exteriorizar a sua verdadeira personalidade artística. As suas telas estão espalhadas por diversas instituições públicas e particulares, como o Museu Militar do Porto, suscitando também o interesse de coleccionadores de todo o mundo.

O funeral de Carlos Alberto Santos realizou-se na passada quinta-feira, às 11h00, no cemitério do Alto de S. João, depois da missa de corpo presente na Igreja do Santo Condestável, bairro de Campo de Ourique (onde o artista casou, em Janeiro de 1959, com a pintora Maria de Lurdes Paes, ainda viva).

Em memória de um extraordinário vulto das artes gráficas e plásticas portuguesas dos últimos 60 anos e de um homem de gentileza ímpar, reproduzimos seguidamente um artigo publicado na revista Temas nº 3 (Abril 2000), em que se evoca o seu percurso, breve mas igualmente extraordinário, como banda desenhista.

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Nota – Tive a grande honra de colaborar com Carlos Alberto, como argumentista, num projecto que me encheu de satisfação (mas que seria a sua última obra em banda desenhada): a história “O Rei de Nápoles”, com 14 páginas a cores, publicada no 4º volume da colecção Contos Tradicionais Portugueses em BD, das Edições ASA (1993).

Na cena de abertura dessa história, de ambiente medieval, propus-lhe retratar uma caçada a um dos muitos animais selvagens que povoavam as florestas europeias desse tempo. Mas Carlos Alberto opôs-se, alegando respeitar, por princípio humanitário, a vida dos animais, de qualquer espécie. E a referida cena ficou assim…
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Infelizmente, os seus problemas de visão afastaram-no definitivamente da BD e até da ilustração, para se dedicar apenas à pintura, onde deixou obras que perpetuam a tradição dos grandes mestres figurativos, honrando o nosso património artístico e cultural. Mas as suas criações para o Mundo de Aventuras, o Jornal do Cuto e outras revistas de banda desenhada também não serão esquecidas!

Nos anos 80, Carlos Alberto foi colaborador d’O Mosquito (5ª série), publicado pela Editorial Futura, onde ilustrou no nº 8 (Setembro 1985) um conto de Lúcio Cardador, intitulado “O Primeiro Caso”; e uma BD publicitária publicada num folheto inserido, como suplemento, no nº 11 (Dezembro 1985). Aqui a reproduzimos, à laia de curiosidade, recordando a breve passagem de Carlos Alberto pela derradeira série d’O Mosquito.

(Para ler melhor esta página em toda a sua extensão, clicar duas vezes sobre a imagem).