CUTO, HERÓI DE UMA GERAÇÃO – 4

Depois da grande evolução patente em “O Mundo Perdido”, tanto ao nível dos desenhos como do argumento, o estilo de Jesús Blasco continuou sempre a aperfeiçoar-se, atingindo um dos seus pontos culminantes numa fantástica aventura (El Planeta Misterioso”), escrita por Huertas Ventosa, que fez também as delícias dos leitores d’O Mosquito, durante o ano de 1945, entre duas curtas aventuras de Cuto: Bandidos e Cavalos” e O Rapto de Juanita”.

Esse pleno domínio da forma, num alarde de virtuosismo gráfico que seria, desde então, a nota dominante dos trabalhos de Jesús Blasco em estilo realista, desenvolveu-se a par da sua maturidade como autor completo, dando origem a um novo e extraordinário ciclo na movimentada carreira de Cuto. Assim o demonstra a história seguinte, onde Blasco quis retratar a barbárie e a tirania em páginas de inaudita violência, numa clara alusão aos crimes do nazismo e do fascismo, desafiando abertamente a censura. Mas esta não pareceu ver, por detrás da acção empolgante e do cenário oriental, a analogia com a Espanha franquista e a mensagem sobre os malefícios da ditadura, destinada a alertar a consciência dos jovens que seguiam com emoção as peripécias de Cuto em “Tragedia en Oriente”, a mais dramática história aos quadradinhos publicada, nessa época, em Espanha e, pouco tempo depois, também n’O Mosquito.

Cuto, repórter fotográfico vivendo em São Francisco (EUA), tornou-se nessa aventura uma espécie de David que enfrentava, armado apenas com a sua coragem, um monstruoso Golias personificado pela sinistra fortaleza de Tok Saloung, onde imperava o cruel “Mago Branco”, figura maquiavélica que sonhava dominar o mundo, raptando para esse efeito os melhores aviadores e cientistas, quando a guerra ainda grassava na Europa e noutras paragens. Mas o “Mago Branco” foi vítima da sua própria ambição, abatido pelos esbirros do coronel Wei, numa luta secreta e implacável pelo poder que fez também numerosas vítimas entre os prisioneiros da fortaleza. E Cuto jurou vingar-se e acabar com o domínio do novo tirano, depois de ver os seus amigos tibetanos (habitantes da mesma região onde se situava a fortaleza) serem cobardemente atacados pelos sicários do usurpador, que não hesitava em empregar as armas mais destruidoras, construídas pelo “Mago Branco”, para alcançar os seus fins: tornar-se também dono do mundo.

Durante grande parte do ano de 1946 — no novo formato d’O Mosquito, que voltara a crescer, embora diminuindo o número de páginas —, Tragédia no Oriente” foi a aventura que mais prendeu a atenção dos leitores, impressionados pelo horror das peripécias, mas também pela coragem de Cuto, símbolo do herói comum capaz de transformar a sua fragilidade juvenil numa desmedida força que acabaria por triunfar sobre o mal e sobre os carrascos da hedionda seita de Tok Saloung.

Apresentamos seguidamente mais duas páginas do jornal O Louletano — onde se inseriu a magnífica rubrica 9ª Arte, coordenada pelo nosso saudoso amigo José Baptista (Jobat), falecido em Março de 2013 —, com a continuação do artigo de Jorge Magalhães e as primeiras páginas de outra aventura de Cuto, “O Lago da Morte”, oriunda do Almanaque Chicos (1947) e publicada anteriormente no nosso país em três revistas cujo nome ainda perdura, saídas do prelo de fecundas editoras: Mundo de Aventuras (APR, 1953), Colecção Jaguar (Portugal Press, 1972) e Almanaque O Mosquito (Futura, 1985).

Advertisements

CANTINHO DE UM POETA – 38

Mudando de registo, da poesia lírica para a crónica com laivos filosóficos, num estilo também muito apreciado pelos seus leitores, Raul Correia focou neste texto — publicado no Jornal do Cuto nº 23, de 8/12/1971 — um tema que é de todos os tempos: a desmesurada vaidade humana que nos coloca no centro do universo, quando não passamos de “pigmeus” à mercê de um destino incerto e transitório.

A ilustração, como habitualmente, deve-se a José Baptista (Jobat), colaborador do Jornal do Cuto desde os primeiros números e que chegou, graças à sua relação de amizade com Roussado Pinto, a ser chefe de redacção, depois de abandonar a Agência Portuguesa de Revista, onde trabalhara durante mais de 15 anos.

CANTINHO DE UM POETA – 37

Este poema de Raul Correia é mais um perfeito exemplo dos apólogos morais do “Avozinho” tão apreciados pelos leitores d’O Mosquito — numa época em que as revistas infanto-juvenis procuravam não só divertir como instruir —, ensinando-lhes, entre muitas coisas, que quem trata os outros com desdém, julgando-os apenas pelas aparências, faz o papel de ignorante e essa ignorância pode, às vezes, ser-lhe fatal, como no caso das roseiras vaidosas. E é claro que todos os “netinhos” do venerável “Avozinho” aprendiam com gosto a lição!

A página supra, ilustrada como habitualmente por José Baptista (Jobat), foi dada à estampa no Jornal do Cuto nº 32, de 9/2/1972.   

CANTINHO DE UM POETA – 36

Poeta popular, por excelência — embora vestindo n’O Mosquito as roupagens de um carismático trovador que usava o cognome de Avozinho —, Raul Correia participou (e foi premiado) em vários torneiros literários associados aos tradicionais festejos juninos em honra dos Santos Populares.

Eis um desses trabalhos poéticos, dado à estampa no Jornal do Cuto nº 53, de 5/7/1972, com a habitual ilustração de José Batista (Jobat).   

CANTINHO DE UM POETA – 35

Para variar do tom lírico, mostrando desta feita o jeito humorístico de Raul Correia (vulgo Avozinho), eis mais uma composição poética com fundo moralista, onde os seus atentos e fiéis leitores d’O Mosquito — e mais tarde do Jornal do Cuto (estes já mais crescidotes) — podiam colher sábios e proveitosos ensinamentos.

A ilustração tem o cunho habitual e a assinatura de José Batista (Jobat), e a rubrica — de presença obrigatória no Jornal do Cuto, reflectindo a enorme admiração que Roussado Pinto sentia pelo seu velho mestre e amigo, desde os tempos em que tinham trabalhado juntos n’O Mosquito — apareceu no nº 29, de 19/1/1972.

CANTINHO DE UM POETA – 34

Eis neste cantinho mais uma parábola moral de Raul Correia, com a lírica inspiração de Esopo… e do Avozinho — cujo nome era venerado pelos leitores d’O Mosquito como o de um velho mestre que os guiava, com palavras amenas e versos luminosos, pelos caminhos do bem, da verdade, do prazer, da beleza e da sabedoria.

O Jornal do Cuto publicou estes versos no nº 26, de 29/12/1971, devidamente ilustrados, como era hábito, por um dos seus melhores colaboradores: José Batista (Jobat).

CANTINHO DE UM POETA – 33

Eis mais um sugestivo poema de Raul Correia (o “misterioso” e carismático Avozinho, cuja maneira de escrever e de versejar tão indeléveis recordações deixou aos leitores d’O Mosquito), ilustrado como habitualmente por José Batista (Jobat) e publicado no Jornal do Cuto nº 14, com data de 6/10/1971.