EXPOSIÇÃO SOBRE O “CAVALEIRO ANDANTE” NO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA

Prosseguindo uma intensa actividade, com ciclos temáticos que englobam exposições, colóquios e outros eventos realizados na sua nova sede, o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) inaugura no próximo sábado, dia 18 de Março, uma mostra dedicada à emblemática revista Cavaleiro Andante, que na década de 1950 rivalizou com o Mundo de Aventuras e outras publicações juvenis, distinguindo-se por oferecer aos seus leitores as melhores obras da moderna BD europeia, nomeadamente de origem italiana e franco-belga.

A exposição comemora os 65 anos de nascimento do Cavaleiro Andante, cuja existência decorreu de 5 de Janeiro de 1952 até 25 de Agosto de 1962 (556 números), sempre sob a direcção de Adolfo Simões Müller e contando com Maria Amélia Bárcia como redactora e Fernando Bento como principal colaborador artístico.

No Cavaleiro Andante colaboraram também José Garcês, José Ruy, E.T. Coelho e Vítor Péon, desenhadores indelevelmente ligados à carreira d’O Mosquito.

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OS CONCORRENTES D’O MOSQUITO – 1

CAVALEIRO ANDANTE – UMA REVISTA PARA TODOS OS GOSTOS

Nota prévia: O aparecimento do Cavaleiro Andante desferiu mais um rude golpe nas esperanças de sobrevivência d’O Mosquito, já a debater-se com muitas dificuldades graças à concorrência do Mundo de Aventuras, desde meados de 1949. E a verdade é que a mais antiga revista juvenil dessa época apenas logrou resistir aos seus dois poderosos rivais durante alguns meses, mesmo depois de ter mudado novamente de formato, aumentando o preço e voltando à periodicidade semanal, já perto do fim.

cavaleiro-andante-no-157-261O Cavaleiro Andante, nascido em 5 de Janeiro de 1952, foi uma das mais emblemáticas revistas da história da BD portuguesa, em cujas páginas desfilaram, durante 556 números, histórias e heróis inesquecíveis, criados por autores portugueses, espanhóis, franceses, belgas, ingleses, americanos, italianos e holandeses, com destaque para grandes séries como Capitão Audaz (Kapitein Rob), Sexton Blake, Tintin, Blake e Mortimer, Lucky Luke, Astérix, Jerry Spring, Chevalier Blanc, Buck Danny, Dan Cooper, Michel Vaillant, Modeste et Pompon e outras, que consagraram entre nós a popularidade da moderna escola franco-belga, encabeçada por Hergé, Morris, Jacobs, Jijé, Uderzo, Franquin, Macherot, Graton, Tibet, Funcken, Weinberg, Hubinon, Craenhals, e revelaram outros excelentes autores como Pieter Khun (Capitão Audaz), Roland Davies (Sexton Blake), Christian Mathelot (Alarme no Planeta), Dutertre (O Aliado de Sitting Bull), Le Rallic (Capitão Flamberge) e Noël Gloesner (Perdida na Tempestade)

viriato-cavaleiro-andante-26Entre os desenhadores portugueses, a participação mais maciça coube a Fernando Bento, José Garcês, José Ruy, Artur Correia, Fernandes Silva, José Félix e José Manuel Soares. Mas também marcaram presença E. T. Coelho, Vítor Péon, Baptista Mendes e José Pires; e no suplemento O Pajem, publicado a partir do nº 27, ressuscitaram dois heróis de ilustre estirpe, o Quim e o Manecas, que o traço inimitável e o humor fagueiro de Stuart trouxeram de novo à ribalta.

Embora sem heróis recorrentes, a escola italiana do Il Vittorioso surgiu em grande destaque, com magníficas criações de Caprioli (O Elefante Sagrado), Caesar (Dois Amigos e um Aeroplano), Bellavitis (A Grande Reportagem), Albertarelli (Punhos de Aço), Polese (O Segredo da Fábrica nº 2), Ferrari (O Rebelde do Ulster), Boscarato (Na Corte do Rei Sol), Chiletto (A Cidade das Cúpulas de Oiro), Giovannini (O Nome Escrito na Água), De Luca (A Esfinge Negra), Bagnoli (Os Filhos de Brama), D’Antonio (A Mocidade do Rei Artur) e outros, tendo feito aguerrida concorrência às séries belgas, que só começaram a aumentar de  importância quando o Cavaleiro cavaleiro-andante-no-171-262Andante iniciou uma nova fase (e mudança de formato) a partir do nº 327. Até então, apenas Tintin, Blake e Mortimer, Cavaleiro Branco, Bessy, Jerry Spring e Dan Cooper (Hélder Pedralva) figuravam entre as grandes vedetas da revista.

Embora em menor número, as histórias de origem americana também despertaram vivo interesse, em especial quatro grandes séries clássicas: Tarzan, Os Sobrinhos do Capitão (The Katzenjammer Kids), Lance e Buzz Sawyer (que no Cavaleiro Andante se trans- formou no aviador luso-americano Fred de Sousa), criadas respectivamente por Bob Lubbers, Rudolph Dirks, Warren Tufts e Roy Crane.

O êxito crescente da edição semanal, dirigida por Adolfo Simões Muller, conduziu a breve trecho ao nascimento de outras publicações de banda desenhada, mas em moldes diferentes, como os Álbuns do Cavaleiro Andante, os Números Especiais (cujo 1º número ostenta uma magnífica capa de E. T. Coelho), a Colecção Oásis, a Colecção Alvo, as Obras-Primas Ilustradas, a revista infantil João Ratão, de periodicidade mensal ou semanal, que publicavam apenas histórias completas.

cavaleiro-andante-especial-no-1-264Sucessor do Diabrete (dirigido também por Adolfo Simões Müller), que se publicou entre Janeiro de 1941 e Dezembro de 1951, o Cavaleiro Andante teve praticamente a mesma duração de dez anos, terminando ingloriamente a sua carreira em 25 de Agosto de 1962… para dar lugar ao Zorro, poucas semanas depois, e à Nau Catrineta (suplemento do Diário de Notícias), onde a BD franco-belga continuou a ocupar lugar de destaque. Mas a ausência mais notada foi a de BD portuguesa, sobretudo no Zorro, que continuou a apostar (embora sem grande sucesso) em heróis como TintinAstérixRic HochetJerry Spring e Lucky Luke, e nalguma BD francesa, inglesa e italiana.

Concorrente do Mundo de Aventuras, que lhe sobreviveu ainda durante muitos anos, o Cavaleiro Andante publicou também separatas com jogos e construções de armar, teve suplementos como O Pajem, Andorinha, Bip-Bip e Desportos, e ofereceu valiosos brindes aos seus leitores, através de sorteios semanais, organizou concursos (dando automóveis como prémio), fomentou a criação de clubes de fãs e disputou com o seu maior rival animadas partidas de futebol, cavaleiro-andante-no-100-260em campos pelados mas com jovens jogadores equipados a rigor, cujas habilidades no dribla e remata operavam, para gáudio da nume- rosa assistência, um nítido equilíbrio de forças.

Como se no terreno do jogo o brio desportivo procurasse igualar os êxitos e triunfos averbados por cada um dos rivais no campo editorial, onde o duelo prosseguia, renhido de parte a parte, com os olhos sempre postos nos progressos e nas tácticas “ofensivas” do adversário. Acabou por vencer, não o melhor, mas o que soube adaptar-se mais rapida- mente às exigências dos seus leitores, aos novos padrões de jogo… isto é, as histórias completas.

Nas imagens (de alto a baixo): página central do folheto-anúncio do Cavaleiro Andante; capa do nº 157 (1955), ilustrada por Fernando Bento; capa do nº 26 (1952), ilustrada por José Garcês; capa do nº 171 (1955), com desenhos de Gianni de Luca; capa do Número Especial de Junho (1953), ilustrada por E. T. Coelho; capa do nº 100 (1953), ilustrada por Artur Correia.

O MÍTICO NÚMERO 100 (O MOSQUITO) – 2

No historial de qualquer publicação periódica, o número 1 representa o primeiro contacto com os leitores, o arranque para a vida, e o número 100 a consolidação de um longo caminho percorrido (dois anos, no caso das revistas semanais), a passagem do “gatinhar” e dos primeiros passos ainda incertos e hesitantes para uma postura mais firme e confiante.

Por isso, esse número centenário, sinónimo de vitalidade e esperança — em contraste com o significado que tem na existência humana —, é geralmente comemorado de forma sugestiva, ataviando-se com novas galas: cores mais garridas, um novo cabeçalho ou uma bela ilustração que fique na memória dos leitores. Nem sempre todos esses atributos se englobam na mesma capa.

Mas casos há em que o número 100 parece ficar esquecido, sem se distinguir — na correnteza das capas com grafismo sempre igual — dos seus companheiros de jornada, sem merecer sequer dos seus editores uma breve nota de rodapé.

Nos dois exemplos que hoje apresentamos, essas diferenças, a nível gráfico, saltam particularmente à vista: a capa d’O Mosquito nº 100 e a capa homóloga do Diabrete, separadas por cinco anos de intervalo e por outras características estéticas e morfológicas que num exame, mesmo ligeiro, não passam despercebidas, dando vantagem ao Diabrete, com apresentação mais garrida, o mesmo número de páginas (8), mas em formato ligeiramente maior, e um cabeçalho mais decorativo.

Diabrete nº 100Desde logo, caiu no goto dos leitores a vistosa imagem da capa, criada pelo traço fantasista de Fernando Bento, mestre das artes figurativas nacionais, enquanto que O Mosquito se limitou, fiel à rotina que seguia desde os primeiros números, a uma página das viagens de D. Triquetraque, história humorística curta ilustrada pelo notável artista catalão Arturo Moreno.

Verdade se diga que o sumário deste número (como dos anteriores) era de respeito, pois incluía mais três histórias aos quadradinhos, todas de origem inglesa, com destaque para a longa saga de Rob, o juvenil herói de “Pelo Mundo Fora”, magistralmente ilustrada por Walter Booth, e para as animadas peripécias de um irresistível trio de aventureiros, “O Capitão Bill, o Grumete Bell e o Cozinheiro Ball”, criação de Roy Wilson, outro grande nome da BD inglesa. Assinale-se também uma história que ficaria incompleta, “Beric, o Bretão”, passada na antiga Roma, com desenhos (ainda incipientes) de Jock McCail. que foi também um prolífico autor de séries de aventuras. Para completar o sumário, não faltava uma novela policial em episódios, “Rudy Carter, G-Man”, e um conto do Oeste, ambos com assinatura de Raul Correia. E ainda, em separata, uma construção de armar realizada pelo Tiotónio: “Grande Locomotiva” (folha 8, de um total de 17).

Nenhuma revista juvenil, em 1937, oferecia tantas doses de aventura, emoção, audácia, humor e fantasia, por tão pouco dinheiro. Mesmo não tendo nada de especial em relação aos anteriores, esse número centenário valia bem o seu preço: 50 centavos (5 tostões). Registe-se, igualmente, a nota inserida na coluna do correio, rubrica muito apreciada pela maioria dos leitores, devido sobretudo ao cunho inconfundível da prosa de Raul Correia, que, em nome d’O Mosquito, respondia espirituosamente às cartas da garotada. Nessa nota, ao lado de mais um poema do Avozinho, lia-se o seguinte (ampliar a imagem):

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Mosquito 100 pag 4 e 5

Ao requinte gráfico de Fernando Bento, no Diabrete, correspondia, assim, n’O Mosquito, o estro literário de Raul Correia. Um e outro dignos do festivo e simbólico número 100, que ambos — à distância de cinco anos, convém repetir — pretenderam assinalar com maior ou menor exuberância. Verdade se diga, mais uma vez, que O Mosquito preparava um número de Natal digno dos seus pergaminhos. E esse número seria precisamente o 101… como podem ver no post publicado em 31/12/2014.

Voltaremos, numa próxima oportunidade, ao Diabrete, para descrever também, com o devido relevo, o “suculento” sumário do seu nº 100.

NÚMEROS, PRESÉPIOS E CURIOSIDADES DE NATAL – 4

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Este número especial d’O Pluto, comemorativo do Natal de 1945, é bem nutrido de páginas (trinta e duas) e de ilustrações de Vítor Péon, que o recheiam de uma ponta à outra.

Diga-se de passagem, para quem não souber, que este prolífico artista, então com 22 anos — cuja carreira na imprensa infanto-juvenil começara pouco tempo antes, e logo na revista mais famosa desse tempo, O Mosquito —, era a “mais valia” d’O Pluto e do seu director artístico e editor, o também jovem e dinâmico José Augusto Roussado Pinto, que apesar dos seus “verdes” 18 anos, acalentava o homérico projecto de fazer concorrência ao Mosquito e talvez, se os deuses e a sorte o ajudassem, superar até o seu êxito.

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Para isso, contou com a ajuda dos tipógrafos e de outros trabalhadores gráficos da Imprensa Barreiro, sita em Lisboa (a quem O Pluto prestava uma homenagem fotográfica nas páginas centrais desse número), mas sobretudo de Vítor Péon, que foi o autor de mais de 80% das histórias aos quadradinhos publicadas na revista e de quase todas as ilustrações que guarneciam as suas páginas, desde as capas aos textos e às rubricas mais variadas. Exceptuando o primeiro número, que contou com uma capa e um conto ilustrados por António Barata, todos os créditos artísticos no que respeita à produção nacional pertencem exclusivamente a Vítor Péon e ao seu prodigioso e rotineiro esforço criativo (sem quebra notória de qualidade), que já nessa altura começava a pedir meças aos talentos de E.T. Coelho e de outros grandes desenhadores da época, mesmo com estilos muito diferentes do seu, como era o caso de Fernando Bento.

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Só para dar uma ideia da volumosa produção de Péon, contabilizam-se neste número de Natal as seguintes histórias em episódios com a sua assinatura, abordando os mais distintos temas: de âmbito aventuroso, “Dick, Terry e Tom no Reino Selvagem”, “Roubo e Crime”, “Três Balas”; e em estilo cómico (género que ele também muito apreciava), “Furacão e o Seu Cavalo Trovão”, “Fitas Sonoras”, “Felizardo, o Rei do Azar” e “As Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota”. Por opção editorial, a fim de dar mais uniformidade à revista — e talvez, também, para imitar O Mosquito —, todas tinham legendas didascálicas.

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Além desta proeza, num total de onze páginas, Péon conseguiu ainda tempo para ilustrar outros assuntos, incluindo três novelas assinadas por Jomar (pseudónimo de Orlando Jorge B. Marques, outro prolífico colaborador que Roussado Pinto foi “roubar” ao Mosquito),  com os títulos “Os Planos H.P. 202”, “O Crime do Lucky Night” e “Hoje não, Joe!”, esta última de tema natalício. Até a página de abertura — com a tocante epígrafe “Mãezinha que estás no Céu!…” (capaz de derreter o coração dos leitores de mais tenra idade), em que, sob o “disfarce” de Velho Augusto, o jovem Roussado Pinto pretendia imitar o Avôzinho Raul Correia — foi também ilustrada a preceito por Péon, como seguidamente mostramos.

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A fértil criatividade destes dois activos e talentosos colaboradores, cujo entusiasmo e dedicação à “causa” transparecem em todos os números d’O Pluto, não teve paralelo em nenhuma revista infanto-juvenil dessa época, mesmo destacando o papel de Fernando Bento e E.T. Coelho nos quadros artísticos d’O Mosquito e do Diabrete, os dois grandes rivais com que O Pluto garbosamente se batia.

O valoroso despique não teve desfecho feliz para Roussado Pinto, que viu os seus sonhos esfumarem-se ao cabo de 25 números; mas esse “fracasso” inicial não o impediu de voltar à liça pouco tempo depois, primeiro aliando-se a Cardoso Lopes e a Raul Correia n’O Mosquito — onde criou concursos e conseguiu introduzir as primeiras HQ’s de origem americana —, depois passando para as fileiras do recém-chegado Mundo de Aventuras, na companhia do seu inseparável amigo e “braço direito” Vítor Péon.

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A capa deste número d’O Pluto, com o tema do Presépio (que Péon voltaria a retratar noutras imagens natalícias) serviu de mote à magnífica separata em folha dupla que a revista ofereceu como brinde aos seus leitores — como se já não bastassem todas as outras atracções por um preço quase simbólico de 1$50 escudos —,  num ano em que O Mosquito se engalanou também com (mais) um Presépio de E.T. Coelho.

Nos nºs 7 e 8 d’O Pluto vinham inseridas as restantes folhas deste Presépio de Vítor Péon, que temos o privilégio de reproduzir integralmente no nosso blogue, 70 anos depois da sua publicação naquela raríssima e apreciável revista.

E, como já estamos a poucos dias do Natal, aproveitamos este ensejo para endereçar, em nome d’O Voo do Mosquito — um blogue dedicado à mais emblemática revista da BD portuguesa —, os melhores votos de BOAS FESTAS a todos os nossos leitores e amigos.

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