NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA – 3

roussado-pinto-foto-aNa rubrica com este mesmo nome, iniciada no Jornal do Cuto nº 110, de 10/9/1975, quando a revista — depois de uma curta fase, interrompida no mês de Julho do ano anterior, em que saía mensalmente para amortizar os custos de distribuição — regressou às bancas, com periodicidade semanal, Roussado Pinto descreveu muitos factos curiosos (alguns até picarescos) da sua passagem pela redacção d’O Mosquito e de outras publicações onde espraiou o seu fértil talento de jornalista, redactor, coordenador e editor.

Pluto, 3 BalasDotado de uma memória infalível, aliada a uma linguagem vívida e pitoresca que todos os leitores apreciavam, fruto da sua experiência jornalística, Roussado Pinto tinha também o hábito de coligir as suas recordações de forma ordenada e meticulosa, numa espécie de diário íntimo em que se basearam muitas das notas que escreveu para o Jornal do Cuto, a sua derradeira e mais marcante experiência no campo da Banda Desenhada.

A relação profissional e de amizade que manteve, desde muito jovem, com Raul Correia, Cardoso Lopes, E.T. Coelho, Vítor Péon, Orlando Marques, José Ruy e outros elementos da equipa d’O Mosquito, perpassa espirituosamente nesses apon- tamentos memorialistas, que ainda hoje são uma valiosa achega para o conhecimento, nos bastidores de títulos míticos como O Mosquito e o Mundo de Aventuras, de uma das épocas mais florescentes da BD portuguesa e da carreira e personalidade de algumas das suas principais figuras.

Na nota que a seguir reproduzimos, extraída do Jornal do Cuto nº 115, de 15/10/1975, Roussado Pinto refere-se também a um dos seus projectos editoriais, O Pluto, que acabou precocemente, mas ainda hoje é uma das revistas mais cobiçadas (tanto pela sua raridade como pelo seu interesse) do panorama bedéfilo português.

Jornal do Cuto 115 477

Advertisements

RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 2

Um ritmo vertiginoso, como nos filmes policiais

Raul Correia (1094-1985)Raul Correia, cuja carreira literária iniciada no Tic-Tac, em 1934, abriu novos horizontes ao panorama da imprensa infanto-juvenil portuguesa — em perfeita sintonia com o cinema, a literatura de aventuras e as histórias aos quadradinhos, ou seja, com o gosto popular da época —, foi o escritor de estilo inimitável, o “farol” que iluminou com o radioso clarão da aventura e da poesia milhares de corações juvenis, que não lobrigavam em nenhum outro jornal da especialidade competidores, isto é, novelistas à sua altura.

mosquito-1943-8-nc2ba422-961Algumas das suas criações, com relevo para as de temática policial, perduraram no tempo e na memória dos leitores. Foi o caso de James Donald, Ronald Campbell, Eduardo Silveira e, em especial, Rudy Carter (outro personagem a quem emprestou as iniciais do seu nome), que surgiu na novela “Rudy Carter (G-Man)”, combatendo o crime ao lado dos intrépidos agentes do FBI. Além disso, a fim de aumentar o impacto e o realismo da acção, Rudy (abreviatura de Rudolph) Carter era perito em boxe, jiu-jitsu, tiro com armas de fogo, e praticante exímio de vários desportos. A sua imagem definitiva (e autêntica, pelos padrões do autor) foi magni- ficamente retratada por E.T. Coelho nas novelas “Oito Horas de Vida” e “Noite Tranquila”, de que apresentamos a seguir algumas páginas.Oito horas de vida 1  378

mosquito-1943-8-noite-tranquila-1-e-21

O sete de espadasNovelista e detective de origem norte-americana, à semelhança de Ronald Campbell, Rudy Carter foi protagonista de uma longa série de aventuras que o tornaram imensamente popular entre os leitores d’O Mosquito, desde a primeira novela, dada à estampa em 1937, e da seguinte, com o título “O Sete de Espadas” (publicada também em livro em 1975), até ao seu último caso, “O Livro de Apontamentos”, vivido 12 anos depois do primeiro, numa fase em que a revista mudou de orientação, devido à saída de Cardoso Lopes. A tenta- tiva (provável) de ressuscitar Rudy Carter, uma espécie de alter-ego de Raul Correia, não teve, no entanto, consequências… porque este, único responsável, à data, pelo futuro do jornal, já estava no fim da sua carreira de novelista. Mas isso é outra história…

O relógio parado  - vinheta    380Entre as narrativas mais curtas em que intervém Rudy Carter, abrangendo o período de 1937 a 1942, destaca-se “O Relógio Parado”, cuja acção já é posterior à sua saída do FBI. Ao regressar à vida normal, Rudy sente necessidade de voltar a escrever e procura o necessário isolamento num hotel de Chicago, cidade conhecida como “a capital do crime”. E, de facto, o local foi bem escolhido, porque o crime não tardou muito a vir ao seu encontro, num trepidante episódio de cariz cinematográfico, em que as imagens desfilam num ritmo vertiginoso, como uma sucessão de fotogramas projectados numa tela, pontuadas por frases curtas, que martelam em cadência o desenrolar da acção.

Publicado n’O Mosquito nºs 117 e 118, de 7 e 14/4/1938, com gravuras inglesas, este conto foi reeditado por Roussado Pinto na colecção Pantera Negra, e ilustrado de forma magnífica por Carlos Alberto Santos, artista que domina tão bem a cor como o preto e branco. Aqui têm, pois, “O Relógio Parado”, como exemplo de um dos melhores contos policiais de Raul Correia, na versão integral extraída da revista Pantera Negra nº 6 (1/11/1977).

O relógio parado  - 1 e 2

O GRANDE CONVÍVIO DOS “MOSQUITEIROS” – 1

Mosquito canta copyNo passado dia 17 de Janeiro, um sábado, a fraterna comunidade “mosquiteira”, unida por laços de amizade e de camaradagem que duram já há muitos anos (nalguns casos, há várias décadas), voltou a reunir-se numa espaçosa sala do restaurante lisboeta Pessoa, para festejar mais um aniversário da revista que foi a principal responsável por essa duradoura confraternização e por um salutar e compulsivo hábito que se entranhou, desde pequenos, no espírito de muitos dos presentes: a leitura de histórias aos quadradinhos.

Raoul Correia e Cardoso LopesHoje, 79 anos depois, esse espírito não morreu e o sentimento “mosquiteiro” de devoção a um nobre ritual e a algumas grandes figuras da imprensa infanto-juvenil que estiveram na génese do êxito, do renome e da longevidade da emblemática revista O Mosquito, continua a prevalecer na memória e na saudade das gerações mais antigas e até a arregimentar novos entusiastas — coleccionadores, investiga- dores, jornalistas, cronistas, desenhadores, argumentistas… ou simples curiosos —, que mesmo pertencendo a outra época se deixam também seduzir pela mística de um título que ainda hoje é um fenómeno invulgar de popularidade e prestígio.

Mosquito saudaCabe este ano ao Voo d’O Mosquito, blogue criado em Agosto de 2014, a honra de apresentar a reportagem fotográfica de Dâmaso Afonso, cujos valiosos préstimos não precisamos de enaltecer, pois O Gato Alfarrabista já o fez repetidas vezes. Mas aqui ficam os devidos agradecimentos pelo material que nos enviou, do qual seleccionámos as fotos e as poses mais sugestivas, num panorama abrangente da meia centena de convivas que festejaram animadamente, “em família”, o aniversário d’O Mosquito. Número que este ano atingiu novo máximo, como testemunhou a vasta sala do 1º andar do Restaurante Pessoa completamente cheia!

IMG_2195IMG_2244IMG_2197IMG_2198IMG_2200IMG_2203IMG_2204IMG_2205IMG_2207IMG_2212IMG_2213IMG_2214IMG_2215IMG_2216IMG_2222IMG_2223 IMG_2224IMG_2225IMG_2231IMG_2232IMG_2242IMG_2243IMG_2254 IMG_2255IMG_2256IMG_2257IMG_2258IMG_2266

O Mosquito 1936-2015Na impossibilidade de nos referirmos em pormenor a tanta gente, queremos destacar algumas presenças mais assíduas, desde os organizadores do almoço, Leonardo De Sá e Américo Coelho, até ao decano dos desenhadores portugueses que colaboraram activamente n’O Mosquito, mestre José Ruy — ele próprio uma espantosa memória viva desses tempos heróicos —, e a outros profissionais da 9ª Arte que também comungam dos mesmos ideais, como Zé Manel, Artur Correia, Baptista Mendes, Catherine Labey, Jorge Magalhães, Jorge Machado-Dias, João Amaral, António Gomes de Almeida, Mário Correia, muito bem acompanhados por outros membros da nossa comunidade bedéfila (alguns deles veteranos destas lides) e convidados especiais: Geraldes Lino, Carlos Gonçalves, António Martinó de Azevedo Coutinho (“mosquiteiro” de gema, Mosquito leitorpela primeira vez presente neste convívio, ao qual já fez emotiva referência no seu blogue Largo dos Correios), Aurélio Lousada, João Artur Mamede, Saul Ferreira, João Mimoso (e esposa), Joel Lima (e filha), José Manuel Vilela, José Menezes, Jorge Silva, António Amaral (e esposa), Joaquim Talhé, Helder Jotta, Luís Valadas, Máximo Ribeiro, Monique Roque (viúva de Carlos Roque), Maria Fernanda (esposa de José Ruy), Maria Belmira (esposa de Artur Correia), Alexandre Gonçalves (neto de Raul Correia), Rui Mendes (desenhador e actor).

A lista é longa e não podemos, lamentavelmente, citar todos os nomes… mas aqui fica, sem mais comentários, outro trecho da reportagem do nosso amigo Dâmaso Afonso (na 1ª foto), cuja objectiva nunca perde os melhores ângulos.

IMG_2233 1IMG_2196IMG_2199IMG_2201IMG_2217IMG_2218 IMG_2219IMG_2220IMG_2221IMG_2241IMG_2247IMG_2248IMG_2253IMG_2249IMG_2260IMG_2206

 

O MOSQUITO EM 1943 – 4

jim-west-para-curandel1311“Aventuras de Jim West”, a longa e trepidante novela de Raul Correia que o popular bissemanário O Mosquito começou a publicar no nº 375, de 27/1/1943, era uma espécie de sinfonia do Novo Mundo, percorrida por um sopro de epopeia, com personagens que não se apagaram da memória dos leitores, ao ponto de ressuscitarem, anos depois, numa das primeiras histórias aos quadradinhos de E. T. Coelho: Jim West, um jovem e destemido pioneiro, Louise, a sua dedicada companheira, e o pitoresco Nath Pig, caçador e inimigo encarniçado dos índios.

E se a prosa de Raul Correia, de crescendo em crescendo, chegou a atingir momentos de grande vertigem, tanto na toada épica dos combates como no hino ao selvático esplendor da Natureza, o labor do seu parceiro artístico não lhe ficava atrás, confirmando o exímio domínio da forma, a versatilidade e o dinamismo do estilo, cada vez mais perto do perfeccionismo estético e da exuberância cinética. Algumas das capas e ilustrações de “Aventuras de Jim West”, como temos vindo a apresentar, figuram entre as melhores publicadas nesta fase d’O Mosquito.

Três novos e sugestivos cabeçalhos desenhados por E. T. Coelho surgiram nos nos 389, 390 e 392, mostrando que a sua fértil fantasia continuava ao serviço da renovação gráfica iniciada meses antes. É caso para perguntarmos: teria o pequeno e modesto jornal, naquela época, o mesmo impacto, o mesmo extraordinário efeito, quase mágico, sobre os leitores, sem a magnífica colaboração de E. T. Coelho, que se desdobrava em múltiplas tarefas? A resposta parece óbvia, por mais elogios que se possam fazer às histórias inglesas, a Cardoso Lopes, a Raul Correia e aos outros membros da equipa.

separata folha 2

Entre os nos 385 e 388, um dos principais atractivos foi a inclusão de mais separatas com uma construção desenhada por E. T. Coelho, cujo tema, relacionado também com o Oeste americano, era “Um Carro de Colonos” — aproveitando o êxito crescente das “Aventuras de Jim West” e a popularidade dos seus indómitos protagonistas.

(Temos, mais uma vez, de agradecer a Carlos Gonçalves a possibilidade que nos deu de apresentarmos algumas delas neste blogue).

separata-carro-de-colonos-folha-3

No nº 386, chegou ao fim a original aventura “O Mistério da Sala 13”, desenhada por Henry M. Brock. No número seguinte, O Mosquito interrompeu a série de capas dedicadas a Jim West, mostrando uma emotiva cena, espectacularmente recriada por E. T. Coelho, da história aos quadradinhos “Nas Montanhas da Índia”.curiosidade-4-pequenas1

Nessa mesma edição, regressou o correio, com as respostas às numerosas cartas dos leitores, e a apreciada mas irregular rubrica “Curiosidades”, a cargo, como habitualmente, de E. T. Coelho. Em complemento das histórias inglesas, podia ainda ler-se uma aventura de aspecto muito diferente, embora de menor qualidade artística, intitulada “O Gavião do Sul”, com um novo herói que apareceu em mais episódios, sobretudo na Colecção de Aventuras (publicação quase gémea d’O Mosquito), e ao qual Raul Correia deu a identidade de um aventureiro português com o nome de Pedro de Lemos e a curiosa alcunha de “Dinamite”.

Sabemos hoje que esses episódios eram de origem italiana e, em contraste com as séries inglesas, exibiam alguns recursos pouco usuais na revista, como a abundância de “balões”, ou seja, o uso generalizado do discurso directo, e textos mais curtos em legendas intercalares que costumam designar-se por “cartuchos”. Nesse aspecto, foram uma novidade absoluta para a maioria dos leitores, habituados aos textos “didascálicos”, operando durante alguns meses uma espécie de dicotomia n’O Mosquito, como que a anunciar tempos de mais profundas e duradouras transformações.

Os respectivos desenhadores — muitos deles identificados, pela primeira vez, num exaustivo estudo de Américo Coelho publicado no Boletim do CPBD nos 127 e 128 (2009) — davam pelos nomes de Vitaliano Bertea (que desenhou o citado episódio e quase todas as aventuras de “Dinamite”), Giorgio Scudellari, Umberto Nova, Carlo Cossio, Giuseppe Capadonia e António Salemme, entre outros. A seu tempo, logo que terminado “O Gavião do Sul”, mais episódios deste género surgiriam n’O Mosquito.

Como  curiosidade,  destaquem-se  ainda  as  duas  novidades  (de  quatro)  anunciadas  nos nos 387 e 388: emblemas para os assinantes e concursos “Relâmpago” semanais, com prémios monetários que iam de 20$00 a 5$00 (uma pequena fortuna, naquele tempo, para a maioria dos jovens leitores, cujas posses eram bastante reduzidas).

mosquito-385-386mosquito-387-388mosquito-389 -390mosquito-391- 392jim-west-0-e-1-41jim-west-2-43jim-west-3-42jim-west-4-e-5-41jim-west-6-43jim-west-7-42jim-west-8-41jim-west-9-e-10-41jim-west-11-41jim-west-12-41jim-west-13-41o-mistc3a9rio-da-sala-13-1-e-2-48ao-servic3a7o-da-lei1o-gavic3a3o-do-sul-1-e-2-42nas-montanhas-da-c3adndia6capitc3a3o-ciclone5concurso-relc3a2mpago-1-e-2-42