HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 4

Avô Raul capa

IV

O meu avô era um homem recatado e era conhecida a sua aversão a festas e eventos sociais. Também não gostava de dançar. E não falo em sentido figurado! De Fred Astaire o avô Raul não tinha nada! Já lhe bastavam as recepções aos ilustres hóspedes e convidados nacionais e internacionais que enchiam o hotel em inúmeras ocasiões e que — por inerência das suas funções — o obrigavam a discursos solenes e a horas de conversação mais ou menos interessante… Entre dignitários do governo alemão e italiano e respectivos congéneres ingleses e americanos, só posso imaginar o que se passaria nas salas, salões, quartos, corredores e caves do Avenida Palace, durante os anos da Segunda Guerra Mundial, quando Lisboa era a capital da espionagem e este hotel o poiso predilecto dos militares aliados em trânsito e dos homens de gabardina preta e cicatriz na cara! Um toque real de muitas das aventuras que publicava n’O Mosquito

O meu avô fugia das luzes da ribalta como o diabo foge da cruz e só havia uma coisa que ele colocava acima do seu trabalho — a sua família. Como conseguiu ser director do hotel mais movimentado de Lisboa, ser director do jornal infanto-juvenil mais visto, lido e vendido do país, ser escritor, poeta, tradutor, autor de peças teatrais, criar e educar oito filhos, tudo ao mesmo tempo, durante pelo menos vinte anos seguidos, e depois continuar a trabalhar até aos oitenta anos com o mesmo vigor e ainda ter tido paciência para me aturar, fica muito para lá da minha compreensão!

Foi este o homem que, com 32 anos de idade, se tornou o Avozinho, que norteou a sua vida em prol da felicidade e da educação de largos milhares de crianças, o poeta de alma triste e coração feliz, que intitulava os seus versos de “maus versos” e que dizia ter “falhado a sua missão”! Nunca saberei quanta verdadeira ou falsa modéstia encerrava esta opinião sobre si próprio, mas uma coisa, com certeza sei — se ele falhou a sua missão, o que é que andamos quase todos aqui a fazer!… Não conseguiria, no entanto, tudo isto sem uma pessoa, a sua Maria Teresa.

Av+¦ Teresa contra capa

Como referi no início, estas palavras pretendem ser um tributo ao meu avô, mas é impossível falar dele numa perspectiva mais pessoal, sem falar da sua companheira de uma vida inteira. Estas palavras são portanto, e também, um tributo à minha avozinha. À alma sonhadora e utópica do marido, a avó Teresa preencheu a outra metade com inesgotável pragmatismo, tenacidade e capacidade de gestão afectiva e doméstica.

Conheceram-se ainda crianças, começaram a namorar com 17 e 15 anos, ele e ela respectivamente, e tanto quanto sei, até à morte da minha avó, não passaram um dia separados! Em sessenta e muitos anos, foi raro o dia em que o meu avô chegou a casa sem uma prenda para a sua Maria! Já nos últimos anos das suas vidas, escreveu-lhe um pequeno verso, num pequeno pedaço de papel. Dizia assim:

Versos 4

Colocou-o num pequeno envelope e por fora escreveu: “Para a minha Maria, do teu Raul” [imagem anexa]. A minha tia Adelaide contou-me que uma noite, nos anos quarenta, o meu avô teve de ir a um velório e chegou a casa por volta da meia-noite para “dar de caras” com a minha avó a chorar à porta, muito triste e preocupada a pensar que ele se tinha perdido ou tinha tido um acidente!

Fotos 10

Quando o meu avô era pequeno, tinha um gato que descia as escadas do prédio e o vinha esperar à porta da rua. Sabia quando ele estava a chegar… Como quase todos os poetas, tinha uma predilecção especial por gatos; lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que o meu tio Raul apareceu na casa de Benfica com a Rucas, uma gatinha siamesa com dois meses, que ofereceu de surpresa aos pais e que eu imediatamente considerei minha! Se bem me lembro, as únicas vezes que vi o meu avô ficar um “bocadinho” irritado com a minha avó, foi sempre em consequência de uma ou outra “enxutadela” dada pela minha avó por causa de uma mija na banheira ou de uma incursão num cortinado!

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HISTÓRIAS DO (MEU) AVOZINHO – 3

Avô Raul capa

III

Um grande amigo do meu avô era o George Black, um aviador civil inglês, ou melhor dizendo, um “glorioso maluco das máquinas voadoras”! Sempre impecavelmente vestido, dono de um sentido de humor tipicamente britânico e amante de carros desportivos, incarnava na perfeição a imagem do “British Gentleman” aventureiro. Era visita regular em casa do meu avô e foi padrinho do meu tio Jorge, razão pela qual o dito meu tio se chama Jorge! A minha mãe lembra-se do “Mister” Black lhe levar invariavelmente aqueles “lápis de chocolate” Regina, cada um de sua cor e que, se não me engano, ainda são feitos hoje…

Este senhor tinha uma imaginação fértil e contava histórias algo exageradas; o meu avô ouvia e no fim dizia-lhe: “Isso é tudo mentira!” O amigo respondia-lhe: “Até pode ser mentira, mas tem muita piada!”

O George Black passava grandes temporadas no Avenida Palace, durante os anos da guerra, e vou contar-vos dois episódios que ilustram bem a sua personalidade — estas duas histórias são bem verdadeiras, testemunhadas pelo meu avô. Certo dia, apareceu no hotel um espião alemão, muito alto, louro e de olhos azuis, que ao ser recebido no gabinete do meu avô, lhe disse que era espanhol… (era comum os espiões alemães terem passaportes espanhóis). O George Black, que estava no gabinete, olhou para o alemão e disse-lhe calmamente: “Com esse ar andaluz, nem precisava de dizer que era espanhol!”

A outra “cena” aconteceu semanas mais tarde, quando um Judeu que tinha conseguido obter uma “Navy Cert.” (Navy Certification, uma licença/autorização que permitia a um navio sair do porto), foi ao hotel dizer ao meu avô que precisava urgentemente de um navio para ir para a América… O George Black respondeu-lhe: “Epá, que azar! Vendemos o último navio mesmo há bocado!”

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Tal como era um exímio contador de anedotas, o sentido de humor do meu avô não ficava atrás. Um dia, a D. Júlia, que era a empregada da altura, entrou inadvertidamente no quarto dos meus avós e “apanhou” o meu avô de camisola interior. Recuou, embaraçada, dizendo: “Peço muita desculpa, Sr. Raul, não sabia que estava aí! Eu não vi nada! Eu não vi nada!”. Ao que o meu avô calmamente respondeu, deixando a pobre senhora ainda mais embaraçada: — Parece impossível D. Júlia, então não viu nada?! Noutra altura, a mesma D. Júlia, ao telefonar lá para casa, apresentou-se no auscultador dizendo: “Fala a Dona Júlia…” O meu avó, que atendeu a chamada, respondeu-lhe no mesmo tom: “Daqui fala o Dom Raul!”                

Lembro-me de o ver a escrever nos fins-de-semana de Inverno, sentado em frente à máquina, de roupão, com o sempre presente cigarro a queimar no cinzeiro, e da minha avó o ir chamar para o almoço ou para o jantar… OLYMPUS DIGITAL CAMERADe vez em quando, íamos jantar ao Córsega, um restaurante que ficava na praceta ao lado. Ainda existe e mantém o mesmo nome.

Lembro-me dos almoços, das lancharadas e dos jantares de domingo na casa de Benfica, com os filhos, genros, noras e netos… era uma festa!

No que respeita a comida, o meu avô comia como um adolescente, ou seja, muito! Era um grande apreciador de “entradas” e aperitivos antes do jantar. Em vez de pão com queijo, era mais queijo com pão, ou manteiga… a seguir e sempre, a sopa, depois o prato e a sobremesa. Tinha a particularidade de dobrar o ovo estrelado em quatro e comê-lo de uma só vez! Terminava religiosamente a refeição com um conhaque em balão aquecido.

Durante os anos em que foi director do Avenida Palace, tomava invariavelmente o pequeno- -almoço na sala de jantar, de pé, já vestido e pronto a sair — café com leite e pão com manteiga. De 1940 a 1960, foram muitos pequenos-almoços de pé!

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Outro hábito que o meu avô tinha antes de sair de casa, era ver-se no grande espelho do guarda-fatos, de frente, de lado e de costas, para se certificar de que tudo estava bem… A minha avó, diligentemente, escovava-lhe o chapéu “bogartiano”, um beijo e até logo! Mas, antes disso, demorava sempre meia-hora na casa de banho, sendo que os filhos tinham de ir primeiro ou então de esperar que ele saísse, o que significava chegarem atrasados à escola — o que por vezes acontecia —, porque, normalmente, era o meu avô que os levava antes de ir trabalhar. A minha mãe lembra-se de caminharem pela rua e quando tinham de atravessar a estrada, paravam todos ao seu lado e só o faziam à sua ordem de “Atravessar!” Quando vinha um carro, dizia “Ops!” Ao chegar a casa, todos o esperavam à porta para lhe darem um beijo! Outros tempos… Chegava para jantar, no autocarro que parava às 21.03 na paragem da Praça de Londres.

O meu avô nunca quis conduzir nem ter carro. Preferia andar a pé, de autocarro ou de táxi. Raramente saíam de casa depois do jantar, excepção feita aos domingos, em que iam sempre ao cinema, umas vezes os dois, outras com os filhos.

Enquanto viveram na Rua do Zaire, o Sr. Carlos Machado, que era o barbeiro do meu avô, ia todos os domingos lá a casa para lhe cortar o cabelo e fazer a barba.

O Sr. Carlos tinha mulher e três filhas de quem os meus avós gostavam muito e ajudavam ainda mais. Como prova da sua gratidão, a família Machado fez-se fotografar em formato de postal e ofereceram, com grande emoção, a fotografia aos meus avós. No verso escreveram: “Aos nossos queridos protectores, como prova de eterno reconhecimento”. Escreveram os seus nomes e, por baixo, a data: Lisboa, 16 de Maio de 1944.