AVENTURAS NA SELVA – 2 (AUGUSTO TRIGO)

Mais duas páginas da história Kumalo – A Vingança do Elefante, publicadas no nº 6 da revista O Mosquito (5ª série), da Editorial Futura (Março de 1985), com ilustrações de Augusto Trigo e argumento de Jorge Magalhães.

Dois caçadores, um ranger (guarda florestal) e o seu guia negro, perseguem Kumalo, o elefante louco, ferido por um caçador furtivo, para o impedir de causar mais danos aos indígenas da região. Mas, durante o percurso, são assombrados por estranhas visões e por fantásticos pesadelos, como se os deuses da selva — em que Ilanga, o guia, supersticiosamente acredita — quisessem proteger Kumalo, que para os negros é a reincarnação de um grande induna (régulo) dos Matabeles.

Num desses pesadelos, Ilanga fica cativo e à mercê das selvagens amazonas de Nabunimbwa, uma cidadela antiquíssima, meio em ruínas, habitada só por mulheres. Onde acaba o sonho e começa a realidade?

Prescindindo quase do texto, estas duas magníficas páginas demonstram cabalmente a força expressiva dos desenhos de Augusto Trigo, através de uma paginação dinâmica e de uma refinada técnica do preto-e-branco — matriz em que a sua obra atinge, por vezes, o máximo da pujança e do esplendor.

Esta história foi publicada também a cores num álbum editado pela Meribérica, em 1988, de onde extraímos as mesmas páginas, para que os nossos leitores possam fazer a comparação entre a estética do preto-e-branco (com o cariz dramático, quase opressivo, que confere às imagens) e a paleta cromática do álbum.

Noutra altura, voltaremos ainda a Kumalo – A Vingança do Elefante, uma das maiores criações de Augusto Trigo, no começo da sua carreira como autor de BD.

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AVENTURAS NA SELVA – 1 (AUGUSTO TRIGO)

A carga brutal de Kumalo, o elefante louco — que os indígenas do povo Matabele crêem ser a reencarnação de um induna, um grande chefe chamado Milikatzé —, numa das cenas finais de “Kumalo – A Vingança do Elefante”, história originalmente publicada na revista O Mosquito (5ª série), em 1984/85, com a arte magistral de Augusto Trigo e argumento de Jorge Magalhães.

Mais tarde, foi reeditada em álbum pela Meribérica, numa versão colorida mas amputada de algumas páginas. Esta prancha esteve exposta, em 2016, na Bedeteca da Amadora, durante uma mostra consagrada aos trabalhos de Augusto Trigo e do seu principal argumentista. Aqui ficam as duas versões, a preto e branco e a cores.

QUATRO HOMENAGENS A RAUL CORREIA – 1

Quando fui coordenador da 2ª série do Mundo de Aventuras, entre 1974 e 1987 (do nº 33 até ao nº 589 e último), consegui realizar alguns sonhos de juventude, entre eles o de travar conhecimento e amizade com muitos dos autores da BD portuguesa que mais admirava — como Vítor Péon, Orlando Marques, Roussado Pinto, José Garcês, Artur Correia, Artur Varatojo, António Barata, Fernando Bento, Adolfo Simões Müller —, cujas histórias, em prosa e em desenhos, tinha lido com entusiasmo nas páginas das minhas revistas preferidas: O Mosquito, Diabrete, Mundo de Aventuras, Cavaleiro Andante, Titã, Jornal do Cuto e outras.

O único que conheci nos meus tempos de juventude — além de Baptista Mendes, meu colega de turma no Liceu Gil Vicente, e de Carlos Roque, meu vizinho de bairro — foi José Ruy, que aceitou publicar na sua edição d’O Mosquito (2ª série) um conto de aventuras onde “luziam” as minhas modestas primícias literárias. E não só o publicou como o ilustrou…. em conjunto com outro desenhador que eu também muito apreciava, mas que só vim a conhecer mais de uma década depois: José Garcês.

Todos estes talentosos e ilustres autores me deram a honra de colaborar na 2ª série do Mundo de Aventuras, alguns com trabalhos inéditos, desde capas, contos, artigos e ilustrações até histórias aos quadradinhos.

Entre os homens de letras, cuja colaboração nessa série foi também das mais valiosas — a começar por Roussado Pinto, na altura ainda em plenas funções como director do Jornal do Cuto e de outras revistas da sua editora Portugal Press —, é forçoso destacar o nome e os méritos de Raul Correia, um dos carismáticos fundadores e directores d’O Mosquito, que ficou conhecido, para a posteridade, como o “Avozinho” de saudosa memória que escrevia líricos poemas lidos fervorosamente pela juventude — e mais tarde colaborador também do Jornal do Cuto.

Depois de Orlando Marques e Lúcio Cardador, foi ele o terceiro novelista d’O Mosquito a aparecer nas páginas do Mundo de Aventuras, onde decidi fazer-lhe uma pequena homenagem, com a colaboração de dois dos seus maiores admiradores (e ex-discípulos), Roussado Pinto e Orlando Marques, e também de dois distintos articulistas que, tal como eu, acalentavam ainda no espírito a inefável emoção com que tinham lido, noutros tempos, os seus contos, poemas e novelas de aventuras.

Aproveitando a reedição de alguns desses contos no Mundo de Aventuras, com magníficas ilustrações de Augusto Trigo, pedi aos meus quatro colaboradores — Roussado Pinto, Orlando Marques, A. J. Ferreira e A. Dias de Deus — que expressassem o seu parecer crítico sobre as obras e o estilo literário de Raul Correia, cuja fundamental importância como director literário e editor d’O Mosquito era por todos unanimemente reconhecida.

Resgatado das páginas do Mundo de Aventuras nº 429 (31/12/1981), eis o primeiro desses artigos, pela pena de Roussado Pinto, bem como um conto policial de Raul Correia, “Jim Daddy”, publicado no mesmo número (e já apresentado nesta rubrica, mas na sua versão original, com ilustrações de Vítor Péon).

Escuso de realçar, à distância de 36 anos, o valor histórico que ainda hoje possui esse depoimento de Roussado Pinto, em que transparece emotivamente uma análise mais sentimental do que crítica, ditada pela amizade e admiração sem limites que nutria por Raul Correia, desde o tempo em que o conhecera na redacção d’O Mosquito — onde também trabalhou, durante alguns meses, depois da sua efémera experiência como editor d’O Pluto.

PRIMEIRA EXPOSIÇÃO DO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA NA BEDETECA DA AMADORA

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Em Outubro de 1982, terminava a revista Tintin portuguesa, que desde 1968 marcou gerações de leitores. No momento em que a banda desenhada em Portugal fez a transição dos jornais e revistas para os álbuns, destacaram-se as obras da autoria de Augusto Trigo e Jorge Magalhães [cujo imaginário foi acalentado, na infância, pelas histórias d’O Mosquito].

“A Moura Cassima”, terceiro título da colecção Lendas de Portugal em Banda Desenhada, foi o primeiro álbum distinguido na Amadora com o prémio para o melhor álbum português de banda desenhada, em 1992. Dez anos antes, o Clube Português de Banda Desenhada distinguia os dois autores com o Troféu O Mosquito, reconhecendo Jorge Magalhães como Melhor Argumentista do Ano de 1981 e Augusto Trigo como Revelação do Ano de 1981.

35 anos depois desse 1981 que revelava Trigo, num ano em que Magalhães completa 40 anos de actividade como argumentista, justifica-se uma exposição da histórica dupla, na cidade que ainda distinguiria os dois autores com o mais prestigiado prémio da BD portuguesa, o Troféu Honra (Jorge Magalhães em 1999, e Augusto Trigo em 2000).

A exposição, presente na Bedeteca da Amadora a partir de 23 de Junho, parte dos muitos originais que Augusto Trigo doou ao Município da Amadora e que estão no edifício da Biblioteca Municipal, onde funciona a Bedeteca.

Para além da apreciação da notável técnica individual que distingue cada um dos dois autores, a mostra permitirá abordar a temática do trabalho em colaboração entre argumentista e desenhador, e observar a forma de abordagem a diferentes géneros que se afirmaram na banda desenhada.

Trata-se da primeira colaboração do Clube Português de Banda Desenhada com a Bedeteca da Amadora, permitindo ao município associar-se à celebração do 40.º aniversário do Clube, e permitindo ao Clube concretizar uma apresentação com outras possibilidades ao nível do requinte de forma, susceptíveis até de atrair a malta jovem, como diria o Machado-Dias.

Sobretudo, permite-se à banda desenhada portuguesa reconhecer e homenagear o trabalho em colaboração de dois autores fundamentais na sua história recente.

CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA

Os principais álbuns de Trigo & Magalhães:

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Excalibur, a Espada Mágica
– O Anel Mágico (Meribérica)
Lendas de Portugal em Banda Desenhada
– A Lenda do rei Rodrigo / A Moura Encantada (Asa)
– A Lenda de Gaia / A Dama Pé-de-Cabra (Asa)
– A Moura Cassima (Asa)
Luz do Oriente (Futura)
Ranger
– A Vingança do Elefante (Meribérica)
Wakantanka
– O Bisonte Negro (Edinter)
– O Povo Serpente (Meribérica)

RAUL CORREIA: A importância de um estilo – 1

O autor “bicéfalo” que escrevia “O Mosquito”

Raul Correia (1094-1985)Com uma prosa inimitável, duma sonoridade quase cristalina, aliada a uma fluência de água corrente e a uma singeleza sem artifícios, capaz de fazer inveja a muitos escritores de maior nomeada, Raul Correia — fundador e director dO Mosquito, juntamente com António Cardoso Lopes (Tiotónio) — escreveu novelas de todos os géneros, com destaque para as de temática policial, em que criou diversos detectives de primeiro plano (James Donald, Rudy Carter, Ronald Campbell e outros), embora as suas preferências se inclinassem para as aventuras de ambiente histórico, como demonstrou mais tarde, ao tornar-se argumentista, fazendo dupla com o grande ilustrador Eduardo Teixeira Coelho.

Rudy CarterSão poucos os dados biográficos sobre aquele que ficou também conhecido pelo heterónimo de Avozinho — autor de poemas (em prosa e em verso) de lírica sensibilidade, que encantavam e educavam moral- mente a miudagem, a qual (salvo raras excepções) nunca soube o seu verdadeiro nome —, mas o que me interessa sobretudo analisar é o seu estilo novelístico, à luz da minha própria experiência como leitor, desde tenra idade, dO Mosquito.

Deixo para Alexandre Correia, neto do grande novelista e que herdou também a sua veia literária, a grata tarefa de escrever um texto biográfico sobre o avô, cuja companhia partilhou intimamente durante muitos anos. Texto esse que em breve aparecerá, com o devido destaque, n’O Voo d’O Mosquito, recheado de factos curiosos que darão a conhecer algumas facetas mais pessoais daquele que muitos recordam apenas pelo nome de Avozinho.

Mosquito 28 - 1 e 2

mosquito-379-Se a influência do Avozinho foi enorme, embora restringida por longos períodos de ausência, a do escritor Raul Correia, sempre presente em todas as fases dO Mosquito, do primeiro ao último número, mesmo quando não assinava a sua cola- boração, essa foi ainda mais importante. O título que dei a este primeiro artigo (de uma série de onze) reflecte assim, creio que simbolicamente, esse binómio que todos os leitores d’O Mosquito festejavam, sem conhecer a sua raiz comum.

Raul Correia parecia cultivar a famosa máxima de Hemingway: “Uma risca a menos não altera a pele do tigre, mas uma palavra a mais mata qualquer história”. Algumas das principais características do seu estilo, a fluência narrativa, o poder descritivo e a icástica simplicidade do verbo, livre de quaisquer redundâncias estéticas (como hoje parece estar na moda), resultam, além disso, da síntese homogénea entre a forma literária e uma linguagem cinética.

Amanaque o mosquito e a formiga   191Em tudo o que escreveu — mas particularmente nos seus contos e novelas — o ritmo flui dinâmica e harmoniosamente e a acção progride numa sincro- nia absoluta de planos, como os destinatários da sua prosa, ou seja, o público infanto-juvenil, estavam habituados a ver no cinema. Foi esse ritmo cinematográfico que Raul Correia transpôs para o seu estilo novelístico, aliando como poucos a sobriedade da forma à intensidade da emoção.

Um bom exemplo do apurado domínio dessa técnica narrativa — que utilizava também, com outros fins, nos poemas em prosa do Avozinho — é o conto Jim Daddy (Jim Papá, numa tradução à letra), publicado pela 1ª vez no Almanaque O Mosquito e A Formiga, em finais de 1944, quando O Mosquito já ia no seu 8º ano de publicação — e Raul Correia no 10º ano da sua carreira de novelista —, e reeditado, quase quatro décadas mais tarde, no Mundo de Aventuras nº 429 (2ª série), de 31 de Dezembro de 1981, com ilustrações de Augusto Trigo.

Jim Daddy - cabeçalho trigo188

Refira-se, a propósito, que a primeira versão desse conto foi ilustrada por um dos mais talentosos colaboradores artísticos d’O Mosquito, Vítor Péon, que entrou ao serviço do popular bissemanário em Abril de 1943, pouco tempo depois de E.T. Coelho — a quem coube a tarefa de ilustrar, substituindo com as suas pujantes imagens as de anónimos desenhadores ingleses, alguns dos melhores originais de Raul Correia, com destaque para a longa novela “Aventuras de Jim West”, recebida pelos leitores com grande entusiasmo.

Quanto a Jim Daddy é talvez o conto de acção em que, de forma mais emotiva, perpassa a “sombra” do Avozinho — numa dualidade que, às vezes, transparece, como por acaso, noutras obras de Raul Correia.

Aqui têm, pois, uma pequena “jóia” do conto policial, como exemplo dessa transfusão de estilos, que aos leitores mais argutos d’O Mosquito deu certamente razões para pensarem na verdadeira identidade do Avozinho.

Jim Daddy - 1 & 2

“O MOSQUITO” RESSUSCITADO… PELA 4ª VEZ (1)

Mosquito Futura - nº 1   727

Mosquito Futura - Postal d'AnúncioHá três décadas, em Abril de 1984 — ano que os leitores do célebre romance futurista de George Orwell guardarão sempre na memória —, saiu o primeiro número de uma nova série d’O Mosquito, a mítica revista nascida em 14 de Janeiro de 1936 por obra de dois amigos com jeito para desenhar e escrever e já com larga experiência, sobretudo o primeiro, no campo do jornalismo infanto-juvenil: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) e Raul Correia.

Ostentando um cabeçalho com a imagem simbólica de um “mosquito ardina”, criada em 1943 por E. T. Coelho, o mais notável colaborador do seu primeiro ciclo vital, esta nova série d’O Mosquito, a quinta por ordem cronológica — que até teve direito a uma campanha publicitária, em vésperas do seu lançamento —, foi o corolário dos álbuns publicados pela Editorial Futura, com recuperação de histórias Mosquito Futura - almanaque 1984    726que se tornaram grandes clássicos, como “O Caminho do Oriente” (a obra-prima de E. T. Coelho), e de um Almanaque O Mosquito, editado em finais de 1983, numa tentativa nostálgica de reviver um título cheio de nobres tradições e o respectivo Almanaque O Mosquito e a Formiga, cujo único número saiu no Natal de 1944.

A penúltima “ressurreição” d’O Mosquito tinha ocorrido quase dez anos antes, mas foi de todas a mais efémera, pois saldou-se também por um número isolado — hoje uma raridade que não vale um preço alto no mercado, já que nada de importante acrescentou ao prestigioso historial do seu “irmão” mais velho, ao contrário da 2ª série, editada, em 1960/61, por José Ruy e Ezequiel Carradinha, num esforço entusiástico (sobretudo do primeiro) que se traduziu pela publicação de 30 fascículos semanais. Neles foram reeditadas algumas séries clássicas d’O Mosquito e revividas célebres personagens como o Capitão Meia-Noite e Rudy Carter, a par de outro material inédito.

A 3ª série, publicada também em 1961, sob a égide de António Costa Ramos, teve apenas quatro números, num formato idêntico à anterior e com um sumário ainda mais nostálgico, que abrangia séries cómicas e grandes êxitos do passado, como O Gavião dos Mares, O Voo da Águia e Pelo Mundo Fora. Mas os leitores dos anos 60 já estavam noutra “onda”!…
Mosquito Nº13 - 2ª serie & nº 3 3ª serie

A aventura d’O Mosquito, da Editorial Futura — de início com periodicidade bimestral, depois mensal —, não foi além de 12 números, mas tanto bastou para marcar a diferença em relação às outras revistas de BD que apareciam nas bancas, Mosquito Futura - nº 1 Sumário739nomeadamente as duas mais antigas: O Falcão, do Grupo de Publicações Periódicas, e o Mundo de Aventuras, da Agência Portuguesa de Revistas (APR), que, apesar de ainda terem um público fiel, já se aproximavam também, a passos largos, do seu fim.

Tive o raro privilégio de coordenar simultaneamente, durante cerca de 22 meses, O Mosquito da 5ª série e o Mundo de Aventuras, que já contava a bonita idade de 35 anos. Essa acumulação de funções paralelas em revistas quase concorrentes, não me acarretou quaisquer problemas porque os meus vínculos com a APR já eram, então, de natureza precária, pois tinha passado voluntariamente ao regime de colaborador em part-time. Apesar disso, ainda me aguentei no Mundo de Aventuras até ao seu “estertor” final, que coincidiu com a queda, não menos dolorosa e lenta, da APR, a maior empresa do seu ramo até à década de 80.

N’O Mosquito da Futura tentei, com o precioso e incondicional apoio do seu director, o malogrado Dr. Chaves Ferreira, fundir a tradição clássica com uma linha mais modernista, o que nos permitiu apresentar obras de autores contemporâneos, sobretudo europeus e sul-americanos, que ainda hoje são grandes figuras do mundo da BD.

Mosquito Futura - nº 1 Desafio 1e 2

Logo no primeiro número (com histórias curtas ou com séries), foi a vez de Eduardo Teixeira Coelho (O Desafio), António Hernandez Palácios (Manos Kelly), Juan Jimenez (Ás de Espadas), Júlio Ribera (Nunca Estamos Contentes), Esteban Maroto (Zodíaco) — e seguidamente de Jordi Bernet, Moebius, Mandrafina, Solano Lopez, Milo Manara, Guido Buzzelli, Jesús Blasco, Hugo Pratt, Paul Gillon, Yves Chaland, Richard Corben e outros.

Alguns destes nomes, como Moebius, Chaland e Mandrafina, foram mesmo estreias absolutas no panorama da BD portuguesa dessa época.

Mosquito Futura - nº 1 Zodiaco 1 e 2Mosquito Futura - nº 1nunca estamos contentes 1  e 2

Procurámos também que a revista incluísse colaboração de desenhadores nacionais, de preferência com histórias inéditas, apesar disso acrescentar mais despesas ao seu oneroso orçamento, visto que o material estrangeiro nos ficava geralmente mais barato. Encargos a ter em conta, pois a revista fora planeada, de início, com 60 páginas, oito das quais a cores, além das capas, seguindo o modelo das suas congéneres espanholas Blue Jeans, Comix, Cimoc e Totem (estas ainda mais volumosas).

Nesse caderno central a cores teve honras de estreia a magnífica série Manos Kelly, com a deslumbrante paleta de um mago da BD espanhola: António Hernandez Palácios.

Mosquito Futura - nº 1 Manos Kelly 1 e 2

Ao nosso convite responderam, de imediato, Estrompa e Augusto Trigo, autores de características muito diferentes, mas já de mérito consagrado — o primeiro com a rubrica satírica Clássicos e Desintegrados, sucessão de hilariantes pastiches de personagens célebres da BD, e o segundo (a quem se deve a capa do número inaugural) com a sua esplendorosa série de temática africana Kumalo, um dos muitos trabalhos em que colaborei com ele, como autor do argumento, e que ainda hoje é um dos nossos preferidos.

Sobre o mesmo tema, escrevi também, para esse primeiro número, um artigo de divulgação intitulado “A África Negra na BD Portuguesa”, em que passei em revista outras obras de conhecidos autores nacionais desenroladas em paragens africanas.

Mosquito Futura - nº 1 Kumalo 1 e 2Mosquito FUTURA - nº 1 Kumalo 3 e África Negra na BD

IMAGENS DO PASSADO: CAPITÃO BLASCO

ENCONTRO COM JESÚS BLASCO  (Barcelona – 1985)

Cartaz Salón del Comic 2015 - 1

Cartaz do Salón del Comic 2015 - 2Está a decorrer, durante este fim-de-semana, o 33º Saló del Còmic de Barcelona, um dos eventos de maior nomeada no panorama bedéfilo espanhol e inter- nacional, cuja perfeita organização atrai sempre milhares de visitantes, tornando ainda mais concorrida e festiva a populosa capital da Catalunha, onde além do Salón del Comic não faltam, nesta quadra primaveril, outros motivos de interesse para ver e admirar, mormente as suas célebres belezas naturais e urbanísticas, banhadas pelo idílico sol do Mediterrâneo.

Nos anos 80, há mais de três décadas, muitas foram as comitivas de autores, editores, jornalistas e bedéfilos portugueses que rumaram a Barcelona, para visitar o Salón del Comic e confraternizar com os seus amigos e colegas espanhóis, retribuindo visitas como a de Jesús Blasco, o famoso autor de Cuto e Anita Diminuta, que teve lugar em 1983, durante o certame organizado pelo Clube Português de Banda Desenhada nos antigos pavilhões da FIL (Feira Internacional de Lisboa).

1º e 3º Salón del Comic

Almanaque O Mosquito 1984Desse caloroso e animado convívio entre o grande mestre espanhol — que o revivalismo fomentado pelo Jornal do Cuto tornara conhecido das novas gerações — e os seus inúmeros admiradores portugueses, nasceu uma fraterna e duradoura amizade, consubstanciada desde logo num ambicioso projecto que arrancaria poucos meses depois: o lançamento de um almanaque e da 5ª série d’O Mosquito, planeada e posta em prática por uma equipa de que fiz parte, com a Catherine Labey, o saudoso editor da Futura, dr. Chaves Ferreira, e outros valiosos colaboradores nacionais e estrangeiros.

O êxito desse projecto não pode medir-se apenas em termos quantitativos — doze números e quatro almanaques publicados entre Novembro de 1983 e Novembro de 1986 —, 2014-10-23 22.09.24porque este saldo é pouco significativo, mas pela repercussão que alcançou no meio bedéfilo nacional e até em Espanha, onde o 1º número do novel O Mosquito nos serviu de cartão de visita quando demandámos o Salón del Comic de Barcelona, em meados de Maio de 1984. A recepção que nos foi feita por Jesús Blasco (e seus irmãos) e por outros autores presentes no Festival — como Jordi Bernet, Puigmiquel, Manfred Sommer, Luis Bermejo e Juan Gimenez — não podia ter sido mais efusiva e gravou-se indelevelmente na nossa memória. Alguns deles já eram colaboradores dessa nova série d’O Mosquito, com criações como Torpedo, de Jordi Bernet e Sánchez Abuli, e Ás de Espadas, de Juan Gimenez e Ricardo Barreiro.

4º e 5º Salón del Comic

2014-10-23 22.04.12No ano seguinte, a expedição a Barcelona e ao Saló del Còmic repetiu-se, na companhia de outros membros da nossa afanosa equipa e de mais amigos. Foi nessa ocasião que António José (Tozé) Simões, um dos mais jovens e talentosos colaboradores do ressus- citado O Mosquito, criador com Luís Louro de uma série que se tornaria a mais emblemática da BD portuguesa dessa época (estamos a falar, claro, de Jim del Monaco), entrevistou Jesús Blasco, durante um encontro no recinto do Salón, sempre a abarrotar de público, num ambiente que tornava a atmosfera daquele quente dia de Junho ainda mais abafada.

Almanaque Mosquito 1987Tal como o insólito calor primaveril de Barcelona, a loquacidade (proverbial) de Jesús Blasco não deu tréguas ao entrevistador, mas Tozé Simões saiu-se airosamente da tarefa, como os nossos leitores poderão constatar nas páginas que a seguir reproduzimos com essa entrevista, publicada no Almanaque O Mosquito de 1987 (cuja capa, ilustrada por Augusto Trigo, também aqui revive).

Memórias de outro tempo, de alguns velhos amigos, de uma hospitaleira cidade e de um ícone da BD mundial que Tozé Simões apelidou, com humor, de Capitão Blasco, um nome carismático que soa a Aventura…

Capitão Blasco 1 e 2Capitão Blasco 3